por The Economist

[ Beyond the tyranny of tolerance – Tradução de Guilherme Oliveira ]

Em 2012, um casal homossexual processou uma padaria no Colorado por discriminação depois que o dono, um homem cristão que acreditava que o casamento gay é “um sacrilégio”, se recusou a fazer um bolo de casamento para eles. O dono está apelando para a Suprema Corte sob o argumento de liberdade de expressão e liberdade de consciência.

Em 2016, uma mulher numa praia em Nice foi forçada a remover algumas peças de roupa enquanto vários homens armados a cercavam. Ela estava usando um traje similar a um “burquíni”, um maiô de corpo inteiro que foi banido em vários resorts de praia da França em nome da laïcité (secularismo).

Esses exemplos mostram visões conflitantes sobre o que significa viver em uma “sociedade aberta”. No centro da discussão está a questão de como balancear os direitos de diferentes pessoas. Como se certificar de que as liberdades de um grupo não infringem as de outro? Cotas e ações afirmativas podem restaurar equilíbrio um sistema injusto ou são apenas outra forma de discriminação? Permitir que pessoas trans usem o banheiro que corresponde à sua identidade põe em segundo plano os direitos de outros? O movimento #MeToo deu peso excessivo às vozes das vítimas em detrimento de um devido processo para os acusados? As respostas para essas perguntas têm sido variadas e extremamente divisivas.

O debate pode ser dividido, a grosso modo, em dois campos. De um lado estão aqueles que acreditam que desigualdades foram inseridas em sistemas por um determinado grupo. Assédio sexual existe há anos, mas antes do #MeToo acusações eram raras, em parte porque os abusadores estavam em posições de poder e podiam suprimir as vozes das vítimas. O casamento homossexual é revolucionário apenas porque os heterossexuais definem o que é casamento há séculos. Há poucas pessoas de cor na academia ocidental em parte porque o acesso a esse espaço tende a requerer o tipo de capital social que favorece brancos. Os partidários deste lado argumentam que proteções legais não são suficientes enquanto persistir uma discriminação cultural profundamente enraizada.

Do outro lado do debate estão aqueles que acreditam que as políticas identitárias (ou seja, interesses políticos baseados em pertencimento a uma determinada raça, sexo ou religião em vez de a uma ideologia) e o politicamente correto saíram do controle. Eles argumentam que estão sofrendo discriminação num processo de “racismo/sexismo reverso” ou “tokenismo” [a prática de incluir minorias como ato simbólico]. Cotas forçam empresas e universidades a priorizar identidade sobre qualificação. O #MeToo tem se tornado uma “caça às bruxas” que aceita incontestavelmente todas as acusações e falha em dar aos acusados uma chance para se defenderem. Uma “polícia de pensamento” orwelliana está censurando pontos de vista políticos e sociais, linguagem, até fantasias de Halloween. Qualquer opinião contrária à ortodoxia de esquerda é encarada com uma abordagem de tolerância zero que rotula quem a manifesta como intolerante, racista, homofóbico e transfóbico. Grupos minoritários estão impondo seus valores e estilos de vida sobre os demais.

A eleição do presidente Donald Trump nos EUA e o voto da Grã-Bretanha para deixar a União Europeia em 2016 têm sido largamente considerados como uma consequência dessas “guerras culturais” divisivas. De fato, a retórica nativista e os impulsos anti-imigração que moveram ambas as campanhas foram uma forma de ação política identitária. Ao redor do mundo, a tolerância crescente para com grupos minoritários têm encontrado reações semelhantes. Os relatos de crimes de ódio contra grupos LGBT têm crescido na Grã-Bretanha e nos EUA mesmo à medida em que o casamento gay é legalizado. Na Índia, o partido do governo, BJP, acolhe hindus da linha dura às custas da minoria muçulmana. Muito da gestão Trump tem se baseado em reverter leis da era Obama que eram destinadas a certos grupos: igualdade salarial para mulheres, permissão para pessoas trans servirem às Forças Armadas, proteção legal para os filhos de imigrantes ilegais e acesso facilitado a métodos contraceptivos.

Tentativas de forçar sociedades a se tornarem mais abertas têm sido controversas ou até contraproducentes. A Suécia adotou uma “política externa feminista” em 2014, que coloca a igualdade de gênero como critério central para ajuda humanitária e relações diplomáticas. Pouco depois, o país se envolveu numa desavença com a Arábia Saudita depois que sua ministra das Relações Exteriores criticou o retrospecto da nação do golfo em direitos humanos e suas restrições para mulheres. Na Costa Rica, um candidato inexpressivo com uma plataforma evangélica conservadora saltou da relativa obscuridade para a vitória no primeiro turno da eleição presidencial [de 2014] depois que um tribunal de direitos humanos determinou que casais homossexuais devem ter a permissão para se casar (o candidato moderado acabou por ser eleito).

Essas discordâncias têm se tornado um importante campo de batalha entre conservadores, liberais e a esquerda, e têm causado grandes cismas dentro do liberalismo. The Economist sempre tem argumentado em favor de sociedades que sejam abertas, em vez de fechadas, e continuará a fazê-lo. Porém, considerando que a abertura e a tolerância das sociedades está sob ameaça em todo o mundo, acreditamos que é correto questionar os excessos de alguns movimentos sociais. Adesão forçada a valores liberais pode ter consequências antiliberais perigosas. Silenciar as vozes dos homens no debate em torno do #MeToo pode levar a justiça a sair pela culatra e pode alienar exatamente as pessoas cujo comportamento precisa mudar. Um foco desproporcional em identidade e grupos pode ofuscar outras questões, como liberdade individual.

Como equilibrar essas inquietações com a meta de criar uma sociedade tolerante é uma questão urgente de nosso tempo. A seção Open Societies se debruçará de forma ampla sobre direitos civis e diversidade, e fará as perguntas desconfortáveis que precisam ser respondidas para que possamos ter uma sociedade que funcione para todos.