por Gabriel Oliva

[ Hayek and complexity: coordination, evolution and methodology in social adaptive systems. Tradução de Giácomo de Pellegrini ]

Prefácio

Esta é a tradução da dissertação de mestrado de autoria de Gabriel Oliva pela Universidade de São Paulo. Ela foi publicada somente em inglês. Parte dessa dissertação resultou no paper The Road to Servomechanisms: The Influence of Cybernetics on Hayek from The Sensory Order to the Social Order, premiado pelo Warren Samuels Prize for Interdisciplinary Research in the History of Economic Thought and Methodology. Gabriel estava cursando seu doutorado na Duke University nos EUA quando infelizmente faleceu vítima de um câncer no dia 3 de abril de 2019 aos 29 anos de idade.

Para quem já participa ou participou das discussões sobre economia e política, sabe que existem vários embates principalmente entres liberais e socialistas e junto a isso muitos mitos e desentendimentos criados. Um mito comum que você já deve ter esbarrado por aí diz que os “austríacos são contra o uso da matemática e estatística para o estudo econômico”, quando na verdade a crítica austríaca, aqui via Hayek, diz respeito às limitações para a abordagem de fenômenos complexos e no contexto à época. Citando Oliva:

Por tratar elementos individuais como se não estivessem conectados sistematicamente (isto é, porque supõe que os elementos da amostra são independentes), a estatística elimina a complexidade da representação do padrão. Se a posição relativa de cada elemento na estrutura é crítica para a compreensão do sistema, então devemos concluir que um método que ignora as relações entre esses elementos é inútil. […] A chave para entender esses fenômenos não estaria na descrição do comportamento médio de seus componentes, mas na elucidação da maneira pela qual esses elementos estão inter-relacionados (ou seja, a maneira pela qual o sistema é organizado como um todo). […] A matemática foi útil para descrever o caráter geral dos padrões que constituem a estrutura complexa dos fenômenos sociais, mas as técnicas estatísticas eram “impotentes” em face da complexidade desse padrão.

Essa questão é importante porque estava também imersa na discussão da impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo. A partir daí temos o pano de fundo para outra discussão que parece não ter fim, qual a melhor política econômica, a socialista ou liberal? Sabendo da complexidade de uma ordem social e das limitações quanto ao poder preditivo das autoridades e suas intenções, temos agora claro as limitações socialistas quanto a sua abordagem por uma economia de comando e controle. Citando novamente Oliva:

É paradoxal, portanto, dizer que a sociedade moderna deve ser planejada deliberadamente porque se tornou muito complexa. De fato, o oposto é verdadeiro: o homem não é capaz de planejar a sociedade precisamente porque se tornou muito complexa. Uma ordem de tão alto grau de complexidade não pode ser preservada, dando comandos diretos aos seus membros, mas só pode ser indiretamente mantida através da aplicação e melhoria de regras que levam à formação de ordens espontâneas. […] Hayek também deduz o argumento liberal contra o intervencionismo da relação entre regras e comandos em uma ordem espontânea. Segundo ele, a imposição de comandos sobre atividades orientadas pelas regras gerais de conduta de uma ordem espontânea não é capaz de melhorar tal ordem, mas pode apenas perturbá-la. Isso ocorreria porque a intervenção visa controlar um sistema de ações interdependentes, orientado por informações e finalidades, conhecidas apenas pelos agentes envolvidos, e não pelas autoridades interventoras. A intervenção, na medida em que é eficaz, priva os agentes em algum grau da possibilidade de usar seu conhecimento particular para a realização de seus próprios propósitos.

Outro mito comum diz respeito a muitos estudiosos liberais que abordaram a ordem social como uma extensão, de certa forma, do processo evolutivo. Apesar de alguns autores de várias cores ideológicas não só liberais, de fato, criarem teorias radicais que se provaram erradas, todos os demais que utilizaram da metodologia evolutiva foram caracterizados com o termo pejorativo de “darwinistas sociais”, talvez o exemplo mais famoso e vilipendiado da história seja Herbert Spencer. A crítica pueril consiste em interpretar que existam os indivíduos mais aptos e os menos aptos, estabelecendo alguma dicotomia entre classes ricas e pobres, fortes e fracos, úteis e inúteis e, assim, por consequência, esses autores supostamente concluem a necessidade do fim dos menos aptos, numa espécie de teoria eugênica. Hayek foi um dos pensadores modernos que estabeleceu uma metodologia evolucionária para as ciências sociais conjuntamente com sua própria teoria de ordem espontânea. Como descreve Oliva, podemos perceber que a abordagem é muito mais sofisticada do que pregam os críticos:

Se levarmos a sério essa natureza limitada da racionalidade humana, também devemos reconhecer que o caráter benéfico da cultura e das instituições humanas depende crucialmente delas serem adaptadas a muitos fatos de que o homem é ignorante. De acordo com Hayek, a cultura é também o resultado de um complexo processo evolutivo no qual as práticas humanas mais adequadas às circunstâncias foram selecionadas. […] Razão e cultura não são o resultado de dois processos evolutivos independentes. Pelo contrário, a evolução de uma não pode ser adequadamente entendida sem levar a outra em conta; razão e cultura co-evoluem. A cultura não é determinada pelo uso de uma razão previamente desenvolvida e independentemente desenvolvida. A causalidade entre elas não é unidirecional, mas mútua. O sucesso das regras de conduta que definem a razão também depende delas serem adaptadas à cultura preexistente, e o sucesso das instituições também depende delas serem adaptadas à racionalidade desenvolvida pelo homem (que é necessariamente limitada por natureza). […] O conceito de evolução não é algo que as ciências sociais tomaram emprestado das ciências biológicas. Pelo contrário, segundo ele, foi na verdade Darwin quem se inspirou em teóricos sociais que já estavam aplicando o raciocínio evolutivo na discussão de formações espontâneas como a linguagem, a moral, a lei e o dinheiro. Infelizmente, alguns teóricos que ficaram conhecidos como darwinistas sociais transpuseram erroneamente a formulação particular da evolução na biologia para o campo social e, assim, desacreditaram o uso da ideia de evolução na sociedade. De acordo com Hayek, esses autores estavam errados ao focar na seleção de indivíduos e não de instituições e práticas sociais, e na seleção de características inatas dos indivíduos, em vez daquelas que são culturalmente transmitidas. […] Dada a suspeita que o darwinismo social gerou sobre o uso do conceito de evolução na análise dos fenômenos sociais, vale a pena escrever um pouco mais sobre as diferenças entre os processos biológicos e culturais. Enquanto a evolução biológica (neodarwiniana) impede a transmissão de características adquiridas, a evolução cultural é baseada inteiramente na transmissão de regras não-inatas; Nesse sentido, a evolução cultural simula o lamarckismo. Além disso, na evolução cultural, os pais não são os únicos transmissores de hábitos e práticas. O indivíduo tem um número não especificado de “ancestrais”. Por fim, a evolução cultural atua principalmente por meio de um processo de seleção de grupos, uma espécie de processo evolutivo cuja aplicabilidade na biologia ainda é controversa. […] A teoria da evolução, portanto, não nos permitiria fazer previsões de eventos particulares, mas estaria confinada ao que Hayek chamou de explicações das previsões de princípio e padrão. Essa crença nas leis da evolução, segundo Hayek, não se origina na teoria da evolução propriamente entendida, mas em autores como Comte, Hegel e Marx, que, em sua interpretação, afirmavam que a evolução deveria necessariamente seguir um curso particular predeterminado por razões místicas.

