por Israel Kirzner

[ Chapter 9: Economic planning and the knowledge problem do livro The Meaning of Market Process – Tradução de Rafael Hotz ]

Capítulo 9: Planejamento econômico e o problema do conhecimento

INTRODUÇÃO

Já faz cerca de quarenta anos que o professor Hayek identificou decisivamente a crença errônea que pairava sob a economia do bem-estar social. Essa crença, argumentou Hayek, era responsável pelo insucesso em compreender a crítica à possibilidade de cálculo racional sob o planejamento central – uma crítica levantada mais clara e energicamente por Mises, e desenvolvida em diante pelo próprio Hayek. Como foi demonstrado pelo Professor Lavoie (1985a), a verdadeira importância e significado da lição hayekiana simplesmente não foi absorvida pelos subsequentes economistas do bem-estar social que escreveram sob o debate do cálculo socialista, mesmo apesar do trabalho de Hayek ter sido amplamente citado.

Nesse capítulo tentaremos tanto reafirmar quanto estender o insight de Hayek quanto ao “problema do conhecimento” e suas implicações para o planejamento econômico central, seja ele compreensivo no escopo ou em outra situação. Nos parágrafos seguintes citaremos a formulação do próprio Hayek de seu insight, e faremos certas observações referentes a isso. Nas seções subsequentes desse capítulo partiremos de um ponto de vista um tanto quanto diferente, e dessa maneira chegaremos eventualmente a nossa reafirmação e extensão da posição hayekiana – clarificando algumas implicações um tanto radicais de nossa reafirmação.

De acordo com Hayek (1949 b: 77-8):

O caráter peculiar do problema de uma ordem econômica racional é determinado precisamente pelo fato de que o conhecimento das circunstâncias das quais precisamos nos utilizar nunca existe de forma concentrada ou integrada, mas apenas como bits dispersos de conhecimento incompleto e frequentemente contraditório os quais todos os indivíduos possuem. O problema econômico da sociedade então não é meramente um problema de como alocar recursos “dados” – se “dados” forem entendidos como entregues a uma única mente que deliberadamente resolve o problema criado por essas “informações”. É ao invés um problema de garantir o melhor uso dos recursos conhecidos por cada um dos membros da sociedade, com fins cuja importância relativa apenas esses indivíduos sabem. Ou, para resumir, é um problema da utilização do conhecimento que não é dado a ninguém em sua totalidade.

Chamaremos esse problema do conhecimento de “problema do conhecimento de Hayek”. Notamos, nesse estágio inicial de nossa discussão, que pode ser tomada uma posição na qual o problema do conhecimento de Hayek não, ao menos em seu primeiro exame, torna imediatamente irrelevante a superioridade da norma da eficiência social. É verdade, como mostrou Hayek, que o caráter disperso do conhecimento significa que o problema econômico não é um de alocar recursos “dados”, aonde “recursos dados” significam recursos dados e conhecidos por uma única mente. Mas com certeza o próprio conhecimento é um recurso escasso. Logo a tarefa do planejador central pode ser vista, sob a luz do problema do conhecimento de Hayek, como uma de fazer o uso mais eficiente do conhecimento disperso disponível existente na sociedade num dado instante – com a realização de tal uso restringida pelos custos de busca e comunicação tornados necessários pelo caráter disperso da informação disponível.

Pode parecer, dessa forma, que não há nada no problema do conhecimento de Hayek que o coloque fora do escopo do planejamento econômico. O problema do conhecimento, pode ser dito, complica a tarefa planejadora: introduz um recurso novo reconhecido, sutil e complexo (conhecimento); chama atenção para uma classe especial de custos (aqueles requeridos para a busca e comunicação). Mas o problema do conhecimento de Hayek pode ainda parecer, estar incluído no problema econômico geral, tradicionalmente concebido em termos de alocação de recursos. O tema central desse capítulo será negar essa compreensão das implicações do problema do conhecimento de Hayek.[1]

Nesse capítulo mostrarei como esse problema de assegurar o melhor uso do conhecimento disperso, de fato, não pode ser traduzido num caso especial do problema mais geral de garantir uma alocação eficiente para os recursos da sociedade. Disso seguirá que o planejamento da sociedade, por seu próprio caráter, é incapaz de lidar com o problema de Hayek – tal planejamento poderá apenas frustrar e impedir aquelas forças espontâneas do mercado que são capazes de combater esse problema do conhecimento. Para desenvolver esses argumentos será necessário introduzir um “problema do conhecimento” que a primeira vista parece um tanto diferente do de Hayek.

