[ Did inequality cause the First World War? Contra Hobson-Lenin-Milanovic – Tradução de Armando Martins ]

“A Tese Hobson-Lênin”: Desigualdade, Imperialismo e a Primeira Guerra Mundial

Em uma pequena seção no seu novo livro, Branko Milanovic argumenta que a Primeira Guerra Mundial foi causada em última análise pela desigualdade de renda e riqueza entre os países beligerantes, ressuscitando as ideias de John A. Hobson, Rosa Luxemburgo e Lênin. O argumento básico: alta desigualdade doméstica → ‘subconsumo’ das massas e poupança de ‘excedente’ pelas elites → exportação de capitais, isto é, procura por destinos além-mar de investimentos → a “disputas por colônias” e imperialismo → (uma causa maior da) GUERRA.

Eu examino cada elemento nessa linha de raciocínio e rejeito a visão da “Primeira Guerra Mundial endógena”.

Primeiramente, eu na verdade recomendo o livro Global Inequality: A New Approach for the Age of Globalization. Seu escopo é muito mais cosmopolita e histórico, e muito mais orientado à questão da pobreza e desenvolvimento econômico do que outros livros recentes sobe a desigualdade. Mas você pode ler boas resenhas de Duncan GreenMartin Wolf, e Francisco Ferreira para obter mais informações sobre o livro. Ou ver a própria apresentação de Milanovic de seu livro, seguida por um fantástico comentário de Suresh Naidu.

No entanto eu, tendo uma inclinação para o debate, prefiro focar na tese de Milanovic de “endogeneização” da Primeira Guerra Mundial que tanto discordo. Eu sempre quis um pretexto para argumentar contra ela. Mas ela ganha pouca atenção mesmo entre historiadores econômicos, ou na grande historiografia sobre a Primeira Guerra, pois poucas pessoas pensam que essa ideia é válida. Até o Piketty fez apenas uma breve passagem sobre o tema.

Aqui está Milanovic endogeneizando a Primeira Guerra:

“Eu argumento que o início da Primeira Guerra Mundial, e portanto a redução da desigualdade subsequente a essa guerra são endogeneizadas pelas condições econômicas antecedentes à Guerra, pela qual eu quero dizer que as desigualdades domésticas desempenharam um importante papel no desenvolvimento da guerra. Neste argumento eu remonto a uma interpretação mais antiga, e, na minha opinião, mais persuasiva sobre o começo da Primeira Guerra Mundial. De acordo com esta interpretação, a guerra foi causada pela competição imperialista, imersa nas condições econômicas domésticas da época: desigualdades muito grandes de renda e riqueza, muita poupança das classes mais altas, demanda agregada insuficiente e a necessidade dos capitalistas de encontrar usos rentáveis para as poupanças de excedentes fora de seus próprios países. No começo do século XX, encontrar um destino para investimentos externos para as poupanças de excedentes significava ter o controle físico de um lugar, e fazer tal investimento rentável requeria que outros possíveis investidores fossem excluídos mesmo a custo de uma guerra […] Esta ‘luta competitiva por mercados’ levou à exploração das colônias. Sucesso econômico requeria a criação de colônias, protetorados ou dependências, e introduzindo o que Paul Bairoch havia chamado de contrato colonial. O contrato colonial era definido pelos seguintes elementos: colônias podiam comercializar apenas com a metrópole, com bens transportados pelos navios da metrópole, e colônias não podiam produzir bens manufaturados (Bairoch 1997, 2: 665– 669; veja também Milanovic 2002b). A disputa por colônias na África foi acirrada pelos interesses dos capitalistas europeus (ver Wesseling 1996). Uma similar, e quase igualmente brutal, disputa por novos territórios se realizou na Sibéria, onde a Rússia se expandiu para o leste, e nas Américas, onde os Estados Unidos se expandiram para o oeste para anexar territórios mexicanos, e para o sul para reforçar o controle político. Gana, Sudão, Vietnã, Argélia, Filipinas, Califórina e Sibéria foram todos partes do mesmo processo. As linhas gerais do argumento que apresento aqui não são novas. Localizando no arcabouço das ondas de Kuznets é que é novo. No século XX, o argumento ligando colonialismo à má distribuição de renda doméstica foi feita por John Hobson no seu livro ‘Imperialism: A Study’ ([ 1902] 1965). A ideia foi seguida pelos trabalhos de Rosa Luxemburgo em 1913 (‘The Accumulation of Capital’) e Vladimir I. Lênin em 1916 (‘Imperialism, the Highest Stage of Capitalism‘). Como coloca Hobson, ‘não é o progresso industrial que demanda a abertura de novos mercados e áreas de investimento, mas a má distribuição do poder de compra [minha ênfase] que previne a absorção das mercadorias e do capital pelo país’ (p.85). Há toda uma tradição que relaciona a má-distribuição de renda à expansão externa que remonta desde Marx, mesmo que Marx não desenvolva tanto quanto desenvolveram Hobson, Luxemburgo e Lênin. O objetivo desse livro não é discutir essa visão e comparar com outras, mas o ponto é que, estudando as causas que levaram à Primeira Guerra Mundial, problemas domésticos, e em especial a alta desigualdade são de suma importância. A Primeira guerra […] foi causada por fatores estruturais muito profundas, dentre as quais a ‘má distribuição do poder de compra’ doméstico seja talvez a mais importante. Para ser bem claro, por que é um ponto importante: as forças malignas que desarmaram o primeiro ciclo de Kuznets e levaram a desigualdade dos países ricos a uma trajetória descendente para os próximos setenta anos estavam contidas na desigualdade doméstica insustentavelmente alta que existia antes.”

