por Deirdre McCloskey

[ Bourgeois Virtues? – Tradução de Jopa Veloso ]

Sete. Este é o número de virtudes primárias de acordo com a tradição ocidental, de Platão a Adam Smith. Ou de acordo com a tradição confucionista desde 479 a.C.. Ou de acordo com um surpreendente livro, publicado em 2004 com o patrocínio da Associação de Psicologia Americana, escrito por quarenta professores de psicologia e editado por Christopher Peterson e Martin E. P. Seligman, Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification. Ou, desde o momento que você começa a pensar sobre isso, de acordo com praticamente qualquer teoria sobre o que contribui para uma vida humana próspera.

Justiça é uma virtude primária, é claro; o equilíbrio e o respeito em sociedade tão característicos da Suíça – bem, suponho que nem sempre, e nem para todos os imigrantes, e até 1971, nem para todas as mulheres votantes; mas geralmente. Temperança é outra, o equilíbrio na alma, controlando o desejo. Coragem é a terceira. Que pessoa poderia florescer se, como Oblomov, ficasse na cama com um medo incontrolável, ou como ennui, uma versão aristocrática da covardia? A Prudência é a rainha das virtudes, como São Tomás de Aquino chamou-a – know-how, savoir faire, interesse próprio. Ela completa as quatro virtudes mais admiradas desde as pequenas cidades ou os grandes impérios do Mediterrâneo clássico. Os Romanos chamaram as quatro, justiça, temperança, coragem e prudência, de virtudes “cardeais”, nas quais uma sociedade de guerreiros, oradores ou cortesãos articulava-se (cardo, articular). Os cristãos as chamaram, não completamente em desprezo, de “pagãs”.

O Cristianismo adicionou suas outras três próprias virtudes, nas palavras de São Paulo a “fé, a esperança, e o amor. A maior delas, porém, é o amor”. Essas três são chamadas virtudes “teológicas” ou – elogiando o Cristianismo, já que todos nós conhecemos “cristãos” que, em sua xenofobia ou homofobia ou x-fobia não as praticam – virtudes “cristãs”. Chamar de as três virtudes sagradas soa como um elogio, mas elas podem receber definições totalmente seculares, como o livro de Peterson e Seligman faz. Fé é a virtude retrospectiva de se ter uma identidade, um lugar de onde deve-se começar com integridade: você é uma mãe, uma filha, uma esposa, uma suíça, uma mulher, uma professora, uma leitora, e não pensaria em negá-las ou mudá-las frivolamente. Esperança, em contraste, é a virtude voltada para o futuro de se ter um destino, um projeto. Aonde você está indo? Quo vadis? Se você está literalmente sem esperança, você volta para casa de noite e usa seu rifle militar (você é suíço, então você tem um) para atirar em si mesmo. E o amor, a maior de todas essas, é o princípio de tudo: amor ao marido, amor ao país, amor à arte, amor à ciência, amor a Deus.

Quatro mais três é igual a sete. As sete virtudes primárias advém de uma união entre o Império Romano e uma facção judaica herege do primeiro século d.C. Mas tal combinação é surpreendentemente apropriada. As sete são “primárias” no mesmo sentido que vermelho, azul e amarelo são cores “primárias”. Você pode obter do vermelho e do azul, o roxo, mas não consegue a partir do roxo e do verde, as cores vermelha, azul ou amarela. Você pode obter da justiça e da coragem, a virtude da honestidade, ou da esperança e da coragem, a virtude do otimismo, mas não o contrário.

E elas são primárias, também, no sentido de que uma vida sem uma, ou uma vida sem exercitar uma combinação idiossincrática das sete, aparenta ser notavelmente imperfeita. Em termos aristotélicos, ela falha na proposta, o telos, de uma vida humana. Quando, em 1937, Winston Churchill elogiou Mussolini por ter “as extraordinárias qualidades da coragem, compreensão, autocontrole e perseverança” – isto é, coragem, prudência, temperança, e coragem novamente, junto com a fé, a qual poderia ser adicionada à esperança do Il Duce de um novo Império Romano – ele estava elogiando, conforme deveria um aristocrata educado em Harrow School e no colégio militar de Sandhurst, um conjunto quase completo de virtudes pagãs, com um pouco de cristianismo. Churchill disse, em outra ocasião, que se ele fosse italiano, teria se tornado fascista. Ainda assim, supostamente ele achou o amor e a justiça um pouco deficientes no regime fascista. Cinco de sete não é o suficiente.