Por fim, mesmo entre liberais existe o mito da irrelevância acadêmica dos “economistas austríacos” para o mainstream econômico. A afirmação é um tanto curiosa já que o mainstream econômico costuma beber da teoria da utilidade marginal de Carl Menger, o fundador da escola austríaca. Este trabalho também demonstra os esforços de Hayek na fronteira do conhecimento sobre complexidade à época, assunto hoje amplamente estudado. Parafraseando um grande economista, não existe escola disso ou daquilo, o que existe é boa e má economia.

Fica aqui minha pequena homenagem em memória de Gabriel Oliva. Uma forma de manter seu legado disponível em português, sua língua natal, por sua contribuição à pesquisa econômica e ao libertarianismo. Não o conheci pessoalmente, mas participei ativamente junto com ele em diversos grupos de discussões sobre economia, liberalismo e libertarianismo. Sempre foi uma pessoa muito educada e bem humorada. Gabriel fará uma enorme falta não só aos seus familiares e amigos mais próximos, mas também a toda comunidade que busca divulgar e promover o espírito da liberdade. Espero que Gabriel possa servir de exemplo aos milhares de jovens estudiosos que todos os anos se voluntariam nas precárias trincheiras em defesa de um mundo mais livre e próspero. Descanse em paz, Gabriel.

Giácomo de Pellegrini

Resumo

A afinidade entre a obra do economista austríaco Friedrich A. Hayek e a abordagem da Economia e Complexidade é amplamente reconhecida pela literatura. Apesar disso, ainda há grande carência de estudos que busquem analisar de forma aprofundada a relação entre Hayek e a complexidade. Esta dissertação é uma contribuição para o preenchimento dessa grande lacuna na literatura. Na primeira parte do trabalho, os diversos períodos no desenvolvimento da visão de complexidade de Hayek são analisados, evidenciando-se como tal visão está fortemente presente em seus trabalhos sobre conhecimento, competição, metodologia, evolução e ordem espontânea. Na segunda parte, exploramos como Hayek foi influenciado por dois dos principais precursores da moderna teoria da complexidade – a cibernética e a teoria geral do sistema – desde o período em que estava trabalhando no seu livro sobre psicologia teórica, The Sensory Order (1952), até o final de sua carreira intelectual.

 

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Quando comecei o meu trabalho, senti que estava quase sozinho ao trabalhar na formação evolucionária de tais ordens de automanutenção altamente complexas. Enquanto isso, pesquisas sobre esse tipo de problema – sob vários nomes, como autopoiese, cibernética, homeostase, ordem espontânea, auto-organização, sinergética, teoria de sistemas e assim por diante – tornaram-se tão numerosas que pude estudar de perto não mais do que algumas delas.
F. A. Hayek

Hayek foi um desenvolvedor inicial e independente da teoria da complexidade em algo parecido com sua forma atual, embora sem computadores.
John Barkley Rosser Jr.

 

[…] Hayek oferece um sistema de análises sofisticadas e complexas; como as teorias da complexidade, da ordem espontânea, da evolução, da mente e do domínio das regras formam seu próprio padrão complexo, os comentaristas tendem a se concentrar em apenas um ou dois elementos que, não surpreendentemente, consideram inadequados. Somente quando apreciamos o gênio da ligação entre a teoria da complexidade, a ordenação espontânea, a evolução social e as redes neurais de Hayek em um relato geral da mente e da sociedade humana, estaremos, finalmente, em condições de ver as verdadeiras dificuldades de sua vida. sistema de idéias, e ir além, construindo, seu grande trabalho.
Gerald Gaus

 

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1. Introdução

Recentemente, a nova abordagem da economia da complexidade ganhou um número significativo de seguidores. Alguns autores, como Colander, Holt e Rosser (2004), afirmam que uma “nova ortodoxia” está gradualmente emergindo dentro da corrente principal da economia e que essa ortodoxia será fundada na visão da economia como um sistema complexo. O otimismo desses autores em relação ao crescimento da economia da complexidade pode ser considerado um exagero, mas, dada a discussão sobre as tendências atuais da economia, é razoável esperar que a abordagem da complexidade tenha um papel importante no futuro da economia.

Esses novos desenvolvimentos aumentam a relevância de investigar as interações iniciais entre economistas e teóricos da complexidade. Entre os primeiros economistas que enfatizaram a centralidade da questão da complexidade para o estudo dos fenômenos sociais estava o austríaco F. A. Hayek. Isso é reconhecido tanto pelos teóricos da complexidade contemporânea quanto pelos economistas austríacos. O pesquisador da complexidade Barkley Rosser, por exemplo, afirmou que Hayek era “um desenvolvedor precoce e independente da teoria da complexidade em algo parecido com sua forma atual, embora sem computadores” (ROSSER, 1999, p. 185). No mesmo espírito, um dos mais respeitados economistas da complexidade, Brian Arthur, relatou em uma entrevista que:

Logo depois que publicamos nossas primeiras descobertas, começamos a receber cartas de todo o país dizendo: ‘Você sabe, tudo que vocês fizeram foi redescobrir a economia austríaca’ […] Eu admito que não estava familiarizado com Hayek e von Mises no momento. Mas agora que os li, percebo que isso é essencialmente verdade (TUCKER, 1996).

