por Israel Kirzner

[ Chapter 1: Market process theory: in defence of the Austrian middle ground do livro The Meaning of Market Process – Tradução de Giácomo de Pellegrini ]

Capítulo 1: Teoria do processo de mercado: em defesa do meio-termo austríaco

Os capítulos deste livro têm, de uma forma ou de outra, a ver com a visão austríaca do mercado como um processo sistemático de descoberta mútua pelos participantes do mercado. Uma visão geral dessa compreensão austríaca do mercado e da tarefa da teorização econômica em explicar esse processo é apresentada no Capítulo 2. O presente capítulo introdutório tem o propósito de reafirmar a tese de que essa abordagem austríaca ocupa o meio-termo entre duas outras posições “extremas” no pensamento econômico contemporâneo e de defender a viabilidade desse meio-termo contra algumas críticas recentes levantadas pelos proponentes de um subjetivismo radical. A identificação da abordagem austríaca com o meio-termo não é meramente uma questão de classificação doutrinária; resultará que essa identificação (e especialmente uma defesa dessa posição contra as críticas atuais) pode contribuir significativamente para uma apreciação do que a teoria do processo de mercado pode oferecer para o entendimento econômico. É por causa dessa contribuição que este capítulo talvez possa servir proveitosamente para introduzir o presente volume. Chamarei a tese de que a abordagem do processo de mercado ocupa o meio-termo da tese de Garrison.[1]

A TESE DE GARRISON

Em um comentário sobre um artigo contribuído pelo professor Loasby para um volume de conferências há alguns anos, Roger Garrison introduziu pela primeira vez a importante percepção de que a economia austríaca ocupa uma posição intermediária entre duas perspectivas mais extremas na economia contemporânea (Garrison, 1982). Por um lado, temos a perspectiva neoclássica dominante, com base na suposição de que as posições de equilíbrio são fortemente relevantes para as explicações dos mercados do mundo real. Por outro lado, temos a perspectiva daqueles (incluindo pós-keynesianos) que são profundamente céticos quanto à relevância do significado e do mundo real dos modelos de equilíbrio da teoria mainstream. Acontece que o Professor Garrison nos mostrou que, em uma série de questões importantes, os austríacos diferem de ambas as posições (divergentes) tomadas por essas abordagens. Vamos tomar conhecimento de duas dessas questões; elas serão particularmente úteis para nossas discussões subsequentes.

Conhecimento como coordenação de mercado

A economia mainstream, apontou Garrison, tem gravitado a uma posição polar no conhecimento. “Conhecimento perfeito – ou conhecimento perfeito camuflado sob uma variedade de distribuições de frequência – tem sido o domínio primário da teoria padrão por várias décadas agora” (Garrison 1982: 132). (Podemos acrescentar que, em modelos multiperíodos de equilíbrio geral incorporando troca intertemporal, essa suposição de conhecimento perfeita foi estendida, em princípio, ao conhecimento de todo o tempo futuro.) Muitas das críticas, de pós-keynesianos, Shackle e outros, da economia dominante tomou como ponto de partida a incerteza radical que encobre o futuro. Essa incerteza é vista como tão impenetrável a ponto de tornar absurdamente irrelevante todas as teorias neoclássicas construídas a partir de decisões individuais otimizadoras, supostas como sendo feitas entre possibilidades futuras alternativas bem definidas. Como Shackle (1972: 465) colocou, as “lacunas de conhecimento” que surgem de um futuro incerto “tornam absurda a racionalidade” (ver também pp. 229f.). Naturalmente, o conhecimento não está completamente ausente, mas os críticos sustentariam que, dentro de uma teoria dos mercados, não existe nenhuma maneira de a ignorância existente “aberta” (Shackle, 1972: 230) ser sistematicamente eliminada. (A busca não é uma solução porque o “valor do novo conhecimento não pode começar a ser avaliado até que o tenhamos. Então já é tarde demais para decidir quanto gastar em romper o muro para encorajar sua chegada” (pp. 272 ​​e seg.)). . Assim, a circunstância bruta da ignorância em relação às ações futuras de outras pessoas torna impossível para os mercados induzir consistência entre as decisões individuais (Lachmann 1986a: 56f.).

É aqui que a teoria austríaca do processo de mercado se posiciona em relação ao conhecimento e possível equilíbrio do mercado, o que evita esses dois extremos. Por um lado, a perfeita suposição de conhecimento faz com que seja inútil perguntar como o processo de mercado pode induzir a coordenação entre as decisões; tal coordenação já está implícita na suposição de conhecimento perfeito. Por outro lado, a suposição de ignorância invencível coloca a possibilidade de um processo sistemático de mercado de coordenação sistemática inteiramente fora do alcance.

Para os austríacos, entretanto, o conhecimento mútuo é de fato cheio de lacunas a qualquer momento, mas o processo de mercado é entendido como fornecendo um conjunto sistêmico de forças, acionadas pelo alerta empreendedor, que tendem a reduzir a extensão da ignorância mútua. O conhecimento não é perfeito; mas nem a ignorância é necessariamente invencível. O equilíbrio nunca é atingido, mas o mercado exibe tendências poderosas em relação a ele. A coordenação do mercado não deve ser contrabandeada para a economia por suposição; mas também não deve ser peremptoriamente descartada simplesmente referindo-se à incerteza do futuro.

Volatilidade dos dados e a viabilidade da ciência econômica

A economia convencional, observou Garrison, frequentemente parece ocupar uma posição polar que não reconhece nenhuma variabilidade nos dados subjacentes. Neste extremo, “preferências, disponibilidades de recursos e tecnologia, não mudam nada. Aqui, além da questão da dependência do caminho, a tendência de equilíbrio não é duvidosa. Este pólo do espectro tem sido o ponto de encontro popular para os teóricos neoclássicos […]” (Garrison 1982: 133). Por outro lado, existe a possível posição extrema que vê os dados econômicos como sendo “mais voláteis do que imaginamos. Nessas circunstâncias, podemos prever não apenas que a questão de uma tendência de equilíbrio seria respondida de maneira negativa, mas também a ciência econômica […] seria em si inexistente” (p. 133). Entre essas duas percepções do mundo em mudança está o que alimentou a tradição austríaca (e, certamente, informou o pensamento da maioria dos economistas). Essa percepção é de que o mundo está de fato mudando constantemente de formas imprevisíveis. Pessoas morrem, bebês nascem, gostos mudam espontaneamente. As disponibilidades de recursos mudam com o tempo; o conhecimento tecnológico pode evoluir de forma autônoma. Mas, insistiria, a rapidez e a imprevisibilidade dessas mudanças não são, em geral, tão extremas a ponto de frustrar o surgimento de regularidades econômicas poderosas e generalizadas. É porque essas mudanças são frequentes o suficiente para garantir o desequilíbrio perene que precisamos entender a natureza das forças de equilíbrio. É por causa da possibilidade, pelo menos, de um limite benigno para a volatilidade dessas mudanças que essas forças de equilíbrio, pelo menos às vezes, se manifestam como regularidades econômicas inconfundíveis. O escopo e a possibilidade de uma ciência econômica relevante dependem, como Garrison observou, do reconhecimento não apenas da variabilidade dos dados econômicos, mas também do grau em que as propriedades de coordenação dos mercados podem se tornar mais vulneráveis ​​a essa condição.

EMPREENDEDORISMO E O MEIO-TERMO AUSTRÍACO

Em um artigo há vários anos (Kirzner 1985a: cap. 1 e nota 9), que explicitamente se inspirou na tese de Garrison, o atual escritor aplicou a tese para localizar uma visão austríaca do empreendedor dentro do espectro de pontos de vista relevantes para ser encontrado dentro da profissão. Duas visões opostas “extremas” relativas ao empreendedorismo foram identificadas.

Uma visão do empreendedor vê-o respondendo sem atrito e com total coordenação às condições de mercado, com lucro puro e recompensa correspondente que essas condições de mercado exigem e tornam possíveis. Um excelente exemplo dessa visão é o fornecido por T.W. Schultz (1975), para quem o empreendedor é visto como respondendo de forma ágil e suave ao serviço necessário ao mercado, o de realocar recursos em condições de desequilíbrio. Como esse serviço é valioso, existe uma curva de demanda para ele. E, como a capacidade de lidar com os desequilíbrios é escassa, há uma curva de oferta em relação a esse serviço. Assim, o serviço empreendedor de lidar com desequilíbrios comanda um preço de mercado, como implicado pela interseção das curvas relevantes de oferta e demanda. É claro que esta visão Schultziana vê o mercado como, no sentido relevante, sempre totalmente coordenado: o mercado está sempre gerando o volume correto de serviços necessários para corrigir decisões incorretas. Essa visão extrema, aparentemente, conseguiu espremer o empreendedorismo – mesmo que seja definido como a capacidade de lidar com o desequilíbrio – de volta à caixa de equilíbrio neoclássico.

A segunda visão “extrema” do empreendedor vê sua atividade de maneira quase oposta. Esta visão é melhor exemplificada pela perspectiva desenvolvida no trabalho profundo e prolífico de G. L. S. Shackle. Para Shackle, o empreendedorismo simplesmente não pode ser enquadrado na estrutura da teoria do equilíbrio composta de decisões estritamente racionais (Shackle 1972: 92, 134). Mais seriamente, para Shackle, a escolha humana, em todas as suas manifestações, envolve (exatamente da mesma forma que o empreendedorismo em si) uma “arte originária e imaginativa” (p. 364), em nenhum sentido uma resposta automática a determinadas circunstâncias. Assim, para Shackle, o reconhecimento da onipresença do elemento empreendedor traz consigo implicações extremamente prejudiciais para todo o corpo da teoria neoclássica. Então, longe de ser capaz de assimilar um empreendedorismo problemático a uma teoria de equilíbrio de validade incontestável, Shackle encontra problemas insolúveis com a teoria do equilíbrio precisamente por causa de sua total incompatibilidade com o elemento empreendedor na escolha humana.

Entre esses dois pontos de vista extremos, um vendo o empreendedorismo como consistente com a economia de equilíbrio, o segundo vendo o empreendedorismo destruindo totalmente a relevância da economia de equilíbrio, este escritor propôs localizar uma terceira visão (“austríaca”) do empreendedorismo. Essa terceira visão, desenvolvida a partir de insights misesianos do escritor em vários trabalhos anteriores, considera o empreendedorismo incompatível com o estado de equilíbrio, mas compatível e, na verdade, essencial para a noção do processo de equilíbrio.

Perseguir esta terceira visão, argumenta-se, pode nos permitir resgatar elementos de valiosa importância de cada uma das visões mais extremas. Podemos, com Shackle, manter nossa apreciação pelo aspecto “originário” (isto é, o empreendedor) da escolha humana. No entanto, não precisamos renunciar à percepção sobre o papel coordenador do empreendedor, que foi enfatizado por Schultz. A terceira visão do empreendedor, que reconhece a propensão dele a descobrir falhas nos padrões existentes de coordenação entre as decisões de mercado, nos permite ver quão sistemáticas (“equilibrantes”) as tendências do mercado podem ser rastreadas até a origem criativa e originária, dos empreendedores alertas.

