por Bryan Caplan

[ The Common-Sense Case for Pacifism – Tradução de Leonardo Tavares Brown ]

Eu costumava me definir como um “isolacionista”, mas recentemente percebi que “pacifista” é um termo que descreve melhor minha posição. Todas as definições a seguir descrevem apropriadamente no que acredito:

  • Pacifismo: a doutrina que diz que a disputa (principalmente entre países) deve ser decidida sem o recurso à violência; oposição ativa a tal violência, especialmente a recusa em tomar parte em ações militares;
  • Pacifista: oposto à guerra;
  • Pacifista: alguém que ama, apoia e favorece a paz;
  • Pacifista: um indivíduo que discorda da guerra por princípio.

Algumas definições de pacifismo especificam oposição a qualquer forma de violência, até mesmo autodefesa, mas isso pra mim é muito amplo. Eu não sou um pacifista porque me oponho à autodefesa, mas porque é praticamente impossível lutar em uma guerra em autodefesa. Mesmo se militares deliberadamente tentarem não atingir civis, eles certamente vão colocar suas vidas em perigo. Se um policial lutar contra o crime da forma como a qual exércitos “civilizados” fazem guerra, nós o colocaríamos na cadeia.

Mas pacifismo, nas palavras de Homer Simpson, não é um daqueles pontos de vista “com todas as regras bem intencionadas que não funcionam na vida real?” Não. Essa é minha defesa baseada apenas em bom senso para o pacifismo:

1. Os custos imediatos da guerra são terríveis. A maioria das guerras conduzem a imensas perdas em vidas e riqueza em pelo menos um dos lados. Estabelecendo o valor padrão da vida[1] em U$5 milhões, cada 200.000 mortes equivalem a um trilhão de dólares em danos.

2. Os benefícios de longo prazo da guerra são terrivelmente incertos. Algumas guerras – mais especificamente as guerras napoleônicas e a Segunda Guerra Mundial – pelo menos merecem o crédito pelas décadas de paz que seguiram. Mas muitas outras guerras – como a Revolução Francesa e a Primeira Guerra Mundial – apenas plantaram a semente para horrores ainda maiores. Você pode dizer “Certo, vamos então apenas lutar guerras que conduzem a grandes benefícios de longo prazo”. Na prática, entretanto, é muito difícil predizer as consequências de longo prazo de uma guerra. Uma das grandes lições em Expert Political Judgment, de Tetlock, é que política externa sempre assume que suas previsões são muito mais certas do que realmente são.

3. Para uma guerra ser moralmente justificada, seus benefícios de longo prazo devem ser substancialmente maiores do que seus custos de curto prazo. Eu chamo isso de “princípio da deontologia branda”. Quase todo mundo acha que é errado assassinar uma pessoa aleatória e usar seus órgãos para salvar a vida de cinco outras pessoas. Para uma regra ser moralmente justificada, então, a razão entre vidas salvas e vidas perdidas deveria exceder 5:1. (Pessoalmente acho que uma razão bem maior deveria ser exigida, mas não preciso dessa premissa pra minha defesa).

Existem circunstâncias concebíveis sob as quais eu quebraria esses princípios pacifistas? Sim; como expliquei no meu debate com Robin Hanson, eu oponho “teorias morais de uma sentença“:

É absurdo se agarrar a uma grande teoria moral e defender essa teoria contra qualquer contraexemplo.

No mundo real, entretanto, pacifismo é um guia sensato pra ação. Enquanto admito que guerras ocasionalmente tem boas intenções, é muito difícil identificar com antecedência esse tipo de guerra. E a não ser que você esteja disposto a admitir a possibilidade de doações involuntárias de órgãos, “boas consequências no geral”, são insuficientes para justificar moralmente uma guerra.

Se os defensores de uma guerra não podem razoavelmente justificar que estão salvando cinco vezes mais vidas do que irão tirar, então estão errados.

Suspeito que a maior objeção de economistas ao pacifismo é que na verdade ele aumenta a quantidade de guerras por reduzir o custo da agressão. Como já argumentei antes, no entanto, isso é no máximo uma meia verdade:

Ameaças e bullying não se movem ao longo da ‘curva de demanda da agressão’. Se seus alvos perceberem que seu comportamento é inapropriado, mau ou perverso, isso vai deslocar sua ‘demanda por agressão’ pra fora. Chame isso de psicologia ou de bom senso: pessoas que antes não lhe queriam mal agora vão procurar uma oportunidade de fazer você provar um pouco de seu próprio remédio.

O resultado para política externa é que pessoas que alertam sobre ‘plantar sementes de ódio’ não são tão simplórias como parecem ser. Retaliações militares contra, por exemplo, nações que abrigam terroristas, reduzem a quantidade de ódio contra os Estados Unidos. Mas se as pessoas nesses países sentirem que a represália não foi justificada, nós vamos fazer com que eles fiquem ainda mais bravos, aumentando a demanda por atos terroristas. Efeito líquido: ambíguo.

Rebecca West escreveu, “Feminismo é a noção radical de que mulheres são pessoas“. Pacifismo, similarmente, é a noção radical de que antes que você mate gente inocente, você deve estar razoavelmente certo que suas ações vão produzir consequências muito boas. Isso é uma teoria moral de uma sentença que até eu me sinto confortável em abraçar.

[1] O valor padrão da vida é um cálculo utilizado em economia baseado nos riscos e recompensa marginais assumidos pela população em escolhas que possam ameaçar sua vida. Por exemplo: quanto exigem a mais de salário para trabalhar em um emprego arriscado.