por Raúl Stolk

[ Here’s Why Venezuela’s Military Prefers Chaos to a Coup – Tradução de Giácomo de Pellegrini ]

Nota do Tradutor: Este artigo foi originalmente publicado em setembro de 2017. Ele continua atual, apesar da enorme piora do regime de Maduro. Maduro, hoje, enfrenta a oposição do presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, que se declarou presidente interino do país durante manifestação em Caracas, suplicando para que as forças armadas se rebelem contra o regime. Juan Guaidó já possui apoio da maior parte da comunidade internacional que considera as últimas eleições e o atual mandato de Maduro ilegítimos. Inclusive, Diosdado Cabello, um dos personagens citados nesse artigo, continua ativo e acaba de convocar uma “vigília” no palácio presidencial de Miraflores em defesa de Nicolás Maduro. Cabello é primeiro vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Não sendo mais guardiões da ordem ou integridade nacional, desde o alto comando até o soldado comum, o exército venezuelano foi corrompido pelo sistema cubano-chavista.

Juan Carlos Caguaripano, capitão da Guarda Nacional procurado por traição, que estava escondido há alguns anos, divulgou um vídeo afirmando que liderou um grupo que tomou o Forte Paramacay, no oeste da Venezuela. Ele chamou seus irmãos nas forças armadas venezuelanas para se juntar a ele com intuito de trazer de volta a ordem constitucional para um país em meio ao caos.

De acordo com a versão do governo, a situação foi tratada rapidamente e a maioria dos “terroristas” foram capturados (incluindo dois que foram mortos). O presidente, em seu programa de TV regular, “Domingos com Maduro”, disse que o ataque foi obra de mercenários civis vestidos com roupas militares que foram pagos por potências estrangeiras para desestabilizá-lo e derrubá-lo. Depois, ele admitiu que alguns escaparam e pegaram armas da guarnição.

Ao explicar o que aconteceu e por que os soldados que cuidavam do forte foram pegos de surpresa, Maduro disse: “Era domingo, eles estavam descansando, e a maioria das tropas naquela unidade estava treinando na Rússia”.

Considerando a situação extrema na Venezuela – a pior crise econômica e institucional que o país já enfrentou – as notícias de uma revolta militar não surpreenderam ninguém em todo o mundo, exceto os venezuelanos, que ainda permanecem céticos de que isso possa realmente estar acontecendo.

Estranhamente, mesmo um dia depois do evento, ninguém estava falando sobre isso. Por que?

Depois de centenas de campanhas de desinformação por parte do governo, os venezuelanos desenvolveram uma resistência firme às reivindicações do governo sobre conspirações internacionais e planos para depor o presidente. Além disso, a ideia de que os militares estão por trás da ditadura de Maduro foi incorporada em nossos cérebros desde os dias de Hugo Chávez.

De fato, o “chavismo” em si, agora virtualmente um movimento pseudo-religioso, nasceu de um golpe militar fracassado em 1992 pelo então tenente-coronel Chávez, que finalmente se tornou presidente em 1999 e serviu (apesar de um breve hiato em 2002 quando teve que evitar um golpe contra ele) até sua morte em 2013.

Ao longo de seu governo, Hugo Chávez teve o cuidado de recompensar seus ex-companheiros de armas com posições políticas próximas a ele, criando uma nova classe política de golpistas militares reformados; além de fornecer certas parcelas de poder e um vislumbre do mundo político para oficiais ativos.

De acordo com a Constituição anterior, os militares na Venezuela não eram autorizados a se envolverem na política. Eles nem sequer eram autorizados a votar. Então, quando a nova Constituição de Chávez lhes deu o direito de votar e ser politicamente ativo, ele abriu as comportas. Naquela época, a maioria dos altos cargos do governo eram ocupados por pessoas do setor militar.

Mas no final, não tem sido o poder político – ou a responsabilidade que se espera que acompanhe – que os homens (e mulheres) de verde parecem desejar.

Então, o que faz com que os militares venezuelanos sejam fiéis?

Bem, dinheiro. Muito dinheiro.

Quando havia petrodólares suficientes, Chávez conseguiu espalhar a riqueza entre seus ex-colegas, ainda que não igualmente, de maneira suficientemente generosa para mantê-los felizes. Colocou-os em posições-chave e deu-lhes liberdade para fazer o que quisessem.

No centro desse projeto estava a União Civil-Militar, talvez o know-how mais prejudicial fornecido pelo governo cubano em troca de alguns bilhões em barris de petróleo.

Enquanto alguns generais têm em suas mãos diretamente um pedaço do bolo, como obter a autoridade dos portos ou sistema elétrico com orçamentos multimilionários; oficiais em ascensão se beneficiariam de generosos planos sociais que lhes davam acesso a carros e novas casas.

Para os caras do quartel, uma grande parte de seus benefícios veio das migalhas de grandes negócios, como a cobrança de taxas para aprovar uma inspeção nas alfândegas e outros negócios que se tornaram comuns nas relações comerciais venezuelanas, mas que em outras partes do mundo são reconhecidas como formas de extorsão.

