por Israel Kirzner

[ Chapter 10: Knowledge problems and their solutions: some relevant distinctions do livro The Meaning of Market Process – Tradução de Giácomo de Pellegrini ]

Capítulo 10: Problemas do conhecimento e suas soluções: algumas distinções relevantes

INTRODUÇÃO

Um papel central no pensamento de Hayek foi desempenhado por suas ideias sobre os problemas colocados pelo fenômeno do conhecimento disperso. Essas ideias surgiram como resultado da participação de Hayek no debate entreguerras sobre a possibilidade de cálculo econômico socialista e foram cristalizadas em seu artigo clássico de 1945, “O uso do conhecimento na sociedade” (1949b). Embora essas ideias tenham nascido originalmente da economia de Hayek, nas últimas três décadas elas nutriram profundas contribuições para outros ramos da filosofia social que passaram a dominar o trabalho recente de Hayek.

A passagem clássica de 1945, na qual Hayek articulou definitivamente seu insight econômico original, é a seguinte:

O caráter peculiar do problema de uma ordem econômica racional é determinado […] pelo fato de que o conhecimento das circunstâncias das quais devemos fazer uso nunca existe de forma concentrada ou integrada, mas apenas como fragmentos dispersos de conhecimento incompleto e frequentemente contraditório que todos os indivíduos separados possuem. O problema econômico da sociedade, portanto, não é apenas um problema de como alocar recursos “dados” – se “dado” é entendido como dado a uma única mente que deliberadamente resolve o problema estabelecido por esses “dados”. É um problema de como garantir o melhor uso dos recursos conhecidos por qualquer membro da sociedade, para fins cuja importância relativa apenas esses indivíduos conhecem. Ou, resumindo, trata-se de um problema de utilização do conhecimento que não é dado a ninguém em sua totalidade. (Hayek 1949b: 77–8)

Cerca de trinta anos depois, ao apresentar seus três volumes de Law, Legislation and Liberty, Hayek reconheceu o papel seminal desempenhado por essas ideias em suas discussões mais gerais dos anos posteriores.

A percepção do significado de nossa ignorância institucional na esfera econômica […] foi de fato o ponto de partida para as ideias que em Law, Legislation and Liberty são sistematicamente aplicadas a um campo muito mais amplo. (Hayek 1973: 13)[1]

De fato, já em 1960, em The Constitution of Liberty, Hayek estava aplicando suas ideias econômicas de 1945 em um campo muito mais amplo. Hayek ressalta que “a soma do conhecimento de todos os indivíduos não existe em parte alguma como um todo integrado. O grande problema é como todos nós podemos lucrar com esse conhecimento, que só existe disperso como crenças separadas, parciais e às vezes conflitantes de todos os homens.” Ele passa imediatamente a observar: “Em outras palavras, é em grande parte porque a civilização nos permite constantemente lucrar com o conhecimento que individualmente não possuímos e porque o uso de cada conhecimento particular de cada indivíduo pode servir para ajudar outros desconhecidos a alcançar seus objetivos, que os homens como membros da sociedade civilizada podem perseguir seus fins individuais com muito mais êxito do que se estivessem sozinhos” Isso tudo leva Hayek a se referir à “identificação do crescimento da civilização com o crescimento do conhecimento” (1960: 25), apontando que, quanto mais civilizados nos tornamos, mais relativamente ignorantes devem ser os indivíduos sobre os fatos dos quais depende o trabalho de sua civilização. A própria divisão do conhecimento aumenta a necessária ignorância do indivíduo da maior parte de seu conhecimento” (p. 26). Nossa discussão neste capítulo explora o significado do problema do conhecimento disperso, sondando a legitimidade da extensão de Hayek de sua visão original e estritamente econômica para aplicar à civilização em geral e a suas várias instituições em particular.

A EXTENSÃO DO PROBLEMA DO CONHECIMENTO DE HAYEK

Em seu trabalho recente, Hayek de fato se concentrou na importância do “problema do conhecimento” (como seguiremos Lavoie (1985b: cap. 3), como chamaremos agora), estendendo-se muito além da capacidade dos processos de mercado de coordenar expectativas mútuas que os participantes do mercado mantêm em relação um ao outro. Hayek enfatizou a importância do problema do conhecimento para a evolução das normas e instituições culturais. Hayek argumenta que as intrincadas redes de expectativas mutuamente sustentáveis ​​necessárias para o surgimento de nossas instituições sociais mais valiosas nunca poderiam ter sido deliberadamente simuladas por qualquer organização centralizada. Hayek sustenta que o que alimentou o surgimento espontâneo de tais normas e instituições culturais benignas é a circunstância em que os processos sociais de coordenação espontânea puderam evoluir. É somente dessa maneira que um tecido social que consiste em inúmeras linhas de expectativas mútuas – um tecido cuja totalidade mostra uma complexidade que transcende a capacidade de qualquer mente única poder vir a ser o tecido.