Tampouco os conjuntos desequilibrados e parciais de virtudes – eles são chamados de “pecados” – sobrevivem em uma sociedade comercial e inovadora. As “virtudes burguesas” são meramente as sete primárias exercidas na Suíça, ou nos Estados Unidos, ou no Japão, em épocas de inovações sob o julgo do mercado. Elas são claramente exercidas de forma imperfeita, considerando a base disforme da humanidade. Mas foram as virtudes, não os vícios da ganância e da expropriação, que construíram o mundo moderno.

Como? Uma sociedade rica depende de sua burguesia para inovar. Mas uma sociedade precisa aceitar as virtudes burguesas, ao invés de suprimi-las com um orgulho aristocrático, uma inveja camponesa ou uma raiva clerical/burocrática. A partir de 1800, muitos europeus do norte, a partir de 1900, outros europeus, e então, a partir de 2000, muitas pessoas no resto do mundo acabaram aceitando o resultado do mercado burguês e de suas inquietantes inovações mais ou menos de bom grado. Como diz a historiadora Christine MacLeod, pelo padrão de “hegemonia cultural aristocrática” de tempos passados, o “inventor era um herói improvável”, ao comprar ideias a preços baixos e as vender por um preço alto. Ainda assim, certamente na Inglaterra de meados do século XIX, o inventor, o inovador, o reorganizador, havia se tornado exatamente isso, um reconhecido benfeitor do mundo. Os holandeses e os americanos, então os britânicos, e então muitas outras pessoas pela primeira vez em grande escala, como os suíços e os suecos do fim do século 19, observaram com bons olhos a economia de mercado, e mesmo a destruição criativa que vem de suas lucrativas e ligeiras inovações.

Em 2005 o filósofo suíço que escreve eloquentemente em inglês, Alain de Botton, falou sobre sua cidade natal chata e burguesa, Zurique, cuja “distintiva lição para o mundo é sua capacidade de nos lembrar o quanto imaginativo e humano se pode ser ao exigir de uma cidade que não seja nada além de chata e burguesa”. Ele citou Montaigne, ao escrever nas últimas décadas do século XVI:

Atacar uma retaguarda, conduzir uma embaixada, governar uma nação são feitos espetaculares. (Mas) repreender, rir, comprar, vender, amar, odiar, e conviver de modo justo e gentil com sua família – e consigo mesmo – é muito mais difícil. Independente do que as pessoas digam, tais vidas isoladas realizam desse modo deveres que são pelo menos tão difíceis e tensos como os de outras vidas.

Foi isso que construiu o mundo moderno – passar a admirar a compra, a venda, e conviver com amor de modo justo e gentil, contra os feitos espetaculares dos aristocratas. Deu-se poder para a burguesia inovar. E ela inovou. A renda média por pessoa na Suíça, em dólares de 2010, passou de $3 por dia em 1800 para $125 por dia em 2012.

Entender quais ideias éticas construíram o mundo moderno muda a forma como você observa a economia e a ciência econômica. Se a inovação foi consequência, como eu argumentaria, de uma nova dignidade e liberdade pelo exercício das virtudes burguesas, então poderíamos ficar modestamente felizes quanto a isso, sem cair no pecado do orgulho. Se nosso edifício burguês não cresceu fundado sobre o imperialismo, ou a exploração, ou a trocas desiguais, como eu também argumentaria, então poderíamos admirá-lo, embora com autocrítica. Se as inovações sérias não foram imorais, então poderíamos praticar a ética de forma mais adulta do que uma direita que prega “ganância é bom” ou uma esquerda que diz “abaixo aos patrões”. Pondo de outra forma, nós precisamos ir além do entendimento do passado econômico que parecia plausível em 1848, e mesmo para alguns em 1914, antes do completo desenvolvimento da história profissional – aquela ideia de passado composto por doces camponeses, de uma idade média romântica, de donos de moinho malvados, máquinas miseráveis, trabalhadores alienados, e de um irritante consumismo das classes sociais tão obviamente inferiores a nós.

Quando as virtudes burguesas não se desenvolvem, e principalmente quando elas não são admiradas pelas outras classes, pelos seus governos, e pela própria burguesia, os resultados são tristes. Como os economistas Virgil Storr e Peter Boettke observam sobre as Bahamas, “Praticamente todos os modelos de sucesso que podem ser encontrados no passado econômico das Bahamas devem ser caracterizados como próximos à pirataria”, com o resultado de que lá os empreendedores “buscam ‘rendas’ ao invés de lucros [produtivos]”. Não funcionou muito bem depender da ganância da pirataria, ou seja, de uma prudência auto-interessada sem o equilíbrio de outras virtudes como a justiça (exceto, quando falando sobre a verdadeira história da pirataria, a justiça democrática no navio entre os próprios piratas). Ao contrário da opinião generalizada da esquerda e da direita, tal prudência da pirataria sozinha não é caracteristicamente burguesa.