A austríaca Karen Vaughn se propôs a investigar até que ponto a alegação de Brian Arthur era “essencialmente verdadeira”, concluindo que “o relato de Hayek sobre a catalaxia era uma afirmação verbal de um sistema complexo e adaptativo como o termo é entendido hoje” (VAUGHN, 1999, p. 252). A conexão Hayek-complexidade é reconhecida por vários outros autores, como Lavoie (1989), Vriend (2002), Caldwell (2004), Gaus (2006), Koppl (2009), Lewis (2012) e Barbieri (2013). Apesar desse amplo reconhecimento geral, ainda há muita pesquisa a ser feita sobre como exatamente a complexidade entra nos escritos de Hayek nos diferentes períodos de sua carreira intelectual.

No entanto, nos anos 50, quando Hayek começou a incorporar explicitamente elementos de complexidade em seu trabalho, a “teoria da complexidade”, como existia, era bem diferente do que entendemos o termo hoje. Naquela época, os movimentos científicos peculiares da cibernética e da teoria geral do sistema eram, sem dúvida, os desenvolvimentos mais importantes relacionados à complexidade (MITCHELL, 2009, p. 295-300).[1] Além disso, é amplamente reconhecido na literatura que Hayek formou seus pontos de vista na complexidade com grande influência tanto da cibernética quanto da teoria geral do sistema, e a segunda, em particular, através de seu criador, o biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy (VAUGHN, 1999; CALDWELL, 2004; ROSSER, 2010).

Quando comecei a trabalhar neste projeto, não existia nenhum trabalho que conhecesse que explorasse em detalhes como a cibernética ou a teoria geral do sistema estava relacionada às ideias de Hayek. Apenas recentemente apareceu a contribuição de Lewis (2015) sobre a relação entre Hayek e Bertalanffy e minha própria contribuição (OLIVA, no prelo) sobre a conexão Hayek-cibernética. Essas contribuições pioneiras são valiosas, mas pesquisas adicionais são necessárias. Em particular, será mostrado que as influências da cibernética e da teoria geral do sistema (GST) são melhor compreendidas se consideradas em conjunto, pois constituem teorias similares e começaram a aparecer ao mesmo tempo e de forma complementar nas obras de Hayek.

O presente trabalho pretende ser uma contribuição para essa literatura sobre a relação entre Hayek e complexidade. Mais especificamente, nossa contribuição é dividida em duas partes. Na primeira parte do trabalho, analisamos os vários períodos no desenvolvimento da visão de complexidade de Hayek, mostrando que esta visão está fortemente presente em seus trabalhos sobre conhecimento, competição, metodologia, evolução e ordem espontânea. Na segunda parte, exploramos como Hayek foi influenciado por dois dos principais precursores da moderna teoria da complexidade – cibernética e teoria geral do sistema – desde o tempo em que estava trabalhando em seu livro sobre psicologia teórica, The Sensory Order (1952), até o fim de sua carreira intelectual.

Assim, no capítulo 2, exploraremos o modo como a complexidade aparece nas obras de Hayek em três momentos diferentes de sua carreira. Consideraremos primeiramente na seção 2.1 os trabalhos de Hayek sobre conhecimento e competição nas décadas de 1930 e 1940. Nesse período, a complexidade está implícita em sua visão da economia como um sistema descentralizado, auto-organizado, dinâmico e gerador de novidades. Mais tarde, nos anos 1950 e 1960, como veremos na seção 2.2, Hayek já demonstrava familiaridade com a então incipiente literatura sobre complexidade. Nesse período, lidou explicitamente com complexidade em seus trabalhos metodológicos, nos quais tenta criar – em suas próprias palavras – uma “teoria dos fenômenos complexos” (HAYEK, [1964] 2014). Finalmente, a partir do final da década de 1960, Hayek desenvolveu uma abrangente teoria complexa da ordem social por meio da elaboração dos conceitos de evolução e ordem espontânea. Este período será analisado na seção 2.3.

Na seção 3.1, forneceremos uma breve exposição de alguns conceitos básicos de cibernética e GST que são relevantes para a discussão posterior. A seção 3.2 realiza uma exploração das influências dessas disciplinas no livro The Sensory Order, de Hayek. Vamos nos concentrar principalmente na tentativa de Hayek de explicar o surgimento do comportamento intencional e de sua concepção não reducionista da psicologia teórica. Na seção 3.3, analisamos os usos de Hayek da cibernética e do GST em seus trabalhos posteriores sobre teoria social. Será mostrado, especificamente, como tentou abordar o “problema do conhecimento” que formulara décadas antes, usando novos conceitos e ideias extraídas dessas teorias. Considerações finais e conclusões são feitas no capítulo 4.

1.1. Sobre o significado da complexidade

Definir complexidade não é tarefa simples. O físico Seth Lloyd, por exemplo, listou mais de quarenta diferentes definições de complexidade usadas na literatura (HORGAN, 1997, p. 303). Limitar nossa atenção aos pesquisadores associados ao Instituto Santa Fé não torna a situação muito melhor. Mitchell (2009, p. 94-5) relata uma mesa redonda com proeminentes pesquisadores do instituto[2] em 2001, na qual cada participante propôs uma definição diferente de complexidade.

Discutir qual é a melhor definição de complexidade não é o objetivo deste trabalho. Não podemos, no entanto, fugir da tarefa de expor a visão geral de complexidade que guiará toda a discussão. Em um sentido mais amplo, a complexidade é uma nova visão da ciência que se opõe ao mecanicismo e ao reducionismo que caracterizam amplamente a ciência moderna. Assim, os teóricos da complexidade enfatizam questões como emergência, auto-organização e adaptação. Propriedades emergentes são aquelas propriedades que existem no sistema como um todo, mas não são encontradas nas partes do sistema quando consideradas isoladamente. Auto-organização refere-se a um processo em que uma estrutura ou ordem é formada de baixo para cima pela interação entre partes, e não imposta de cima para baixo pela ação de alguma “autoridade” organizadora. Finalmente, a adaptação é um processo pelo qual a configuração das partes de um sistema é alterada de modo a promover a automanutenção do sistema em face de um ambiente em mudança.