O PLANO INDIVIDUAL E O PROBLEMA DO CONHECIMENTO

No curso da vida cotidiana o homem planeja continuamente. Os economistas chegaram a formular o plano individual como a procura por um máximo: o planejador tem intenção de chegar numa posição de otimização sob restrição. Esse é o conceito da decisão economizadora articulada com força e precisão especial por Lionel Robbins em 1932 (Robbins 1935), e amplamente adotada desde então como o bloco básico de construção da teoria microeconômica. Queremos mostrar que existe um inescapável “problema do conhecimento” potencial ao redor desse conceito de plano individual.

A noção de plano pressupõe uma entidade deliberadamente visada – digamos, utilidade ou lucro – que deve ser conhecidamente maximizada. Ela adiante pressupõe restrições de recurso conhecidas. Na terminologia de Robbins, ambos meios e fins são presumidamente dados. É o conhecimento presumido dessas circunstâncias de planejamento por parte do planejador que permite ao economista perceber o plano como solucionador de um problema de maximização sob restrição. A validade do plano em si, deve ser notado, depende completamente da validade da assunção de que o planejador de fato conhece corretamente as circunstâncias que permeiam suas decisões futuras. Se o planejador não conhece aquilo o que está tentando atingir, ou não conhece quais recursos estão sob seu comando, ou qual é a eficácia de tais recursos com relação à suas metas procuradas, então seu plano – não importa o quão cuidadosamente formulado – de maneira alguma resultará no melhor resultado possível.

Podemos agora identificar o problema do conhecimento potencialmente relevante para cada plano individual. Graças a inadequações no conhecimento do planejador de suas verdadeiras circunstâncias, seu plano pode falhar em render um ótimo passível de ser obtido. Deixe nos chamar esse problema do conhecimento de “problema básico do conhecimento”. Isso o distinguirá daquilo que chamamos antes de “problema do conhecimento de Hayek”. Indicará também nossa intenção de demonstrar que o problema do conhecimento de Hayek pode ser considerado um caso especial do que chamamos de “problema básico do conhecimento”. Sem dúvida, o que chamamos de “problema básico do conhecimento” parece, a primeira vista, ter pouca semelhança com o de Hayek. O problema do conhecimento de Hayek consiste no caráter disperso da informação disponível; nosso problema básico do conhecimento consiste na simples ignorância por parte de um indivíduo das circunstâncias relevantes para a sua situação. Uma reflexão mais profunda tanto do problema do conhecimento de Hayek e do nosso problema básico do conhecimento, entretanto, irá revelar o importante sentido no qual o problema de Hayek é na realidade um básico. Deixem-nos primeiramente clarificar um possível mal entendido relacionado ao problema básico do conhecimento.

O PROBLEMA BÁSICO DO CONHECIMENTO E A ECONOMIA DA BUSCA

Pode ser dito que o problema básico do conhecimento que ronda todo plano individual pode ser evitado através da adição de novos estágios de planejamento. Apesar de tudo, se um plano parece destinado a falhar graças a indisponibilidade de um recurso necessário, essa falha potencial não precisa ser final; pode ser possivelmente evitada através de planejamento preliminar adequado para obter tal recurso. Ao invés de simplesmente formular um plano direcionado a realização imediata do objetivo final, é necessário introduzir objetivos intermediários a serem perseguidos no curso dos planos preliminares adicionais.

