por Robert Higgs

[ Nations Don’t Gain or Lose from Trade, Individual Traders Do – Tradução de Giácomo de Pellegrini ]

Vamos definir o conjunto de todos os seres humanos cuja altura é maior que 1,70 m e menor que 1,80 m. Chame esse conjunto de A. Agora vamos coletar dados sobre todas as transações entre os membros do grupo A e membros do grupo B, que consiste de todos os seres humanos cuja altura é menor ou maior do que aqueles no conjunto A. Qual significado econômico podemos atribuir ao agregado de fluxos monetários entre membros do conjunto A e membros do conjunto B? Resposta correta: nenhum.

Essa agregação de pessoas que negociam com pessoas no conjunto complementar não tem significado econômico; os conjuntos são arbitrários no que diz respeito ao entendimento econômico. As pessoas – indivíduos, empresas, outras organizações e governos – negociam para melhorar sua condição econômica. Se negociam com pessoas mais baixas ou mais altas ou com pessoas dentro de uma certa faixa de altura ou fora desta faixa, isso não tem nada a ver com economia ou bem-estar humano. Estabelecer um saldo de pagamentos entre os conjuntos A e B, ou qualquer subconjunto de B, não teria propósito algum. Seria um exercício sem sentido.

Outro exercício sem sentido

Agora vamos definir o conjunto de todos os seres humanos que residem dentro dos limites de uma determinada nação, digamos, os Estados Unidos da América. Chame essas pessoas de elementos do conjunto P. Agora colete dados sobre todas as transações entre os membros do grupo P e os membros do grupo Q, que consiste de todos os seres humanos que residem fora dos EUA. Qual significado econômico podemos atribuir ao agregado de fluxos monetários entre membros do conjunto P e membros do conjunto Q? Resposta correta: nenhum.

Essa agregação de pessoas que negociam com pessoas no conjunto complementar não tem significado econômico; os conjuntos são arbitrários no que diz respeito ao entendimento econômico. As pessoas – indivíduos, empresas, outras organizações e governos – negociam para melhorar sua condição econômica. Se negociam com pessoas dentro ou fora dos EUA não tem nada a ver com economia ou bem-estar humano. Estabelecer um saldo de pagamentos entre os conjuntos P e Q, ou qualquer subconjunto de Q (por exemplo, residentes na China ou no México) não serviria a propósitos intelectuais. Seria um exercício sem sentido.

No entanto, exatamente esse sistema contábil de “balança de pagamentos internacionais” baseado na nação foi construído e “analisado” por um longo tempo. Nos séculos passados, quando os reis precisavam acumular ouro e prata para pagar mercenários para combater suas guerras, tinham uma razão para acumular tais dados e promover políticas (como taxas aduaneiras sobre bens importados) que desestimulavam as importações, evitando que ouro e prata fluísse para fora do país em pagamento pelas importações.

Esse tipo de “aritmética política” acabou por se transformar no moderno sistema de contas internacionais de balança de pagamentos (na verdade, todo o sistema de renda nacional e contas de produtos, também). A velha lógica monárquica para a coleta de tais dados já evaporou há muito tempo. Os governos modernos têm outras maneiras de organizar e financiar suas guerras.

Este pensamento medieval só prejudica os consumidores

Enquanto isso, outras partes interessadas descobriram que podem usar certas condições, como o chamado déficit na balança comercial (o valor das importações nacionais de bens e serviços excede o valor das exportações nacionais de bens e serviços) como forragens retóricas com interesse de alimentar suas políticas para que o governo imponha tarifas maiores (impostos de importação) sobre bens e serviços estrangeiros que competem pelas vendas domésticas com os bens domésticos oferecidos para vendedores domésticos.

Essa jogada não é nada além de um meio de suprimir a concorrência, uma atividade em que os vendedores infelizmente se engajam, empregando a força do governo em sua busca, se puderem recrutá-lo. Este assim chamado protecionismo obviamente prejudica os consumidores domésticos ao privá-los do acesso a melhores condições de comércio, que de outra forma seriam disponibilizadas por vendedores estrangeiros.

Lembre-se, no entanto, do que já foi dito: todo comércio, seja com membros do próprio grupo ou membros de outro conjunto complementar, é realizado com a expectativa de ganho. A ideia de que, apesar de todas as transações terem sido voluntariamente realizadas com o intuito de ganho mútuo, ainda há algo de errado se o valor agregado das exportações do conjunto for menor do que o das importações, falando francamente, é absurda. Não se pode somar uma série de trocas lucrativas, sejam elas compras ou vendas, e concluir que, no conjunto, uma situação ruim foi criada. Dar essa impressão é um truque, um esquema arranjado, pelo qual alguns produtores e vendedores domésticos, esperam assaltar os bolsos dos consumidores domésticos.

A raiz desse mal é a agregação que é empregada nesses sistemas de contabilidade da balança de pagamentos. Nações por si só não ganham ou perdem com o comércio; apenas indivíduos sim. Se os negócios em que essas pessoas voluntariamente entram os seduzem pela perspectiva de ganho mútuo, simplesmente não pode ser possível de que a soma total de suas transações seja um mau negócio.