por Israel Kirzner

[ Chapter 11: Welfare economics: a modern Austrian perspective do livro The Meaning of Market Process – Tradução de Giácomo de Pellegrini ]

Capítulo 11: Economia do bem-estar social: uma perspectiva austríaca moderna

Entre as mais notáveis ​​das muitas contribuições de Murray Rothbard para a literatura da economia austríaca moderna está certamente o principal artigo sobre teoria da utilidade e do bem-estar social que escreveu para o Mises Festschrift de 1956 (Rothbard 1956). Esse escritor pode atestar pessoalmente a excitação gerada pela maneira lúcida pela qual este artigo empregou insights austríacos para iluminar questões teóricas fundamentais (a respeito das quais a economia contemporânea estava debatendo) e pela erudição característica que Rothbard derramou naquele único ensaio. Independentemente de alguém ter aceitado totalmente as conclusões de Rothbard, era impossível não vislumbrar o poder do pensamento misesiano consistente que esse artigo exemplifica tão excelentemente. O presente capítulo, escrito trinta anos depois, procura reexaminar uma pequena parte do terreno coberto pelo ensaio de Rothbard. Ao oferecer uma perspectiva austríaca moderna sobre economia do bem-estar social, enfatizaremos alguns dos mesmos princípios básicos austríacos nos quais Rothbard tão corretamente insistia trinta anos atrás. Embora nossa perspectiva possa não coincidir inteiramente com algumas das conclusões de Rothbard, arriscamo-nos a esperar que nossas observações sobre a economia do bem-estar social sejam consideradas na mesma tradição subjetivista e metodologicamente individualista que o trabalho de Rothbard tem levado tão valiosamente por tantos anos.

ALGUMAS OBSERVAÇÕES RELATIVAS À ECONOMIA DO BEM-ESTAR SOCIAL

A economia do bem-estar social, em suas inúmeras encarnações, procurou oferecer critérios pelos quais fosse possível avaliar cientificamente os méritos econômicos de instituições, partes da legislação ou eventos específicos. Essa avaliação transcenderia as estreitas preocupações econômicas de indivíduos específicos cujos interesses possam estar envolvidos e expressar, de alguma forma, uma perspectiva que flui dos interesses econômicos de todos os indivíduos da sociedade. Como veremos, os economistas austríacos têm sido particularmente sensíveis às dificuldades que envolvem esse compromisso. De fato, muitas das dificuldades foram reconhecidas repetidamente pela profissão econômica em geral, e é por essas razões, é claro, que a economia do bem-estar social passou por tantas tentativas de reconstrução “desde o início”.

Examinaremos brevemente o mais importante dessas tentativas de uma perspectiva que busca aplicar consistentemente as seguintes preocupações austríacas (relacionadas):

  1. Individualismo metodológico: nos recusaremos a reconhecer o significado nas declarações relativas ao ‘bem-estar da sociedade’ que não possam, em princípio, ser inequivocamente traduzidas em declarações relativas aos indivíduos na sociedade (de uma maneira que não cause violência à sua individualidade).
  2. Subjetivismo: não devemos nos contentar com afirmações que consideram o bem-estar econômico da sociedade expressado em termos (como produção física) que não estão relacionados às avaliações e escolhas feitas pelos indivíduos.
  3. Ênfase no processo: estaremos interessados ​​no bem-estar econômico da sociedade, não apenas em termos de seu nível de bem-estar econômico (embora definido), mas também em relação à capacidade dessas instituições de estimular e apoiar esses processos econômicos dos quais depende a obtenção do bem-estar econômico.

ECONOMIA DO BEM-ESTAR SOCIAL – ALGUNS DESTAQUES DO PASSADO

1. Durante o período da economia clássica, naturalmente, foi dado como certo que uma sociedade era economicamente bem-sucedida estritamente na medida em que conseguia obter maior riqueza. A investigação de Adam Smith sobre a natureza e as causas da riqueza das nações expressou essa abordagem da economia do bem-estar social de maneira simples e típica. Foi dado como certo que um determinado aumento percentual na riqueza física de uma nação (com a riqueza muitas vezes vista como consistindo de alqueires de “milho”) significou um aumento percentual semelhante no bem-estar social da nação. Nesta perspectiva, uma medida física da riqueza de uma nação fornece um índice do sucesso econômico dessa nação, independentemente de sua distribuição. Um alqueire de trigo é um alqueire de trigo. Claramente, essa noção de bem-estar social ofende os princípios do individualismo metodológico e do subjetivismo; e foi varrida pela revolução marginalista (subjetivista) do final do século XIX.