Na Venezuela, uma grande parte do esquema de controle tem a ver com não controlar o crime, que é onde o dinheiro flui para os oficiais ativos que não possuem um cargo político. O que explica o que aconteceu com alguns funcionários como o Ministro da Justiça, Néstor Reverol, que está sob acusação nos tribunais dos EUA, entre outras coisas, “por usar sua posição de poder [na Organização Nacional Antidrogas] para facilitar organizações de narcotráfico, enquanto dificulta os esforços da polícia em frustrá-los.

A Venezuela tem sido um centro conhecido de distribuição de cocaína desde que o exército colombiano capturou um laptop de um líder guerrilheiro há mais de 10 anos, que revelou que eles estavam exportando drogas para os EUA através da Venezuela com a ajuda das forças armadas venezuelanas.

Quando se fala de crime e corrupção, no entanto, todas as cabeças se voltam para Diosdado Cabello, um homem corpulento com olhos redondos, que dizem ser o capo di tutti capi. O Sr. Cabello, ou o capitão Cabello – há alguns anos, foi promovido a tenente mesmo quando estava aposentado e ocupava um posto civil – era presidente do antigo parlamento e é um membro de alto escalão do partido do governo. Embora tenha sido dito que Chávez o mandou para a casinha do cachorro por acumular poder demais, ele sentou-se à direita do comandante supremo durante o discurso de despedida de Chávez.

Houve várias acusações contra Cabello ao longo dos anos, muitas envolvendo-o com esquemas de tráfico de drogas. Incluindo uma reportagem do The Wall Street Journal que relatou que uma fonte revelou que havia uma investigação em andamento por tráfico de drogas contra Cabello. Mesmo quando não houve uma confirmação pública disso, naqueles dias a mídia do governo venezuelano inventou um porta-voz da Casa Branca dizendo que esses relatórios eram falsos.

Cabello, que agora teve uma disputa recorrente no twitter com Marco Rubio, onde Rubio o chama de novo Pablo Escobar, e Cabello responde chamando o congressista republicano de Narco-Rubio, foi misteriosamente excluído das mais recentes sanções do governo dos EUA contra autoridades venezuelanas.

Embora Cabello não tenha uma posição de alto escalão dentro do governo ou dos militares, sua hierarquia dentro do regime chavista permanece sólida. Mesmo quando às vezes parece que ele está perdendo terreno para o grupo político de Maduro, sua qualidade “intocável” continua intacta. Não é incomum ver o alto escalão do exército armado sentado na primeira fila durante seu programa de entrevistas semanal – que é conhecido por rodar por cinco horas seguidas.

Os últimos meses foram obscuros, especialmente no que diz respeito às informações sobre o que está acontecendo no mundo militar, mas fontes em diferentes lugares insistem que a agitação nas fileiras está fora dos padrões. Em parte por causa das mais de cem mortes violentas pelas quais as forças de segurança do governo são responsáveis, e em parte por causa da Assembléia Constituinte ilegal que foi convocada nesta semana.

Mas no fundo, a verdade é que os bons velhos tempos se foram e agora Maduro luta para manter as forças armadas felizes. Com a erosão dos meios de produção, não há muitas opções para mantê-los sob controle. Há um ano, o presidente transferiu a supervisão e controle do sistema público de distribuição de alimentos – que depende fortemente de importações – para os militares, dizendo que, para combater a escassez, como uma batalha dentro da Guerra Econômica, eles precisariam da ajuda de um proeminente estrategista militar da estatura do ministro da defesa, o general Vladimir Padrino-López.

Mas isso foi há um ano, e esse sistema de distribuição de alimentos está desmoronando à medida que o país começa a se familiarizar com a hiperinflação.

Aqueles que não se beneficiam diretamente do regime ficam descontentes quando perdem posições de poder (perto dos associados de Maduro) e se vêem frente a frente com o caos cotidiano criado pela má administração do chavismo na economia venezuelana.

Os mesmos oficiais que costumavam pegar carros e apartamentos, agora pegam uma sacola de comida e dois rolos de papel higiênico.

Se há tanto desconforto, por que não há forças desafiando o governo? Bem, tem. E o governo propositadamente informou – talvez exagerando um pouco – que essas situações foram tratadas. Qualquer manifestação ou sinal de que um grupo de dissidentes militares está sendo vocal sobre a situação do país é reprimida de forma rápida e seletiva. Esses grupos, não importando o número deles, são estrategicamente separados e ficam sob estrita vigilância da inteligência (obrigado, Fidel).

Houve relatos conflitantes sobre o que aconteceu no domingo no Paramacay. Alguns jornalistas que cobrem fontes militares informaram que cerca de cem fuzis automáticos e quatro lançadores de granadas foram saqueados e que a operação rebelde foi um sucesso. Outros especialistas militares dizem que esta é uma operação de contra-inteligência do governo.

Com o suspeito silêncio do rádio dois dias após a “revolta” do Paramacay – houve apenas uma pressão no ministro da defesa para confirmar o que o presidente Maduro disse, esse evento soou como mais um momento embaraçoso de uma instituição venezuelana tristemente desprovida de profissionalismo.

Muitos esperam que as forças armadas institucionais mostrem seu rosto pela primeira vez em mais de vinte anos e acabem com a crise que tem feito famílias revirarem lixo por comida e crianças morrerem de desnutrição. Infelizmente, os movimentos nas forças armadas não são sobre fazer o que é certo. Eles são sobre incentivos.