A partir dessa perspectiva o problema básico do conhecimento pareceria meramente representar uma inadequação na oferta disponível de um recurso importante, chamado conhecimento. Essa inadequação seria vista então como um chamado para uma busca planejada com vistas a adquirir a informação necessária. Em princípio, pode se pensar que o problema básico do conhecimento pode ser evitado, pelo menos da mesma maneira que qualquer outro problema advindo de uma escassez de recursos também pode. Na medida em que seja válido, um plano preliminar de busca para superar a escassez de informação necessária pode eliminar totalmente o problema básico do conhecimento. Na medida em que tal busca custosa não parece recompensadora, o problema básico do conhecimento pareceria meramente expressar as inescapáveis restrições de escassez inerentes à situação do planejador. Para o economista tal inescapável problema de escassez significa que não há nenhum problema de fato, no sentido relevante da coisa.

Ao passo que o problema do conhecimento é escapável, ele pode (e presumivelmente irá) ser escapado; na medida em que não seja compensador ser escapado, pareceria não existir problema básico do conhecimento algum – uma vez que definimos o problema básico do conhecimento em termos de falha em realizar um ótimo passível de ser conseguido. Se a falta de conhecimento torna um ótimo hipotético irrealizável, ela não pode gerar problema básico do conhecimento. E se o custo de adquirir o conhecimento é proibitivo, então o “ótimo hipotético”, enquanto “passível de ser obtido”, de fato não é um ótimo.

Mas essa linha de argumentação não pode ser sustentada. O problema básico do conhecimento potencialmente rondando cada indivíduo é por sua natureza inescapável. Certamente uma deficiência no conhecimento pode ser capaz de ser retificada através de busca, e o planejador individual sem dúvida irá considerar, em seu planejamento preliminar, se tal busca será tomada ou não. Mas o problema básico do conhecimento – envolvendo possível falha em atingir um ótimo passível de ser obtido – permanece. Na verdade a possibilidade de planejamento preliminar para adquirir conhecimento apenas expande o escopo do problema básico do conhecimento.

Consideremos um indivíduo elaborando um plano para atingir um objetivo de certo valor. Chamaremos o plano de Plano A. Ao formular os passos específicos que devem ser seguidos no Plano A, o indivíduo se dá conta de que necessita de pedaços de informação. Ele dessa forma então se dedica a um plano para atingir esses objetivos preliminares, precisamente esses pedaços de informação que faltam. Chamaremos essa busca de Plano B. Podemos enxergar o Plano A como tendo sido expandido (um resultado da ignorância percebida) com intento de incluir a realização planejada de objetivos preliminares, de tal forma que o Plano B esteja “aninhado” no Plano A expandido. E podemos identificar os passos posteriores a serem tomados no curso do Plano A expandido – aqueles passos subsequentes à obtenção da informação assegurada no Plano B – como Plano A’. (O Plano A’ consiste nos passos que seriam na verdade o Plano A original caso o planejador não sofresse de falta de informação necessária). Podemos ver facilmente que o problema básico do conhecimento é uma ameaça potencial para o Plano B e A’. O plano A que inclui o plano B e A’, é também, claro, sujeito às vulnerabilidades de ambos os últimos.

Mesmo se o Plano B for completamente bem sucedido ao obter precisamente a quantidade ótima de informação capaz de ser buscada (e julgado ser válido os custos de sua busca), o Plano A é, apesar de tudo, ainda sujeito aos perigos do problema básico do conhecimento. Isso já que, apesar de nosso agente, ao originalmente procurar formular o Plano A, perceber que lhe faltavam certos itens específicos de informação (e dessa forma realizou o preliminar Plano B), ele pode de fato ter precisado de muito mais informação do que percebeu. (O mais importante, tal informação não percebida pode ter tomado a forma de uma crença, firme, porém completamente errônea, na validade da informação que é completamente falsa). Além disso, ele pode estar enganado quanto a sua crença de que os itens de informação dos quais necessita são necessários para a implementação do Plano A. Pode também estar errado quanto a sua crença de que realmente lhe faltam esses itens de informação (no sentido relevante de faltar). A verdade pode ser que esses itens já estejam ao seu alcance.