2. Marshall e Pigou procuraram preservar certos elementos centrais da abordagem clássica, evitando a armadilha que vê o bem-estar social identificado com (ou diretamente proporcional à) riqueza física em si. Eles concentraram a atenção não nos próprios bens, mas na utilidade desses bens. Em princípio, a riqueza física de uma nação, dado seu padrão de distribuição, correspondia a um determinado nível de utilidade agregada. Além disso, acreditavam que esse agregado fosse mensurável, em princípio, pela “haste de medição da moeda”. Eles não sentiram nenhum problema ao conceber a “utilidade agregada”; pensavam na utilidade como algo que poderia ser comparado e agregado entre indivíduos. Certamente não viam a utilidade como associada exclusivamente a um ato de escolha individual; viam como uma espécie de sombra psicológica que acompanhava de perto a riqueza física. (Sua vantagem central sobre a riqueza, como um índice de bem-estar social, era a incorporação do refinamento da utilidade marginal decrescente. Não era mais aceitável considerar que um alqueire de trigo era idêntico, em termos de bem-estar social, a cada alqueire de trigo: a margem de consumo do indivíduo deve ser considerada, Mas ainda era considerado válido tratar o valor de um dólar em utilidade como equivalente ao valor de um segundo dólar em utilidade.)

Essa abordagem da economia do bem-estar social é claramente inaceitável para os economistas que absorveram as lições misesianas (e rothbardianas) sobre o verdadeiro significado da utilidade na análise econômica. A utilidade, para os austríacos, não é uma quantidade de experiência psicológica; é apenas um índice de preferência, expresso em atos de escolha. Tentar agregar utilidade não é apenas violar os princípios do individualismo e subjetivismo metodológico (tratando as sensações de diferentes indivíduos como capazes de serem somadas), é envolver-se em um exercício totalmente sem sentido: a análise econômica não tem nada a dizer sobre sensações; trata estritamente de escolhas e suas implicações interpessoais.

3. A abordagem da economia do bem-estar social que, naturalmente, tem sido central na economia no último meio século é a que gira em torno da noção da otimização de Pareto. Uma mudança é vista como uma melhoria do bem-estar econômico da sociedade, se melhorar alguns de seus membros (na sua opinião) sem piorar outros. Essa abordagem certamente evita os problemas das comparações interpessoais de utilidade e, portanto, parece ser consistente tanto com o individualismo metodológico quanto com o subjetivismo que os austríacos insistem. Vários pontos, no entanto, precisam ser notados.

Embora a noção de otimalidade de Pareto esteja realmente preocupada com os membros individuais da sociedade, ela reflete uma concepção supraindividual da sociedade e de seu bem-estar social. Afinal, um movimento ótimo de pareto é considerado promovendo o bem-estar da sociedade – como um todo. Caso contrário, não está claro o que é adicionado (à observação insignificante de que a mudança é preferida por alguns e contestada por ninguém) pelo julgamento de que a mudança é “boa para a sociedade”. De fato, o critério de Pareto acabou se tornando um elemento integral no desenvolvimento da ideia de que a sociedade enfrenta um “problema econômico” – o de alocar seus recursos entre seus objetivos concorrentes da maneira mais eficiente. A ineficiência social na alocação de recursos passou a ser identificada com subotimalidade de acordo com o critério de Pareto.

Agora, essa noção da sociedade que enfrenta seu problema econômico no sentido da alocação de recursos surgiu, como é bem conhecido, como uma extensão do conceito de comportamento econômico individual que foi articulado de forma tão definitiva por Lionel Robbins em 1932. Mas, como foi reconhecido até agora, essa extensão é de fato uma extensão ilegítima, nem um pouco fiel ao espírito da formulação de Robbins. Robbins estava preocupado em identificar o problema econômico que o indivíduo enfrenta. É o indivíduo que tem objetivos e que invoca deliberadamente seus recursos percebidos, a fim de alcançar seus objetivos com mais eficiência, na medida do possível. Transferir esse importante conceito de escolha alocativa individual para a sociedade como um todo é, na melhor das hipóteses, envolver-se em metáforas. A sociedade, como tal, não possui objetivos próprios nem se envolve deliberadamente na escolha alocativa. Na medida em que a ideia do ótimo de Pareto veio reforçar a noção errônea e enganosa do “problema econômico” da sociedade; isso fez parte de uma abordagem à análise do bem-estar econômico que ficou gravemente aquém da aderência consistente aos princípios do individualismo metodológico.