(O argumento apenas tomou em torno de duas páginas do livro, mas é um importante elemento da teoria da desigualdade de Milanovic baseada nas Ondas de Kuznets, o que eu também não acho que sejam reais. Estou do lado de  Lindert & Williamson: não há leis gerais de desigualdade.)

E eu nunca havia pensado que a tese de imperialismo de Hobson-Lênin fazia tanto sentido, na sua aparência. Por que você precisaria de “poupança de excedente” para colonialismo e imperialismo? Os Estados Unidos de hoje, que muitos podem considerar “o” imperialista por excelência, tem sido um importador líquido de capital, desde os anos 1980. No século XIX, Espanha, Portugal, Turquia, Rússia, os EUA (até mais ou menos 1896), Japão e Itália eram todos importadores líquidos de capital, e todos tinham ou impérios ou embarcaram em grandes aquisições coloniais. Rússia e os EUA, como mencionados pelo Milanovic anteriormente, tinham recentemente trazido grande fração do território mundial sob seu comando.

SE investimento estrangeiro requer colônias e imperialismo, grandes volumes brutos não são suficientes? Você pode ter zero “poupança de excedentes” mas ainda haver grande saída bruta de capitais. Então eu não consigo ver por que haveria em princípio uma ligação entre desigualdade e imperialismo.

Mas esse é um ponto menor. O que é mais interessante é que há falhas em todos os pontos intermediários entre desigualdade e imperialismo na tese Hobson-Lênin.

  1. A “má-distribuição” de renda explica a exportação de capital europeu?
  2. O ditado colonial de Bairoch é exagerado.
  3. A geografia da exportação de capital europeu
  4. Não havia competição imperialista por destinos de investimentos.
  5. O imperialismo levou à guerra na Europa?

A “má-distribuição” de renda explica a exportação de capitais europeus?

Na metade de século antecedente à Primeira Guerra Mundial, vários países europeus eram grandes exportadores líquidos de capital, mas o adjetivo adequado para o Reino Unido era massivo. Quase um terço de toda a riqueza nacional líquida do Reino Unido em 1913 estava alocada fora do país. No seu pico, quase metade da poupança anual do Reino Unido estava investida fora, o que implicava quase 7% da renda nacional britânica. Por comparação, o segundo e terceiro lugares, França e Alemanha, eram retardatários.

Hobson atribuiu essas exportações de capital à “poupança de excedente” das elites e, por implicação, o “subconsumo” das massas. Lênin adotou um argumento similar, mas com uma pequena diferença (que mais tarde se tornará relevante).

Sim, tudo mais o mesmo, menos desigualdade → mais consumo agregado, assumindo que nos estratos menores da distribuição de renda há uma propensão marginal a consumir maior que os estratos maiores.

No General Theory, Keynes criticou Hobson por equalizar poupança e investimento [Editado: Agradecimentos a Jo Michell: “Keynes criticou Hobson por assumir que poupança ‘causa’ investimento.] Mas Hobson estava falando de uma insuficiência estrutural, de longo prazo, da demanda que poderia ser bastante insensível com a taxa de juros. E eu posso acreditar que no começo do século XX havia bastante demanda reprimida, restrita principalmente por renda. Questionários nutricionais conduzidos no Reino Unido no começo do século XX sugerem que “dez porcento da população consumia uma dieta que era inadequada em todos os aspectos, enquanto mais quarenta porcento consumia uma dieta que era deficiente em proteínas, vitaminas e minerais; apenas uma a cada dez pessoas desfrutava de uma dieta que era adequada em todos os aspectos.” [Floud 2011].

Então, sim, é possível que o Reino Unido antes da Guerra sofria de uma espécie de estagnação secular. E, em um “contrafactual à Hobson” com uma redistribuição mágica de renda de poupadores para consumidores, a exportação de capitais do Reino Unido provavelmente teria sido reduzida.

Mas há vários problemas.

Hobson acreditava que a indústria britânica “superproduzia” e tinha que vender o “excedente” fora, e isto foi a fonte das altas poupanças (altos lucros). Mas a realidade é que pelos anos de 1870 (pelo menos) o Reino Unido havia um déficit todo ano na balança comercial de mercadorias. Isto vai contra o esteriótipo do Reino Unido Vitoriano como a “oficina do mundo”, a gigante manufatureira e exportadora que destruía a indústria nativa por todo o globo. Mas a importação de alimentos e matérias primas consistentemente excediam as exportações de produtos manufaturados por grandes proporções. [Gráfico 1]

Gráfico 1. Balança de pagamento como percentual do PNB, 1870–1939” de Harley em Floud & Johnson (2004)

O que compensavam eram os ganhos na troca dos “invisíveis” – os ganhos britânicos pelos serviços financeiros, de frete, seguro e outros serviços globais, assim como os lucros dos largos investimentos estrangeiros. Na verdade, esses ganhos além-mar eram grandes o suficiente para financiar tanto o déficit comercial quanto as necessidades de capital do Novo Mundo.