A DUPLA EXPOSIÇÃO DO MEIO-TERMO

É da natureza de uma posição centrista provocar a crítica de cada uma das perspectivas polares que evitou. Tais posições centristas devem então ser defendidas de dois lados completamente diferentes. Dois tipos bem diferentes de ataque podem ter que ser refutados, usando argumentos simultâneos que apontam, aparentemente à primeira vista, em direções quase diametralmente opostas. Esta foi, de fato, a situação em que a economia austríaca se encontrou naturalmente.

Os economistas austríacos devem se defender contra os economistas neoclássicos tradicionais, descontentes com a imprecisão e a indeterminação que vêem como inseparáveis ​​de uma abordagem preparada para reconhecer um desequilíbrio perene. Ao mesmo tempo, os austríacos são colocados na defensiva por críticos da economia neoclássica dominante, que estão descontentes com a postulação, pelos austríacos, de tendências de equilíbrio possivelmente poderosas.

Até recentemente, os austríacos consideravam necessário dedicar grande parte de sua atenção à defesa contra as principais preocupações críticas neoclássicas. Isso era mais do que esperado. Afinal de contas, essa divergência era a característica mais óbvia da posição austríaca. Recentemente, no entanto, a posição centrista dos austríacos atraiu críticas de uma direção diferente, uma crítica enraizada não nas convicções de equilíbrio convencionais, mas na rejeição mais inflexível dessas convicções. Essa linha de crítica subjetivista radical atacou a posição do meio-termo austríaca não por seu reconhecimento da incerteza em aberto, da criatividade da escolha individual, da difusão de condições de mercado desequilibradas, mas pelo que os críticos subjetivistas viram como incompletude desse reconhecimento.

Em particular, esta linha crítica desafiou a própria possibilidade de uma posição intermediária na arena ocupada pelos principais teóricos neoclássicos e seus oponentes mais radicais. Se estamos preparados para rejeitar o conjunto de suposições constritivas que caracterizam os modelos de equilíbrio da teoria dominante, a consistência exige, insiste esta linha crítica, que aceitamos a irrelevância absoluta desses modelos para a compreensão econômica. Se os austríacos rejeitam uma economia que, na verdade, reconhece apenas o estado de equilíbrio, também devem rejeitar a noção de equilíbrio. Não pode haver uma posição no meio caminho. O meio-termo que os austríacos procuram ocupar não goza das forças das duas posições polares das quais buscam escapar. Sofre, antes, das inconsistências decorrentes da tentativa de obter o melhor de dois mundos totalmente irreconciliáveis.

O objetivo deste capítulo é reafirmar a viabilidade do meio-termo austríaco, abordando, em particular, a linha crítica subjetivista oferecida por aqueles que insistem na mais completa rejeição do paradigma neoclássico. Tal defesa do meio-termo austríaco assume um significado especial à luz da atitude histórica da tradição austríaca em relação à função social do mercado.

COORDENAÇÃO DO MERCADO E A TRADIÇÃO AUSTRÍACA

As primeiras contribuições teóricas dos economistas austríacos os colocaram em forte conflito com o historicismo da Escola Alemã. Em questão estava a validade e relevância de um corpo de teoria que proclama a existência de importantes regularidades econômicas. A postulação das regularidades econômicas tem implicado, ao longo da história da economia, certas consequências para a avaliação da economia de mercado. Na ausência de tais regularidades reconhecidas, uma economia de mercado pode ser percebida como um sistema social cujas aparentes inadequações convidam a medidas corretivas deliberadas por parte de um Estado benevolente. Um padrão de distribuição de renda que parece ofensivo a um senso intuitivo de justiça pode ser corrigido por políticas redistributivas apropriadas. Os preços de mercado que, aos olhos dos decisores políticos ou dos seus constituintes, parecem estar demasiado altos ou baixos podem ser corrigidos por legislação apropriada. Sempre foram as objeções levantadas pelos teóricos econômicos que pareciam desafiar a eficácia de tais políticas sociais propostas. A existência de regularidades econômicas implicava severos limites aos poderes corretivos do Estado. De fato, à luz dessas regularidades, as aparentes inadequações do mercado muitas vezes acabam não sendo inadequações, mas custos inevitáveis ​​necessários para a coordenação social. O controle de preços, longe de melhorar as condições para o consumidor ou para o agricultor ou para quem quer que seja, é demonstrado pela teoria econômica como geradora de carências desastrosas ou excessivas causadas pelo homem. As políticas de tributação redistributiva são mostradas para gerar desincentivos indesejados ​​ou efeitos de incentivo.[2] A tendência da teoria econômica de sugerir uma apreciação mais sensível das propriedades de eficiência social de um sistema de mercado tem sido tão poderosa e difundida sobre a história da economia quanto fazer da teoria econômica o obstáculo óbvio para (e inimigo de) futuros reformistas econômicos radicais (Stigler, 1959: 522-32; Zweig, 1970, p. 25). Os primeiros teóricos austríacos de fato vieram, sem surpresa, a se identificar com uma postura de política liberal geralmente clássica (ver, por exemplo, Streissler 1988: 192-204; ver também este volume, Capítulo 5).

Para Carl Menger e seus seguidores, a economia de mercado tende a alocar recursos e atribuir renda de acordo com as avaliações dos consumidores. Como disse Menger (1981: 173), “o preço de um bem é uma consequência de seu valor para o homem econômico, e a magnitude de seu preço é sempre determinada pela magnitude de seu valor”. Aqueles que se opõem aos resultados do mercado simplesmente não apreciam a fidelidade e consistência com que os mercados transmitem avaliações. “Pode parecer deplorável para um amante da humanidade que a posse de capital ou de um pedaço de terra frequentemente proporcione ao proprietário uma renda maior por um determinado período de tempo do que a renda recebida por um trabalhador pela atividade mais extenuante durante o mesmo período. No entanto, a causa disso não é imoral, mas simplesmente que a satisfação de necessidades humanas mais importantes depende dos serviços da quantidade dada de capital ou pedaço de terra do que dos serviços do trabalhador”(p. 174). Claramente, tudo isso resulta de uma perspectiva teórica que vê as avaliações do consumidor como sendo traduzidas com fidelidade em decisões de mercado relativas à alocação de recursos e preços de recursos.

O que desejamos, de fato, enfatizar não é tanto o conservadorismo, ou o liberalismo clássico, da tradição primitiva austríaca em relação à política econômica,[3] mas quanto essa tradição compartilhava na compreensão do caráter poderoso e sistemático das forças de mercado. O que acontece nos mercados não é casual, mas a consequência de inevitáveis ​​regularidades econômicas, expressando-se em tendências obviamente relevantes. Dado o quadro institucional da economia de mercado, dada uma gama disponível de recursos escassos, as preferências dos consumidores devem, quase inexoravelmente, resultar em uma configuração particular de métodos de produção, alocação de recursos e preços de mercado. Foi com relação a essa perspectiva que a economia austríaca diferiu mais drasticamente daquela da Escola Histórica Alemã e de outros dissidentes da teoria econômica. E, é claro, essa perspectiva era compartilhada não apenas pelos austríacos, mas por todas as escolas do pensamento econômico da virada do século. Como a economia neoclássica avançou em prestígio e influência durante as primeiras décadas deste século, os ensinamentos contrários da Escola Histórica desapareceram do centro da atenção profissional. Foi a apreciação compartilhada pelo poder das forças sistemáticas de mercado, característica comum às várias escolas de teoria econômica. A vitória da abordagem teórica sobre a abordagem historicista foi uma vitória para o reconhecimento das propriedades de coordenação do mercado. Ao alcançar essa vitória, os economistas austríacos foram proeminentes. No agora famoso debate entre as guerras sobre a possibilidade de cálculo econômico sob o socialismo, foi o austríaco Mises que provocativamente afirmou que não havia nada, em qualquer programa de planejamento econômico centralizado, para servir como um substituto para a capacidade de planejamento calculista e coordenativo do processo de mercado. E foi durante meados do século, por Mises e Hayek,[4] da compreensão austríaca do processo de mercado competitivo e empreendedor que apoiou a apreciação mais consistente e profunda das benignas consequências da coordenação do mercado.[5] É neste contexto de consistente compreensão, dentro da tradição austríaca, das propriedades coordenadas sistemáticas do mercado que devemos tomar nota do impulso da nova linha crítica subjetivista, dirigida contra o meio-termo austríaco, que abordaremos neste capítulo.[6]

O ATAQUE À COORDENAÇÃO DO MERCADO: PARADOXO NA HISTÓRIA DAS IDEIAS?

Embora, como notado, os desenvolvimentos no pensamento econômico do início do século XX tenham encontrado os austríacos em aliança com outras escolas teóricas da economia neoclássica, essa aliança começou rapidamente a se desfazer em meados do século. Considerando que Mises, em 1932, foi capaz de declarar que qualquer diferença entre as várias escolas era mais uma questão de estilo do que de substância, dentro de poucos anos ele deveria enfatizar com alguma acidez as diferenças substantivas entre os austríacos e o mainstream neoclássico (Capítulo 6, pp. 110f. E Mises 1960). Os elementos decisivos na abordagem austríaca, que a tornaram incompatível com a versão ascendente walrasiana da teoria neoclássica, foram elementos que surgiram de um sentido mais ativo para o subjetivismo da tradição austríaca. Mises enfatizou a autonomia da escolha individual, a incerteza do ambiente em que as escolhas são feitas, o caráter empreendedor das decisões de mercado e a importância primordial da propensão humana. Hayek enfatizou o papel do conhecimento e da descoberta como facilitado durante o processo de competição dinâmica. Para Mises e Hayek, esses insights subjetivistas não comprometeram de forma alguma a centralidade tradicional, dentro da economia austríaca, da coordenação sistemática do mercado e da soberania do consumidor. Ao contrário, argumentaram, é somente incorporando essas ideias subjetivistas que podemos compreender adequadamente as propriedades espontâneas e coordenadas do processo de mercado. Podemos agora perceber o caráter paradoxal da nova linha crítica subjetivista da moderna abordagem austríaca, que estamos considerando neste capítulo.

O que os críticos pedem é o reconhecimento pelos austríacos de que seus insights subjetivistas – insights entusiasticamente aplaudidos pelos críticos – devem inevitavelmente levar à rejeição precisamente daquelas conclusões sobre mercados que têm sido centrais à tradição austríaca desde seus primórdios.[7] A base subjetivista para a infelicidade austríaca com o paradigma do equilíbrio mainstream deve, segundo os críticos, inexoravelmente impelir os austríacos não apenas a rejeitar o domínio desse paradigma, mas também a rejeitar a própria noção de coordenação de mercado. Para ser consistente em relação ao seu subjetivismo, os austríacos devem renunciar à sua tradicional apreciação pelas contribuições do mercado. Qualquer esperança de permanecer em um meio-termo estável, no qual seu subjetivismo e sua apreciação pela subjetividade do mercado possam coexistir, é declarada ilusória e autocontraditória. A busca consistente do subjetivismo austríaco deve forçar o abandono do reconhecimento austríaco das propriedades sociais coordenadas da economia de livre mercado. Vamos voltar a considerar os principais argumentos oferecidos nessa nova linha crítica.