HAYEK E A CRÍTICA DA ECONOMIA DO BEM-ESTAR SOCIAL

Foi contra essa noção dominante de sociedade e seu suposto problema de alocação que o famoso artigo de Hayek de 1945 (Hayek 1949b) foi dirigido. É verdade que o ataque de Hayek pode ser visto como não sendo primariamente contra a noção de bem-estar social isso foi incorporado à ideia do problema econômico da sociedade. Hayek se concentrou nas circunstâncias do conhecimento disperso. A informação relevante que a “sociedade” teria que possuir para resolver seu problema econômico é amplamente dispersa. Portanto, a sociedade simplesmente não está em posição de abordar seu suposto problema econômico (mesmo que, para fins de discussão, essa tarefa alocativa da sociedade possa ser considerada significativa). A crítica de Hayek pode, portanto, ser vista como enfatizando os problemas que obstruem a solução prática do problema econômico de uma nação, e não como uma crítica da concepção mainstream desse problema em si. Mas o artigo de Hayek constituiu, no entanto, uma profunda
– se indireta – crítica da própria significância da eficiência social desenvolvida, por exemplo, no contexto paretiano.

Pois, uma vez que se reconhece que a informação relevante está inevitavelmente e definitivamente dispersa entre muitas mentes, é impossível evitar a conclusão de que a noção de eficiência social é correspondentemente desprovida de significado. A eficiência social deve se referir à extensão em que a alocação de recursos sociais corresponde às prioridades implícitas nas urgências relativas dos objetivos sociais. Mas, para que a noção de “recursos sociais” seja significativa, e para que a noção de “urgências relativas de objetivos sociais” seja significativa, deve, pelo menos em princípio, ser possível imaginar uma mente única para a qual as matrizes relevantes de recursos sociais e objetivos sociais são dadas simultaneamente. A visão de Hayek sobre o conhecimento disperso era, com efeito, negar tal possibilidade. Assim, o conhecimento disperso acaba sendo não apenas um fenômeno que constitui uma dificuldade prática com a qual os pretensos planejadores devem lidar, mas um fenômeno (não necessariamente o único) que rouba o próprio conceito de eficiência social de sua importância, mesmo em princípio. Escolher pressupõe uma estrutura integrada de fins e meios; sem essa estrutura presumida, a escolha alocativa dificilmente é uma noção coerente (Buchanan, 1964). A percepção de Hayek sobre o subjetivismo do conhecimento e da informação desalojou decisivamente os fundamentos da economia do bem-estar paretiano, pelo menos na medida em que esses fundamentos foram mantidos para apoiar o conceito de escolha social e eficiência social. (Trabalhos mais recentes de Hayek e outros desse subjetivismo da informação para abranger também a ideia de Polanyi de “conhecimento tácito” – conhecimento incapaz de ser deliberadamente comunicado a outras pessoas – tornaram essas implicações já prejudiciais para a economia de bem-estar social mainstream ainda mais destrutivas. (Hayek 1979: 190)

COORDENAÇÃO COMO CRITÉRIO DE BEM-ESTAR SOCIAL HAYEKIANO

Vários escritores, perseguindo as implicações desses insights hayekianos, viram o conceito de ‘coordenação’ como uma medida normativa consistente com esses insights subjetivistas e metodologicamente individualistas (Kirzner 1973: Cap. 6; O’Driscoll 1977). Como discutido, a noção de escolha social (e, portanto, a eficiência dessa escolha) foi fatalmente prejudicada (exceto no nível da metáfora). Se Jones (que prefere a comida de Smith ao prazer de um dia de folga) não comercializar com Smith (que prefere o trabalho de Jones em detrimento da sua própria comida), podemos não ser capazes de dizer que a sociedade falhou com eficiência na alocação de comida e tempo de trabalho entre Jones e Smith, mas certamente ainda poderíamos dizer que Jones e Smith falharam em coordenar suas atividades e suas decisões. Parece plausível e intuitivamente atraente perceber a coordenação – permitindo que cada agente alcance seus objetivos através da satisfação simultânea dos objetivos do outro agente – como constituindo um desiderato que transcende os objetivos individuais dos respectivos agentes. O fracasso em alcançar a coordenação pode, portanto, ser visto como um fracasso do aparato social em obter um resultado supraindividual – mas esse julgamento não se baseia em nenhuma noção inconsistente com o subjetivismo ou com o individualismo metodológico.