Tudo isso implica que após certo ponto “poupança de excedente” na Europa era gerada não pela produção doméstica, mas por meio da produção estrangeira, isto é, os retornos dos investimentos estrangeiros acumulados feitos no passado, não porque a economia doméstica estava produzindo mais do que importava. Colocados em termos simples PIB < PNB.

Havia também outros fatores estruturais que levavam o capital para fora, além da desigualdade, tal como a demografia e o “estágio” de desenvolvimento.

Se nós formos para os dados do Piketty sobre a renda dos mais ricos [12345], no começo do século XX a desigualdade britânica era apenas um pouquinho maior que a desigualdade francesa e a alemã, mas os salários dos trabalhadores urbanos não-qualificados da França e da Alemanha ainda eram menores que os do Reino Unido mesmo em 1913. Mesmo assim, França e Alemanha exportavam menos capital do que o Reino Unido, com a parcela de investimento estrangeiro da Alemanha sobre as poupanças totais em tendência descendente (e não ascendente) nos trinta anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. De modo mais importante, as taxas de poupança nacionais britânicas e francesas eram aproximadamente as mesmas da americana e alemã, mas em investimento doméstico Reino Unido e França < Alemanha << EUA e o Novo Mundo em geral.

Reino Unido ainda era mais desenvolvido que a França e Alemanha, e ainda devia haver retornos decrescentes de capital. Essa é a onde a diferença entre a ideia de Hobson e Lênin importa. Hobson pensava que o Reino Unido era “capaz de uma expansão indefinida” se apenas essa “poupança de excedente” ficassem no próprio país dando um poder de compra doméstico suficiente. Mas para Lênin, as taxas de retorno estavam baixas por causa que o capitalismo britânico estava nos seus suspiros de morte.

Mas se havia uma redução do ritmo de crescimento, era apenas porque, contra Lênin, o Reino Unido estava na fronteira tecnológica, tendo já construído todo seu extensivo estoque de capital como pioneiro da Revolução Industrial (McCloskey, como de costume, tem um jeito ótimo de colocar isso: o Reino Unido não poderia ter duas pontes de Forth, duas linhas de metrô de Bakerloo).

A demografia também incentivava estruturalmente altas taxas de poupança. França, a pioneira na revolução demográfica, era um país mais velho do que o Reino Unido e Alemanha, mas todos os três haviam taxas de dependência menores (menor parcela de não-trabalhadores novos e velhos) do que o Novo Mundo e a Australásia – que era para onde a maior parte do capital fluía. Taylor & Williamson (1994) encontram que talvez 2/3 dos fluxos de capitais britânicos eram explicados por diferenças nas taxas de dependência entre o Reino Unido e as regiões que importavam os capitais. (Ver, também, O’Rourke & Williamson 1999, pp 225-234.).

Meu ponto é que a desigualdade sozinha não consegue explicar a “poupança de excedente” da Europa. Diferenças internacionais na taxa de dependência e o nível de desenvolvimento eram também fatores estruturais cruciais além da distribuição de renda. Na verdade, Hobson deve ter superestimado o papel das elites e subestimado o que ele mesmo chamou de “a frugal classe média”.

O sistema imperial de comércio: o “ditado colonial” é exagerado

A “luta competitiva por mercados” gerada pelas riquezas dos excedentes da elite, diz Milanovic, requer a criação de colônias e a introdução de um “contrato colonial”. Este era algo que ele havia referenciado várias vezes no passado do trabalho Victoires et Déboires de Paul Bairoch [por exemplo, Milanovic (2003)]. Em seu blog, Milanovic acusou Niall Ferguson de mal representar o regime de comércio imperial em The Pity of War:

Como parte da mesma agenda [revisionista], o colonialismo tem feito um retorno, mais notavelmente nos trabalhos de Niall Ferguson, onde nós ficamos sabendo da “missão civilizatória” da Inglaterra e França e tal interessante e falsa factoide que as áreas colonizadas pelos britânicos eram uma área de livre comércio, enquanto Índia era forçada a vender, naquilo que Paul Bairoch apropriadamente cunhou “ditado colonial”, todas as suas matérias-primas para a metrópole. Esta seria então um monopsônio. É de fato fácil fingir que você é um defensor de livre comércio se tudo que você compra dos outros vem com desconto.

Ironicamente, o próprio Hobson teria discordado de Bairoch tal como descrito por Milanovic, uma vez que ele dedicou o capítulo 2 do livro Imperialism para argumentar o quão inútil eram as aquisições coloniais pós-1870 para expandir o comércio britânico. Hobson até mesmo argumentou que você poderia deixar a China ser capturada por outras potências europeias, e o Reino Unido ainda se beneficiaria com o mercado chinês!