SUBJETIVISMO E EQUILÍBRIO: AMIGOS OU INIMIGOS?

Boa parte das críticas foi direcionada à tentativa desse escritor de reafirmar a extensão da teoria austríaca de Mises-Hayek em termos de um processo de equilíbrio explicitamente orientado ao empreendedorismo (ver especialmente Kirzner 1973 e trabalhos posteriores). O que torna o processo de mercado um processo sistemático de coordenação é a circunstância de cada lacuna na coordenação do mercado se expressar como uma oportunidade de lucro puro. É a existência dessas oportunidades de lucro que atrai a atenção de empreendedores alertas. Uma lacuna na coordenação é, em si mesma, a expressão de pura ignorância mútua por parte dos potenciais participantes no mercado. As ações de lucro dos empresários dissipam a ignorância que foi responsável pelas oportunidades de lucro e, portanto, geram uma tendência à coordenação entre as decisões de mercado. Dessa forma, a teoria econômica é capaz de entender como os preços de mercado, a alocação de recursos no mercado e a distribuição dos rendimentos no mercado podem ser entendidos como resultados de uma tendência sistemática de equilíbrio – uma tendência que nunca foi concluída e, ao mesmo tempo, nunca completamente suspensa. Os fenômenos de mercado não devem ser vistos como nada mais do que a expressão imediata de preferências e expectativas de mudança espontânea, mas como o resultado de um processo que, embora não completamente determinado, é sistematicamente posto em movimento pelas realidades subjacentes relevantes.

Nessa compreensão do processo de mercado, os insights subjetivistas austríacos desempenham um papel significativo. É esse papel que diferencia decisivamente a teoria austríaca das principais tentativas neoclássicas de entender o mercado. Nas últimas tentativas, muitos dos insights subjetivistas foram suprimidos. Em particular, as noções de criatividade e descoberta empreendedora, alerta empreendedor para oportunidades geradas por pura ignorância, o potencial para injeção empreendedora de surpresa, eram noções que simplesmente não poderiam ser encaixadas nos modelos neoclássicos. Para demonstrar um nexo determinado ligando os fenômenos de mercado às realidades subjacentes, era necessário que esses modelos postulassem um mecanismo de mercado capaz de traduzir inexoravelmente essas realidades em condições de equilíbrio, sem serem perturbadas por surpresas empreendedoras e pelos caprichos que poderiam ser introduzidos pela incerteza de entidades abertas. Para a visão austríaca, por outro lado, o empreendedorismo surgiu não como o inimigo, mas como o amigo indispensável, da noção de equilíbrio. É essa afirmação de que o empreendedorismo pode ser visto como a própria fonte da tendência de equilíbrio que atraiu o fogo dos críticos que desejam negar a viabilidade do meio-termo austríaco. Brian Loasby tem sido um crítico gentilmente persistente a esse respeito.[8]

Loasby (1982: 122) expressa um profundo ceticismo em relação à capacidade de os empreendedores gerarem a coordenação do mercado: “Que garantia podemos ter de que as percepções empreendedoras não estarão tão seriamente em erro a ponto de levá-las a uma direção bastante errada […]?” Loasby enfatiza a distinção entre o alerta empreendedor às condições existentes que de alguma forma escaparam da atenção e imaginação empreendedora em relação às possibilidades futuras (pp. 116, 119; ver também Loasby 1989: 161). Em relação a este último, em particular, Loasby desafia a alegação de que os empresários podem ser invocados para tomar decisões corretas. Suas próprias decisões podem de fato frustrar as previsões uns dos outros e, além disso, simplesmente não há um conjunto sistemático de forças para orientar os empreendedores no sentido de tomar decisões corretas e coordenadas com relação ao futuro incognoscível. “Mas enquanto alguém possa estar preparado para conceder, com algumas dúvidas, que as oportunidades presentes são fatos, a antecipação de futuros fracassos de coordenação […] certamente deve abrir a possibilidade de que o empreendedor gere, em vez de corrigir, erros” (Loasby 1989: 161). Exatamente como (pelo menos de acordo com alguns filósofos da ciência) não podemos provar que os processos científicos devem produzir conhecimento verdadeiro, também os “esforços de Kirzner para demonstrar que o processo de mercado deve funcionar bem não podem ser bem-sucedidos […]” (P. 163). Loasby enfatiza não apenas a possibilidade de erros de empreendedorismo diante de um futuro incerto, mas também a possibilidade de os empreendedores descobrirem oportunidades de lucro enganando deliberadamente o consumidor (Loasby 1982: 121) ou através de ativos especulativos de compra para vendê-los um pouco mais tarde a um preço mais elevado para alguém que espera revendê-los a um preço mais alto ainda” (p. 127). Embora Loasby reconheça que tal ceticismo em relação às propriedades coordenadas do mercado não precisa fornecer uma justificativa imediata para a ação do governo (p. 121), sua conclusão é que “é inerentemente impossível usar métodos austríacos para provar que o planejamento pode não funcionar” (Loasby 1989: 166). O próprio reconhecimento pelos austríacos das circunstâncias e da importância de “avaliações subjetivas e conhecimento incompleto” (p. 166) deve, ao que parece, impedir os economistas de atribuir quaisquer virtudes coordenadas peculiares a mercados não regulamentados. A própria abertura da economia empresarial impede, ao que parece, qualquer apoio, a partir de uma compreensão subjetivista dessa economia, da noção de uma tendência sistemática para o equilíbrio e a coordenação do mercado.

SUBJETIVISMO E O SIGNIFICADO DA EFICIÊNCIA SOCIAL

A relação entre a coordenação do mercado e a obtenção da eficiência social nunca foi simples. A história da economia do bem-estar é a história da mudança de conceitos de otimização econômica social, bem como de mudanças nas avaliações do sucesso da economia de mercado em sua obtenção (ver também o Capítulo 11). Mas quaisquer alegações de realização de otimização social para o mercado certamente dependeram de reivindicações paralelas para a realização sistemática pelo mercado de resultados definidos. Se os resultados do mercado forem totalmente indeterminados, nada sistemático pode começar a ser reivindicado em relação às propriedades de bem-estar da economia de mercado. Os economistas austríacos, como observado anteriormente, geralmente deram uma classificação alta ao grau em que os resultados do mercado correspondem à alocação de recursos implícitos pelas preferências do consumidor. Desafios para a validade das reivindicações por tendências de equilíbrio implicam, é claro, desafios às afirmações dos austríacos sobre a eficiência do mercado.[9] Os insights subjetivistas radicais (com base nos quais os desafios à teoria do equilíbrio avançaram) negam a viabilidade do suposto meio-termo austríaco não apenas em relação à economia positiva, mas também em relação às suas implicações de bem-estar (e política).

O que emerge da recente linha de crítica subjetivista da economia austríaca considerada neste capítulo, entretanto, não é meramente a rejeição de reivindicações tradicionais de bem-estar austríacas em nome do mercado, mas de fato a rejeição, em princípio, da própria noção de eficiência em quaisquer termos e em qualquer definição de eficiência social. Não importa como seja formulada, a noção de eficiência social deve ser declarada sem sentido, em bases estritamente subjetivistas. Este desenvolvimento bastante surpreendente merece mais atenção.

Vamos imediatamente distinguir nitidamente entre essa crítica subjetivista da significação dos critérios convencionais de bem-estar e a contida na célebre tese de Hayek sobre as implicações de bem-estar do conhecimento disperso (ver Capítulo 11). Hayek apontou a falácia nas abordagens para a avaliação da utilidade social do mercado que erroneamente assumem a relevância, em princípio, do conhecimento completo e centralizado sobre as realidades subjacentes. Em um mundo de informações dispersas, argumentou Hayek, é inútil medir a eficiência social em relação ao critério irrelevante da informação completa (disponível, em princípio, para, digamos, uma autoridade central de planejamento) (Hayek, 1949b). A crítica de inspiração subjetivista da noção de eficiência social que desejamos considerar aqui é bem diferente. Não se baseia na circunstância de informações incompletas sobre as realidades subjacentes. Repousa, antes, na alegação de que a própria noção de “realidades objetivas subjacentes”, em termos dos quais avaliar a eficiência social, é fundamentalmente inconsistente com um pleno reconhecimento subjetivista da incerteza. Hayek não teve dificuldade com a noção, em princípio, de um ótimo social mapeado pelos dados subjacentes de preferências e escassez. Ele simplesmente declarou que este ótimo não seria o critério relevante para a política social, uma vez que o conhecimento necessário para a formulação de tal ótimo nunca é dado ou está disponível para uma única mente; O problema relevante que a sociedade enfrenta nunca é o desdobramento desse conhecimento sobre o ótimo atingível, mas sim a mobilização dos bits de informação dispersos pela economia. Mas o que os críticos subjetivistas aqui discutidos querem questionar é a própria ideia de realidades em termos das quais um ótimo social poderia ser definido. O professor Jan Kregel foi explícito ao questionar o significado da ideia de realidades objetivas subjacentes. Ele acha que os economistas austríacos adotaram um subjetivismo inadequado (comparado com o que caracteriza a economia pós-keynesiana) ao não perceber a questionabilidade desses “fatos objetivos”.

Essa questionabilidade, explica Kregel, surge porque os futuros “fatos objetivos” são em parte determinados pelas ações empreendedoras que estão sendo tomadas hoje (com base nas expectativas relativas a esses supostos “fatos objetivos” do futuro). Kregel (1986: 160) discute o impacto deste ponto sobre a possibilidade de equilíbrio: “Não pode haver uma tendência ao equilíbrio baseado em uma relação entre expectativas e os dados objetivos do que o consumidor demandará e o preço que ele pagará que descreve as condições de equilíbrio, porque as rendas disponíveis aos consumidores serão determinadas em última análise pelas próprias decisões tomadas pelos empresários com base nessas expectativas. […] As próprias expectativas determinam os fatos objetivos das condições de equilíbrio.[10] Embora Kregel não siga sua linha de raciocínio em direção a uma crítica dos conceitos padrão de critérios de bem-estar, as implicações são bastante claras. Na medida em que a própria atividade empreendedora cria o futuro que os empreendedores desejam antecipar, parece inútil julgar a otimização social de tal atividade em relação ao parâmetro desse futuro objetivo. Tal juízo de eficiência só faria sentido se fosse possível postular um conjunto de fatos futuros objetivos (independentes de ações correntes) aos quais essas ações atuais buscam se ajustar.[11] Teremos razão para voltar a essa implicação radical da afirmação do Professor Kregel mais tarde neste capítulo.