É claro que o cumprimento da norma de coordenação parece ser formalmente equivalente ao cumprimento do critério de bem-estar paretiano. Qualquer situação subótima (no sentido paretiano) corresponde claramente ao fracasso de um par de participantes do mercado em negociar entre si em termos viáveis ​​e mutuamente atraentes – em outras palavras, corresponde a um fracasso em obter a coordenação. Mas, diferentemente da norma paretiana, a norma de coordenação escapa à interpretação como um parâmetro para a eficiência social na escolha da alocação social. A coordenação não se refere ao bem-estar social alcançado através de sua realização bem-sucedida; refere-se apenas ao caráter de encaixe das atividades que o compõem.

Assim, a ênfase de Hayek no caráter disperso do conhecimento parece fornecer não apenas a crítica definitiva da economia de bem-estar paretiana mainstream, mas também a base para um critério normativo alternativo, completamente consistente com o princípio do individualismo metodológico. O escopo desse novo critério normativo é fornecido precisamente pela circunstância do conhecimento disperso. O conhecimento fragmentado é responsável por atividades que não são coordenadas mutuamente. O problema “social” enfrentado pela sociedade econômica de Hayek é precisamente a de superar a descoordenação que se espera que saia dessa fragmentação.

Há uma questão mais profunda aqui. Se alguém abstrai do caráter fragmentado da informação, se alguém trata toda a informação existente como se fosse conhecida por todos os participantes do mercado, é claro que abstrai da possibilidade de atividades descoordenadas. Com o “problema econômico” de Hayek assumido como estando fora do caminho dessa maneira, pode parecer que o problema econômico mainstream (paretiano) volte a ser invulnerável às restrições de Hayek. O problema que a sociedade enfrenta, sob tais suposições, parece reduzir-se ao de alcançar o ótimo de Pareto em relação aos objetivos sociais relevantes, diante de seus recursos limitados. Mas, certamente, se afastarmos o caráter disperso da informação, o problema econômico mainstream que a sociedade enfrenta não apresenta nenhum desafio. Se pudermos assumir que o que é conhecido de todos é conhecido por todos, então (desviando o olhar das queixas restantes que o individualista metodológico pode ter contra o conceito de eficiência social), parece difícil imaginar a possibilidade de qualquer alocação social de recursos possa ser declarada socialmente ineficiente. Dado o conhecimento mútuo perfeito, parece óbvio que todos os possíveis movimentos ótimos de Pareto já devem ter sido implementados. Imaginar o contrário seria imaginar que os agentes evitam deliberadamente aproveitar as oportunidades disponíveis conhecidas por eles. O conhecimento de todas essas oportunidades e o conhecimento de todos os custos de transação relevantes devem parecer inevitavelmente levando ao ótimo de Pareto (dados esses custos de transação) – alcançados por meio da atividade de mercado ou de uma organização centralizada (com a última escolha determinada pela comparação dos respectivos custos de transação).

Portanto, as ideias de Hayek sobre o conhecimento fragmentado podem parecer fornecer não apenas uma crítica dos critérios de bem-estar social mainstream, e também um critério substituto (em termos da norma de coordenação) – como podem parecer ao mesmo tempo salvando a economia do bem-estar social da extinção a qual seria condenada pela inevitabilidade da otimização perpétua. Mas a situação não é tão simples.