Os pesquisadores da complexidade vêm de diferentes campos, como física, matemática, biologia e ciências sociais, e tendem a ser interdisciplinares. Eles enfatizam a necessidade de colaboração entre disciplinas com o objetivo de encontrar princípios comuns em diferentes campos e melhor integrá-los em estruturas unificadoras (possivelmente mostrando propriedades emergentes não encontradas em cada disciplina isolada). A pesquisa mais importante do centro de complexidade é o Instituto Santa Fé, em cujo site ficamos sabendo que:

A pesquisa de sistemas complexos tenta descobrir e compreender as semelhanças profundas que ligam sistemas artificiais, humanos e naturais. Por sua própria natureza, esses problemas transcendem qualquer campo particular; por exemplo, se entendermos os princípios fundamentais da organização, obteremos insights sobre o funcionamento de sistemas como células em biologia, mercados e firmas em economia, transições de fase na física e em sistemas sociais humanos. Esta pesquisa baseia-se em teorias e ferramentas de todas as ciências (SANTA FE INSTITUTE, 201-?).

Também podemos descrever a complexidade pelo tipo de ferramentas, modelos e teorias comumente usados por pesquisadores de complexidade. Em geral, os modelos complexos são analiticamente intratáveis ou exibem várias soluções. Simulações computacionais para diferentes faixas de condições iniciais são usadas em vez de soluções analíticas diretas. A dinâmica não-linear, a teoria dos jogos evolutivos, a teoria da informação, a teoria das redes e a modelagem baseada em agentes são amplamente utilizadas pelos pesquisadores da complexidade.

A aplicação da teoria da complexidade para estudar a economia dá origem ao campo da complexidade econômica. Arthur, Durlauf e Lane (1997, p. 4-5) listam seis características distintas da economia da complexidade: (1) interação dispersa entre agentes heterogêneos; (2) ausência de um controlador central que gerencia as interações (controles e restrições emergem da competição e cooperação entre os agentes); (3) organização hierárquica transversal (a economia possui vários níveis de organização e interação que estão inter-relacionados); (4) adaptação contínua (comportamentos, ações, estratégias e produtos são continuamente revisados à medida que os agentes acumulam experiência); (5) novidade perpétua (novos nichos são continuamente criados através de novos mercados, comportamentos, tecnologias e instituições); (6) dinâmica fora do equilíbrio (devido à novidade perpétua, a economia sempre fica longe de qualquer ótimo global).

A distinção entre a abordagem da complexidade e a economia ortodoxa pode, portanto, ser resumida da seguinte maneira:

A CA [Complexity Approach] em economia […] modela mercados como sistemas adaptativos nos quais, ao longo do tempo (não estaticamente), padrões de coordenação (não necessariamente equilíbrio) emergem (não é assumido) mostrando adaptação contínua à mudança (não otimização). Esses padrões são obtidos por interação descentralizada (não coordenada por um leiloeiro walrasiano) entre agentes heterogêneos (não por agentes representativos), com conhecimento parcial (não perfeito), resultando um processo de aprendizagem do qual surgem frequentemente resultados imprevistos ou novidades. Além disso, os agentes atuam de acordo com um conjunto de regras (ao invés de maximização de funções conhecidas) (BARBIERI, 2013, p. 49).

Um famoso precursor dessa abordagem é o modelo de Schelling (1971)[3] do surgimento da segregação racial. Neste modelo, uma cidade é representada por um retângulo xadrez. Cada agente residente em um quadrado, pertence a um dos dois grupos (brancos ou negros) e toma decisões sobre onde morar com base nas interações locais. A conclusão deste modelo é que mesmo um baixo nível de discriminação racial (ou seja, agentes que possuem uma leve preferência por morar em bairros compostos por outros agentes da mesma cor) pode levar a uma cidade com um alto nível de segregação espacial (MILLER e PAGE, 2007, p. 143-4). É importante enfatizar que este modelo exibe uma estrutura global que emerge de interações estritamente locais (ROSSER, 1999, p. 177).

1.2. Complexidade de Hayek

Se a economia da complexidade realmente assume a importância que algumas pessoas afirmam que terá, a historiografia do pensamento econômico também mudará. Colander (2009) fornece um exemplo de uma história do pensamento econômico que destaca as contribuições de diferentes economistas de várias escolas de pensamento a partir da perspectiva da visão de complexidade da economia. A Tabela 1 resume seu julgamento sobre como o trabalho de alguns importantes economistas seria reavaliado por essa nova perspectiva. Segundo ele, Smith, Mill, Marx, Marshall e Hayek seriam mais valorizados em uma história complexa do pensamento econômico, Ricardo e Walras seriam menos valorizados, e Malthus e Keynes seriam tão valorizados quanto atualmente.

Tabela 1 – Visão geral da mudança dos economistas no ranking [reproduzido de Colander (2009, p. 420)]

Em parte, o presente trabalho pode ser considerado como uma contribuição para essa nova perspectiva sobre a historiografia do pensamento econômico. No entanto, em um sentido importante, escrever sobre “Hayek e complexidade” é um empreendimento diferente de escrever sobre “Smith e complexidade” ou “Marx e complexidade”. Hayek, em contraste com todos os outros economistas da tabela de Colander, viveu para ver o nascimento e desenvolvimento da teoria da complexidade como a conhecemos hoje; Seu último livro, The Fatal Conceit, foi publicado em 1988 e ele só faleceu em 1992.[4] Quando escrevemos sobre Hayek e a complexidade, não podemos simplesmente interpretar e avaliar suas ideias retrospectivamente à luz da teoria da complexidade contemporânea. Deve-se reconhecer não só que Hayek leu atentamente a literatura inicial sobre complexidade, mas também que essas leituras influenciaram o desenvolvimento de suas próprias ideias sobre complexidade.

O presente trabalho, portanto, não é tanto sobre como fazer uma interpretação complexa de Hayek quanto é sobre entender a própria concepção de complexidade de Hayek. Seria um erro dar por certo o ponto de vista dos desenvolvimentos modernos como a última palavra sobre complexidade e depois julgar os escritos de Hayek com base no que antecipou ou deixou de antecipar. Naturalmente, Hayek de fato “antecipou” muitos tópicos discutidos pelos teóricos da complexidade moderna. Mas também desenvolveu, ou pelo menos esboçou, sua própria teoria de fenômenos complexos, como o título de seu artigo de 1967 indica. O objetivo deste trabalho é tornar a teoria da complexidade de Hayek inteligível em termos da evolução de sua carreira intelectual.