Agora, é sem dúvida incorreto e injusto atribuir a Hayek a afirmação categórica de que quaisquer instituições que evoluam espontaneamente têm maior probabilidade de serem socialmente benignas do que qualquer instituição deliberadamente construída. No entanto, vários escritores notaram seu desconforto ao sentir quão próximo Hayek às vezes parece estar dessa opinião. Embora Hayek ressalte que “evitou cuidadosamente dizer que a evolução é idêntica ao progresso”, ele deixa claro que “foi a evolução de uma tradição que tornou possível a civilização” e afirma categoricamente “que a evolução espontânea é necessária, se não uma condição suficiente do progresso” (Hayek 1979: 168). Buchanan, em particular, colocou o dedo no tema que se tornou cada vez mais importante nos escritos recentes de Hayek:

Esse tema envolve a extensão do princípio da ordem espontânea, em suas implicações normativas, ao surgimento da própria estrutura institucional. […] Não há espaço para o economista político, ou para qualquer pessoa que procure reformar estruturas sociais para mudar leis e regras, com o objetivo de garantir maior eficiência em geral. Qualquer tentativa de projetar, construir e mudar instituições deve, dentro desse cenário lógico estritamente interpretado, introduzir ineficiência. Quaisquer interferências “construtivamente racionais” nos processos “naturais” da história devem, portanto, ser cuidadosamente evitadas. A mensagem parece clara: relaxe antes da lenta limpeza da história. (Buchanan 1986: 75–6)[2]

Buchanan luta para exonerar Hayek da acusação de realmente apoiar toda a posição extrema descrita no parágrafo anterior e resolver aparentes contradições entre as declarações anti-construtivistas mais consistentes de Hayek e suas próprias tentativas (como sua proposta para a desestatização da moeda, e suas propostas para a reconstrução constitucional política) na reforma institucional.[3]

No entanto, a forte impressão que se obtém de Hayek é que ele tem profunda fé na possibilidade, em geral, de evolução institucional benigna.

No presente capítulo, juntarei-me aos críticos de Hayek ao questionar o paralelismo afirmado (entre as realizações dos mercados livres em um determinado cenário institucional e a evolução espontânea das próprias instituições) que formou a base do trabalho de Hayek nas últimas décadas. Vou prosseguir dissecando cuidadosamente o problema original do conhecimento hayekiano em dois problemas componentes distintos, os quais têm suas contrapartes no contexto do surgimento de normas e instituições sociais. Tornará-se então aparente que apenas um desses dois problemas componentes permite solução, no contexto do desenvolvimento institucional, de maneira paralela àquela em que seu problema de contrapartida é resolvido nos mercados. O componente remanescente do problema do conhecimento acaba não sendo solucionável pelo processo espontâneo pelo qual o problema de contrapartida nos mercados é resolvido. O propósito de nossa crítica, deve-se enfatizar, não é tanto desafiar as analogias que Hayek faz entre o mercado e a sociedade, mas explorar algumas sutilezas no problema de conhecimento que Hayek nos ensinou a apreciar. O fato de Hayek nem sempre parecer sensível a essas sutilezas torna essa tarefa, é claro, apenas ainda mais importante.

O PROBLEMA DO CONHECIMENTO NO CONTEXTO DE MERCADO

Considere um mercado de uma única mercadoria em equilíbrio competitivo. Um preço de equilíbrio do mercado prevalece. Nenhum participante do mercado precisa saber mais do que o preço de mercado para poder executar seus planos sem decepção ou arrependimento. Cada vendedor se vê capaz de vender o que deseja vender pelo preço de mercado. Cada comprador se vê capaz de comprar o que deseja comprar pelo preço de mercado. A quantidade de conhecimento de cada participante do mercado não precisa ser mais que minúscula. Ninguém precisa conhecer a forma ou a posição da curva de demanda ou de oferta. No entanto, o preço de mercado estimula uma série de decisões independentes que permitem a realização de todos os negócios mutuamente lucrativos possíveis entre qualquer par de participantes do mercado. Suponha agora que alguma catástrofe atinja a indústria que produz nossa mercadoria, deslocando drasticamente sua curva de oferta para a esquerda. O preço de mercado aumentará e os compradores da mercadoria se sentirão constrangidos a economizar mais do que anteriormente no uso deste produto – e serão guiados pelo preço mais alto do mercado para isso, sem nunca aprender sobre a catástrofe, sabendo apenas que no mercado agora o preço está mais alto do que antes. Muitas apresentações em livros didáticos da visão de Hayek de como os mercados resolvem o problema do conhecimento veem essa conquista do mercado em equilíbrio como uma ilustração paradigmática do problema do conhecimento e de sua solução de mercado.

O que a solução do mercado alcançou, mostram essas exposições, é que o mercado é capaz de mobilizar conhecimento disperso como se todas as informações estivessem concentradas em uma única mente. Embora o conhecimento seja de fato disperso, tornando inconcebível que tudo esteja disponível para uma única mente, o mercado produz espontaneamente e com sucesso um resultado social que explora todos os conhecimentos relevantes.

Uma consideração cuidadosa dessa conquista do mercado em equilíbrio revela, desejamos destacar, duas realizações bastante diferentes. Argumentamos que cada uma dessas conquistas corresponde a um componente distinto do problema do conhecimento de Hayek. Vamos ver como é isso.

