por Danny Hieber

[ Why Do Languages Die? – Tradução de Matheus Pacini ]

A história dos idiomas do mundo é, em grande parte, uma história de esquecimento e declínio. Em torno de 8000 a.C, os linguistas estimam que existiam mais de 20.000 idiomas.[1] Hoje, o número está em 6.909 e caindo rapidamente.[2] Em 2100, é bem realista esperar que metade desses idiomas esteja extinto, seus últimos falantes mortos, suas palavras talvez registradas em um arquivo empoeirado em algum lugar, mas, provavelmente, completamente não documentadas.[3]

O que causa isso? Como uma pessoa torna-se o último falante de um idioma, como Boa Sr foi antes de sua morte em 2010? Como os idiomas passam a ser falados somente por idosos e não por crianças? Existem várias respostas incorretas a essas perguntas. Uma é a globalização, um termo nebuloso usado depreciativamente para se referir à especialização econômica global e à divisão do trabalho, ou à adoção de práticas culturais semelhantes ao redor do mundo.

O problema com a globalização na sua segunda definição é que ela é resultado, não causa, do declínio dos idiomas. Outra resposta incorreta, inclusa na primeira definição de globalização, é o comércio e o capitalismo. O comércio não mata os idiomas tanto quanto qualquer outra prática cultural, como a pintura ou a música. O comércio aumenta o intercâmbio de práticas culturais e fomenta sua proliferação; normalmente, não as reduz. Historicamente, o comércio regional tem fomentado a criação de muitas novas línguas francas, e o resultado tende a ser um bilinguismo estável e saudável entre a língua local e a língua comercial da região. É somente quando o Estado adota uma língua comercial como oficial e, com um toque de nacionalismo, a força sobre seus cidadãos, que as línguas comerciais tornam-se “línguas assassinas”.

Mais importante, o que ambas as respostas supracitadas omitem é que falar uma língua global ou uma língua comercial não força o abandono da língua materna de um indivíduo. O cidadão comum desse planeta fala três ou quatro línguas. A maioria dos jovens no Japão deve abandonar a língua japonesa para participar do comércio global em língua inglesa? Um executivo na Alemanha deve parar de falar alemão com seus filhos para ter sucesso no seu escritório onde a maioria fala inglês? Por que abandonar uma língua por outra quando você pode simplesmente falar as duas?

A verdade é que a maioria das pessoas não “abandona” as línguas que aprendeu na sua infância. Elas tendem a falar essas línguas até morrer ou até não terem mais ninguém com quem falar. Em vez disso, as línguas são perdidas quando o processo de transmissão entre gerações é alterado ou interrompido. Para extinguir uma língua, precisa-se entrar nos lares e impedir que os pais falem com seus filhos na sua língua nativa. Dado tal cenário absurdo, voltamos à questão – como isso poderia possivelmente acontecer?

Uma boa resposta é a urbanização. Se um Gikuyu e um Giryama se encontrarem em Nairóbi, provavelmente não falarão a língua nativa um do outro, mas sim uma das duas línguas comerciais utilizadas no Quênia – Swahili e Inglês. Seus filhos podem ter algumas noções de palavras nas línguas herdadas por seus pais, contudo, já na terceira geração, quaisquer vestígios dessas línguas na família provavelmente inexistirão. Em outros casos, comunidades majoritariamente rurais são atraídas pelo estilo de vida relativamente mais fácil das cidades, até que, às vezes, aldeias inteiras são abandonadas.

Tampouco esse é um fenômeno recente. O primeiro caso de extinção em massa de línguas provavelmente ocorreu durante a Revolução Neolítica Agrária, quando a humanidade adotou a agricultura, abandonou o estilo de vida nômade e criou comunidades permanentes. Da mesma forma que cresceu o número de comunidades, cresceram as línguas faladas por elas. Entretanto, no decorrer de grande parte da história, e ainda em muitas áreas do mundo atual, 500 ou menos falantes por língua tem sido a norma. Assim como as pessoas que as falam, essas línguas estavam constantemente mudando. Nenhuma língua podia se expandir muito, pois a própria comunidade que a falava só podia crescer até certo ponto antes de se fragmentar. A língua seguia esse exemplo, logo se tornando duas línguas. Assentamentos permanentes mudaram tal cenário, e logo maiores populações podiam solidamente falar a mesma língua.