2. O desenvolvimento das ideias de Hayek sobre a complexidade

Neste capítulo, faremos uma reconstrução do desenvolvimento das visões de Hayek sobre complexidade. Arbitrariamente dividi sua carreira em três etapas, de acordo com o tipo de tópicos complexos que ele estava enfatizando durante cada período. Em primeiro lugar, em seus trabalhos sobre a natureza do conhecimento e competição do final da década de 1930 até a década de 1940, Hayek implicitamente mostrou uma visão complexa da economia enfatizando questões como auto-organização, heterogeneidade de agentes, dinâmica fora de equilíbrio, constante adaptação e o surgimento da novidade. Em segundo lugar, nas décadas de 1950 e 1960, Hayek desenvolveu explicitamente um conceito de complexidade e uma metodologia para fenômenos complexos. Finalmente, a partir do final dos anos 1960, Hayek trabalhou extensivamente sobre as ideias gêmeas de evolução e ordem espontânea, que considerou as principais ferramentas conceituais para lidar adequadamente com fenômenos complexos.

Intencionalmente, não abordaremos neste capítulo um trabalho central no desenvolvimento da concepção de complexidade de Hayek: seu livro sobre psicologia teórica, The Sensory Order (1952). Como este trabalho desempenha um papel central no uso que Hayek faz das ideias da cibernética e da teoria geral do sistema, discutiremos isso apenas no capítulo 3, onde as ideias desses precursores da complexidade moderna e sua influência em Hayek são exploradas.

2.1. Conhecimento e concorrência

A reflexão sobre a natureza do conhecimento possuído pelos agentes e o modo como esse conhecimento é transmitido e utilizado é um tema recorrente no trabalho de Hayek. O artigo-chave que marca o início da discussão explícita de Hayek sobre essa questão é certamente Economics and Knowledge (1937). Autores que detêm as mais diversas visões sobre o significado deste artigo na carreira de Hayek, como Hutchison (1981), Caldwell (1988) e Birner (1994), enfatizam a relevância desse trabalho.[5] Encontramos neste artigo seminal a formulação dos programas de pesquisa que ocupariam Hayek nas décadas seguintes e que o levariam a buscar respostas fora da economia strictu sensu. Como ele diz:

Apesar de ter sido um teórico econômico muito puro e restrito, fui conduzido da economia técnica a todos os tipos de questões geralmente consideradas filosóficas. Quando olho para trás, parece que tudo começou, há quase trinta anos, com um ensaio sobre Economics and Knowledge, no qual examinei o que me pareceu algumas das dificuldades centrais da teoria econômica pura. Sua principal conclusão era que a tarefa da teoria econômica era explicar como uma ordem geral de atividade econômica era alcançada, a qual utilizava uma grande quantidade de conhecimento que não estava concentrado em nenhuma mente, mas existia apenas como o conhecimento separado de milhares ou milhões de diferentes indivíduos. Mas ainda estava muito longe disso para uma visão adequada das relações entre a ordem geral abstrata que é formada como resultado de sua resposta, dentro dos limites impostos a ela por aquelas regras abstratas, às circunstâncias particulares concretas que ela encontra. Foi apenas através de um reexame do antigo conceito de liberdade sob a lei, a concepção básica do liberalismo tradicional, e dos problemas da filosofia da lei que isso levanta, que alcancei o que agora parece ser uma imagem toleravelmente clara da natureza da ordem espontânea da qual os economistas liberais têm falado tanto tempo (HAYEK, [1965] 2014, p. 49-50).

Neste artigo, encontramos uma reflexão sobre o significado do conceito de equilíbrio. Além disso, Hayek discute o escopo apropriado da análise de equilíbrio diante do fato de que o conhecimento dos agentes econômicos tem um caráter subjetivo.

Segundo Hayek, a ideia de equilíbrio é utilizada em dois contextos diferentes: na análise das ações de um indivíduo e na análise da interação entre as ações de diferentes indivíduos na sociedade. No contexto da análise do indivíduo, o equilíbrio tem um significado claro. As ações de um indivíduo estão em equilíbrio entre si, se puderem ser consideradas parte do mesmo plano. O indivíduo, baseado em uma avaliação subjetiva das circunstâncias, articula racionalmente suas ações, formando um plano para atingir seus propósitos[6] (HAYEK, [1937] 2014, p. 60).

No contexto do indivíduo, o equilíbrio tem um caráter inteiramente subjetivo. As circunstâncias ou dados nos quais se baseia a formulação do plano não são fatos objetivos, mas percepções ou crenças subjetivas que o indivíduo forma sobre eles. Porque o equilíbrio do indivíduo é descrito em termos de dados subjetivos, tal equilíbrio não depende da correspondência entre percepções subjetivas e fatos objetivos. Como Caldwell corretamente aponta:

O consumidor austríaco não tem conhecimento objetivamente dado; tudo o que tem são suas próprias percepções subjetivas. Ele está em equilíbrio a qualquer momento, dadas essas percepções, mas as percepções podem estar erradas. O erro é possível no caso austríaco (CALDWELL, 1988, p. 527-8).

Em outras palavras, o equilíbrio do indivíduo requer apenas a consistência interna do plano dentro da mente do agente. Não importa quão irreais e fantasiosas sejam as crenças que fundamentam o plano, elas não impedem o equilíbrio nesse sentido. O agente que baseou seu plano na expectativa de montar num unicórnio atravessando um arco-íris está tão em equilíbrio quanto aquele que corretamente antecipa todas as condições para a realização de seu plano.

A percepção correta das circunstâncias, no entanto, torna-se relevante quando o indivíduo começa a colocar em prática seu plano. Se as circunstâncias reais se revelarem muito diferentes daquelas esperadas pelo agente no momento da formulação do plano, o plano poderá ser revisado. Nesse sentido, Hayek distingue dois tipos de circunstâncias: os eventos externos e os planos de outros agentes (HAYEK, [1937] 2014, p. 61).

Soromenho (1994, p. 25-7) interpreta o conceito hayekiano de eventos externos como sendo similar ao conceito do estado de natureza na teoria neoclássica, fazendo a ressalva de que Hayek não é consistente no uso do termo. Um homem isolado (ou um homem cujo plano é independente das ações de outros indivíduos) pode ter a execução de seu plano frustrada se o plano for baseado em antecipações significativamente incorretas de dados externos.

Quando passamos da análise do indivíduo para a análise da sociedade (ou seja, quando pessoas diferentes formulam seus planos simultaneamente e independentemente), dois novos problemas aparecem. Primeiro, os planos podem ser baseados em expectativas conflitantes de dados externos e, portanto, não há um conjunto de eventos externos que permitam a execução de todos os planos (HAYEK, [1937] 2014, p. 61). Se, na mesma região e data, um agricultor antecipar um dia chuvoso e o outro antecipar um ensolarado, fica claro que ambos os planos não podem ser realizados simultaneamente[7] (SOROMENHO, 1994, p. 26). O segundo problema é a possibilidade de os planos de diferentes agentes serem incompatíveis por si próprios, independentemente dos dados externos. Por exemplo, uma empresa pode superestimar a demanda por seu produto, frustrando sua projeção de lucro.