Em um recente artigo não publicado, James Buchanan e Viktor Vanberg abordaram essa questão de maneira similar. A própria noção de ineficiência remediável, argumentam eles, repousa na visão neoclássica de que o conhecimento do futuro é imperfeito não por causa da incognoscibilidade intrínseca do futuro, mas por causa da ignorância que poderia, em princípio, ter sido evitada (Buchanan e Vanberg 1990: 11). O subjetivismo pleno, entretanto, exige que compreendamos o futuro como indeterminado e intrinsecamente incognoscível. De tal perspectiva subjetivista, a ideia de tomada de decisão errônea deve parecer altamente artificial, se não completamente incoerente. Buchanan e Vanberg citam com aprovação (p. 12) a observação de Shackle (1983: 33) no sentido de que o “desconhecimento” do futuro não é “uma deficiência, um encurtamento, uma falha de pesquisa e estudo”.

A observação feita por Buchanan e Vanberg lembra a observação insistida pelo próprio professor Buchanan alguns anos atrás. “Em economia”, observou ele, “mesmo entre muitos dos que continuam sendo fortes defensores do mercado e da organização de mercado, a ‘eficiência’ que tais acordos de mercado produzem é conceitualizada independentemente. Acordos de mercado, então, tornam-se ‘meios’, que podem ou não ser relativamente melhores. Até e a menos que esse elemento teleológico seja totalmente exorcizado da teoria econômica básica, é provável que os economistas permaneçam confusos e seus discursos confusos” (Buchanan, 1982). Esta referência ao elemento “teleológico”, que Buchanan descreve como economistas equivocados para conceituar uma noção abstrata de eficiência, além do progresso real em que surge, exige uma seção separada. Representa um exemplo especial da crítica subjetivista radical da moderna economia austríaca que está sendo considerada neste capítulo.

SOBRE PERSPECTIVAS TELEOLÓGICAS E NÃO-TELEOLÓGICAS

Buchanan e Vanberg (1990) desenvolvem a distinção entre o que chamam de perspectivas “teleológicas” e “não-teleológicas” como segue. Na visão teleológica, “a eficácia do ajuste do mercado é medida […] em termos da realização relativa de algum padrão de valor predefinido e preexistente” (p. 18). Claramente, é a visão teleológica que depende da conceitualização de “fatos objetivos” (a própria noção de que foi contestada, vimos, por Kregel), independente da atividade empreendedora, em termos dos quais a eficácia de tal atividade pode ser julgada. Contra essa perspectiva teleológica, Buchanan e Vanberg defendem “uma compreensão subjetivista radical do mercado” (p. 19) que reconhece a falácia de visualizar “algum objetivo bem definido que existe independentemente das próprias escolhas criativas do participante” (p. 18). Para a visão não-teleológica, “todo o conceito de equilíbrio geral é questionável quando aplicado a um mundo social em constante mudança que não tem ‘telos’ predeterminado, nem no sentido pomposo de uma filosofia marxista da história, nem no sentido mais “equilíbrio” conceitualmente definível para o qual o processo de mudança socioeconômica poderia ser previsto para gravitar” (p. 13).

O que é significativo, para o presente capítulo, é a afirmação dos autores de que existe, na visão deles, “nenhum meio-termo sistematicamente sustentável” entre uma perspectiva teleológica e uma não-teleológica (p. 19). Não se pode, afirmam, professar simultaneamente o reconhecimento tanto do caráter criador e originário da escolha humana quanto qualquer sentido em que tal escolha possa ser descrita como “descoberta do erro”. A tentativa deste escritor de desenvolver uma teoria de tendências sistemáticas de equilíbrio empreendedor que está enraizada no alerta empreendedor criativo é pronunciada como falha porque a “teleologia subliminar” (p. 23) implícita em noções de equilíbrio é completamente inconsistente com a verdadeira criatividade. Nossa defesa, neste papel, do meio-termo austríaco nos exigirá enfrentar esta crítica. Nós deveríamos, de fato, argumentar que a criatividade e a correção de “erro” não precisam ser categorias excludentes.

Um aspecto da posição tomada por Buchanan e Vanberg, que é suficientemente convincente para exigir uma notificação separada, é a sua convicção de que uma crítica completa do socialismo é impossível dentro de um quadro teleológico. Tanto as críticas neoclássicas quanto as austríacas do planejamento central, afirmam, não conseguiram identificar a falácia central na ideia de planejamento central. Essa falácia consiste na crença de que, dada a onisciência e a benevolência, seria inteiramente viável, em princípio, que um planejador central alcançasse o ótimo social. Essa crença é falaciosa porque “até mesmo o planejador tão idealizado não pode criar aquilo que não está lá e não estará lá salvo através do exercício das escolhas criativas dos indivíduos, que não têm ideia prévia das ideias que suas próprias imaginações produzirão.” (Buchanan e Vanberg 1990: 33). O socialismo não pode se tornar equivalente ao “mercado como um processo criativo que explora o potencial imaginativo do homem”. O que é digno de nota aqui é que as considerações subjetivistas com base nas quais Buchanan e Vanberg negaram (assim como Kregel negou) a objetividade desses “fatos futuros”, em termos dos quais a eficácia dos mercados poderia ser julgada, aparentemente os levou a conclusões de bem-estar bem diferentes daquelas alcançadas na seção anterior.

Na seção anterior, observamos que a implicação óbvia dos insights críticos de Kregel sobre os “fatos objetivos” do futuro é que a própria noção de eficiência social (supostamente em termos da eficácia com que as atividades atuais são ajustadas aos requisitos impostos pelo fatos futuros) perde seu significado. A menos que esses fatos futuros possam ser concebidos independentemente dessas atividades atuais, sugerimos, uma crítica subjetivista da economia do bem-estar pode desafiar a própria possibilidade de qualquer avaliação de eficiência (com relação a esses fatos futuros). As reivindicações dos economistas de que a economia de mercado é uma instituição social eficiente revelam-se desintegrar-se à luz da questionabilidade dessas “realidades subjacentes”, necessárias para conferir sentido à noção de eficiência social. Agora temos a afirmação aparentemente surpreendente de Buchanan e Vanberg de que desafiar o sentido das “realidades futuras subjacentes” leva, não à renúncia de todas as reivindicações de superioridade comparativa para o mercado (em relação ao socialismo), mas para o discernimento da fraqueza central da ideia socialista.

Embora uma crítica detalhada dessa conclusão aparentemente surpreendente seja apenas perifericamente pertinente às preocupações centrais deste capítulo, será útil ponderar brevemente os paradoxos que ela parece suscitar. Por um lado, somos informados de que a perspectiva não-teleológica, radicalmente subjetivista, questiona quaisquer padrões objetivos contra os quais mede a eficácia do mercado; por outro lado, de alguma forma, somos levados a entender que a economia de mercado possui importantes méritos como um sistema social – méritos negados por definição pelo socialismo – precisamente porque promove a imaginação criativa de seus participantes individuais. No entanto, não nos é dada nenhuma razão pela qual temos o direito de nos sentirmos confiantes de que a criatividade imaginativa dos participantes individuais do mercado provavelmente levará ao bem-estar individual (muito menos social), e não ao desastre social (ou mesmo individual). A menos que a criatividade deva ser valorizada por si mesma – independentemente do que é criado, e independentemente da possibilidade de diferentes criatividades colidirem e se destruírem mutuamente – fica-se a pergunta de como (na ausência de quaisquer fatos objetivos significativos que possam servir para formular critérios de avaliação) é possível, como economista, classificar um sistema que estimula mais a criatividade do que um que não estimula.

A CRÍTICA SUBJETIVISTA DO MEIO-TERMO AUSTRÍACO: UM RESUMO

As críticas subjetivistas radicais da posição de meio-termo austríaco que nos propusemos defender parecem se resumir a várias contestações-chave.

Erro empreendedor

As reivindicações austríacas por uma tendência de equilíbrio repousam no pressuposto de que os empreendedores tenderão a descobrir e aproveitar oportunidades de lucro puro, corrigindo assim a ignorância do mercado presente em desequilíbrio. Os críticos afirmam que os empreendedores podem cometer erros (e, especialmente em relação ao futuro incerto, dificilmente podem evitar cometer erros). Não há garantia de que os empreendedores tendem sistematicamente a reduzir a ignorância do mercado; o oposto exato pode ser verdadeiro.

Realidades subjacentes e a noção de equilíbrio

As alegações austríacas de uma tendência de equilíbrio parecem basear-se na noção de uma configuração de equilíbrio relevante, considerada implícita nas “realidades subjacentes” que constituem o quadro dado para a análise econômica. É essa configuração de equilíbrio que age (de modo que os críticos parecem entender o meio-termo que os austríacos estão afirmando) como uma espécie de ímã que molda o curso dos eventos subsequentes. Os críticos desafiam o significado dessas “realidades subjacentes”. Assim que admitimos a dinâmica do tempo em nossa análise, devemos reconhecer que as realidades relevantes do futuro (em relação às quais qualquer ideia intertemporal de equilíbrio deve ser enunciada) não são elas mesmas “realidades” (no sentido de ter uma existência independente à qual as atividades humanas devem, de alguma forma, ser ajustadas), mas são criadas pelas próprias atividades cuja consistência está sendo examinada.

Em geral, argumenta-se, a imagem da história social que emerge de um ponto de vista subjetivista radical é inteiramente inconsistente com a economia austríaca do meio-termo. Para o subjetivismo radical, a história é uma série contínua de “novos começos” de Shacklean; a incerteza do futuro, sujeita a incessantes injeções de surpresas, torna absurdo prevermos processos sistemáticos de equilíbrio no mercado. Fazê-lo deve ser julgado absurdo porque incessantes injeções de surpresa devem continuamente abortar quaisquer tendências incipientes de equilíbrio e, além disso, porque a consciência da inevitabilidade de tais injeções de surpresa deve paralisar quaisquer ilusões empreendedoras de algum modo antecipando o futuro (ou, como se nota, mesmo de definir esse futuro, como um conjunto independente de fatos a serem levados em conta). O subjetivismo limitado que distingue o meio-termo austríaco do mainstream neoclássico é, nessa visão, tão moderado e diluído quanto os cegos austríacos do meio-termo em relação à incoerência fundamental de sua posição. Longe de serem capazes de desfrutar do melhor dos dois mundos, os austríacos de meio-termo se colocaram em uma posição tomada por inconsistências internas.

Vamos tentar esclarecer a posição de meio-termo dos economistas austríacos modernos de uma maneira que possa lidar com essas críticas e mostrar que elas são muito menos formidáveis ​​do que poderia parecer à primeira vista. Pode ser útil, em primeiro lugar, dissipar alguns mal-entendidos sobre a possibilidade (e significado) do erro na teoria austríaca de equilíbrio.