Mais impressionante ainda é que, para alguém com tão pouco conhecimento de linguística no seu tempo, Mises já tinha entendido essas conexões entre o declínio de uma língua, o crescimento da comunidade, e a troca econômica mesmo em suas primeiras obras:

Em tempos primitivos, toda migração causa não apenas separação geográfica, mas também intelectual de clãs e tribos. Trocas econômicas ainda não existem; não existe o contato que poderia funcionar contra a diferenciação e o surgimento de novos costumes. O dialeto de cada tribo torna-se cada vez mais distinto daquele que seus ancestrais falavam quando ainda viviam juntos. A fragmentação dos dialetos continua ininterruptamente. Os descendentes não se entendem mais […] a necessidade de unificação da língua então surge de duas formas. Os primórdios do comércio tornam necessário o entendimento entre membros de tribos diferentes. Mas essa necessidade é satisfeita quando intermediários individuais no comércio alcançam o necessário domínio da linguagem.[4]

Portanto, a urbanização é um fator importante no desaparecimento da língua. Na verdade, as características notáveis das cidades que atraem imigrantes – maior economia de escala, redução dos custos de procura, maior divisão do trabalho – são todas possíveis devido ao capitalismo, e nesse sentido, as línguas podem desaparecer por razões econômicas. Mas esse é precisamente o tipo de desaparecimento de língua que não deveria nos preocupar (a menos que você seja um linguista como eu), porque a urbanização não é nada mais do que a demonstração das preferências de milhões de pessoas que desejam se aproveitar de todos os fantásticos benefícios que as cidades têm a oferecer.

Em resumo, essas pessoas fazem a escolha consciente de deixar um ambiente onde os relacionamentos e benefícios sociológicos existem para falar a língua nativa, e o trocam por uma maior variedade de possibilidades econômicas, mas onde não existem tais benefícios sociais para se falar a língua. Se esse fosse o único caso de desaparecimento de uma língua – ou mesmo o maior – então haveria pouco a se dizer sobre isso. Pois, como Mises lucidamente afirma,

Posto que ninguém está em posição de substituir seus próprios julgamentos de valor por aqueles do indivíduo agente, é inútil fazer julgamentos sobre os objetivos e vontades de outrem. Nenhum homem é qualificado para declarar o que tornaria outro homem feliz ou menos descontente. O crítico ou nos diz o que ele acredita que faria no lugar de seu colega; ou, sob arrogância ditatorial, alegremente anulando as vontades e aspirações de seu colega, declara quais condições desse outro homem seriam melhores para ele, o crítico.[5]

Muitos indivíduos bem-intencionados são muito rápidos para substituir suas avaliações pelas dos últimos falantes de línguas indígenas dessa maneira. Se fosse por eles, essas pessoas estariam submetidas à miséria e a pobreza, sendo privadas da participação nas economias globais avançadas para que sua língua pudesse continuar a existir. Na verdade, os próprios falantes frequentemente se tornam vítimas dessa ideologia equivocada de que uma língua necessariamente tem que substituir ou interferir em outra.

Embora o Departamento de Educação da África do Sul esteja tentando desenvolver materiais de ensino nas línguas africanas locais, por exemplo, muitos pais estão rechaçando tal atitude; eles querem seus filhos ensinados somente em inglês. Em Dominica, os pais vão além e se recusam a falar a língua local, Patwa, com os seus filhos.[6] Caso se dessem conta da falsidade dessa noção de deslocamento da língua, talvez eles estivessem menos propensos a deixar de falar sua língua com as crianças. Mas a decisão é única e exclusivamente deles.

Contudo, a urbanização não é a única causa do desaparecimento de uma língua. Existe outra a qual, tenho tristeza em dizer, quase nenhum dos linguistas que trabalham com línguas ameaçadas prestam atenção, e que é o Estado. O Estado é a única entidade capaz de entrar nos lares e forçosamente alterar o processo de socialização da linguagem de uma forma institucionalizada.

Como? Durante muito tempo, o método tradicional foi simplesmente matar ou remover populações indígenas, como ocorreu em 1923 nos Estados Unidos no último conflito das Guerras Indígenas. Recentemente, isso acontece através de meios indiretos – sejam intencionais ou não – o principal meio desse conjunto sendo a educação compulsória estatal.