Portanto, duas condições devem ser atendidas para que exista compatibilidade com o plano: (i) cada plano deve basear-se no conhecimento correto sobre a ação planejada de outros indivíduos da qual o plano depende e (ii) todos os planos são baseados nas mesmas expectativas em relação aos dados externos. Hayek então define o estado de equilíbrio como a situação na qual os planos dos indivíduos são mutuamente compatíveis:

Para uma sociedade, então, podemos falar de um estado de equilíbrio em um ponto do tempo, mas isso significa apenas que os diferentes planos que os indivíduos compõem são para a ação no tempo mutuamente compatíveis. E o equilíbrio continuará, uma vez que exista, desde que os dados externos correspondam às expectativas comuns de todos os membros da sociedade (HAYEK, 1937 [2014], p. 64).

A sociedade está em equilíbrio em um dado instante, quando esses planos são mutuamente compatíveis e, consequentemente, é possível conceber um conjunto de eventos externos que permitam a execução desses planos sem desiludir as expectativas. Se não houver tal compatibilidade, pelo menos alguns planos devem ser revisados: perturbações endógenas são inevitáveis (HAYEK, [1937] 2014, p. 63-4). Segundo Hayek, a única justificativa para a preocupação com os estados de equilíbrio é a suposição de que há uma tendência ao equilíbrio. O que ele chama de “teoria tradicional do equilíbrio”, no entanto, não lida com essa questão de maneira válida. De acordo com esta teoria, a suposição requerida para a obtenção do equilíbrio é a do “conhecimento perfeito”, ou seja, que todos os indivíduos conheçam igualmente todos os “dados” da economia. Hayek levanta duas objeções para esta proposição.

Em primeiro lugar, ao postular o conhecimento perfeito, incorremos em uma confusão a respeito do significado da palavra “dados”, que pode denotar: (i) os dados no sentido subjetivo, possuídos por agentes da economia e (ii) os dados no sentido de fatos objetivos, supostamente conhecidos pelo economista observador. No contexto do equilíbrio do indivíduo, o significado da palavra dados é claramente subjetivo: o agente está em equilíbrio com relação aos fatos dentro de sua mente. No entanto, no contexto social, como visto anteriormente, o equilíbrio é definido em termos da relação entre os dados subjetivos de diferentes indivíduos e os fatos objetivos, e essa relação é obscurecida pela suposição de conhecimento perfeito (HAYEK, [1937] 2014, p 68).

A segunda objeção que Hayek levanta contra a ideia de que o conhecimento perfeito é uma suposição requerida para alcançar o equilíbrio é que tal proposição envolve um raciocínio circular. O conceito de equilíbrio é definido em termos da previsão dos agentes: como visto, a compatibilidade do plano existe quando os agentes predizem corretamente as ações de outros dos quais seus planos dependem. Em essência, portanto, o que esses teóricos estavam dizendo é que a pré-condição para a obtenção do equilíbrio é a existência de equilíbrio.

Um caminho não-tautológico para afirmar uma tendência ao equilíbrio, por outro lado, seria o seguinte:

[…] Sob certas condições, o conhecimento e as intenções dos diferentes membros da sociedade devem convergir cada vez mais ou, para colocar a mesma coisa em termos menos gerais e menos exatos, mas mais concretos, que as expectativas das pessoas e, particularmente, dos empreendedores se tornará cada vez mais correto (HAYEK, [1937] 2014, p. 68).

Note-se que esta tendência ao equilíbrio postulado por Hayek tem uma natureza diferente em comparação com a obtida através da ação de um leiloeiro walrasiano hipotético. No mundo do leiloeiro walrasiano, os agentes formulam planos contingentes aos preços e o leiloeiro procura um vetor de preços que reconcilie todos esses planos. Transações fora de equilíbrio (sob preços ‘falsos’) são proibidas. Os planos são executados somente após as condições para sua compatibilidade serem estabelecidas. Os agentes não aprendem nem cometem erros: não há revisão de planos.

Em contrapartida, no mundo hayekiano, a tendência ao equilíbrio seria alcançada por meio da constante revisão dos planos de agentes que operam fora do equilíbrio. Os agentes revisam seus planos porque adquirem novos conhecimentos, seja acidentalmente ou como uma consequência necessária da frustração de seus planos inicialmente incompatíveis. O equilíbrio relevante para Hayek não é aquele que poderia ser obtido instantaneamente por um leiloeiro fictício antes que os agentes interajam, mas um que emerge da própria interação dos indivíduos em desequilíbrio e depende do conhecimento que os indivíduos adquirem nesse processo.

Em Economics and Knowledge, Hayek critica a teoria do equilíbrio de seu tempo, explicitando alguns elementos da complexa visão dos fenômenos sociais que desenvolveria mais tarde. Segundo Hayek, os economistas deveriam investigar a dinâmica da tendência ao equilíbrio, que é, por definição, um processo fora do equilíbrio. Essa tendência ao equilíbrio envolve um problema de coordenação: como os agentes, que são heterogêneos em seu conhecimento, podem espontaneamente formar uma ordem global. Ou, como Hayek coloca:

Como pode a combinação de fragmentos de conhecimento existentes em diferentes mentes produzir resultados que, se fossem propositadamente executados, exigiriam um conhecimento por parte da mente que nenhuma pessoa sozinha pode possuir? (HAYEK, [1937] 2014, p. 76)

Em um artigo posterior, The Use of Knowledge in Society (1945), Hayek continua a explorar o problema de coordenação em conexão com o campo econômico. Na visão de Hayek, o problema econômico é erroneamente caracterizado quando se declara como distribuir os recursos dados a determinados fins, porque os fatos da sociedade nunca são dados a uma única mente, mas são inevitavelmente dispersos (HAYEK, [1945] 2014, p. 93-4)

Hayek distingue dois tipos de conhecimento: o conhecimento científico e o conhecimento de circunstâncias particulares de tempo e lugar. Enquanto o conhecimento científico lida com leis gerais, o segundo tipo de conhecimento refere-se a indivíduos particulares, condições locais e circunstâncias específicas.