O preço de equilíbrio do mercado pode prevalecer apenas porque nenhum participante do mercado faz qualquer oferta de compra ou venda que não seja aceita. Cada participante do mercado antecipa corretamente as respostas que os outros darão a qualquer oferta de compra e venda que ele propor. Nenhuma tentativa de decisão foi baseada em otimismo indevido; nenhuma tentativa de decisão ficou desapontada. É claro que podemos facilmente imaginar situações em que esse feliz estado de coisas não ocorre. Os participantes do mercado podem acreditar erroneamente que outros comprarão mesmo a preços muito altos ou que outros estarão preparados para vender mesmo a preços muito baixos. Esses erros super otimistas são muito naturais: eles surgem porque os participantes do mercado podem não saber o que os outros participantes sabem sobre si mesmos, a saber, que não estão preparados para comprar a preços altos (ou vender a preços baixos). Como resultado desse conhecimento disperso (pessoas que conhecem apenas suas próprias atitudes, e não as de outras pessoas), os mercados podem facilmente deixar de equilibrar (uma vez que os vendedores super otimistas podem ter resistido a preços muito altos etc.). Reconheceremos essa possível falha, devido ao excesso de otimismo (resultante da dispersão do conhecimento), como o primeiro dos dois problemas de conhecimento que desejamos identificar. Vamos nos referir a esse tipo como Problema do Conhecimento A.

Um pouco de reflexão nos convencerá, contudo, de que o Problema do Conhecimento A não é o único problema do conhecimento resolvido com sucesso no caso do preço de equilíbrio do mercado. O excesso de otimismo não é a única razão pela qual o preço de equilíbrio do mercado pode não ser alcançado em todo o mercado. Imagine uma situação – cujas condições estilizadas são postuladas apenas para ilustrar um ponto relevante para problemas muito mais realistas e típicos – em que um obstáculo ou um oceano separa metade do mercado do outro (mas essa separação não implica custos de transporte para a viagem de um setor de mercado para outro). Pode acontecer facilmente, em tal situação, que essa separação gere dois mercados separados, em cada um dos quais um preço de equilíbrio de mercado (diferente) prevaleça. Deve ficar claro que também aqui (como no caso do preço de equilíbrio do mercado único discutido anteriormente), que o Problema de Conhecimento A foi resolvido com sucesso. Nenhum participante do mercado (nos dois “mercados” separados) fez uma proposta de compra/venda, esperando que fosse totalmente aceita, o que acabou por ser rejeitada. Ninguém ficou otimista demais em relação às respostas de outras pessoas às ofertas disponibilizadas a eles.

Mas também deve ficar claro que, neste caso dos dois ‘mercados’, mesmo que em cada um deles o preço local equilibre o mercado, erros foram cometidos. A existência de dois preços separados (nesses dois mercados) para uma mercadoria idêntica indica que aqueles que pagam o preço mais alto erroneamente ignoraram a possibilidade de comprar mais barato no outro mercado; aqueles que vendiam pelo preço mais baixo ignoravam erroneamente a possibilidade de vender a um preço mais alto no outro mercado. Alguns participantes do mercado de preço alto se abstêm de comprar (por causa do alto preço) e permanecem sem a mercadoria, mesmo enquanto essa mercadoria esteja disponível no outro mercado. Isso é acompanhado pela circunstância de que alguns participantes do mercado de preços baixos se abstêm de vender (a preços baixos), enquanto compradores em potencial que desejam pagar preços mais altos poderiam ter sido encontrados no mercado de preços altos. Os participantes do mercado não conseguiram aproveitar as oportunidades que poderiam ter sido aproveitadas – caso tivessem um conhecimento mais preciso sobre o que os outros poderiam estar preparados a fazer. Claramente, esses erros (embora não constituam um problema idêntico ao Problema de Conhecimento A, que surgiu porque os participantes do mercado eram otimistas demais) constituem um problema do conhecimento: os participantes do mercado (excessivamente pessimistas) desconhecem o que os outros podem estar dispostos a pagar (ou disposto a vender por). Vamos chamar esse segundo problema, o problema do pessimismo indevido decorrente do conhecimento disperso, de Problema do Conhecimento B.

OS DOIS PROBLEMAS DO CONHECIMENTO

Um pouco de reflexão nos convencerá de que os problemas do conhecimento A e B são realmente problemas distintos.[4] Ambos surgem da circunstância de informação dispersa, mas consistem em tipos de erro diferentes. Minhas informações incompletas sobre o que os outros gostariam de fazer podem me levar a um otimismo excessivo na expectativa de vender a preços muito altos. Aqui, minhas informações incompletas me levaram a esperar comportamento de outras pessoas que de fato não ocorrerá. Os erros que constituem o Problema do Conhecimento A tendem a ser reveladores – uma vez que estimulam propostas que certamente serão decepcionadas. O problema do conhecimento A, no contexto do mercado, gera um processo de equilíbrio que parece quase inevitável. Como o próprio Hayek colocou, aparentemente ao se referir a esse tipo de processo de equilíbrio, o conhecimento relevante que um participante do mercado “deve possuir para que o equilíbrio prevaleça é o conhecimento que ele é obrigado a adquirir em vista da posição em que originalmente está, e os planos que ele então faz”.[5]

Minhas informações incompletas sobre o que os outros gostariam de fazer podem, por outro lado, indevidamente pessimista, levar-me a acreditar que é impossível vender a preços bastante baixos (pelos quais os outros realmente ficariam felizes em comprar), obrigando-me a desistir da ideia de vender completamente. Aqui, informações incompletas levaram os participantes do mercado (entre os quais existe a possibilidade de troca mutuamente lucrativa) a ignorar essa possibilidade, para seu infortúnio mútuo (mas nunca percebido). O Problema do Conhecimento B é aqui responsável pela falha em fazer uma mudança necessária para a otimização de Pareto. Esse Problema de Conhecimento B não resulta em planos desapontados; resulta na falha em obter ganhos potenciais (porque permanecem despercebidos). Como o infortúnio causado pelo Problema do Conhecimento B não foi percebido, não há (ao contrário do caso do Problema do Conhecimento A) nenhuma inevitabilidade de que o problema jamais será revelado e corrigido. O que os participantes do mercado deixam de saber um sobre o outro hoje, podem facilmente continuar deixando de saber amanhã.