Em qualquer nível, é completamente falso que a Índia era “forçada a vender […] todas as matérias primas para a metrópole”. Tanto a Índia Britânica como Egito (sob o protetorado britânico) exportavam algodão cru para os competidores do Reino Unido em manufaturas têxteis, como Alemanha, França e o Japão tardio. Japão começou sua industrialização parcialmente com o algodão indiano e, especialmente após 1918, exportavam tecidos de algodão para a própria Índia Britânica. Eu achava que isso tudo era amplamente conhecido com essa extraordinária obra de apologia imperialista, o The Empire of Cotton de Sven Beckert, que afirma: “Em 1910, apenas 6 porcento das exportações de algodão da Índia foi para a Grã Bretanha, enquanto Japão consumiu 38 porcento, e a Europa Continental 50 porcento.”

Milanovic de fato corretamente reporta o que Bairoch chama de “tipo ideal” do regime de comércio colonial, mas ele omite alguns detalhes importantes. A relação econômica entre a metrópole imperial e suas colônias não era escrita em pedra por Moisés por 500 anos, e o estereótipo mercantilista do século XVIII não se encaixa bem no período atípico na história econômica mundial que foi 1870-1914. Isto é bem ilustrado por ninguém menos que pelo próprio Bairoch, que escreveu o primeiro capítulo da edição de Mathias-Pollard de The Cambridge Economic History of Europe, Vol. VIII, (1989), que contém 25 páginas de descrição da política de comércio colonial entre 1815-1914.

Aqui temos um rápido sumário dos dados, em 1913, do capítulo de Bairoch:

Havia definitivamente um viés imperial nos fluxos de comércio das colônias, relativo a um  modelo gravitacional de comércio (embora Mitchener & Weidenmier 2008 argumentem que o “efeito império” fosse uma combinação de preferências e custos de transação). Outro motivo para o viés imperial é que o governo das colônias era comumente o comprador e importador de insumos para a construção de infraestrutura. O Governo da Índia construiu um sistema de ferrovias nacional só com insumos vindos de fornecedores britânicos.

Mas é definitivamente falso, contra Milanovic, que “as colônias podiam comercializar apenas com a metrópole”. As colônias das potências europeias conduziam uma grande fração de seu comércio exterior com países terceiros. O Reino unido em particular de fato praticou – pelo menos após 1849 – livre comércio com a maior parte de suas colônias dependentes, do jeito que Ferguson disse. [“A política britânica de livre comércio significava que não havia nada que prevenia exportadores alemães de desafiar firmas britânicas em seus comércios imperiais (e, realmente, no mercado doméstico em si”)]

Aqui está o sumário de Bairoch sobre os regimes coloniais de comércio:

Open door = livre comércio, ou tarifa uniforme para todos. Assimilated = as colônias eram tratadas como províncias da metrópole, então a política tarifária para bens estrangeiros era idêntica para a metrópole e a colônia. Preferential = os bens da metrópole recebiam zero ou tarifas nominais, enquanto bens de outros países tinham taxas maiores.

Este famoso diagrama também é pertinente:

[Fonte: Harley & McCloskey em Floud & McCloskey (1981)]

O Reino Unido promoveu largos superávits de comércio bilateral com Índia e Austrália, pelos quais balanceavam os déficits britânicos com os EUA, Canadá e Europa. Índia balanceou seus déficits com o Reino Unido com seus superávits com os EUA, Japão, Europa, etc. É comumente assumido que a manutenção do padrão ouro clássico britânico se mantinha com seus superávits com a Índia; isto não seria possível se a Índia pudesse comercializar apenas com o Reino Unido!

A Geografia das exportações de capital europeu 1870-1914

A historiografia da era 1870-1914 é tremendamente focada no épico movimento de capital (e pessoas). Mas isso é apenas feito fazendo referências à tese Hobson-Lênin, e geralmente apenas para dizer o quão isto era implausível dado o padrão geográfico dos fluxos de capital.

E isso é verdade. Colônias podem ter sidos adquiridas e exploradas, mas elas não eram o destino primário das exportações de capital das Grandes Potências. Longe disso. Os “destinos de investimento externo das poupanças de excedente” da França e Alemanha eram estrondosamente a Europa, os Estados Unidos e a América Latina. Essas regiões respondiam por aproximadamente 80% dos investimentos franceses e alemães acumulados. Para o Reino Unido, menos de 20 porcento do total foi para as chamadas “colônias dependentes”, uma categoria que excluía os ricos e autogovernados “domínios brancos” que obviamente não eram parte do hemisfério sul hoje. A maior parte dos investimentos estrangeiros britânicos eram locados na América do Norte, Argentina e Australásia.

Fonte: Broadberry & O’Rourke (2010)

Como podemos ver acima, “encontrar um destino de investimentos externos para os excedentes de poupança” não requeria que as Grandes Potências estivessem ’em controle físico’ dos lugares”, e os mercados estrangeiros realmente-existentes para o capital ocidental eram lucrativos sem “outros possíveis competidores excluídos mesmo em um custo de uma guerra”. A Índia britânica até recebia investimento francês e alemão!