Por exemplo, ele pode acreditar que o Plano A, no curso do qual ele deve se comunicar com o indivíduo Z, requer informação relativa ao telefone de Z, informação esta que o agente acredita lhe faltar, de maneira que ele se engaja no Plano B para procurar o número de telefone de Z. Mas a verdade pode ser bem diferente. A verdade pode ser tal que Z é a pessoa errada para se conversar, ou então a verdade pode ser tal que Z está na mesma sala que nosso planejador, de forma que o número de telefone de Z não é realmente necessário para o Plano A. Ou, ainda, nosso planejador não “precisa” do telefone de Z; ele pode na verdade ter esse número claramente escrito e identificado na lista de números que fica ao lado do seu próprio telefone. Dadas essas possibilidades de erro incondicional que permeiam o Plano A’ e/ou o Plano B, possibilidades as quais o planejador não está ciente de sua ignorância, o Plano A (porque ele inclui o A’ e o B) pode ser longe de ótimo mesmo se o Plano B for completamente bem sucedido em termos de seus objetivos. Além disso, pode ser que o Plano B deixe passar formas mais eficientes disponíveis de atingir seus próprios objetivos (por exemplo, podem haver métodos de busca mais baratos dos quais o agente não têm conhecimento).

Complementando, a possibilidade de busca planejada por informação que foi reconhecida como em falta não elimina o problema do conhecimento. Primeiramente, a busca planejada pode ela mesma ser realizada sem se estar ciente de que técnicas que são mais eficientes e de fácil acesso. Segundo, a informação desejada pode de fato não justificar os custos de busca porque a verdade (a qual o planejador não conhece) é que a informação não é de significância para a obtenção dos objetivos finais do planejador. Terceiro, além da informação que o planejador percebe que lhe falta e tentará obter, ele pode precisar de outras informações que não percebe que lhe faltam e pelas quais não pensa em tomar nenhuma medida de busca planejada.

PLANEJAMENTO CENTRAL E O PROBLEMA DO CONHECIMENTO

Estamos agora em posição de considerar o insight de Hayek sobre o problema do conhecimento disperso como revelador da tarefa do planejamento central ter uma ligação profunda e inextricável ao problema básico do conhecimento. Coloquemo-nos na posição dos planejadores centrais, avidamente e sozinhos procurando pelo padrão mais eficiente possível de alocação de recursos. Nossa tarefa como planejadores centrais é formular um plano para a sociedade de forma análoga aquele pelo qual um planejador individual planeja seu próprio curso de ação.

Formularemos nosso plano social de acordo com objetivos sociais e sob a luz de um conhecido arranjo de recursos sociais disponíveis.[2] Essa base de sustentação para o planejamento central é relevante (em princípio e com as mudanças necessárias tendo sido feitas) para um planejamento social compreensivo e para um planejamento central designado meramente para suplementar ou modificar, ao invés de substituir completamente a atividade econômica descentralizada. A analogia entre o plano social e o plano individual nos compele, é claro, a reconhecer a relevância do problema básico do conhecimento para o plano social, exatamente da mesma forma que o vimos ser uma dificuldade inevitável e inescapável para o plano individual. A contribuição de Hayek nos permite reconhecer que o plano central pode estar sujeito a dificuldades (advindas do problema básico do conhecimento) que podem ser anuladas pelo planejamento descentralizado.

O fato de o plano centralizado estar inescapavelmente sujeito aos danos do problema básico do conhecimento segue quase trivialmente da própria noção do problema básico do conhecimento. Uma vez que o planejador individual pode não estar ciente de suas verdadeiras circunstâncias e pode estar completamente não ciente de sua ignorância, seus melhores planos formulados podem falhar em render um ótimo passível de ser obtido. Os planejadores centrais, da mesma forma, podem estar completamente não cientes da ignorância no que tange as verdadeiras circunstâncias relevantes para o plano social. Nosso entendimento das implicações do conhecimento disperso aprofunda nossa apreciação da gravidade do problema básico do conhecimento, e nos revela como as dificuldades criadas pelo problema podem ser completamente evitadas na ausência de planejamento centralizado.