Profissionais como o agente imobiliário (que ganha a vida explorando oportunidades temporárias) e o especulador (que lucra com os diferenciais locais de preço) baseiam-se quase inteiramente na posse de conhecimento privilegiado de circunstâncias particulares de tempo e lugar. Isso, no entanto, não é uma característica única dessas profissões. Praticamente todos os indivíduos têm, em maior ou menor grau, informações únicas que podem ser usadas beneficamente, se lhes for dado poder decisório (HAYEK, [1945] 2014, p. 95).

Não é exagero supor que o conhecimento científico de uma sociedade poderia ser largamente concentrado em um comitê de especialistas selecionados.[8] Quanto ao conhecimento das circunstâncias particulares, entretanto, o oposto seria verdadeiro.[9] Mesmo que esse conhecimento pudesse ser explicitado em sua totalidade, seria perdido na medida em que sua sumarização nas estatísticas fosse tentada. Isso ocorreria porque desconsiderar pequenas diferenças entre os elementos que compõem uma classe é parte da natureza da estatística. No entanto, tratando-se de recursos homogêneos que diferem (mesmo que ligeiramente) em sua localidade, qualidade, etc., perdemos características que podem ser de grande relevância para inúmeras decisões específicas (HAYEK, [1945] 2014, p. 98-9).

Hayek considera o conhecimento das circunstâncias particulares de tempo e lugar como sendo de importância fundamental para o problema da construção de uma ordem econômica racional. A solução para este problema, portanto, deve levar em conta que esse tipo de conhecimento não existe de forma concentrada e integrada, mas existe apenas como fragmentos dispersos de conhecimento incompleto e frequentemente contraditório que diversos indivíduos possuem (HAYEK, [1945] 2014), p. 93-4).

O problema econômico da sociedade é, portanto, mais precisamente descrito como a necessidade de se adaptar rapidamente às mudanças nas circunstâncias particulares do tempo e do lugar. Para Hayek, parece natural que a solução para esse problema deva envolver a descentralização do poder decisório para as pessoas que têm contato direto com essas circunstâncias. Mas isso não é suficiente, porque esse conhecimento disperso deve ser de alguma forma comunicado aos outros indivíduos, para que haja coordenação entre suas ações (HAYEK, [1945] 2014, p. 98-9).

O problema da coordenação das ações descentralizadas dos vários agentes não é trivial. Quase tudo o que acontece no planeta afeta a decisão que um indivíduo deve tomar para melhor se adaptar às novas circunstâncias. Se os agentes precisassem conhecer todos esses eventos específicos para coordenar suas ações, a descentralização seria tão impossível quanto a centralização. Logicamente, as mesmas razões que advogam contra a possibilidade de concentração de todo o conhecimento da sociedade em uma única mente também tornam impossível que vários indivíduos possuam tal conhecimento em sua totalidade.

Hayek argumenta, no entanto, que a coordenação não requer muito conhecimento. Tudo o que um agente precisa saber para coordenar suas ações é a relativa escassez dos bens particulares que lhe interessam (porque ele os consome e/ou os produz, porque são substitutos dos bens que consome e/ou produz, etc.). A comunicação desse conhecimento relevante seria feita através do sistema de preços, que funcionaria como um economizador de conhecimento, reduzindo o quanto cada indivíduo precisa saber diretamente para tomar decisões corretas[10] (HAYEK, [1945] 2014, p. 99). -101).

Suponha que alguém descubra um novo uso valioso para o estanho e atraia uma certa quantia desse recurso que foi usado anteriormente para outros fins. Ao fazê-lo, ele causa um aumento no preço do estanho. Agora os consumidores de estanho sabem que devem economizar recursos e produtores sabem que seu negócio se tornou mais lucrativo, potencialmente permitindo uma produção maior. Nesse processo, também são afetados os usos de substitutos de estanho, de substitutos de seus substitutos e assim por diante. Tudo isso acontece sem a grande maioria desses agentes, cujas ações promovem a adaptação do sistema às novas condições, tendo que saber qual a causa inicial dessas mudanças (HAYEK, [1945] 2014, p. 99-100).

Neste exemplo, vemos a coordenação emergir não porque um agente concentra todo o conhecimento da sociedade, mas porque o conhecimento limitado dos diferentes agentes se sobrepõe, permitindo assim que a informação relevante seja comunicada a todos através de uma série de intermediários (HAYEK, 1945 ] 2014, p. 100). Dessa maneira espontânea, obtém-se um ajuste que só poderia ser deliberadamente alcançado por uma mente que possua todo o conhecimento disperso entre os agentes envolvidos no processo.

Em The Use of Knowledge in Society, Hayek continuou a discutir o problema do surgimento espontâneo da ordem através da interação de agentes com conhecimento heterogêneo. Neste artigo, qualifica que o tipo de conhecimento que considera mais relevante nesse processo é o conhecimento das circunstâncias particulares de tempo e lugar. Em sua caracterização da aquisição, uso e transmissão desse conhecimento, Hayek enfatiza a importância das interações locais de agentes entre si e com o meio ambiente. Além disso, descreve o problema econômico como consistindo não em otimização, mas na constante necessidade de se adaptar rapidamente às mudanças. Finalmente, menciona que o sistema de preços é apenas uma das formações humanas que facilitam a coordenação, apontando para a relevância das instituições sociais.

Em The Meaning of Competition (1948), Hayek critica a concepção estática de competição subjacente aos modelos neoclássicos de competição. Em sua opinião, a teoria da competição perfeita[11] supõe existir como ponto de partida um estado de coisas que só poderia ser fornecido (ou aproximado) por um processo competitivo. Em sua interpretação, tal teoria discute os resultados finais da competição e não a própria competição.[12] Em particular, a suposição subjacente de conhecimento perfeito é criticada por impedir a análise do processo pelo qual os agentes obtêm o conhecimento dos fatos relevantes da economia. (HAYEK, 1948 [2014], p. 105-7).

Como os produtores descobrem (i) novos produtos, (ii) formas de produção menos dispendiosas e (iii) qual será a demanda por seus produtos a cada preço? Como os consumidores (i) tomam conhecimento da existência de produtos (especialmente os novos) e (ii) formam e modificam suas preferências à medida que seu conhecimento evolui? Estas são algumas das questões que surgem quando os pressupostos da racionalidade e conhecimento perfeitos são abandonados.