Muito desse capital fluiu para fora da Europa para ajudar a construir estradas de ferro, portos, redes de energia elétrica, e outras infraestruturas fundamentais de alto custo fixo em economias de fronteira, com crescimento rápido e povoadas por europeus no século XIX: América do Norte, Australásia, Argentina-Uruguai e Rússia. Esses países, por sua vez, exportavam alimentos para a Europa. A exportação de capitais europeus, então, podia ser vista como uma extensão do investimento direto europeu em produção de alimentos para o mercado doméstico.

Mas os dados vistos são médias e agregados ao longo do tempo e podem perder tendências em fluxos de capitais para maior direção a colônias como uma competição imperialista se aquecendo antes da Primeira Guerra Mundial. Um bom Hobsonista-Leninista poderia perguntar, os fluxos de capitais em direção às colônias estavam acelerando?

Não.

Fonte: Davis & Huttenback (1986)

O investimento estrangeiro alemão como parcela da poupança nacional estava caindo nas décadas antes da Primeira Guerra. A exportação de capital francês estavam crescendo, e a parcela indo para a África tinha uma modesta tendência crescente, mas, em aparente contradição com a tese Hobson-Lênin, elas estavam indo para as colônias “erradas” – África do Sul e o Egito britânico! (Mais sobre abaixo)

Havia pouca competição imperialista por destinação dos investimentos

A falta de “competição imperialista” para os mercados de investimentos é óbvia uma vez que você percebe como que a poupança foi na verdade distribuída da Europa para o resto do mundo. A maior parte das exportações de capital europeu foram investimentos de portfólio em títulos soberanos ou em ações em projetos de infraestrutura que pairavam nos mercados financeiros de Londres, Paris ou Berlim. Havia relativamente pouco do que nós chamaríamos de “investimento direto estrangeiro”. E dado a quase perfeita mobilidade de capital entre 1870-1914, não faz sentido dizer que havia competição por mercados de investimentos.

  • Muito dos investimentos estrangeiros “britânicos” eram na verdade disfarces de investimentos da França, Alemanha e outros países, porque os dados britânicos eram baseados onde os investimentos eram contratados (Davis & HuttenbackStone). Investidores franceses e alemães comumente compravam seguros em Londres para projetos no Império Britânico e no hemisfério ocidental.
  • Muito dos levantamentos dos capitais estrangeiros eram consorciados, o que quer dizer que os mesmos títulos ou ações costumavam ter sua oferta pública inicial em vários mercados ao mesmo tempo. Se um banco britânico subscreveu um grande título de seguro para um projeto de ferrovia nos pampas argentinos, princípios normais de gestão de risco instigariam procurar subscritores secundários ou distribuidores em outros mercados.
  • Estes consórcios de subscrição era ainda mais norma para investidores franceses e alemães. Mesmo quando França e Alemanha descenderam em completa rivalidade política e militar após a Aliança Franco-Russa de 1891-93, havia cooperação financeira entre seus investidores, especialmente nos Balcãs e no Império Otomano:

Bancos franceses trabalhavam nos Balcãs com parceiros alemães; na Grécia, os empréstimos públicos eram subscritos por uma associação anglo-franco-alemã. Na Sérvia, o B.I.O e a Berliner Handels-Gesellschaft dividiam negócios (como empréstimos públicos) em 1895. Na Bulgária, um grupo internacional sob a liderança do Banque Internationale de Paris (B.I.P.) ofereceu 28% de seus negócios para agentes austro-alemães. Em 1894, um acordo entre bancos alemães e franceses dividiram as porcentagens dos empréstimos públicos turcos sem disputa. O Deutsche Bank e o B.I.O concordaram em 1905 que 25% dos contratos fechados por um poderia ser oferecido para o outro.

Nas grandes operações internacionais, banqueiros franceses não hesitavam em praticar uma verdadeira colaboração financeira. Em várias regiões do globo banqueiros alemães e franceses trabalhavam de mãos dadas, respeitando escrupulosamente suas zonas e interesse recíproco. Eles tomavam parte em negócios russos, balcânicos, turcos, ibéricos, escandinavos e sul-americanos. Eles se agrupavam em consórcios financeiros, sob a liderança de um francês ou de um alemão. As negociações de largos empréstimos estrangeiros provocaram contratos numerosos entre banqueiros franceses e alemães […] que ignoravam fronteiras.” [Cameron & Bovykin (1992)]

Não é por nada que neste período da história mundial era comumente chamado de “a primeira globalização”. Havia verdadeiramente uma integração financeira global, e a rivalidade dos grandes poderes não necessariamente interferiam nisso.

Mesmo instâncias de diplomacia bélica imperial e o “império informal” em favor dos detentores de títulos que tanto mencionava Hobson – como quando Napoleão III ocupou parcialmente o México para arrecadar tributos em atraso, ou quando a Alemanha bloqueou a Venezuela, ou quando a marinha britânica isolou o Peru pelo mesmo motivo – serviram os interesses coletivos da classe de investidores europeus em geral, mas não o interesse nacional estrito do país de mandar a esquadra.

No caso da Rússia, que claramente favoreceram aos investidores franceses, a causa é óbvia e bem documentada: a aliança militar franco-russa iniciada nos anos 1890. Prioridades estratégicas do Estado alteraram os fluxos dos investimentos; necessidades financeiras não ditavam a política de Estado. Finanças eram forçadas a servir a estratégia, não o contrário.

