por Mike Reid

[ The Myth of Primitive Communism – Tradução de Matheus Pacini ]

Generosidade é um investimento em capital humano.

Todos os meus alunos morreram de fome. Novamente.

Isto é o que aprenderam da forma mais difícil: a generosidade de hoje pode ser uma forma de poupança para o amanhã.

Como sobreviventes de um acidente de avião numa ilha deserta, nela estariam presos por meses, sendo que o único alimento disponível em abundância seriam os peixes do mar.

Quando um de meus alunos conseguiu capturar um peixe, ele comeu tudo que pôde, guardando o resto para si debaixo de algumas pedras próximas à praia.

Outros alunos, menos hábeis como pescadores, logo morreram de fome.

Eu gosto de propor esse “jogo da fome” para dissuadir meus alunos de suas noções românticas sobre os nobres selvagens comunistas que vivem nas selvas africanas.

Depois da morte de seus companheiros, o aluno-pescador encontrou-se sozinho na ilha. Sem refrigeração, o alimento que tinha escondido apodreceu. E quando ele se aventurou novamente em busca de peixes, teve azar e foi picado por uma arraia venenosa.

Sem ninguém na ilha para cuidá-lo, ele também morreu.

Todos os anos, proponho esse jogo aos meus alunos. Organizamos as mesas para que formem um grande quadrado, representamos as quantidades decrescentes de cardumes com moedas, e jogamos dados para estabelecer o sucesso ou fracasso de cada jogador. (Se um aluno decide não pescar, ele não tem chance de obter alimento, mas também evita o perigo da terrível arraia).

“Comunistas primitivos”

Nós jogamos esse jogo enquanto estudamos os famosos caçadores-coletores Ju/’hoansi. Até as invasões coloniais do século XX, a maioria dos Ju/’hoansi vivia em pequenos grupos nômades no deserto de Kalahari: os homens caçavam com arco e flecha, e as mulheres coletavam nozes e frutas silvestres ou cavoucavam em busca de raízes comestíveis.

Todos os anos, nas discussões que se seguem à nossa breve leitura sobre essa cultura, meus alunos observam com admiração que o alimento obtido por cada membro da tribo, seja homem ou mulher, é compartilhado amplamente com a comunidade.

Esse comportamento parece parte importante da razão pela qual Richard B. Lee, o mais destacado antropólogo no estudo dos Ju/’hoansi, resolveu descrevê-los como “comunistas primitivos” no sentido marxista do termo. E muitos de meus alunos parecem acreditar na ideia de que os Ju/’hoansi compartilham seu alimento tão livremente uns com os outros porque são, de alguma forma, mais caridosos ou mais morais que nós.

Às vezes, um aluno comenta: “não é assim no socialismo?”.

Então eu gosto de jogar este pequeno jogo da fome para desiludir meus alunos de suas noções românticas sobre nobres selvagens comunistas no deserto africano.

O que, eu pergunto, aconteceria se um grupo de pessoas egoístas e gananciosas como nós se encontrassem na mesma situação econômica dos Ju/’hoansi?

As restrições econômicas de uma vida como caçador-coletor

Os caçadores-coletores nômades têm “receitas” incertas em termos de alimento, e não sabem o que acontecerá amanhã ou na semana que vem.

Eles são mestres na caça, na coleta e no rastreio, contudo, não importa quão competente você seja, quando você persegue uma girafa a pé com um arco e flecha, às vezes, ela escapará.

Além disso, é difícil para eles armazenarem alimento ou outras formas de riqueza material. Na verdade, os Ju|’hoansi são ainda menos propensos a armazenar alimentos que muitos outros grupos nômades. Embora tenham estoques de carne seca para alguns meses, é fato que uma tempestade inesperada poderia destruí-los facilmente. E como viajam diversas vezes ao ano em busca de novos rios e fontes de alimentos, como Lee diz, “seria completamente inútil acumular mais bens do que podem carregar enquanto o grupo se move”.

Se perguntássemos a um homem Ju|‘hoan pela manhã o que ele comeria de noite, ele poderia responder honestamente: “eu não sei; afinal, ainda não saí para caçá-lo”.

A herança cultural e a sobrevivência humana

Todo ano, em nosso jogo, ocorre uma das duas coisas:

  1. Pescadores eficazes imitam os Ju|’hoansi. Eles repartem os peixes que não vão utilizar livremente, começando com amigos e vizinhos na mesa de jogos.
  2. Os alunos morrem de fome em massa.

Meus alunos tendem a entrar no jogo com uma visão idealista que considera os Ju|’hoansi como um povo generoso e altruísta.

Eles tendem a sair do jogo percebendo que, mesmo se você fosse o mais ganancioso, o mais egoísta dos caçadores-coletores, sua melhor jogada ainda seria compartilhar alimento com seus companheiros de ilha.

Como os caçadores-coletores nômades têm dificuldade no armazenamento de capital físico, especialmente alimento, sua resposta ao redor do mundo, de cultura a cultura, é automaticamente transformá-lo em capital humano ao compartilhá-lo com amigos, parentes e vizinhos.

Como meus alunos, os homens e mulheres Ju|’hoansi são tentados a acumular sua própria riqueza. De fato, os anciãos Ju|’hoansi frequentemente lamentam ter compartilhado generosamente por toda sua vida e hoje gostariam de guardar algo para si próprio.

Contudo, os Ju|’hoansi têm um corpus extenso de rituais de trocas de presentes, hábitos conversacionais, e mesmo piadas que usam para reforçar sua própria paciência e para alinhar os costumes da população de forma pacífica. Esses comportamentos representam uma herança de milhares de anos de desenvolvimento cultural (produto de uma ordem espontânea) sob condições econômicas em que a ganância de curto prazo equivale à estupidez.

O que faz os Ju|’hoansi parecerem altruístas, “comunistas”, ou moralmente superiores a nós é sua adaptação cultural milenar ao fato de que, para cada indivíduo em sua situação, a melhor estratégia é poupar para o futuro e compartilhar amplamente no presente.

Cultura e mercados

Nas circunstâncias econômicas e tecnológicas muito distintas do ocidente industrializado, temos nossos próprios métodos pelos quais nossos desejos egoístas levam à prosperidade social. Nos mercados, cada um de nós pode ainda prover para o seu futuro ao ajudar os outros – especialmente, estranhos – pelo preço correto.

Esse sistema de mercado funcionaria para os caçadores-coletores?

Se um grupo Ju|’hoansi do século XIX, equipado com gravetos, arcos e flechas, tivessem tentado aplicar a ética moderna do mercado à sua população, muitos poderiam ter morrido de fome antes que fosse reconhecido o seu erro, iniciando-se a criação de uma cultura mais apropriada à sua ecologia e ao seu nível tecnológico.

Mas o que funciona para os Ju|’hoansi seria devastador para nós. Se nós, hoje, em uma sociedade de mercado formada amplamente por estranhos, tentássemos praticar uma ética de total partilha e simplicidade – ou mesmo pior, impor tal ética a estranhos por meio de políticas governamentais – levaríamos nossa sociedade ao caos e à penúria.

A estratégia do Ju|’hoansi funciona somente para as pessoas que vivem na mesma situação dos Ju|’hoansi.

Nossa riqueza e nossa ordem social se baseia na poupança e no investimento – e no uso dos recursos para benefício de estranhos por meio da troca de mercado.