Na busca de equilíbrio de mercado, é claro, ambos os problemas de conhecimento foram resolvidos (em relação ao mercado em consideração). Não é apenas o caso, da busca no equilíbrio de mercado, que cada tentativa de comprar ou vender é capaz de ser realizada com sucesso. Também é o caso de que nenhuma troca mutuamente lucrativa entre um potencial comprador e vendedor (ambos participantes deste mercado) deixa de ser consumada. Podemos entender facilmente como ocorreu, nesse equilíbrio, que ninguém foi levado de maneira otimista a pedir um preço muito alto (ou a oferecer um preço muito baixo). Entendemos que quaisquer erros super otimistas foram corrigidos: as decepções ensinaram os participantes do mercado a não esperar respostas irrealizáveis. Entendemos, isto é, como o Problema do Conhecimento A foi resolvido.

Mas não somos tão imediatamente capazes de entender como, na busca de equilíbrio do mercado, o Problema do Conhecimento B também passou a ser resolvido. Não é tão óbvio como as muitas possibilidades negligenciadas de comércio mutuamente lucrativo – possibilidades que, dado o conhecimento inicial disperso, dificilmente poderiam ter deixadas de ser negligenciadas – de alguma forma acabaram sendo reveladas. O que levou os participantes do mercado a saber (sobre as possíveis atitudes uns dos outros) o que não sabiam ontem?

Obviamente, a teoria econômica explica como o Problema do Conhecimento B passou a ser resolvido no equilíbrio do mercado. Acontece que essa solução é de fato bem diferente daquela que resolveu o Problema do Conhecimento A. Enquanto o Problema do Conhecimento A era auto-corrigível, o Problema do Conhecimento B criou um incentivo para sua solução, descoberto durante a atividade dos empreendedores alertas ao lucro. Onde o pessimismo indevido fazia com que possíveis movimentos ótimos de Pareto deixassem de ser realizados, foi assim criada a oportunidade para a possível captação de puro lucro empresarial. O potencial vendedor X, por ser pessimista e ignorante da disposição do potencial comprador Y de pagar até $10 por um item, não o ofereceu para venda, mesmo que ele próprio estivesse muito satisfeito em vendê-lo por apenas $3. Essa oportunidade negligenciada de um comércio mutuamente lucrativo entre X e Y constitui uma oportunidade convidativa para a conquista de puro lucro empresarial. Qualquer um, digamos o empresário Z, alerta para essa oportunidade, pode oferecer, sem nenhum recurso de capital, comprar de X a, digamos, um preço de $4 (para o qual X, de acordo com nossas suposições, tem o prazer de aceitar), pagando esse preço com a receita bruta disponível por sua oferta de vender a Y a um preço de $9 (que, novamente, em nossa suposição, Y aceitará com prazer). Onde quer que a ignorância mútua, devido ao conhecimento disperso, faça com que os movimentos indicados por Pareto não sejam satisfeitos, temos diante de nós uma situação que convida o empresário alerta a obter puro lucro.

A teoria econômica nos ensina que, dessa maneira, existe uma forte tendência de mercado para que todas as oportunidades de puro lucro sejam percebidas e aproveitadas. O Problema do Conhecimento B passa a ser resolvido através da descoberta empresarial de oportunidades até então negligenciadas.

Assim, nosso entendimento de que na busca de equilíbrio de mercado foram resolvidos os dois Problemas do Conhecimento – garantindo que erros mútuos excessivamente otimistas e indevidamente pessimistas (que podem surgir de informações dispersas) não sejam cometidos – repousa em dois processos distintos e completos de aprendizado de mercado. O processo pelo qual o Problema do Conhecimento A é resolvido é um processo que, sem depender do alerta empreendedor e motivado pelo lucro, surge de um aprendizado quase inevitável do irrealismo de expectativas excessivamente otimistas. O processo pelo qual o Problema do Conhecimento B é resolvido, é um processo que deve se basear inteiramente na descoberta, pelos empreendedores, de oportunidades disponíveis, das quais ninguém até então sabia.

OS DOIS PROBLEMAS DO CONHECIMENTO EM UM AMBIENTE MAIS AMPLO

Como Hayek enfatizou, o problema do conhecimento não é apenas um problema no contexto do mercado. É um problema crucialmente relevante para o surgimento de instituições sociais também. Instituições como a lei, a linguagem, o uso da moeda, o respeito à propriedade privada exigem uma concordância de conhecimentos e expectativas mútuos completamente análogos ao conhecimento mútuo necessário para o equilíbrio do mercado. O que queremos agora salientar é que o problema que o fenômeno do conhecimento disperso cria para o surgimento de instituições sociais benignas é constituído (exatamente como era o correspondente problema do conhecimento no contexto do mercado) de dois problemas distintos. Vamos considerar o uso na sociedade de uma unidade comum para a medida da distância. Obviamente, o uso comum de uma única escala de medida é um elemento importante nas relações sociais. Seria mais complicado e mais obstrutivo para o surgimento de dimensões padronizadas relevantes para inúmeras situações possíveis, se vários sistemas de medição diferentes fossem usados ​​na mesma sociedade. Para o surgimento de um sistema comum de medição, exigimos que os membros da sociedade esperem corretamente que outros estejam empregando esse sistema de medição. Um sistema que usa pés e polegadas pode prevalecer apenas quando e porque cada um espera corretamente que outros usem esse sistema. Mais precisamente, só pode prevalecer quando e porque cada um espera corretamente que os outros esperem que esse sistema seja universalmente usado. E assim por diante.