Nada ilustra melhor que a virtual irrelevância da competição política entre as Grandes Potências para suas colaborações financeiras do que o comportamento dos investimentos franceses além-mar:

Segundo Esteves (2011): “Investimento africano [por investidores franceses] era dominado durante o período pelo Egito, mas esse salto particular [entre 1892 e 1900] é dois terços explicado pela explosão do setor de mineração da África do Sul”;

Por várias décadas antes da Primeira Guerra, Reino Unido e França eram os principais competidores por possessões coloniais, e um dos pontos mais notáveis após a semi-anexação britânica do Egito em 1882 era sobre a região do Nilo. As tensões anglo-francesas eram tão incendiárias que eles quase foram para a guerra durante o  incidente de Fashoda (1898). Mesmo aqui nós tínhamos investimentos privados franceses fluindo sem parar, não para as próprias colônias da França, mas para as partes controladas pelos britânicos na África. Nós podemos até chamar isso de “O princípio de Fashoda”: rivalidade politico-militar implicava muito pouco sobre rivalidade comercial.

Nada disso nega que as grandes disputas de poder nos trópicos costumavam envolver interesses financeiros e comerciais de uma classe estrita de europeus. Países procurando anexações coloniais tendiam a favorecer territórios onde seus cidadãos ainda havia algum interesse comercial. Algumas guerras coloniais eram na verdade travadas, como Hobson argumentava, no interesse de “setores específicos que usurpavam controle de recursos naturais e usavam eles para seu ganho privado”. E ainda havia grupos em todos os países beligerantes que cultivavam vago ideal darwinista social sobre a necessidade das colônias. Mas esse “capitalismo de compadrio” dificilmente poderia ser uma causa importante da Primeira Guerra, uma vez que “usos rentáveis para as poupanças de excedentes fora de seu próprio país” eram encontrados avassaladoramente não nos trópicos, mas nos Estados Unidos, nas “Novas-Bretanhas” e na Europa periférica.

O Imperialismo ajudou a causar a guerra?

Quase todo livro sobre a Primeira Guerra lista, virtualmente pro forma, a competição colonial como uma de suas causas de fundo da guerra. Inegavelmente, ela criou fricções entre as grandes potências. Mas eu acho que é justo dizer que a maior parte da historiografia da Primeira Guerra também enfatiza que a competição colonial já havia sido abatida na década antes da guerra, a não ser que você leve em conta os Balcãs.

A obra  The Pity of War do Ferguson tem vários problemas, mas uma coisa que ele está bastante certo é que a guerra que nunca se iniciou no final do século XIX entre Reino Unido e França ou entre Reino Unido e Rússia. As disputas coloniais anglo-francesas que duraram por décadas eram de longe as mais quentes, e a paranoia britânica sobre a Índia era continuamente incitada pela expansão russa sobre a Ásia central e oriental.

Ainda assim, irritantemente, as grandes potências insistiam em resolver as disputas coloniais pacificamente. As competições anglo-francesa eventualmente vieram a uma pausa com a Entente, que era objetivada para a situação europeia. As tensões Anglo-russas sobre a Pérsia, Ásia central, o Cáucaso e China foram colocadas de lado em favor de maior cooperação na Europa em si.

Mesmo disputas com a Alemanha foram largamente resolvidas na primeira década do século XX, por exemplo, o Reino Unido abandonou suas objeções à Ferrovia Berlim-Bagdá quando a Alemanha concordou que o Reino Unido podia controlar seus terminais orientais (de novo, a paranoia indiana). A esperada “disputa pela China” terminou com o Acordo de Yangtze sobre a política de portos abertos, talvez o mais antigo exemplo de “imperialismo de livre comércio” multilateral, com todo mundo tendo acesso a comercializar e investir em uma China não repartida, mas prostrada.

Havia – em última instância – muito comprometimento europeu e cooperação em explorar e dominar o resto do mundo.

Além disso, os “parasitas financeiros” de Hobson e Lênin tinham simplesmente o interesse errado. Longe de instigarem a competição europeia pelos trópicos por razões de interesse próprios, eles tinham medo das rivalidades entre as grandes potências, pela boa e racional razão de que eles tinham tudo a perder com isso. Assim quando as vantagens comparativas do Reino Unido se moveram da manufatura para os serviços, a mudança também implicou que o capitalismo financeiro estava ainda mais ameaçado pelas grandes tensões de poder. Banqueiros britânicos, seguradores e frentistas facilitavam a expansão prodigiosa do comércio e investimento internacional entre 1870-1914 e lucravam com o crescimento econômico da França, Alemanha e Estados Unidos. Muitos manufatureiros britânicos podiam ter sentido medo da competição do comércio com a Alemanha e pressionaram por protecionismo, assim como os manufatureiros americanos reagiram pela competição japonesa e depois chinesa no final do século XX. Mas os financistas eram mais poderosos. (veja esse testemunho delicioso por um comissário da Lloyd no Committee of Imperial Defense.)