O reconhecimento do fato do conhecimento disperso – especialmente em relação ao “conhecimento das circunstâncias de tempo e espaço” (Hayek 1949b: 80) – ilumina imediatamente nossa compreensão do problema básico do conhecimento que ameaça os planejadores centrais. Para um planejador individual, o problema básico do conhecimento surge da possibilidade de o que ele pensa que sabe sobre suas circunstâncias pode diferir do que ele poderia saber (sem gasto adicional de recursos) se tivesse sido mais alerta com relação ao verdadeiro meio que o circunda.

A mesma possibilidade, é claro, é totalmente relevante para um planejador central, mas é intensificada pela sua condição peculiar. O que o planejador central pensa que sabe sobre as circunstâncias relevantes deve necessariamente tomar a forma do que ele pensa que sabe sobre a disponibilidade de bits dispersos de conhecimento que podem de alguma forma, a algum custo, serem mobilizados ao formular e implementar o plano social. Existe pouca chance de que o planejador central saiba sempre aonde achar, ou como buscar por todos os itens de informação dispersa conhecidos em algum lugar do sistema econômico. Além disso, parece haver pouca chance de que o planejador central possa sempre estar completamente ciente da natureza ou extensão dos vazios em seu próprio conhecimento com relação a tanto. Ele pode perceber, de uma maneira geral, que há informação a qual sua localização ele é ignorante, mas isso não lhe dá dica alguma de onde olhar. O resultado final é que o planejador não será capaz de explorar toda a informação a sua disposição. Claramente a dispersão de informação é responsável por uma nova dimensão de aplicação do problema básico do conhecimento.

Anteriormente nós levantamos a possibilidade de que o problema do conhecimento de Hayek – apesar de sua inovação – pudesse ser incluído dentro do problema econômico geral, tradicionalmente concebido em termos de atingir uma alocação eficiente de recursos dados (com informação disponível incluída como um importante recurso dado). Podemos ver agora como é inapropriado considerarmos os planejadores centrais capazes de lidar com o problema do conhecimento de Hayek em termos de planejamento convencional para atingir um padrão de alocação de recursos ótimo restringido. A ignorância desconhecida que é o coração do problema do conhecimento criada pela dispersão de informação desafia a possibilidade de ser capaz de ser espremida na cama procusteana do plano de alocação. Assim como o planejador individual é incapaz de lidar com o problema básico do conhecimento que rodeia suas decisões, também é o planejador central incapaz de elaborar técnicas de planejamento para lidar deliberadamente com o problema do conhecimento de Hayek.

O que torna o problema hayekiano do conhecimento uma crítica tão devastadora do planejamento central é a circunstância de que em um sistema de mercado, com tomadas de decisão descentralizadas, o insolúvel problema do conhecimento confrontado pelos planejadores centrais tende a se dissolver no processo de descoberta competitiva empreendedora.

O PROCESSO DE DESCOBERTA COMPETITIVA EMPREENDEDORA

O argumento hayekiano em favor da tomada de decisões descentralizada vem sendo frequentemente mal compreendido. Muito comumente esse argumento é apresentado como querendo mostrar que apenas a economia descentralizada de mercado escapa do problema do conhecimento disperso porque os preços garantem precisa e economicamente informação necessária para tomadores relevantes de decisão (substituindo qualquer necessidade dos últimos conhecerem toda a informação detalhada que está dispersa pelo sistema). Deve ser enfatizado que enquanto essa linha de raciocínio está certamente presente no trabalho de Hayek, ela falha em fazer justiça a todas as implicações de tal trabalho.