Claramente, essas expectativas que se sustentam mutuamente podem estar ausentes – resultando e expressando a ausência de um sistema comum de medição. O que Hayek enfatizou é que o surgimento espontâneo de tais instituições ocorreu ao longo da história. Os membros da sociedade aprenderam, sem direção central, a participar de sistemas sociais de linguagem, mensuração, troca monetária – todos os quais exigindo padrões de expectativas mutuamente sustentáveis. Como Hayek nos ensinou, grande parte de nossa civilização consiste em sistemas espontaneamente desenvolvidos de antecipações que se reforçam mutuamente.

O que deve ser enfatizado, para nosso objetivo atual, é que essas instituições não exigem necessariamente que todas as oportunidades concebíveis para instituições sociais Pareto superior sejam aproveitadas e exploradas. O uso comum do sistema de pés e polegadas para medir o comprimento não significa de que seja o resultado final alcançado ao aproveitar todas as oportunidades possíveis para uma medição mais eficiente. Pode ser que um sistema superior de medição possa ter surgido. O fato disso não acontecer não nega a utilidade do sistema de pés e polegadas. Esse sistema é baseado na concordância de expectativas de milhões de membros da sociedade. Ninguém está desapontado com suas expectativas de que outros empreguem esse sistema. A utilidade do sistema depende total e unicamente da solução bem-sucedida do Problema do Conhecimento A (garantindo que as expectativas não sejam decepcionadas). Não depende intrinsecamente da solução do Problema do Conhecimento B. Mesmo que algum sistema superior de medição possa ser de algum modo concebido e posto em operação (convencendo os membros da sociedade de seus méritos e sua iminência), deixar de fazê-lo de maneira alguma afeta a viabilidade do sistema de medição que de fato foi adotado.

É o mesmo com todas as instituições que citam habitualmente. O uso de uma linguagem comum não depende do surgimento da forma mais simples e clara de comunicação interpessoal. Depende apenas dos membros da sociedade terem aprendido a esperar um único vocabulário e gramática.

A ordem espontânea, no sentido do surgimento espontâneo de um conjunto de regras, como regras de linguagem, comportamento ou lei, exige apenas que algum conjunto de regras seja universalmente esperado. Para a existência de nenhuma dessas instituições é inerentemente necessário irmos além da solução do Problema A, para evitar decepções com relação ao comportamento de outras pessoas.

O SURGIMENTO ESPONTÂNEO DAS INSTITUIÇÕES

Entendemos, portanto, as convicções de Hayek sobre a possibilidade de instituições sociais benignas emergirem espontaneamente. Tais instituições podem emergir, é claro, da mesma solução do Problema do Conhecimento A, que contribui para o surgimento espontâneo de tendências de equilíbrio do mercado. As pessoas tendem a aprender corretamente a esperar o que outras pessoas farão, e o surgimento de tais expectativas que se sustentam mutuamente pode constituir o estabelecimento de instituições sociais estáveis.

Mas é igualmente claro que a solução do Problema do Conhecimento B, envolvendo a descoberta de oportunidades atraentes até então não examinadas para ganho mútuo por meio da interação, não é necessária para o surgimento de nenhuma instituição. O que queremos destacar nas páginas a seguir é que, exceto no contexto do mercado, não temos, de fato, nenhuma tendência operacional para que o Problema do Conhecimento B seja resolvido sistematicamente.

Se essa nossa afirmação for aceita, certamente teremos estabelecido motivos para contestar qualquer afirmação de que processos espontâneos são, em geral, capazes de gerar não apenas instituições estáveis ​​que expressem expectativas que se sustentam mutuamente, mas também tendências, paralelas às que operam em mercados para solucionar o Problema do Conhecimento B, em direção à substituição de instituições socialmente inferiores por superiores. Pode haver tendências de sobrevivência do mais apto a longo prazo (ou, nesse caso, outros tipos de tendências) para que as sociedades gerem normas e instituições sociais mais e não menos “úteis”. É nossa afirmação aqui que essas tendências são completamente distintas da tendência, dentro dos mercados, de oportunidades sociais úteis serem descobertas e exploradas por meio da solução do Problema do Conhecimento B.

Instituições, sejam mais úteis para a sociedade, menos úteis para a sociedade ou até totalmente prejudiciais para a sociedade, exigem apenas a solução para o Problema do Conhecimento A. Essa solução, no contexto de uma interação social mais ampla, pode realmente ser considerada no futuro da mesma forma que surge no contexto do mercado. Por esse motivo, as instituições podem e de fato surgem espontaneamente, constituindo exemplos clássicos de coordenação espontânea.