MEIO-TERMO AUSTRÍACO E ERRO EMPREENDEDOR

Às vezes, os críticos subjetivistas radicais parecem atribuir aos austríacos de meio-termo a noção de que os empreendedores alertas estão isentos da possibilidade de cometer erros; eles de alguma forma têm a capacidade de ver eventos futuros corretamente. Este certamente não é o caso; ou, no mínimo, não sem qualificação cuidadosa. Primeiro, a teoria austríaca do processo de equilíbrio empresarial baseia-se, como observou Loasby (1982: 117; 1989: 160-1), em alguns empreendedores sendo mais alertas do que outros (e é a relativa falta de atenção dos últimos que é responsável pelos erros que criam as oportunidades e os incentivos para o lucro). Em segundo lugar, a postulação de uma tendência de oportunidades de lucro para gerar equilíbrio não foi apresentada como uma sequência inexorável e determinada. A ênfase no incentivo à obtenção de lucros não pretendeu negar a possibilidade de perdas empresariais. Mostrar como o alerta empreendedor pode explicar os ajustes aparentemente sistemáticos do mercado não é, como enfatizaremos mais de uma vez, prever o equilíbrio certo em todas as circunstâncias.

Às vezes, os críticos subjetivistas radicais atribuem aos austríacos de meio-termo uma posição que associa o erro empreendedor a uma certa culpabilidade ou culpa. Como um erro é visto como, em princípio, evitável, parece seguir-se que uma falha em prever corretamente o futuro deve ser atribuída ao descuido ou a algo. E, portanto, porque os subjetivistas radicais enfatizam a incognoscibilidade intrínseca do futuro, estão fortemente inclinados a negar a significação do termo “erro” em relação ao futuro. “Só pode haver ‘erro’ se o futuro puder ser conhecido. Mas, se o futuro é reconhecido por ser criado por escolhas que ainda estão por ser feitas, como pode ser conhecido?” (Buchanan e Vanberg 1990: 27). Deve-se enfatizar que, no meio-termo austríaco, a falta de “atenção” em relação ao futuro não precisa ser censurável em nenhum sentido literal. Um “erro” em relação ao futuro não envolve descuido nem negligência. Certamente o futuro, especialmente à luz das incertezas injetadas pela criatividade das escolhas futuras, é difícil (se não totalmente impossível) ser adivinhado com antecedência.

De fato, pode-se argumentar, a partir da perspectiva austríaca do meio-termo, que os críticos subjetivistas radicais talvez tenham superestimado a objetividade (o “entendimento”) dos fatos presentes, comparados com fatos futuros. Críticos que estão insatisfeitos com as noções austríacas de erro em relação ao futuro são aparentemente não-críticos da ideia de erro em relação aos fatos existentes. Fatos existentes são fatos existentes; um erro em relação a tal fato é visto como um erro verdadeiramente evitável. Fatos futuros são intrinsecamente incognoscíveis; a ignorância de fatos futuros é inevitável e, portanto, considerada como nenhum erro. Mas os fatos existentes são diferentes. Maior diligência na busca teria revelado toda a verdade sobre os fatos existentes. Assim, corre a insistência subjetivista radical na diferença acentuada introduzida pelo reconhecimento do futuro com toda a sua incerteza. Mas, a partir da perspectiva austríaca do meio-termo, a ignorância de um fato existente não envolve mais culpa, não mais “evitabilidade”, do que a ignorância de um “fato” futuro. O que está envolvido, no que diz respeito à ignorância do futuro, é o que este escritor chamou de ignorância “pura” ou “absoluta” (ou seja, ignoramos o fato de que há um fato específico que não se sabe). Tal “ignorância pura” é, naturalmente, totalmente possível também em relação aos fatos existentes. Alguém pode ser completamente ignorante da oportunidade de aprender sobre um fato importante. Tal ignorância – mesmo com relação aos fatos existentes – não é evitável (no sentido de que uma maior diligência na busca poderia ter produzido informações mais completas) e pode ser considerado como não envolvendo qualquer descuido de forma alguma. Não se pode culpar alguém que é totalmente ignorante dessa maneira; não se pode censurá-lo por não olhar com mais cuidado, por não procurar com mais cuidado; afinal, ele estava totalmente inconsciente de onde começar a procurar, da própria oportunidade de pesquisar, da própria necessidade de pesquisar por completo. Se o descrevermos como tendo agido “no erro”, queremos dizer, simplesmente, que ele poderia ter conhecido os fatos existentes se estivesse “mais alerta”.[12] Parece não haver nenhuma diferença fundamental entre a capacidade de perceber um fato existente (a respeito de qual deles anteriormente esteve em um estado de ignorância pura) e a capacidade de “perceber” ou sentir um evento futuro que alguém poderia ter levado em conta ao formular seus planos atuais. À luz da subsequente descoberta de um fato existente (sobre o qual alguém ignorava totalmente em um momento de ação) pode-se, retrospectivamente, declarar-se como tendo agido “erroneamente”; Parece inteiramente coerente que alguém pronuncie um julgamento similar sobre a ação de alguém, que acaba por ser tomada sob uma antecipação equivocada do futuro. Se existe uma diferença entre a “atenção” capaz de detectar eventos futuros e o estado de alerta necessário para perceber os fatos presentes (concernentes à própria existência da qual se tem sido até então completamente ignorante), deve ser uma questão de grau, não de espécie. O “erro” envolvido em ignorar um fato presente parece não ser mais uma negligência do que deixar de ver a forma de eventos futuros corretamente. E o fracasso tão correto em ver o futuro deve parecer, pelo menos em muitos casos, não menos um exemplo de erro do que uma falha em ver o que já é um fato conhecido no presente. Será útil para nós explorarmos um pouco mais a posição subjetivista radical em relação à absoluta incognoscibilidade do futuro, um futuro em relação ao qual, afirma-se, é impossível errar.

UM MUNDO SEM ERRO?

Um pouco de pensamento deve nos convencer de que a negação subjetivista radical da possibilidade do verdadeiro erro em relação ao futuro incontornável deve levar a implicações bastante bizarras, implicações com as quais os próprios subjetivistas radicais certamente se sentem desconfortáveis. Dizem-nos que o futuro não é uma tapeçaria enrolada à espera de ser desfraldada, mas um vazio “esperando” para ser preenchido pelas livres escolhas, criativas e imprevisíveis dos seres humanos (ver, por exemplo, Shackle 1986: 281ff). “A essência da posição subjetivista radical é que o futuro não é simplesmente ‘desconhecido’, mas é ‘inexistente’ ou ‘indeterminado no ponto de decisão’ ” (Wiseman 1990: 160). Tanto é possível que os austríacos de meio-termo aceitam com calorosa concordância. É quando os subjetivistas radicais concluem diretamente, a partir desta circunstância do futuro ainda inexistente, que nenhuma ação orientada para o futuro pode ser descrita como errônea, de modo que o calor dessa concorrência começa a evaporar-se com rapidez alarmada. Já vimos como essa conclusão chegou: se o futuro não existe, é inerentemente incognoscível; se for incognoscível, nenhuma ação tomada pode ser denunciada por não ter evitado um desastre evitável; a ação mais desastrosa, então, não pode ser denunciada como erro. A ignorância do futuro, argumenta Wiseman, não deve ser vista como “conduzindo ao ‘comportamento ineficiente’, mas “como uma característica inescapável da condição humana”. Ver as coisas de maneira diferente é sugerir que há algum estoque de conhecimento sobre o futuro que os agentes devem ter e um conjunto de decisões que eles, portanto, devem tomar, e que são esses que identificam um resultado ”(Wiseman 1990: 155).

É neste ponto que nos detemos para admirar, com alguma surpresa, o que parece ser dito aqui nos tons mais triviais. As percepções usuais, leigas, das decisões humanas são que algumas delas são tomadas com sabedoria, judiciosamente e com sucesso. Essas são as decisões que, em retrospecto, reconhecemos como cruciais para a obtenção de algum resultado desejável. Outras decisões, segundo a percepção comum, acabaram sendo malsucedidas; Em retrospecto, pelo menos, elas são vistas como erros. A questão aqui não é culpabilidade moral em qualquer simples sentido, mas reconhecimento, pelo menos do ponto de vista ex post, de que as últimas decisões não estavam bem sintonizadas com a forma como os eventos subsequentes de fato resultaram. Aqui temos a essência de nosso aparente desacordo com os subjetivistas radicais: é ou não é significativo descrever uma decisão como tendo sido apropriada, à luz de eventos subsequentes, ou como tendo sido inapropriada? Devemos pressionar a questão um pouco mais. É ou não é significativo para um tomador de decisão tentar moldar sua decisão de modo que possa ser pronunciada como tendo sido a decisão correta? Será que estamos realmente dizendo isso, porque, em algum nível filosófico, o futuro não existe, porque não está “esperando” ser conhecido (já que ainda está para ser criado), portanto, não tem sentido para um ser humano procurar ser bem sucedido em suas decisões orientadas para o futuro? O ponto em questão acaba por ser ainda mais problemático quando consideramos a ideia de política econômica.

Será que realmente devemos dizer que, como nenhum erro genuíno é concebível em relação ao futuro, somos proibidos de distinguir entre políticas econômicas sábias e insensatas? Devemos dizer que, embora, subjetivamente falando, os tomadores de decisão individuais e públicos acreditem estar se esforçando para olhar para frente, a fim de fazer as escolhas corretas, isso deve, de uma perspectiva filosófica mais perceptiva, ser definido como nada mais que uma ilusão? Será que realmente devemos dizer que a indeterminação do futuro implica que, como ainda não há futuro, é inútil até mesmo tentar ajustar as ações de uma pessoa para evitar um desastre nesse futuro? A indeterminação do futuro leva precisamente àquele sentimento de total desamparo (e, portanto, à mesma sensação entorpecente de nunca ter que se preocupar em cometer um erro) que deve seguir da visão do futuro como totalmente determinada em todos os aspectos (independentemente de o que as pessoas podem acreditar que estão tentando alcançar ou evitar?) Um mundo cujo futuro está envolto nas incertezas geradas pela criatividade da ação humana degenera em um mundo no qual a ação genuína é descartada pela impossibilidade do erro? Certamente, essas são implicações que devem perturbar todos os subjetivistas, independentemente do grau de radicalidade. O trabalho da vida de George Shackle na compreensão de como os homens escolhem entre cursos de ação cada um dos quais está associado, em suas imaginações, com miríades de miríades de futuros hipotéticos competitivos nos assegura que mesmo o mestre subjetivista de nosso tempo não teve nenhum controle com a aparentemente ideia sedutora de que a escolha deve ser reconhecida como nada além de uma quimera, uma auto-ilusão. Se a incerteza do futuro tornou impossível discriminar entre cursos de ação mais ou menos aconselháveis, então a escolha foi reduzida ao vazio. “Quando o decisor é livre para supor que qualquer ato pode ter qualquer consequência sem restrição, não há base de escolha de ato. A limitação da incerteza é essencial para a possibilidade de decisão” (Shackle 1970: 224). A própria ideia de “incerteza limitada” deve significar que o selecionador potencial se sente no direito de concluir, apesar das incertezas que enfrenta, que um curso de ação parece mais provável de ser bem-sucedido do que outro.