As disputas coloniais nas quais o Reino Unido levou mais a sério e estava mais disposto a ir a guerra por elas – Egito (Fashoda), África do Sul (tensões alemães sobre Transvaal), Afeganistão (relações russas) – foram todas relacionadas de algum modo a monopolizar o acesso marítimo, e eliminar todos os acessos de ameaça à Índia, a única colônia “dependente” que era economicamente importante para o Reino Unido. Mas todo o resto do mundo, incluindo dividir o espólio da China e o Império Otomano, era largamente aberto para a negociação.

Exceto, é claro, para a rivalidade naval no mar do Norte. O que na verdade amargou as relações anglo-germânicas era que o programa naval alemão era percebido como uma ameaça existencial para uma nação que era uma ilha comercial. Navios alemães a apenas “poucas horas da costa inglesa” era de alguma forma mais importante que Samoa ou a faixa de Caprivi.

SE a rivalidade naval era alguma coisa crucialmente importante para o início da Primeira Guerra, então a tese de Avner Offer em The First World War: An Agrarian Interpretation é muito mais plausível que a tese Hobson-Lenin. Tanto o Reino Unido, em uma grande extensão, e a Alemanha, em uma menor mas significante extensão, eram dependentes da importação de alimentos, e o Mar do Norte era o ponto de gargalo para a Alemanha.

(Em uma resenha provocativa, Milanovic interpreta o livro de Offer como argumentando que a adoção do livre comércio pelo Reino Unido e sua dependência de alimentos importados foi a causa de longo prazo da Primeira Guerra. O erro é o seguinte, França e Alemanha protegeram suas agriculturas da enxurrada de aveia norte americana e russa, mas nos anos 1880 ou antes eles se tornaram importadores líquidos, cujos déficits eram também cobertos por “invisíveis”, tal como os britânicos. A causa da dependência de alimentos além-mar não foi o livre comércio em si, tanto quanto a relativa especialização em manufatura, isto é, a industrialização.)

A motivação alemã poderia então parecer mais “normal”. Apesar de tudo, o desenvolvimento naval alemão estava confinado no estreito do mar do Norte, e não procurava disputar o tamanho da marinha britânica. Então parece ser menos sobre Weltmacht do que uma resposta entendível para uma grande potência dependente de importação de alimentos e matérias-primas em um mundo onde a guerra era considerada um estado normal das coisas. Certamente o programa naval não implicava um luxo comparável com, por assim dizer, a marinha soviética nos anos 1970 e 1980 dragando as águas do Atlântico Sul ou o Oceano Indico.

Mas SE nós aceitarmos a Weltmacht como a motivação alemã, então a versão avançada por Paul Kennedy em  The Rise of the Anglo-German Antagonism 1860-1914 faz mais sentido. A economia doméstica era importante, mas não em qualquer sentido hobsoniano ou leninista (ou em um sentido Fischerista). “A maior parte dos alemães mais influentes acreditavam que seu país deveria assegurar um grande pedaço na ordem mundial” – primeiro e mais importante na Europa, e depois no resto do mundo. Os governantes da Alemanha acreditavam que a solidez política e o prestígio nacional era incomensurável com sua ascensão econômica repentina e dramática como superpotência. Nos assuntos políticos do mundo, a Alemanha era acreditada apenas um pouco mais que a Prússia fora em 1815, como um membro júnior do “Concerto de Poderes”. Imagina a irritação SE Taiwan, e não a Republica Popular da China, ainda representasse a China no Conselho de Segurança da ONU […]

Eu acho que esta interpretação é mais factualmente consistente que aquela que de fato tomou a decisão de ir a guerra na Alemanha. Afinal de contas, guerras não são levadas por forças anônimas e obscuras. “Fatores estruturais” ainda requerem algum tempo de mecanismo exercendo pressão sobre os atores reais. Pressão eleitoral, grupos de interesses domésticos, lobby colonial, os militaristas, qualquer coisa.

Hamilton & Herwig (2004), que buscam na dimensão micro do processo de tomada de decisão de cada país beligerante, descrevem grupos de pressão ufanistas e civilistas e então concluem:

Havia poucas ligações diretas entre os vários grupos de pressão e a pequena elite política e militar do Reich. Não havia dúvida de que homens como o [Chanceler] Bethmann Hollweg e o [Chefe do corpo de Generais] Moltke sabiam dessas visões dos formadores de opinião pública. Mas não há evidência que sugere que eles em algum momento durante a Crise de Julho formaram suas políticas de acordo com os interesses percebidos por esses grupos. Nem líderes políticos, nem banqueiros eminentes, nem capitães da indústria pesada foram consultados nas considerações finais da guerra. Nem ufanistas acadêmicos, teólogos ou grupos de veteranos foram consultados.

Mark Harrison é mais contundente:

Nenhum país foi à guerra por vantagem comercial. Interesses comerciais favoreciam a paz em todos os países. A opinião pública foi considerada principalmente quando os agentes principais se preocuparam sobre a legitimidade das ações que eles já haviam decidido. Se capital e trabalho tivessem sidos representados nos gabinetes austríacos, alemães e russos, não teria havido guerra alguma.