Dizer que os preços de mercado comunicam informação, e dessa forma superam diretamente o problema do conhecimento disperso é defender que os mercados dependem de uma pressuposição dúbia: eles estão sempre em equilíbrio ou próximos disso. Apenas no equilíbrio pode ser dito que um participante guiado pelos preços é automaticamente levado às ações que se coordenam plenamente com as ações dos demais participantes do mercado (similarmente guiados). Além disso, pressupor que os mercados estão próximos do equilíbrio é essencialmente (sem levar em conta nossas outras razões para nos sentirmos incomodados com essa pressuposição) contornar (ao invés de superar) o problema hayekiano do conhecimento disperso. Isso porque, da mesma forma que o fenômeno do conhecimento disperso oferece um desafio formidável aos planejadores centrais, esse fenômeno oferece aos mercados um desafio completamente análogo, aquele de atingir, de fato, o arranjo de preços de mercado que o equilibrará.

Não se resolve o problema do conhecimento disperso postulando preços que irão com o tempo gerar decisões que se ajustam. O conhecimento disperso é precisamente a razão para a bem realística possibilidade de que os mercados num dado momento são incapazes de se equilibrarem e assegurarem a ausência de recursos desperdiçados. A verdade é que o mercado possui armas para combater (se não derrotar completamente) o problema do conhecimento disperso. Essas armas estão incorporadas no funcionamento do sistema de preços, mas não no funcionamento de um sistema hipotético de preços de equilíbrio. A importância dos preços ao lidar com o problema hayekiano do conhecimento não está na precisão da informação a qual os preços de equilíbrio providenciam no que toca as ações dos demais similarmente informados. Ao invés disso, sua importância reside na habilidade dos preços de desequilíbrio oferecerem oportunidades de lucro puro que podem chamar a atenção de empreendedores alertas, que estão em busca de lucros.

Sabemos muito pouco sobre a maneira precisa através da qual oportunidades de lucro puro atraem a atenção empreendedora. Mas há poucas dúvidas sobre o poderoso magnetismo que tais oportunidades exercem. Dizer que oportunidades de lucro puro atraem a atenção de forma alguma é dizer que o conhecimento de tais oportunidades é assegurado por busca custosa, deliberada, por parte dos empreendedores. Pelo contrário, é reconhecer que a isca do lucro puro é o que permite que uma decisão individual transcenda os limites de uma estrutura de planejamento dada, e evite, até certo ponto, o problema básico do conhecimento que rodeia toda a tomada de decisão individual. O faro empreendedor humano opera sempre para colocar suas limitadas atividades de planejamento dentro da estrutura mais ampla da ação humana.[3] Ao mesmo tempo em que o homem está rotineiramente calculando a alocação ótima de recursos dados com relação a fins conflitantes, ele mantém uma escuta empreendedora atenta a qualquer coisa que possa sugerir que os recursos disponíveis são diferentes do que se pensava ser, ou que talvez um diferente conjunto de fins valha a pena.

Esse elemento empreendedor da ação humana é o que responde aos sinais de lucro puro que são gerados pelos erros advindos do conhecimento disperso disponível na sociedade. É esse levedo que fermenta o processo competitivo de descoberta empreendedora, tendendo a revelar aos participantes do mercado mais e mais da informação relevante espalhada pelo sistema. É esse processo competitivo empreendedor que doma o problema básico do conhecimento que vimos ser inescapável para as autoridades centrais planejadoras. Ao passo que o planejamento central suprime o processo de descoberta empreendedora, seja na escala de planejamento compreensivo da sociedade como um todo ou na mais modesta pequenas intervenções em um até então livre mercado, os planejadores estão ao mesmo tempo sufocando a habilidade do mercado de transcender o problema básico do conhecimento e se sujeitando sem defesa ao mesmo problema. A fonte do problema é o conhecimento disperso de Hayek: o planejamento central não possui ferramentas para lidar com o problema, e sua própria centralização significa que o processo de descoberta do mercado foi impedido, se não paralisado completamente.