ESCOLHA POR UM FUTURO NÃO-EXISTENTE

Se quisermos salvar a própria noção de escolha do impasse ameaçado por um mundo sem erros, devemos insistir claramente em várias verdades simples, mas fundamentais. Sem se atrever a pisar em águas filosóficas que ameaçam economistas inconscientes com campos minados sobre os quais eles podem estar sofrendo “ignorância pura”, é necessário para nós fixar vários assuntos da experiência cotidiana. Como podemos imaginar o futuro, mesmo um futuro inexistente e incognoscível,[13] nós escolhemos, tentando moldar o fluxo futuro de eventos de tal maneira que as escolhas futuras livres e originárias dos outros possam redundar em nosso benefício. Nós procuramos, isto é, adequar nossas escolhas para levar em conta esses eventos futuros – eventos imaginados – que agora não existem em qualquer sentido. E, quando chegar a hora de olharmos para nossos exercícios anteriores de imaginação, qualquer que seja a radicalidade de nosso subjetivismo, julgaremos até que ponto nossa imaginação foi útil. Da perspectiva ex post, julgamos nossas ações como sendo as mais acertadas, ou não. Podemos não julgar uma ação “incorreta” como sendo insensata, censurável, à luz da imagem do mundo que tivemos no momento da decisão. Podemos, de fato, estar convencidos de que, mesmo depois de nossa amarga experiência, repetiríamos a ação anterior (a que agora se considera incorreta) se nos encontrarmos novamente em circunstâncias semelhantes (e com imagens semelhantes do mundo) àquelas em que a decisão anterior foi tomada. No entanto, ainda vamos nos arrepender de nossa incapacidade anterior de ter de alguma forma evocado uma imagem mais presciente do mundo. O esforço para fazer a “decisão certa”, para formular a “política econômica correta” (ou, aliás, a “política externa correta”) é aquela que tem um significado definido. O futuro não-existente, indeterminado, não proíbe os homens de imaginarem antecipadamente que atos criativos preencherão o vazio do futuro. E, mais significativamente, não os proíbe, em retrospecto, de classificar essas antecipações imaginativas em ordem de sua correção. Todos os nossos esforços ex ante para fazer a escolha certa são esforços para poder, no futuro, resistir a tais julgamentos retrospectivos com sucesso. Não estamos satisfeitos, ao fazer nossas escolhas, meramente escolhendo de uma maneira que, no futuro, não será julgada como tendo sido imprudente ou excessivamente cautelosa, não sábia e, portanto, censurável – procuramos escolher de uma maneira que resultará ter sido a escolha correta, bem-sucedida.

ESCOPO DA PRESCIÊNCIA EMPREENDEDORA SUPERIOR

O futuro não existe agora, mas nos esforçamos para entender esse futuro de alguma forma em nossa imaginação. Alguns de nós são mais bem-sucedidos nesse esforço do que os outros. Os descuidos, os erros cometidos por estes últimos, acabam por constituir as oportunidades de lucro alcançadas pelos mais bem sucedidos. De fato, é a oportunidade de lucro assim constituída que desencadeia a imaginação empreendedora do mais presciente, mais “alerta”, entre os seres humanos.[14] (Certamente não é qualquer configuração de equilíbrio que opera – como ímã ou “telos” – para estimular a presciência empreendedora, mas sim erros empreendedores, na forma de oportunidades de lucro, que atraem a descoberta antecipada.) Uma vez que reconhecemos a importância de tentar imaginar o futuro mais corretamente, dificilmente podemos nos recusar a reconhecer a qualidade de “alerta” (ou de imaginação mais corretamente fértil, ou de maior presciência – chame de vontade) nos seres humanos. Devemos, isto é, reconhecer algo como “capacidade empreendedora”, entendida como a capacidade independente de dimensionar uma situação e, mais corretamente, alcançar uma imagem imaginada do futuro relevante (ainda indeterminado). Todos nós compartilhamos essa habilidade até certo ponto – ou certamente teríamos aprendido há muito tempo a não nos incomodar em fazer escolhas em um mundo tão cheio de surpresas a ponto de frustrar todas as nossas tentativas de controlar nossas vidas. Mas alguns têm graus mais elevados dessa capacidade – alguns em algumas linhas de atuação, outros em outras linhas de atuação. Economistas, psicólogos e outros cientistas sociais ainda não desenvolveram materiais teóricos ou empíricos muito úteis ou extensivos a partir dos quais se possa dizer muito sobre as fontes e determinantes (se houver) de tal capacidade. Mas negar sua existência é negar o mais óbvio dos fatos cotidianos da experiência. Além disso, uma vez que reconhecemos o escopo para a presciência empreendedora, não podemos evitar reconhecer que são as “realidades subjacentes” que inspiram tal presciência e que, portanto, moldam as ações empreendedoras. É verdade, é claro, que o que inspira e molda diretamente as ações empreendedoras é a imaginação (das realidades futuras) e não essas próprias realidades. Mas o que o estado de alerta do empreendedor se esforça para perceber e imaginar corretamente é (o que acabará sendo) realidades futuras, e é o ganho prospectivo oferecido por essas realidades que “acionam” o alerta empreendedor. Segue-se, portanto, que o que acabará sendo as realidades futuras estão de fato crucialmente envolvidas na formação da presciência empreendedora e, portanto, das ações empreendedoras. É por estas razões que estaremos argumentando que o processo de equilíbrio posto em movimento pela atividade empreendedora orientada para o lucro é inspirado pelas realidades subjacentes, afinal.

O QUEBRA-CABEÇA DA PRESCIÊNCIA

No entanto, deve ser imediatamente reconhecido que ainda não estamos totalmente envolvidos com o problema-chave levantado pelos subjetivistas radicais. Nós imaginamos empreendedores – e, como é bem sabido do trabalho de Mises e de Shackle, somos todos empreendedores – tentando imaginar o futuro. No entanto, esse futuro imaginado deve depender de suas próprias decisões. O futuro a ser imaginado não é o curso futuro dos eventos que se seguiriam (com toda a criatividade e novidade das ações que comporão esses eventos) na ausência de qualquer ação do empreendedor. O futuro a ser imaginado é um futuro que incluirá as consequências das ações atuais e futuras do empreendedor. O empreendedor não está tentando imaginar corretamente um curso de eventos sobre o qual suas próprias ações irão interferir, mas o curso de eventos que serão, em parte, postos em movimento por suas próprias ações (que agora devem ser decididas). É verdade que isso de modo algum nos impede de reconhecer, como temos insistido, que o empreendedor está empenhado em expressar corretamente sua capacidade de imaginar o futuro. Mas exige que reconheçamos que as futuras “realidades” (isto é, o que pode vir a ser as realidades a serem criadas) que o empreendedor está tentando imaginar corretamente são tais que envolvem alguns nós lógicos e enigmas. O empreendedor não está tanto escolhendo um curso de ação que seja apropriado para as “realidades”, quanto está escolhendo entre realidades imagináveis ​​alternativas que a sua ação prospectiva pode estar iniciando. Deve ser livremente reconhecido que a presciência pedida, dentro desse cenário, deve parecer bastante diferente da simples presciência discutida no contexto de um pensamento futuro a ser substancialmente determinado independentemente de qualquer coisa que a própria pessoa presciente possa decidir fazer. O sentido em que as ações do empreendedor são vistas como “responsivas” às “realidades” é certamente modificado. No entanto, desejamos insistir, o escopo para o alerta empreendedor e escape do erro, e os incentivos necessários para despertar tal atenção e fuga, podem ser percebidos dentro dessa estrutura mais cuidadosamente entendida de maneira substancialmente inalterada. Ações tomadas para o futuro são tomadas com o esforço mais correto de imaginar (e lucrar com) o futuro.

O que pode parecer, no entanto, ser mais problemático é a questão que vimos ter sido levantada pelo professor Kregel. Em um mundo em que a presciência empreendedora toma a forma que acabamos de explicar, em um mundo no qual o processo de mercado consiste em incontáveis ​​séries de tais decisões empreendedoras interagindo, quão significativo é descrever esse processo de mercado como se aproximando de alguma forma numa trajetória marcada pela ‘realidades subjacentes’ de preferências e disponibilidades de recursos? Uma coisa é reinterpretar, como tentamos fazer no parágrafo anterior, as realidades que o decisor procura corretamente imaginar, de modo a reconhecer sua dependência do próprio curso de ação a ser decidido pelo próprio empreendedor. Outra coisa totalmente diferente é afirmar que a série resultante de decisões empreendedoras e suas consequências no mercado devem ser vistas como restritas, através de alguma “lei econômica” de equilíbrio, à trajetória marcada pela configuração das preferências (atuais e futuras) do consumidor e recursos disponíveis escassos (presentes e futuros). Certamente, Kregel está certo ao negar qualquer possível “tendência ao equilíbrio baseado em uma relação entre as expectativas e os dados objetivos […]”(1986: 160) Como podemos salvar a noção central da teoria econômica, a do mercado tendendo a coordenar as decisões de mercado de uma maneira que, à luz das necessidades e limitações objetivas, evita desperdício e a ineficiência? Para entender isso, é necessário dar um passo atrás e rever as noções mais simples de coordenação em um contexto imaginado e estilizado, no qual nos abstrairemos das incertezas introduzidas pela dinâmica do processo de mercado.

O SIGNIFICADO DA COORDENAÇÃO: O CONTEXTO SIMPLES

Considere um mercado em que há uma demanda forte e insatisfeita por calçados, apesar da presença de recursos necessários disponíveis (agora usados ​​em outras indústrias de menor valor para os consumidores). Claramente, há uma oportunidade de empreendedorismo aqui. Os recursos necessários para produzir sapatos poderiam ser montados a um custo total que seria mais do que compensado pelas receitas consideráveis ​​obtidas com a venda de calçados para consumidores ansiosos.

Imagine agora que um número de empreendedores julgou mal as necessidades dos consumidores e erroneamente concluiu que os sapatos provavelmente não seriam lucrativos, mas que a produção de bicicletas seria altamente lucrativa. Perseguindo suas avaliações equivocadas, montaram fábricas para produzir bicicletas, retirando recursos de outras linhas de produção (de fato mais urgentemente necessárias, como sapatos). Certamente essas fábricas constituem recursos mal alocados. Suponha agora que, com essas fábricas instaladas, seus proprietários encontrem uma escassez de aço necessária para as bicicletas. Felizmente, um empreendedor é capaz de localizar uma fonte adequada de aço e entregar o aço, com lucro, aos fabricantes de bicicletas. Como devemos avaliar este último passo empreendedor? Devemos dizer que é um erro (já que o aço talvez deveria ter sido usado para ajudar a construir fábricas de calçados, onde uma expansão deveria estar ocorrendo)? Deveríamos dizer que, ao descobrir a oportunidade lucrativa oferecida pela escassez de aço na fabricação de bicicletas, o empreendedor de aço está falhando em responder às realidades objetivas (isto é, a forte demanda insatisfeita por sapatos, no contexto de recursos disponíveis sendo desperdiçados agora em linhas de produção menos urgentes)? Ou não deveríamos preferir reconhecer que, dados os erros empreendedores já comprometidos de construir as fábricas de bicicletas, o passado deve ser visto como não mais do que passado – que as realidades relevantes mudaram agora? Neste momento, é um ato de coordenação reunir os fabricantes ansiosos de bicicletas que buscam aço com os dispostos vendedores de aço. Em outras palavras, um erro que foi cometido (ou seja, um erro que resultou em movimentos empreendedores em desacordo com as verdadeiras realidades subjacentes) pode alterar as realidades relevantes de tal forma a construir novas oportunidades lucrativas válidas para atos de cooperação empresarial em situações que, do ponto de vista do conjunto de realidades originalmente relevantes, devem ser pronunciadas como infelizes. Tudo isso é simples e bem entendido. Poderemos aplicar a lição simples que ensina ao processo de mercado multiperiódico no qual futuras “realidades” do próximo ano serão criadas pelos futuros atos imprevisíveis e criativos deste ano. Foi nesse contexto que fomos forçados a questionar a relevância (como um “ímã” que marca a trajetória a ser tomada pelo processo de equilíbrio do mercado) das principais realidades objetivas, preferências e restrições de recursos. Vamos fazer uma pausa para notar algumas características do nosso caso simples de sapatos e bicicletas.