Um conjunto equilibrado de virtudes burguesas não é hipotético. Por séculos em Veneza, e na Holanda, depois na Inglaterra, Escócia e na América do Norte Britânica, então na Bélgica, Norte da França, Renânia, Genebra, Sydney, Cleveland, Los Angeles, Mumbai, Xangai, e em uma variedade cada vez maior de lugares ao redor do mundo, contra fortes tradições de virtudes e vícios aristocráticos e camponeses, nós as praticamos. Caímos repetidamente, é claro, em vícios burgueses. O pecado é original. Mas vivemos em uma sociedade comercial, a maioria de nós, e uma sociedade de mercados e inovação não faz de nós automaticamente pecadores. Pelo contrário.

A principal virtude burguesa é, eu admito, a prudência de comprar barato e vender caro. Mas também é a prudência para comercializar ao invés de invadir, para calcular as consequências, para atingir o bem com competência – Herbert Hoover, por exemplo, energicamente salvando belgas da fome após 1918.

E outra é a temperança para poupar e acumular, é claro. Mas é também a temperança para educar a si próprio nos negócios e na vida, para ouvir ao consumidor, para resistir às tentações da trapaça, para perguntar calmamente se pode haver um acordo – Eleanor Roosevelt negociando a Declaração de Direitos Humanos da ONU em 1948.

Outra é a justiça para insistir na propriedade privada adquirida honestamente. Mas é também a justiça para pagar voluntariamente pelo bom trabalho, para honrar o esforço, para acabar com os privilégios, para valorizar as pessoas pelo que elas podem fazer ao invés de por quem elas são, para ver o sucesso sem inveja, para fazer a inovação funcionar desde 1776.

Outra é a coragem para arriscar em novas formas de negócio. Mas também é a coragem para superar o medo da mudança, para encarar a derrota em caso de falência, para ser cortês às novas ideias, para acordar na próxima manhã e encarar o trabalho duro com animação, resistindo ao pessimismo desesperado de muitos intelectuais de direita e esquerda desde 1848.

Outra é o amor para tomar conta do que é seu, sim. Mas também é o cuidado burguês para com seus empregados, parceiros, colegas, clientes e concidadãos, desejando o bem da humanidade, buscando uma conexão humana e transcendental.

Outra é a fé para honrar sua própria comunidade de negócios. Mas também é a fé para construir monumentos ao passado glorioso, para sustentar tradições de comércio, de aprendizado, de religião, encontrando identidade em Berna, Chicago e Osaka.

E outra é a esperança para imaginar uma máquina melhor. Mas também é a esperança para infundir no dia de trabalho um objetivo, vendo o próprio trabalho como uma vocação gloriosa, de 1533 até o presente.

“Virtudes burguesas” não são uma contradição. É o jeito que nós vivemos atualmente, principalmente no trabalho e nos nossos bons dias, e o jeito que nós deveríamos viver, de segunda a sexta.

Ainda assim, a inovação, mesmo no capitalismo ético que eu defendo e que vejo, continua sendo desprezada por muitos de nossos formadores de opinião, por um século e meio, de Thomas Carlyle a Naomi Klein. A pedido de tal intelligentsia, nós podemos, se desejarmos, repetir os horrores nacionalistas e socialistas do século passado. Se imaginarmos apenas as interrupções de um ideal pastoral, e rejeitarmos os ganhos da inovação, podemos permanecer pobres pastores e fazendeiros sujos, com pouco escopo para o crescimento intelectual e espiritual. Se idolatrarmos a hierarquia, a violência e a nação, podemos entregar nossas vidas a um complexo militar-industrial. Se abandonarmos os princípios econômicos com nossa preocupação em relação ao meio ambiente, podemos voltar a ganhar $3 dólares ao dia, e viver em cabanas numa colina nas florestas próximas de Walden Pond, dependendo de nossos amigos para nos abastecer com pregos e livros. Agora, no início do século 21, ainda podemos, se desejarmos, adicionar uma boa medida de religiosidade antiburguesa, tão nova quanto os aviões batendo no World Trade Center e tão velha quanto a leitura socialista do Sermão da Montanha.

Mas eu sugiro que nós não o façamos. Eu sugiro que, ao contrário, nós conservemos as virtudes burguesas, que nos deram o escopo, nas palavras de Wilhelm von Humboldt em 1792, para adquirir Bildung, “para desenvolver o maior e mais harmonioso de nossos poderes em um completo e consistente todo”. Teremos que abandonar a premissa materialista de que o remanejamento e a eficiência, ou a exploração dos pobres, construiu o mundo moderno. E vamos precisar fazer uma nova ciência da história e da economia, uma ciência humanista que reconhece número e palavra, interesse e retórica, comportamento e significado.