HAYEK NO MUNDO PANGLOSSIANO

A verdade é que muitas das observações feitas nas seções anteriores podem parecer vulneráveis ​​a sérios desafios. Parece que esses desafios podem ser lançado em vários níveis distintos, com os desafios decorrentes precisamente da paralisia consequente da inevitabilidade da otimização perpétua. Por um lado, pode parecer que a circunstância do conhecimento fragmentado não salve a economia do bem-estar social da extinção marcada pela otimização perpétua. Além disso, pode-se argumentar que as ideias de Hayek de fato aprofundam as perplexidades criadas por essas preocupações panglossianas. Na presente seção, desenvolveremos esses desafios. Nas seções subsequentes, refutaremos esses desafios, mostrando como as observações feitas nas seções anteriores em relação à economia do bem-estar social de Hayek podem ser defendidas (apesar dos desafios desenvolvidos na presente seção). Além disso, usaremos nossa discussão para apontar um novo sentido no qual a “coordenação” oferece um critério normativo que escapa à paralisia panglossiana. (Será no contexto desta última discussão que empregaremos o terceiro dogma austríaco mencionado no início deste capítulo, o de manter uma preocupação com os processos, e não exclusivamente com os fatos.) Passamos agora a desenvolver os aparentes desafios à economia do bem-estar social de Hayek, mencionados no início desta seção.

As dificuldades que devemos enfrentar, ao considerar a tese hayekiana de conhecimento e informação dispersos, consistem no fato de que, de uma perspectiva dominante, o “problema do conhecimento” hayekiano pode parecer não ser um problema, num sentido relevante (ver Capítulo 9). Afirmar que o conhecimento está disperso na sociedade é, pode-se argumentar (contrariamente às nossas afirmações anteriores), não necessariamente observar que a análise mainstream de bem-estar social é inaplicável – é apenas salientar que essa análise de bem-estar social mainstream deve ser realizada no contexto de um custo até agora insuspeito, o custo de apurar e de comunicar informações. A dispersão de conhecimento e informação realmente introduz novos custos para a aquisição do conhecimento necessário para a escolha econômica. Mas certamente a presença de uma nova classe de custos não torna, em princípio, inaplicável o critério padrão para a avaliação da eficiência social.

Além disso, uma vez que se reconhece que a fragmentação da informação complica a análise mainstream do bem-estar social sem viciá-la, parece apropriado salientar que a paralisia panglossiana mencionada anteriormente oferece ameaças tão sérias a uma abordagem baseada na “coordenação” da análise do bem-estar social quanto para a abordagem convencional. Afinal, qualquer discussão sobre Jones e Smith “coordenando” suas atividades deve se referir a um potencial de coordenação no contexto das restrições de recursos relevantes que as respectivas partes enfrentam. Certamente, portanto, a disponibilidade e o custo da aquisição de informações devem ser contados como parte dessas “restrições relevantes de recursos”. Se o engenheiro Jones, pai, e o fazendeiro Smith puderem trocar serviços de engenharia por alimentos, com ganhos mútuos, pode parecer que apenas uma falha de coordenação poderia impedir que essa troca ocorresse. Mas isso não constituirá um fracasso de coordenação se Jones, filho, estudante, abster-se de se matricular em um programa de engenharia em sua graduação, se os custos do programa de treinamento forem muito altos. Da mesma forma, pode parecer que todas as “falhas” de coordenação atribuíveis à fragmentação do conhecimento hayekiano acabem não sendo falhas, uma vez que se considera adequadamente o custo da busca das informações necessárias para suprir as lacunas dispersas do conhecimento. Se Jones, pai, e Smith não conseguem se envolver em trocas mutuamente lucrativas como resultado da dispersão do conhecimento, não estão, pode-se afirmar, agindo de forma subótima do ponto de vista social; estão aproveitando totalmente a disponibilidade um do outro no contexto de seu conhecimento limitado da situação um do outro. Declarar que esse estado de coisas é socialmente ineficiente ou “descoordenado” pode parecer sucumbir a uma tentação contra a qual a economia elementar é advertida, a saber, a de pronunciar julgamentos de bem-estar social sem considerar a escassez de recursos. Pode-se contar com os participantes de uma economia para se envolverem em transações de trocas mutuamente lucrativas, na medida em que seus conhecimentos permitirem. Além disso, na medida em que os participantes estejam cientes das possibilidades que valem a pena aprender informações úteis que possam revelar oportunidades ainda não exploradas de ganho mútuo, certamente podem contar com isso para se envolverem em aprendizagens úteis. Parece, então, que, em um mundo de informações dispersas, como em um mundo de onisciência, não se pode postular a existência de subótimo ou estados de descoordenação (se alguém incluir adequadamente os custos de aquisição de informações).