O empreendedorismo que vê lucro na transferência de aço para a indústria de bicicletas está, é claro, respondendo às realidades presentes. Não é mais verdade que o lugar mais útil para este aço é na indústria de calçados. Dado o capital investido – com ou sem razão – nas fábricas de bicicletas, dada a incapacidade de construir fábricas de calçados, o lugar mais útil agora para o aço é de fato a indústria de bicicletas. As realidades originais (em termos das quais as fábricas de calçados “deveriam” ter sido construídas em vez das fábricas de bicicletas) não têm relevância agora, e agora, de fato, corretamente falharam em influenciar a alocação de recursos. No entanto, seria incorreto dizer que as realidades originais nunca operaram, neste cenário, para oferecer incentivos empresariais apropriados. A circunstância de que os empresários erraram e não responderam a esses incentivos não deve nos levar a dizer que as únicas realidades que operaram para influenciar a ação empreendedora foram aquelas que resultaram dos erros irrevogáveis ​​cometidos na construção das fábricas de bicicletas. As realidades originais (nas quais a verdadeira força da demanda de sapatos dos consumidores era maior que a das bicicletas) ofereciam incentivos relevantes; os empreendedores simplesmente não responderam a esses incentivos – eles não estavam suficientemente alertas para reconhecer o verdadeiro estado das coisas. Mas sempre e onde quer que existam realidades na economia, elas exercem sua influência em oferecer incentivos apropriados ao lucro. Quando estes incentivos, por razões de falta de atenção empreendedora, não são respondidos, as ações tomadas pelos empreendedores, por mais erradas que sejam, criam uma nova realidade que pode agora exercer seu próprio poder de incentivo para atrair o alerta dos empreendedores para o que agora é chamado em termos de eficiência social. As realidades relevantes sempre exercem uma influência apropriada: como sabemos pela circunstância de possível erro empreendedor, essa influência pode não ser decisiva o suficiente para garantir resultados eficientes. Onde eles não o fazem, os resultados reais (“equivocados”) alcançados agora assumem seu papel legítimo como as relevâncias atualmente relevantes em relação à identificação das configurações socialmente ótimas. O fato de que, em sua trajetória marcada pelas realidades iniciais, o mercado caiu em erro de fato evoca uma nova trajetória relevante. Como um período segue outro, a história real está longe de ser um cumprimento fiel de qualquer trajetória relevante. Mas é sempre assim, no entanto, que os incentivos empresariais apropriados se oferecem, em qualquer momento, em relação ao caminho relevante para as realidades daquele momento. Podemos agora aplicar esses insights simples ao caso mais sutil e complexo em que o curso de equilíbrio implícito em um conjunto inicial de realidades multiperíodo é complicado pela circunstância de que essas realidades multiperiódicas são elas mesmas reflexões de escolhas criativas e imprevisíveis que inevitavelmente serão feitas durante o curso do processo de mercado – equilibrado ou não. Nós estaremos fazendo uso considerável das lições que aprendemos nesta seção sobre as diferenças entre (assim como as características comuns de) o que chamamos de “realidades originais” e as “novas” realidades que foram criadas por erros empreendedores.

O SIGNIFICADO DA COORDENAÇÃO: O CONTEXTO DINÂMICO

A compreensão usual do que se entende por coordenação de mercado enfatiza a capacidade do processo de mercado de orientar as decisões empresariais em direção a um padrão de alocação de recursos consistente com as realidades das preferências do consumidor e a escassez de recursos. Os subjetivistas, radicais ou não, apontaram que, como as decisões empresariais são orientadas para o futuro, as preferências e a escassez relevantes devem, pelo menos em parte, ser aquelas percebidas como pertencentes a datas futuras. Assim, as “realidades” que supostamente moldam as decisões empresariais devem fazê-la na forma de preferências esperadas e escassez esperada. Entretanto, como as expectativas atuais de preferências e escassez futuras devem reconhecer que essas preferências e escassez futuras serão moldadas por uma série de decisões prospectivas, criativas e imprevisíveis por parte de muitos empreendedores – isto é difícil, vimos o argumento subjetivista radical executado – para ver como as decisões empresariais de hoje podem ser sistematicamente relacionadas com (e apropriadamente ajustadas) as futuras matrizes de preferências e escassez (como de fato se mostrarão). Parece, com certeza, que é mais preciso descrever as realidades futuras como tendo sido moldadas pelas decisões empresariais de hoje, do que declarar que as últimas são orientadas de forma eficiente para levar em conta as primeiras. Nossa discussão na seção anterior pode ajudar a esclarecer as coisas. Permanece, argumentamos, inteiramente válido perceber o processo de mercado como tendendo a coordenar decisões de uma maneira que considere de forma sistemática as prioridades ditadas pelas preferências do consumidor e escassez de recursos. O reconhecimento austríaco de meio-termo das propriedades de equilíbrio e coordenação do processo de mercado motivado pelo empreendedor e inspirado pelo empreendedor não é, de forma essencial, perturbado pelo nosso reconhecimento da indeterminação do futuro em cada momento de decisão. Considere um empreendedor A tomando uma decisão de produção na data t1 que procura antecipar a demanda do mercado (por exemplo, para calçados) em alguma data futura t10. O empreendedor compara o valor presente das receitas antecipadas de calçados em t10 com os atuais dispêndios relevantes de t1. Ao fazê-lo, ele está se perguntando se as receitas esperadas em t10 são suficientes para tornar os dispêndios atuais necessários em t1 erroneamente baixos (isto é, se o mercado falhou ao avaliar corretamente o verdadeiro valor alto dos recursos relevantes, onde seria direcionado para os consumidores de calçados da maneira considerada por nosso empresário). A realidade que ele está avaliando é aquela que, pelo menos em t10, será objetiva. Em t1 é uma realidade imaginada. Mas, como enfatizamos anteriormente, é a realidade imaginada de t10 que inspira e molda a decisão do empreendedor em t1.

Suponha agora que o empreendedor A na data t1 raciocine da seguinte maneira. A demanda por sapatos que estou vislumbrando não é algo que expresse algum fato futuro da natureza externa. Em parte, essa receita dependerá do que acontece com a população, com os estilos de vida, entre agora e t10. Talvez, no momento t3, algum empreendedor introduza uma nova moda (digamos, viagem de bicicleta) que acabará por afetar drasticamente a demanda por sapatos. “Podemos distinguir entre a demanda antecipada por sapatos em t10 na ausência de bicicletas, e a demanda para ser antecipado em t10 no caso de bicicletas serem introduzidas em t3. (Por simplicidade, devemos supor que esses são os únicos cenários alternativos a serem levados em conta.) Somente um desses dois estados de demanda t10 será realmente a realidade em t10. Em ambas as bicicletas serão ou não serão introduzidas em t3. Mas ambas as possibilidades exercem seu efeito sobre a tomada de decisão atual. Nosso empreendedor A deve planejar suas atividades atuais em alguma percepção do que a demanda em t10 será de fato. Ambas as “realidades” concebíveis entrarão em seus cálculos em t1. É claro que A também sabe que o início de uma indústria de calçados em t1 pode gerar mudanças nos padrões de comportamento do consumidor, de modo que a demanda esperada em t10 pode não ser a mesma que poderia ser se A não iniciasse a indústria de calçados em t1. No entanto, ao avaliar a rentabilidade de começar agora em t1, A está fazendo uma única pergunta: supondo que eu comece a construir uma fábrica de sapatos em t1 para vender calçados em t10, as receitas de calçados em t10 devem mostrar que o valor dos dispêndios em t1 foram erroneamente baixos?

Assim como no caso simples da seção precedente, todas as realidades relevantes exerceram uma influência de incentivo apropriada sobre o faro empreendedor dos lucros, assim também no contexto mais dinâmico todas as realidades imagináveis ​​relevantes exercem sua influência comparável. Na seção anterior, diferentes realidades eram relevantes em diferentes momentos (quando a fábrica de bicicletas era construída, isso alterava as realidades relevantes); Na presente seção (sobre o problema dinâmico), as diferentes realidades imagináveis ​​podem exercer simultaneamente sua influência sobre o empreendedor em prol do lucro. Mas todos eles entram, apropriadamente, em consideração empreendedora, na medida em que o empreendedor está alerta o suficiente para levá-los em conta.[15]

No caso da seção anterior, as realidades separadas que, em diferentes momentos, operam para criar incentivos empreendedores foram (a) uma realidade “original” e (b) uma realidade subsequente criada por uma decisão empreendedora “equivocada”. Na presente discussão, também, as matrizes de “realidades” alternativas imaginadas que operam sobre a orientação de lucro para o futuro do empreendedor incluem realidades imaginadas que podem ser criadas por decisões “equivocadas” (futuras). Mas não devemos interpretar mal essa circunstância.

É verdade que o empreendedor no momento t1, ao avaliar as perspectivas em t10, leva em conta a possibilidade de que esses prospectos t10 possam vir a ser os resultados de atos empreendedores errôneos, digamos, no tempo t4. Mas isso não significa que as realidades imaginadas que operam com base nos incentivos do empreendedor em t1 não sejam as realidades “verdadeiras” (isto é, aquelas que seriam relevantes em t10, se não houvesse cometido erros empresariais que pudessem resultar em diferentes conjuntos de realidades t10). Primeiro, o empreendedor em t1 tem um incentivo para levar em conta a possibilidade de que erros entre t1 e t10 não distorçam a situação em t10. Mais importante, as decisões empreendedoras em t4 (e em cada tempo) têm todo incentivo para não se basear em erros. Assim, em todos os momentos, todo e qualquer empreendedor está operando sob os incentivos estabelecidos pelas realidades futuras subjacentes “verdadeiras”, bem como pelas possíveis realidades “induzidas por erros” que podem se tornar relevantes. Todo erro empreendedor cria uma lacuna intertemporal prospectiva que oferece o incentivo para antecipar corretamente a verdade – com essa verdade refletindo ambos, elementos “originais” e elementos introduzidos por erros anteriores (com os últimos elementos sendo totalmente relevantes para as necessidades genuínas de coordenação introduzidas por esses mesmos erros).