Mas a substituição de uma instituição inferior (digamos, um sistema de medição baseado em pés e polegadas) por uma instituição superior (digamos, o sistema métrico) requer mais do que a solução do Problema do Conhecimento A: requer também a solução do Problema do Conhecimento B. Nosso argumento é que nenhuma solução do Problema do Conhecimento B, paralela à sua solução nos mercados, pode ser considerada fora do próprio contexto de mercado. Assim, uma crença no desenvolvimento espontâneo de instituições sociais cada vez melhores não pode se basear na analogia ou extrapolação acrítica de nossas ideias sobre os processos pelos quais o Problema do Conhecimento B é resolvido na obtenção de resultados ótimos de Pareto no equilíbrio do mercado. Nossa afirmação requer alguma elaboração adicional.

A SOLUÇÃO DO PROBLEMA DO CONHECIMENTO B: O PROBLEMA DA EXTERNALIDADE

Como será lembrado, o processo de mercado inclui uma tendência para a solução do Problema do Conhecimento B resultante dos incentivos proporcionados por oportunidades de puro lucro. Os empreendedores alertas são atraídos para perceber suboptimalidades (expressões constituídas do Problema do Conhecimento B) porque respondem a essência de puro lucro que acompanha essas suboptimalidades. Ao captar o lucro que acompanha essas suboptimalidades, o empreendedor beneficia o mercado como um todo (uma vez que aproxima preços e custos da igualdade, eliminando até agora oportunidades despercebidas e inexploradas de troca mutuamente lucrativa entre participantes inalterados do mercado). Mas não havia externalidade. O estímulo necessário para atrair o empresário para beneficiar a sociedade foi fornecido pela perspectiva de puro lucro para si. Toda possibilidade de ganho social através da superação do Problema B implica a atração de ganho privado para o empresário alerta que pode perceber a oportunidade. Desejamos ressaltar que não ocorre coincidência tão feliz de lucro privado e social no contexto do surgimento de normas e instituições sociais.

Imaginemos uma sociedade empregando um sistema de medição baseado em pés e polegadas. Vamos postular que o uso do sistema métrico reduziria substancialmente os custos de transação e outros em todo o sistema. Não parece haver maneira óbvia de atrair qualquer empresário privado para perceber a superioridade do sistema métrico – e muito menos a possibilidade de ele estar ao seu alcance para efetivar sua adoção. A externalidade do benefício relevante para a sociedade decorrente de uma alteração no sistema métrico parece bloquear a tradução dessa oportunidade não explorada, disponível em conjunto para os membros da sociedade, em oportunidades concretas e atraentes em particular, capazes de descoberta empreendedora alerta.

O sistema métrico permanece não adotado como resultado de um caso especial do Problema do Conhecimento B. Os indivíduos não sabem que o uso do sistema métrico seria uma melhoria. Além disso, mesmo que alguns (ou todos) se tornassem tão conscientes, eles (corretamente) acreditam que outros (mesmo estando conscientes) não usem o sistema métrico (porque acreditam que ninguém está usando o sistema). A possibilidade de todos os membros da sociedade simultaneamente se conscientizarem da preferência social de um sistema métrico (ou, de qualquer forma, de todos os membros da sociedade, de alguma forma virem corretamente à expectativa de que outros esperem o uso universal do sistema métrico) é uma possibilidade de entrar em conflito frontal com o obstáculo concreto do Problema do Conhecimento B. Como é possível gerar entre uma população que está feliz empregando o sistema de medição comum de pés e polegadas a realização da iminente superioridade do sistema métrico ou, pelo menos, a expectativa de que outros daqui em diante usem apenas o sistema métrico?

Solução para o problema do conhecimento B sempre exige imaginação empreendedora. O recurso de externalidade endêmico ao Problema do Conhecimento B fora do contexto do mercado nos desencoraja a confiar em qualquer procedimento de descoberta espontânea padronizado após o processo de descoberta empresarial que conduz o processo de mercado.

HAYEK, MENGER E O SURGIMENTO DA MOEDA

Hayek cita frequentemente o insight de Carl Menger sobre o surgimento espontâneo de instituições socialmente úteis (Hayek 1967a: 94; 1969b: 100-1; 1955: 83; 1973: 22; 1978c: 265n). Será instrutivo observar como o exemplo mengeriano mais famoso do surgimento espontâneo de uma instituição socialmente benigna, ou seja, o surgimento espontâneo de um meio de troca comumente aceito (possibilitando a transição de uma economia de troca para uma economia monetária muito mais eficiente), de fato ocorre na exposição de Menger (Menger 1981: 257–62; 1985: 151–5). Descobriremos que o processo social espontâneo pelo qual ocorre a evolução de uma moeda amplamente utilizada não é aquele em que o Problema do Conhecimento B é resolvido de forma análoga à sua solução nos processos de equilíbrio do mercado. Para entender como o Problema do Conhecimento B é superado no processo mengeriano pelo qual a moeda surge, pode ser útil considerar um processo social espontâneo semelhante que não envolve nenhum problema do conhecimento.