Não existe uma ofensiva mais perniciosa sobre as práticas culturais das minorias do que uma educação padronizada, anglicanizada, inglesa e compulsória. Não apenas as crianças são forçosamente excluídas do processo de socialização de casa, obrigadas a falar uma língua oficial e punidas (frequentemente corporalmente) caso façam o contrário. Não apenas as escolas redefinem sucesso, longe do que é valorizado pela comunidade, e em direção a coisas que tornam alguém num cidadão melhor para o Estado. Não! O impacto mais significativo da educação estatal compulsória é que ela grava na mente das crianças a ideia de que sua língua e sua cultura são desprezíveis, sem nenhuma utilidade na sala de aula atual ou na sociedade, e que é algo que serve meramente para os separar negativamente de seus amigos, como um objeto de seu tormento.

Mas essas línguas claramente possuem valor, pela simples razão de que as pessoas as valorizam. As línguas locais das minorias são valorizadas por seus falantes por várias razões, seja pelo seu uso na comunidade local, a comunicação com os mais velhos, um senso de herança, a tradição oral e literária daquela língua, ou outra coisa totalmente diferente. Novamente, o praxeologista não está em posição de avaliar essas crenças. O praxeologista meramente nota que a livre escolha no uso da língua e a livre escolha de associação, não ditada pelos decretos do Estado, satisfará melhor a demanda dos indivíduos, seja por línguas minoritárias ou línguas francas. O que as pessoas julgarem útil, utilizarão.

Por outro lado, o Estado não valoriza nada dessas coisas. Para o Estado, o objetivo é prender os indivíduos a si, a uma utópica comunidade homogênea de bons cidadãos, longe de sua comunidade local. Aos olhos do Estado, os laços nacionais superam os locais. A livre escolha de associação é desconsiderada totalmente. E assim o Estado força muitos povos indígenas a se tornarem membros de uma comunidade estranha a eles, onde são uma minoria e sua língua é desprezada, como no caso das escolas. Enquanto que em casa, dominar uma língua nativa é uma parte importante do funcionamento da comunidade e na busca de prestígio, e, portanto, algo de valor, na escola torna-se uma mancha negra e um prejuízo. Dada a característica prisional da administração das escolas, e como elas exibem pressões similares e intensas (e às vezes perigosas), as crianças das minorias linguísticas estariam sendo espertas ao se desassociarem tão rápido quanto possível de sua herança cultural.

O resultado é que, duas gerações atrás, depois do modelo prussiano de educação compulsória ter firmemente se consolidado em vários países ao redor do mundo, uma geração inteira de minorias decidiu que sua língua era sem valor, e quando tiveram filhos, se recusaram a ensiná-la. A iminente extinção em massa das línguas não é menos resultado de processos colocados em prática um século atrás pelo Estado como é resultado de sua hegemonia contínua nos dias atuais.

O próprio Mises, embora ocasionalmente sendo vítima de falácias comuns no tocante à língua como o determinismo linguístico e o isomorfismo etnolinguístico, estava ciente dessa distinção entre o declínio natural da língua e a morte do idioma gerada pelo Estado. Na verdade, todo o primeiro capitulo de um dos seus primeiros trabalhos, Nation, State, and Economy, é dedicado a questões como a língua e o Estado. Ele nota:

Realmente distinto da assimilação natural por meio do contato particular com pessoas que falam outras línguas é a assimilação artificial – a desnacionalização pelo Estado ou outro agente compulsório […] se indivíduos são colocados em um ambiente onde são impedidos de contato com outros concidadãos e são obrigados ao contato exclusivo com estrangeiros, então está pronto o caminho para a sua assimilação.[7]

Isso é precisamente o que o Bureau of Indian Affairs conseguiu coagindo as crianças indígenas a frequentar as escolas. Essas crianças foram excluídas de sua cultura e língua – sua nação – até que tivessem efetivamente assimilado as ideologias norte-americanas em relação às línguas minoritárias, isto é, que o inglês é bom e que todo o resto é ruim.

Tampouco essa é a única forma pela qual o Estado afeta a língua. A própria existência do moderno Estado-nação, e a ideologia que prega, é antiética à diversidade linguística. É baseada na ideia de um Estado, uma nação, um povo. No Nation, State, and Economy, Mises indica que, antes do surgimento do nacionalismo nos séculos XVII e XVIII, o conceito de nação não se referia a uma unidade política como o Estado ou país como consideramos atualmente. Em vez disso, uma “nação” referia-se a um conjunto de indivíduos que compartilhavam uma história, religião, tradições comuns – mais importante – uma língua. Mises foi mesmo até mais longe e afirmou que “a essência da nacionalidade está na língua”[8]. O “Estado” era algo em separado, referindo-se ao estado aristocrático ou principesco, não a uma comunidade de pessoas (por isso o gracejo de Luis XIV, “L’état c’est moi” – tradução livre, o Estado sou eu[9]. Naquela era, um estado poderia ser composto por várias nações, e uma nação poderia incluir diversos estados.