O QUE SIGNIFICA TENDÊNCIA DE EQUILÍBRIO DE MERCADO

Pode parecer aos críticos que nossa tentativa de lidar com insights subjetivistas radicais tenha nos forçado a reconhecer um processo de equilíbrio muito mais atenuado, muito menos confiável e significativo do que aquele postulado tradicionalmente por economistas austríacos de meio-termo. O que temos aqui reconhecido, pode-se dizer, é que a maneira pela qual “realidades objetivas subjacentes” exercem sua influência sobre as decisões de produção empresarial é muito menos direta e muito menos confiável do que as declarações austríacas tradicionais talvez sugerissem. Afinal de contas, reconhecemos que as antecipações empreendedoras têm que levar em conta as condições futuras, não como elas poderiam ter sido independentemente do processo de mercado em si, mas como elas podem ser o resultado de todas as surpresas e criatividades das quais o processo de mercado consiste. Não só esse processo pode incluir erros em abundância, como esse processo e esses erros podem “alterar” as condições futuras de modo a exigir que os atuais empreendedores antecipem um futuro que pode de fato ser bem diferente do que poderia ter sido na ausência de tal processo.

Devemos certamente ser gratos a nossos colegas subjetivistas radicais por nos obrigarem a explicar como a noção de um processo sistemático de equilíbrio deve ser integrada à nossa compreensão subjetivista da criatividade da escolha e à incerteza radical do futuro. No entanto, ao mesmo tempo, parece justo insistir em vários pontos-chave. O meio-termo que os austríacos desejam afirmar (e é essa afirmação tradicionalmente austríaca que fornece a base comum que Mises viu em 1932 como sendo compartilhada pelos austríacos e por outras escolas de teoria econômica) é que os eventos que ocorrem durante o processo de mercado estão sujeitos a poderosas influências constrangedoras e modeladoras. Essas influências tendem a refletir as urgências relativas das diferentes preferências dos consumidores e a relativa escassez de diferentes recursos produtivos. Os austríacos, certamente, nunca estiveram sob a ilusão de que a poderosa influência constrangedora e modeladora do mercado é tão completa a ponto de garantir a realização, até mesmo a realização fugaz, do estado de equilíbrio. O que os austríacos enfatizaram é a existência de importantes processos de equilíbrio. É verdade que tais processos exercitam uma dinâmica própria, modificando continuamente as realidades subsequentes, que, por sua vez, devem servir para colocar em movimento ainda mais segmentos de processos de equilíbrio. É verdade que a história da humanidade está longe de ser uma sequência de sobreposição de trajetórias de equilíbrio seguro, cada uma infalivelmente postas em movimento por realidades objetivas relevantes (que podem ser identificadas a partir desses processos). Tudo isso é verdade. Os austríacos de meio-termo não têm o hábito de tratar a configuração de equilíbrio geral das variáveis ​​de mercado como um “ímã” ou “telos” com a capacidade inexoravelmente de atrair fenômenos reais de mercado para eles. Mas, ao mesmo tempo, eles resistiram à tentação de tratar os fenômenos de mercado como apenas acidentalmente consistentes com os fenômenos objetivos subjacentes. A verdade é que a sequência dos eventos de mercado só pode ser entendida se reconhecermos que cada segmento da história do mercado expressa, pelo menos em parte, as propriedades coordenativas sistemáticas do processo empreendedor. O grau de importância a ser anexado a essa compreensão da história do mercado depende, deve ser enfatizado, de circunstâncias empíricas. Depende da volatilidade da mudança nas realidades independentes; depende do grau de erro empreendedor, existente e antecipado. A importância desse entendimento pode, portanto, variar de mercado para mercado, de um período na história para outro. Embora a teoria insista na validade formal do processo de coordenação de mercado sob todas as circunstâncias relevantes, ela não afirma que as tendências que compõem o processo operam com poder uniforme em todos os momentos e em todos os contextos. É fácil imaginar circunstâncias em que o poder do processo de mercado coordenado é completamente inundado pela volatilidade da mudança e pela alta incidência de erros empresariais. Sem dúvida, houve momentos na história capitalista em que isso aconteceu.

Mas a ciência econômica sempre procedeu da importante circunstância empírica da ordem econômica. Como os livros didáticos elementares nos lembraram pelo menos desde Bastiat, grandes cidades administram, sem grande controle centralizado, as necessidades de provisões diárias de uma maneira razoavelmente ordenada. O mercado obviamente funciona. O fato de o mercado funcionar talvez seja a lição mais significativa da história moderna. Experiências nas últimas décadas pressionaram essa lição na consciência dos homens de ambos os lados da Cortina de Ferro. O problema que sempre preocupou os teóricos é como, sem uma coordenação deliberada, os mercados podem funcionar. A teoria econômica forneceu a explicação em termos de uma teoria de coordenação de mercado. Os austríacos, mantemos, aprofundaram nossa compreensão dessa teoria introduzindo insights explícitos sobre a descoberta empreendedora e a competição dinâmica. Essas percepções refletem o subjetivismo da tradição austríaca. É somente através da apreciação dos insights subjetivistas acerca do conhecimento e da descoberta que podemos compreender as forças dinâmicas do mercado que trazem decisões para uma coordenação cada vez maior. Existe o perigo, entretanto, de que a ênfase indevida nas implicações mais exóticas possíveis do subjetivismo possa, paradoxalmente, tornar quase plausível rejeitar a lição central do raciocínio econômico, a compreensão e a apreciação do processo de coordenação do mercado. Isso seria profundamente lamentável.

É fácil mostrar como o erro pode frustrar a eficiência e a coordenação. É fácil mostrar como, uma vez que introduzimos um futuro multiperíodo durante o qual um processo de mercado continuamente criativo pode estar em ação, deve parecer quase fantástico esperar que os empreendedores corretamente antecipem o futuro. O que não é tão fácil é explicar como, apesar das incontáveis ​​oportunidades de erro e surpresa, o mercado parece organizar regularmente processos de produção coerentes e de longo prazo de maneira lucrativa.

O que a teoria do processo de coordenação de mercado orientada pelo empreendedor fornece é uma estrutura dentro da qual se pode compreender como as decisões de produção atuais podem alcançar o grau extraordinário de coordenação espontânea que a experiência casual nos convence. A teoria identifica as janelas através das quais a descoberta de oportunidades relevantes pode iluminar e informar o trabalho de rede de tomada de decisões de mercado. Ninguém precisa ser informado de que essas janelas podem estar embaçadas e obscurecidas, que os empreendedores podem deixar de perceber o que pode ser visto através dessas janelas. Mas, uma vez que entendamos que essas janelas existem, podemos, em princípio, compreender como, apesar da incerteza do futuro, apesar da nuvem de ignorância inevitável que obscurece essas janelas, as oportunidades de lucro podem atrair e inspirar ações de mercado para reduzir a ignorância do mercado e a má alocação.

Além disso, uma vez que entendemos como é através de janelas de oportunidade empresarial que a luz da potencial descoberta inspira eficiência de mercado, podemos entender a demonstração de Mises-Hayek da falácia de buscar eficiência social sem o mercado. Podemos entender como, ao amontoar todas essas janelas de oportunidade empresarial, o planejamento central se compromete a operar em um mundo de ignorância pura a respeito de informações vitais, amplas e disponíveis, dispersas pela economia.

Não podemos, como austríacos, seguir a teoria neoclássica dominante e simplesmente afirmar o equilíbrio perene. No entanto, não podemos, novamente como austríacos, seguir céticos subjetivistas em negar propriedades de coordenação ao mercado. Nós nos encontramos, portanto, ocupando o meio-termo Garrisoniano, encontrando profunda compreensão de processos sistemáticos de mercado precisamente naqueles insights subjetivistas que, se implantados sem cuidado suficiente, podem tentar rejeitar completamente a ideia de coordenação de mercado.

Notas

[1] É claro que o professor Garrison não é responsável pela maneira como sua ideia é apresentada e implementada neste artigo.

[2] Veja Mises (1966: 2) para a percepção de que a contribuição da economia clássica era mostrar como as políticas estatais têm consequências sistemáticas, muitas vezes não intencionais (que devem, portanto, ser levadas em conta).

[3] Ver Boehm (1985), para algumas dúvidas sobre a extensão desse liberalismo clássico.

[4] Veja neste volume, Capítulo 7, para uma descrição desses desenvolvimentos.

[5] Veja neste volume, Capítulo 3, pp. 67f, para uma interpretação contemporânea do termo “economia austríaca” como “economia de livre mercado”.

[6] For earlier contributions defending the Austrian middle ground with regard to positions taken by radical subjectivists, see O’Driscoll (1978) and Garrison (1987).

[7] Podemos acrescentar que uma implicação dessa posição defendida pelos críticos é que os austríacos também rejeitam seu compromisso tradicional com a viabilidade da teoria econômica (em oposição ao historicismo). Embora a economia austríaca tenha começado como uma reação aguda contra a Escola Histórica Alemã, sugere-se agora que algo de reavaliação está ocorrendo (ver Shackle 1972: 37f., 272f .; Lachmann, 1986a, p. 148).

[8] Para críticas ao longo de linhas semelhantes, ver Wiseman (1990).

[9] Para um exemplo de tal desafio, veja Wiseman (1990: 158).

[10] Veja também Garrison (1987) em relação à concordância do professor Lachmann com a posição de Kregel.

[11] Para reconhecimento dessa implicação do subjetivismo radical, ver Wiseman (1990: 155).

[12] Sobre a ideia de alerta empreendedor, ver mais Kirzner (1973: 2; 1979a: Ch. 10).

[13] “O futuro é incognoscível, embora não seja inimaginável” (Lachmann 1976: 59).

[14] Esse escritor sempre falou como se o estado de alerta fosse capaz de identificar oportunidades existentes para lucro futuro. Os puristas, tanto no uso linguístico quanto na consistência filosófica, podem certamente ser desculpados por expressar infelicidade com tal uso frouxo ou metafórico da linguagem em relação ao futuro inexistente. Mas a economia nessa situação certamente não depende nem um pouco da validade desse uso da linguagem.

[15] Deve ser lembrado que a teoria do alerta empreendedor não opera fazendo o empreendedor refletir sobre os méritos comparativos de uma lista de cenários futuros alternativos. Em vez disso, a teoria postula que, com base no “estado de alerta” do empreendedor, seu senso de futuro, sua atenção tenderá a ser captada pelo cenário futuro lucrativo relevante. Nosso ponto é que todas as realidades alternativas futuras relevantes têm potencial igual para captar a atenção empreendedora. Quanto maior o grau de alerta, maior a probabilidade de que a “realidade futura” que de fato chamará sua atenção será aquela que, de fato, se tornará o caso.