Eu considero isto contrário à tese Hobson-Lenin: a burguesia capitalista não teve o poder final na Alemanha (menos ainda na Áustria ou Rússia). E os pequenos e específicos grupos de tomadores de decisão são identificáveis. Um dos argumentos feitos por Fritz Fischer no seu segundo livro é que a Alemanha já tinha tomado a decisão de ir a guerra em 1912, baseado em um encontro de alto nível naquele ano que parecia sinistramente refletir muito do comportamento alemão em julho de 1914. Mesmo se essa interpretação for rejeitada, ainda diz que apenas os militares e o Kaiser estavam representados na reunião, sem nenhuma figura civil do governo como o Chanceler ou o Ministro de Relações Exteriores envolvido.

Em todos os três: Alemanha, Áustria e Rússia, uma elite feudal-agrária-militar governaram sobre uma crescente sociedade burguesa-industrial (mas especialmente na Alemanha). Esses tomadores de decisão tinham o poder unilateral de ir a guerra. E eles tomaram a decisão sem dar nenhuma satisfação. Quando se trata de guerra, não é sequer claro se os East Elbian Junkers [N.do.T: termo cunhado pra designar os altos partidários da direita nacionalista alemã] realmente se importavam com as opiniões dos magnatas industriais e banqueiros do país.

A tese Hobson-Lenin é fraca de fatos. Imperialismo dificilmente requeria “poupança de excedente”, em primeiro lugar. No contexto histórico, distribuição de renda era um fator ambíguo nos fluxos de capital europeu. Os destinos coloniais não eram necessários para as poupanças de excedente das potências europeias. As Grandes Potências Europeias não competiam por destinos de investimentos. A Primeira Guerra não foi apoiada por interesses financeiros ou desarmada pela rivalidade imperialista sobre colônias.

[Atualização 6 Dez. 2017: Thomas Hauner, Branko Milanovic e Suresh Naidu publicaram um novo paper, “Desigualdade, Investimento Estrangeiro e o Imperialismo”. É uma excelente defesa da tese Hobson-Lenin de que, finalmente, é reiterada em termos quantitativos.]

(a) Vamos deixar de lado, por um momento, de que a maioria dos investimentos estrangeiros pelas grandes potências não ocorreu nas suas colônias formais. Vamos esquecer também que os beligerantes não negaram uns aos outros suas colônias formais como saídas de investimento. Mas até mesmo o imperialismo informal à la Gallagher-Robinson foi exercido como um bem público inter-imperialista. O imperialismo informal não foi um caso de soma zero. Colônias formais como a Índia, ou informais como o Egito, ou uma “zona de influência” como a Argentina, estavam disponíveis para todos os investidores estrangeiros.

(b) Como argumentei no texto principal, o imperialismo informal era uma aplicação multilateral de fato do sistema financeiro internacional anterior à guerra. Embarcações europeias que obrigavam à Turquia ou à Venezuela a continuar fazendo pagamentos a detentores de bônus europeus, ou a oficiais europeus que controlavam diretamente as aduanas chinesas ou otomanas, mantinham um sistema internacional de finanças. O historiador Jamie Martin escreveu sobre como o “programa de ajuste estrutural” na Áustria, em 1921-22, pretendia formalizar esse sistema aleatório pré-guerra.

(c) A desigualdade => a hipótese da guerra exige que o imperialismo cause tensões entre as grandes potências sobre as oportunidades comerciais. Mas os imperialistas acabaram sendo muito cooperativos em relação à sua divisão do mundo! Isso é o que a “política de porta aberta” para a China ilustra, como eu argumentei no texto acima. Que é também o que as duas crises marroquinas também ilustram. Através do envio de uma embarcação à Agadir, a Alemanha não estava tentando negar a França o controle de Marrocos. A Alemanha estava demandando, um quid pro quo: se a França estava se expandindo para o Norte da África, a Alemanha também deveria obter algo. Você pode pensar nisso como uma extensão do Congresso de Viena para todo o mundo, como um reconhecimento do domínio multilateral europeu sobre o mundo, mas com a Alemanha tendo mais posição relativa do que a Prússia em 1815.

(d) Portanto, mesmo admitindo que a desigualdade causou investimento estrangeiro em colônias formais e informais, a conexão empírica da teoria de Hobson-Lenin com a guerra ainda é fraca.

Como eu disse no corpo principal do post, existem 4-5 etapas intermediárias conectando a desigualdade doméstica com a guerra real. Cada etapa tem algum fundo de verdade, mas os passos são fracamente ligados um ao outro. Mas mesmo se nós aceitarmos todas as etapas intermediárias, a etapa final (rivalidade imperialista => guerra) é, na verdade, a mais duvidosa. É preciso postular “forças sociais profundas” que os tomadores de decisão não estavam realmente conscientes. Em eventos pontuais como a Grande Guerra, o instinto do historiador de examinar os motivos dos atores nos arquivos é mais útil do que reunir dados. O registro histórico pode sustentar a visão de que o colonialismo-imperialismo que realmente importava eram as ambições alemãs no Oriente (assim como as ambições dos Habsburgos nos Balcãs) que estavam claramente bloqueadas pelo império russo. Mas o registro histórico não é consistente com os líderes dos beligerantes que vai à guerra sobre o mundo não-Europeu por causa de uma rivalidade imperialista.