O Surgimento do nacionalismo mudou tudo isso. Como Robert Lane Greene aponta no seu excelente livro, You Are What You Speak: Grammar Grouches, Language Laws, and the Politics of Identity [tradução livre, Você é o que você fala: Resmungos gramaticais, leis da língua e a política de identidade],

As antigas e vagas confusões linguísticas fronteiriças tornaram-se inconvenientes para os nacionalistas. Para construir nações fortes o bastante para formar um Estado, as pessoas de uma possível nação necessitavam serem unidas por um senso claro de comunidade. Falar um dialeto minoritário ou se recusar a assimilar uma linguagem padrão não funcionaria.[10]

O próprio Mises aprofundou esse ponto. Apesar de sua crença no valor da democracia liberal, a qual permaneceria com ele pelo resto de sua vida, Mises logo percebeu que a imposição da democracia sobre várias nações poderia somente levar à hegemonia e à assimilação:

Em territórios poliglotas, portanto, a introdução de uma constituição democrática não significa a mesma coisa que a introdução de autonomia democrática. A regra da maioria significa algo totalmente diferente aqui do que em territórios nacionalmente uniformes; aqui, para parte das pessoas, não é uma regra popular mas sim estrangeira. Se as minorias nacionais opõem-se a arranjos democráticos, se, de acordo com as circunstâncias, elas preferem o absolutismo principesco, um regime autoritário, ou uma constituição oligárquica, elas assim o fazem porque bem sabem que a democracia significa a mesma coisa para elas que a subjugação sob o comando de outros.[11]

Da ideologia do nacionalismo também surgiu o principio do irredentismo, a política de incorporar povos histórico ou etnicamente relacionados sob o controle de um único Estado, não importando suas diferenças linguísticas. Como Greene destaca, por exemplo,

Segundo estimativa, somente 2 ou 3% dos recém considerados “italianos” falavam italiano em casa quando a Itália foi unificada na década de 1860. Alguns dialetos italianos eram tão diferentes uns dos outros como o italiano moderno é em comparação ao espanhol moderno.[12]

Isso então incitou o estadista italiano Massimo D’Agelizo (1798-1866) a dizer, “Nós criamos a Itália. Agora precisamos criar italianos”. E essas línguas italianas logo se tornaram outras vítimas do Estado-nação.

Mises outrora prescientemente previu que,

Se [as nações minoritárias] não quiserem permanecer politicamente sem influência, então elas devem adaptar seu pensamento político àquele do seu ambiente; elas devem desistir de suas características nacionais especiais e de sua língua.[13]

Em linhas gerais, essa é a história das línguas do mundo. É, como foi visto, a história do Estado, a história do furor nacionalista e a assimilação pela força. Somente quando abandonarmos essa fantasia socialista e utópica de um Estado, uma nação, um povo, que ela começará a mudar.

Notas

[1] Michael Krauss, The World’s Languages in CrisisLanguage 68.1 (1992).

[2] M. Paul Lewis (ed.), Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth Edition (2009), Dallas, TX: SIL International.

[3] Krauss, The World’s Languages in Crisis; Christopher Moseley (ed.), Atlas of the World’s Languages in Danger, 3rd edn. (2010), Paris, UNESCO Publishing.

[4] Ludwig von Mises, Nation, State, and Economy (Online edition, 1919; 1983), Ludwig von Mises Institute, p. 46–47.

[5] Ludwig von Mises, Human Action: A Treatise on Economics (Scholar’s Edition, 2010) Auburn, AL: Ludwig von Mises Institute, p. 19.

[6] Amy L. Paugh, Playing With Languages: Children and Change in a Caribbean Village (2012), Berghahn Books.

[7] Mises, Nation, State, and Economy, p. 55

[8] Mises, Nation, State, and Economy, p. 37.

[9] “I am the state.”

[10] Robert Lane Greene, You Are What You Speak: Grammar Grouches, Language Laws, and the Politics of Identity (Kindle Edition, 2011), Delacorte Press, p. 132.

[11] Mises, Nation, State, and Economy, p. 77.

[12] Greene, You Are What You Speak, p. 141.

[13] Mises, Nation, State, and Economy, p. 77.