De fato, pode-se afirmar que são precisamente os insights das informações dispersas de Hayek que são capazes de focar a atenção necessária nos custos do aprendizado e da comunicação do conhecimento. Uma vez abandonada a suposição paralisante do conhecimento perfeito, torna-se impossível evitar a luta com a economia do aprendizado e da comunicação. Nossa afirmação até agora é que, uma vez que essa economia do aprendizado e da comunicação tenha sido levada em consideração, a paralisia perpétua da idealidade panglossiana se instala mais uma vez. Em todos os momentos, os agentes estarão envolvidos na combinação ideal de decisões (incluindo decisões para aprender e se comunicar). Nenhum par de decisões pode ser declarado descoordenado, dados os custos de aprendizado.

CONHECIMENTO DISPERSO, IGNORÂNCIA ÓTIMA E ERRO GENUÍNO

Descobriremos, no entanto, que essas alegações são inválidas. A paralisia panglossiana que descobrimos afetar a economia de bem-estar social mainstream não é uma ameaça à abordagem da coordenação hayekiana. Não é o caso, veremos, que a fragmentação da informação de Hayek não complica nada mais, exceto a introdução de um novo custo. Pelo contrário, a dispersão do conhecimento cria espaço para uma abordagem genuinamente nova da análise normativa. Isso ocorre porque essa dispersão de conhecimento envolve necessariamente não apenas novos custos (de aprendizado e comunicação), mas também a possibilidade muito real do que podemos chamar de “erro genuíno”.

Este escritor argumentou em outro lugar (Kirzner 1979a: cap. 8; 1985a) que o erro genuíno, tantas vezes exorcizado da análise econômica, na verdade merece um lugar central nessa análise. Erro genuíno ocorre quando a ignorância de um tomador de decisão não é atribuível aos custos de busca, aprendizado ou comunicação. Nesses casos, a ignorância do tomador de decisão é de ignorância total, ou seja, é o resultado de sua ignorância de caminhos disponíveis, com boa relação custo-benefício, para as informações necessárias (o que inclui, é claro, a possibilidade dele ser totalmente ignorante da própria existência de informações valiosas em formação). No nível do tomador de decisão individual, podemos descrever sua atividade como subótima, quando subsequentemente se descobrir ignorando inexplicavelmente as oportunidades disponíveis que realmente valeriam a pena. Ele não pode “perdoar” ​​sua tomada de decisão com base no custo de aquisição de informações, uma vez que as informações estavam realmente disponíveis para ele. Ele pode explicar seu fracasso apenas reconhecendo sua total ignorância das verdadeiras circunstâncias (ou seja, sua ignorância da disponibilidade de informações relevantes a um baixo custo). Essa total ignorância não pode ser explicada em termos de custo-benefício; é simplesmente um dado.

Duas implicações do fenômeno da ignorância total, do erro genuíno, podem ser observadas. Primeiro, a injeção no raciocínio econômico da possibilidade de erro genuíno introduz um grau de “folga” em nossa compreensão dos processos econômicos que é de grande importância. Não é mais verdade que a configuração de variáveis ​​exógenas, gostos, disponibilidades de recursos e possibilidades tecnológicas marca inequivocamente o curso das atividades individuais. Isso ocorre porque, enquanto esses dados marcam as melhores oportunidades, não podemos ter certeza de que essas oportunidades ótimas serão conhecidas pelos tomadores de decisão relevantes – mesmo se prevermos processos deliberados de busca e aprendizado. Não podemos ter certeza de que os processos disponíveis de busca e aprendizado sejam conhecidos daqueles que podem se beneficiar deles. A segunda implicação (decorrente do reconhecimento do fenômeno do erro genuíno) é que agora devemos reconhecer a possibilidade de ações corretivas em uma economia que não devem ser atribuídas a mudanças nos padrões de custo. A ação corretiva pode ser desencadeada pela descoberta repentina (“empreendedora”) por um participante do mercado de uma oportunidade até então não percebida para obter lucro puro. Voltemos agora a examinar as informações dispersas de Hayek.