MERCADOS, FIRMAS E PLANEJAMENTO CENTRAL

Pelo menos até o artigo de 1937 de Coase sobre a teoria da firma, era reconhecido que cada firma numa economia de mercado é uma ilha de “planejamento central” local num mar de espontâneas forças competitivas de mercado em ebulição. Dentro da firma, as atividades são coordenadas através de direção central, não via competição e mecanismo de preços. Nossa discussão nesse capítulo ilumina, talvez, as forças que regem a localização das fronteiras que separam o domínio do “planejamento central” livremente adotado daquele do sistema de preços competitivo.

Vimos que a substituição da descoberta de mercado (que se dá através do estado de alerta empreendedor a oportunidades de lucro) pelo planejamento central gera um novo escopo de potência para o problema básico do conhecimento advindo da dispersão de conhecimento. Logo, num livre mercado, qualquer vantagem que possa ser derivada de “planejamento central” (por exemplo, a tentativa de se evitar duplicação “dispendiosa” aparentemente presente frequentemente em situações de rivalidade de mercado) são compradas pelo preço de um problema do conhecimento avançado. Podemos esperar que as firmas tendam espontaneamente a se expandir até o ponto onde as vantagens adicionais do “planejamento central” são ofuscadas pelas dificuldades incrementais que aparecem com a informação dispersa. Em pequena escala tais dificuldades seriam insignificantes o suficiente para serem absorvidas com vistas a se aproveitar de uma organização explicitamente coordenada. Conhecimento disperso numa pequena área geográfica organizacional significa um problema hayekiano do conhecimento que, diferentemente daquele relevante para entidades grandes, complexas, é solucionável através de busca deliberada. A partir de certo ponto, entretanto, as dificuldades de conhecimento tenderão a reduzir a lucratividade das firmas que são muito grandes. A competição entre as firmas de diversos tamanhos e escopo tenderão, logo, a revelar a extensão ótima de tal “planejamento central”.

Por outro lado, se o planejamento central for imposto em um até então livre mercado, seja ou não em termos compreensivos, tal planejamento quase sempre envolverá o problema do conhecimento, e numa extensão que não será justificada pelas vantagens que a centralização possa de outra forma obter. Planejamento central imposto pelo governo destrói as espontâneas e delicadas armas do mercado para lidar com o problema do conhecimento. Tal planejamento centralizado é por sua própria natureza, e pela natureza do problema do conhecimento, incapaz de oferecer qualquer arma própria substituta.

CONCLUSÃO

Devemos lembrar que a natureza do problema do conhecimento é tal que sua extensão e gravidade não pode ser conhecida de antemão. Parte da tragédia das propostas para uma política industrial e planejamento econômico é que seus bem intencionados defensores estão completamente ignorantes com relação ao problema do conhecimento – o problema que surge de não se estar ciente da própria ignorância.

Notas

[1] Hayek (1979: 190) aprofundou mais recentemente nosso entendimento do problema do conhecimento disperso a ponto de ir além de “utilizar informação sob fatos concretos particulares os quais os indivíduos já possuem”. Ele agora enfatiza o problema de usar as habilidades individuais para descobrir informação concreta relevante. Isso leva Hayek afirmar que, devido ao fato de que uma pessoa “descobrirá o que conhece ou o que pode descobrir apenas quando confrontada com um problema onde tal informação ajude”, ela pode nunca estar apta para “transmitir todo o conhecimento que possui […]”. Num trabalho não publicado recente professor Lavoie, desenvolvendo insights contidos no trabalho de Michael Polanyi, também enfatizou a relevância do “conhecimento tácito” para o problema social de utilizar conhecimento disperso. O capítulo presente chega a conclusões similares, porém partindo de um ponto um tanto quanto distinto.

[2] Evitamos aqui levantar qualquer uma das tão conhecidas dificuldades que rodeiam (a) a noção de uma hierarquia de bens sociais análoga a um ranqueamento de objetivos individuais e (b) as noções relacionadas de eficiência social e escolha social.

[3] Sobre isso comparar com Mises (1966: 253-4)