Considere a maneira pela qual um caminho bem trilhado pela neve pode ser alcançado espontaneamente, sem nenhum plano deliberado e centralizado para criá-lo. A princípio, uma alma destemida que tem uma necessidade urgente de chegar a um destino faz a difícil travessia pela neve alta. É uma viagem cara (em termos de se molhar), mas aparentemente vale a pena. A rota precisa percorrida na neve pode ser bastante aleatória ou pode ser ditada pelo destino do pioneiro, visto do ponto de partida do pioneiro. O importante é que a primeira caminhada pela neve reduz os custos de atravessar a neve para outros posteriormente. A neve é ​​um pouco menos intimidadora onde a primeira travessia foi feita. Outros (que de outra forma talvez não tivessem atravessado a neve, ou que poderiam ter escolhido uma rota diferente pela neve) agora acham que vale a pena atravessar exatamente onde o pioneiro fez a primeira travessia. Observe (a) que o custo reduzido para travessias de neve subsequentes é uma consequência não intencional da primeira travessia e (b) que travessias subsequentes obviamente tenderão a seguir o caminho percorrido pelo pioneiro. Aqueles que de fato cruzam a neve nos passos do pioneiro fazem suas próprias contribuições não intencionais para o surgimento espontâneo de um caminho claro através da neve. Cada travessia molda a neve um pouco mais, reduzindo ainda mais os custos de caminhar pela neve. Dessa maneira, o fenômeno familiar e socialmente benigno de um novo caminho é a consequência não intencional do comportamento autorreferente.

Agora, a sequência de ações que levaram à criação espontânea do caminho não tem nada a ver com a solução de qualquer problema do conhecimento. É simplesmente a implicação afortunada dos diferentes graus de urgência com que as pessoas precisam atravessar a neve (e também, possivelmente, dos diferentes momentos em que pessoas diferentes precisam atravessar a neve). Não foi necessário nenhum salto criativo, imaginativo e empreendedor – e nada ocorreu – para que o caminho seja criado espontaneamente. O surgimento do caminho ocorreu sem um planejamento central para sua criação – não porque os empreendedores se inspirassem independentemente para produzi-lo, mas porque cada passo na neve indevidamente induziu novos passos a serem dados.

Devemos lembrar, incidentalmente, que, assim como processos podem ocorrer nos quais (como no caso da trilha na neve) cada etapa reduz os custos de maneira a promover resultados benignos e alcançados espontaneamente, podemos facilmente visualizar tipos exatamente opostos de processo. Podemos facilmente imaginar, isto é, processos em que cada etapa, de maneira não intencional, mas perversa, altera os custos para outras pessoas (de outras etapas). Se a concentração urbana aumentar as chances de sobrevivência econômica na cidade em comparação com as vilas vizinhas (ou, de qualquer forma, se os moradores acharem esse o caso), então a cidade poderá espontaneamente afundar em congestionamentos que se tornam progressivamente cada vez mais horríveis e intoleráveis. Tribos ou nações em conflito podem achar prudente se armar contra um possível ataque; mas cada um desses passos pode aumentar o perigo para os outros, levando a uma sequência espiralada de construção de armamento, aumentando as suspeitas de todos os lados e aumentando a probabilidade de guerra. Tais processos trágicos são bem conhecidos e bem compreendidos (se não facilmente controláveis). Nosso argumento é que, benignos ou não, esses processos espontâneos procedem da mesma maneira porque cada passo dado sistematicamente o torna mais racional para que outros passos semelhantes sejam dados por outros. Isso resulta no familiar efeito bola de neve. O processo de Menger do surgimento espontâneo da moeda prossegue exatamente dessa maneira.

O que impulsiona o processo mengeriano dinâmico através do qual a moeda evolui é a liquidez gradualmente crescente de alguma mercadoria específica que passou a ser usada, ainda não como moeda, mas como um meio de troca indireta entre participantes de mercado com recursos e trocas. Partindo de uma economia de troca, os participantes alertas do mercado descobrem que podem melhorar suas chances de negociar o que possuem inicialmente pelo que prefeririam se trocassem o primeiro por algo que eles mesmos não desejam adquirir para consumo final, mas que acreditam que provavelmente serão procurados por aqueles que possuem os itens que esses participantes alertas do mercado desejam adquirir. À medida que isso ocorre, a ‘liquidez’ desse item (que adquirem mesmo que não desejem consumi-lo) aumenta. Ou seja, a própria circunstância em que esses participantes alertas do mercado estão comprando esse item aumenta agora a chance de que outros participantes do mercado descobrirão que a aquisição inicial desse item aumenta suas chances de finalmente obter os itens que desejam finalmente consumir. A dinâmica desse processo de aumentar a liquidez, apegando-se a determinados itens, pode levar ao surgimento de um grau de liquidez tão completo que, na verdade, torna um item não mais uma mercadoria comum, mas um meio de troca geralmente aceito. Vamos considerar cuidadosamente o sentido em que o processo de Menger (ao contrário do nosso exemplo do caminho na neve) envolve a solução de um problema do conhecimento. Apreciaremos mais cuidadosamente como o processo de Menger, embora certamente resolva o Problema do Conhecimento B, o faça de uma maneira bem diferente da solução de processo de mercado do Problema do Conhecimento B.