Nós objetamos que a introdução da necessidade de busca, aprendizado e comunicação dispendiosos (imposta a nós pelo insight de Hayek) não ameaça realmente a visão da economia mainstream. A fragmentação do conhecimento, como apontamos, apenas introduziu uma dimensão de custo adicional – a de mobilizar e centralizar bits de informação dispersos. Vemos agora que é provável que a fragmentação do conhecimento afete os assuntos muito mais seriamente e fundamentalmente. A fragmentação do conhecimento injeta no escopo da imagem erros genuínos, resultantes da ignorância total. Prosseguindo mais uma vez a linha de raciocínio introduzida anteriormente (e posteriormente contestada na seção anterior), a circunstância de conhecimento disperso e fragmentado nos obriga a não apenas reconhecer uma dificuldade prática a ser encontrada na tentativa de resolver o problema de eficiência alocativa da sociedade – essa circunstância mina e muito o significado de um “problema econômico” social. Dada a margem de erro genuíno que agora vemos implícita na circunstância de informação dispersa, vemos que essa circunstância realmente erode o significado do conceito de eficiência alocativa social. Antes mesmo de começarmos a contemplar o que podemos dizer com eficiência alocativa social, devemos de alguma forma enfrentar o problema de superar essa ignorância total que obstrui a relevância do conceito de eficiência para a política social. É aqui que a norma de ‘coordenação’ deve ser percebida sob uma nova luz, bastante diferente daquela norma de coordenação discutida anteriormente.

DOIS TIPOS DE COORDENAÇÃO

Devemos distinguir cuidadosamente entre (a) uma possível norma de coordenação no sentido de um estado de coisas coordenado e (b) uma possível norma de coordenação no sentido da capacidade de detectar e avançar na correção de situações nas quais as atividades até agora foram descoordenadas (veja também o Capítulo 8). A distinção entre essas duas possibilidades corresponde aos dois significados diferentes da palavra ‘coordenação’: pode se referir às atividades que estão sendo realizadas quando essas atividades estão realmente se encaixando; alternativamente, pode se referir ao processo através do qual as atividades inicialmente descoordenadas e discordantes estão de alguma forma sendo elaboradas de maneira a abordar um padrão de atividades mais harmonioso. A discussão anterior neste artigo implicitamente se referia à coordenação apenas no primeiro desses dois sentidos. (É por esse motivo que conseguimos observar a equivalência formal entre a norma de coordenação e a eficiência de Pareto.) Desejamos agora chamar a atenção para a possível relevância da segunda norma de coordenação para uma abordagem austríaca moderna à economia do bem-estar social.

Depois que identificamos o erro genuíno como um culpado responsável por uma falha do sistema econômico de uma sociedade em cumprir suas funções com sucesso, nos colocamos em posição de apreciar o significado desta segunda norma de coordenação. Sem o fenômeno da ignorância total, como vimos, nosso primeiro conceito de coordenação (como seu equivalente paretiano) acabou sendo de pouco interesse normativo. Afinal, observamos que, dada a ausência de ignorância total, todas as atividades devem ser realizadas da melhor maneira possível. Mesmo que algumas atividades estejam sendo realizadas ‘erroneamente’, por causa de informações incompletas, vimos, dificilmente poderíamos descrevê-las como subótimas ou ‘erradas’ – afinal, elas se aproveitavam de todos os fragmentos de informações que julgavam valiosas disponíveis. Nesse sentido, o mundo está sempre em um ponto ideal de Pareto, em um estado de total coordenação – o melhor de todos os mundos possíveis, dados os custos da mudança. Mas a injeção da possibilidade de erro genuíno decorrente da ignorância total nos apresenta a possibilidade de descoordenação genuína – e a possibilidade de avaliar o ambiente institucional em termos de seu potencial de inspirar descobertas genuínas (de oportunidades anteriormente negligenciadas como resultado da ignorância total). Assim, uma norma de coordenação aparece no centro do palco, no sentido de nos permitir perguntar qual o potencial da economia de uma sociedade para inspirar uma descoberta tão pura de seus erros genuínos anteriores. Essa abordagem da economia do bem-estar social é possível graças à nossa fuga do mundo panglossiano; essa fuga foi, por sua vez, tornada possível por nossa ênfase no erro genuíno (decorrente da ignorância total); vimos neste capítulo que a margem para erro genuíno é ampliada consideravelmente pela circunstância de informações dispersas e fragmentadas identificadas por Hayek. É por esse motivo que vemos as críticas de Hayek às abordagens mainstream da análise do bem-estar social como abrindo as portas, ao mesmo tempo, para a possível reconstrução da economia normativa segundo linhas verdadeiramente austríacas, ou seja, de maneira totalmente consistente com o (a) subjetivismo, (b) individualismo metodológico e (c) ênfase em processos dinâmicos.