Em uma sociedade de troca inicial, os inconvenientes atribuíveis à ausência de um meio de troca geralmente aceito podem ser vistos como causados ​​pelo Problema do Conhecimento B. (Problema do Conhecimento A, no qual os participantes da sociedade recebem falsas expectativas sobre o que os outros farão não é um problema aqui. Todos esperam corretamente que outros se envolvam apenas em transações de escambo. Ninguém espera, por engano, receber “moeda” em troca de mercadorias oferecidas.) O que está impedindo o uso de um meio monetário é a falha dos participantes do mercado em saber, não o que de fato os outros estão fazendo, mas o que os outros podem estar muito dispostos a fazer (se eles, por sua vez, soubessem que outros agiriam da mesma forma). Como a transição de uma economia de troca para uma economia monetária envolve agarrar uma nova oportunidade universalmente lucrativa que ainda não foi percebida, a troca continua sendo o modo predominante. Mesmo que eu entenda a eficiência superior de mudar para, digamos, um padrão monetário de prata, não tentarei vender nada por prata porque a prata não é agora uma moeda (ou seja, não espero que outros aceitem prata). Onde, na verdade, outros, como eu, compreendem as vantagens de passar da troca para um padrão monetário de prata, estou certo em meu julgamento de que prata não é uma moeda apenas porque cada um de nós (que entende as virtudes da moeda de prata) falha em saber o que pode ser aceitável para os outros. Certamente, se soubesse que outros sabiam que eu apreciava as virtudes da moeda de prata, et cetera ad infinitum, a prata seria agora aceita por todos como moeda. Assim, o problema do conhecimento que obstrui a transição para o uso disseminado de uma moeda de prata é o Problema do Conhecimento B.

A transição de uma sociedade de troca para uma economia monetária, delineada no processo mengeriano, certamente envolveu a superação espontânea do Problema do Conhecimento B. Após a transição, os participantes do mercado aprenderam a se comportar de novas maneiras que beneficiam a todos. Mas essas lições foram aprendidas de uma maneira que não se assemelha aos processos empresariais que tendem a superar o Problema do Conhecimento B no contexto do mercado. No contexto do mercado O Problema do Conhecimento B se manifesta em erros de mercado que se revelam oportunidades para obter lucro empresarial. No contexto mengeriano, esse não é o caso. (A atenção que os participantes do mercado exibem no curso do processo mengeriano em relação à liquidez cada vez maior da mercadoria em questão nunca está atenta às perspectivas de aumentar ainda mais essa liquidez; o que está envolvido é estritamente alerta às eficiências pessoais a serem alcançadas ao se tomar vantagem da liquidez já aumentada dessa mercadoria.) Nenhum empreendedor poderia, sozinho, descobrir oportunidades de puro lucro, tentando levar a sociedade de troca para o uso da moeda. Não obstante, um processo espontâneo que moveu a sociedade nessa direção ocorreu na história de Menger. O que queremos dizer é que ocorreu da mesma maneira não empreendedora que molda a criação de caminhos na neve.

CONCLUSÃO

O que estimula soluções para o Problema do Conhecimento B nos mercados é a circunstância de que, no contexto do mercado, esse problema consiste em oportunidades não exploradas de troca mutuamente lucrativa. Tais oportunidades oferecem oportunidades de ganho empresarial privado aos seus descobridores. Isso desencadeia o processo empresarial familiar, que tende a colocar mercados separados em pleno contato, eliminando discrepâncias de preços (e oportunidades para lucros adicionais).

Mas, no contexto social mais amplo, a maneira como o Problema do Conhecimento B se coloca no caminho do surgimento de instituições sociais viáveis ​​e econômicas não oferece oportunidades de ganho privado aos seus descobridores. Portanto, não há procedimento sistemático de descoberta no qual possamos confiar no surgimento espontâneo de normas institucionais superiores.

Esta circunstância não impede que processos genuinamente espontâneos de desenvolvimento institucional ocorram. Caminhos na neve acontecem. Mas significa que não podemos usar, como exemplo de didático para tais processos espontâneos, a maneira pela qual os mercados tendem sistematicamente a resolver o Problema do Conhecimento B. Para ter certeza, o surgimento espontâneo de qualquer instituição depende dos mesmos processos pelos quais o Problema do Conhecimento A é resolvido nos mercados. Hayek está firme em ver suas ideias sobre o mercado como um procedimento de descoberta como base para seu próprio trabalho posterior sobre o surgimento espontâneo de normas e instituições culturais e sua ligação com o fenômeno da divisão do conhecimento.

Por outro lado, no entanto, nosso objetivo foi apontar neste capítulo que essas ideias econômicas anteriores sobre as propriedades espontaneamente coordenadoras dos mercados não fornecem, por si só, garantias sobre a qualidade da tendência benigna do desenvolvimento institucional de longo prazo. Tais tendências benignas podem muito bem ser poderosas e importantes em alguns ou muitos casos; mas a coordenação espontânea que ocorre nos mercados não fornece nenhuma base para qualquer extensão dos teoremas de bem-estar social relacionados aos mercados para o campo mais amplo da teoria da evolução institucional. A explicação para essas tendências benignas, se elas existem, deve ser procurada em outro lugar.

Notas

[1] Em uma nota de rodapé desta passagem (p. 148, nota 10) Hayek cita seu artigo de 1945 a esse respeito.

[2] Ver também Gray (1982).

[3] Buchanan (1986). Ver também Buchanan (1977) e Kirzner (1987).

[4] Ver Kirzner (1963: Ch. 7) para uma extensa discussão sobre as diferenças entre esses dois problemas e o caráter dos distintos processos de equilíbrio de mercado que colocaram em movimento, respectivamente.

[5] Ver Hayek (1949c: 53). Sou grato a Mario Rizzo por chamar minha atenção para a importância dessa passagem.