Hayek acha que as respostas para essas questões só poderiam ser encontradas na análise do processo competitivo. Torna-se evidente, portanto, que tais teorias se distinguem crucialmente pela ideia subjacente de racionalidade. No mundo neoclássico, as empresas sabem como maximizar seus lucros, dadas as condições do mercado. No mundo hayekiano, nada é dado a priori; “dados” devem ser descobertos pouco a pouco, em um processo muito mais de experimentação e adaptação do que de otimização. No primeiro caso, temos uma racionalidade perfeita; na segunda racionalidade limitada.

Segundo Hayek, a concepção de competição como estado adotada pela teoria neoclássica exclui tudo o que é descrito pela palavra “competir” e tudo o que é considerado competição pelo senso comum. Propaganda, promoção, melhoria (“diferenciação”[13]) de bens e serviços são excluídos por definição. Concorrência perfeita significa, na verdade, ausência total de atividade competitiva (HAYEK, [1948] 2014, p. 109).

A eficácia da concorrência não deve ser avaliada de acordo com sua capacidade de fabricar bens vendidos a custos marginais dados, porque nem uma coisa nem outra são dadas a priori. Quais variedades de mercadorias existem e a que custos serão produzidas são fatos que só serão determinados durante o processo competitivo e que dependem crucialmente do contexto institucional em que a concorrência opera. Se descartamos a hipótese de que o conhecimento dos agentes é perfeito e homogêneo, a questão de quais instituições permitem o melhor uso do conhecimento disperso na sociedade torna-se central, pois esse conhecimento determinará, entre outras coisas, quais serão os tipos de bens vendidos e os custos de produção. A livre competição[14] é assim defendida por Hayek como o arranjo institucional que torna mais provável que pessoas desconhecidas com conhecimento especialmente adequado para uma tarefa específica seja atraído para essa tarefa (HAYEK, [1948] 2014, p. 107-8).

Por exemplo, uma pessoa que tenha conhecimento de como reduzir o custo de produção de um bem em 50% forneceria um ótimo serviço para a sociedade ao entrar no mercado, mesmo que reduza o preço em apenas 25%.[15] Para Hayek, no entanto, é somente através da concorrência que podemos supor que essa redução de custos ocorrerá (HAYEK, [1948] 2014, p. 112). O fato de os preços diferirem dos custos marginais é, segundo Hayek, um problema muito menos sério do que o fato de que, com um monopólio garantido via barreiras legais, os custos tendem a ser muito maiores do que o necessário (HAYEK, [1948] 2014). p. 115).

No artigo The Meaning of Competition, Hayek explora um aspecto fundamental do processo dinâmico de coordenação: a concorrência. Entendido por ele como um processo fora de equilíbrio por definição, a competição tem dois aspectos fundamentais. A competição é, por um lado, uma força de equilíbrio que permite uma tendência aos resultados da “competição perfeita”. Por outro lado, a concorrência é um processo que permite a introdução de novidades na economia: novas tecnologias, novos produtos, etc. Em resumo, para Hayek, a concorrência é uma força responsável tanto pela origem quanto pela transformação da ordem econômica. Finalmente, o funcionamento adequado de ambos os aspectos da concorrência depende do contexto institucional em que opera. Hayek defende a livre concorrência como o arranjo institucional que melhor favorece a introdução da novidade, pois permite o maior uso do conhecimento disperso na sociedade.[16]

Vimos nesta seção que Hayek, em seus trabalhos sobre conhecimento e competição do final dos anos 1930 aos 1940, exibe uma visão complexa da economia enfatizando questões como auto-organização, heterogeneidade de agentes, dinâmica fora de equilíbrio, adaptação constante e o surgimento da novidade. A partir de meados dos anos 1950, entretanto, Hayek começa a abordar explicitamente a questão da complexidade, ligando a economia a outras disciplinas que estudam fenômenos que ele considerava essencialmente complexos.

Como veremos em detalhes no capítulo 3, uma parte relevante dessa transição é explicada pelo contato que Hayek teve com a cibernética e a teoria geral do sistema desde o final da década de 1940, quando inicia a pesquisa que resultaria em seu livro The Sensory Order (1952). Outra influência importante na concepção de complexidade de Hayek foi o trabalho do matemático americano Warren Weaver. A inspiração que Hayek teve em Weaver é bastante clara nos artigos sobre metodologia de Hayek desde meados dos anos 1950, aos quais iremos agora voltar nossa atenção.

2.2. Metodologia de fenômenos complexos

Na seção anterior, vimos que Hayek argumentou que o conhecimento do economista deve ser distinguido do conhecimento subjetivamente possuído pelos agentes da economia. Este segundo tipo de conhecimento está necessariamente disperso entre os vários indivíduos da sociedade e não pode ser concentrado por ninguém e, em particular, não pode ser conhecido em sua totalidade nem pelo economista, nem por um planejador central. Um dos problemas fundamentais da teoria econômica é investigar o processo pelo qual agentes com conhecimento heterogêneo, limitado e contraditório podem coordenar suas ações entre si, ou seja, explicar como uma tendência ao equilíbrio pode ser obtida a partir da dinâmica do desequilíbrio.

A atividade competitiva é um elemento crucial da dinâmica fora do equilíbrio. No entanto, modelos que concebem competição como um estado de equilíbrio estão limitados à análise dos resultados finais hipotéticos da competição. Ao assumir que o conhecimento é dado objetivamente aos agentes e ao economista, esses modelos de equilíbrio são incapazes de elucidar a natureza e a importância do processo competitivo. A competição é um processo fora de equilíbrio, cuja importância está precisamente no fato de que o conhecimento que irá guiar as ações dos competidores não é dado a priori a ninguém, mas é apenas descoberto por eles durante todo o processo competitivo.

Todos os artigos de Hayek discutidos na seção anterior têm em comum o reconhecimento dos limites do conhecimento humano, que também têm implicações em relação ao que o analista pode saber. Se é verdade que o economista é necessariamente ignorante de muitos fatos importantes para determinar a ordem econômica, que tipo de conhecimento científico (se existe) pode ser produzido nesse assunto? A economia e as ciências sociais em geral são especiais a este respeito, ou parte das ciências naturais também sofrem com esse problema de limitação do conhecimento? Hayek tenta fornecer respostas para essas questões em seus trabalhos sobre a metodologia de fenômenos complexos nos anos 1950 e 1960.[17]

Hayek começa sua discussão expressando concordância com Karl Popper em relação a alguns dos pontos-chave da visão da ciência como um sistema hipotético-dedutivo. As ciências teóricas são essencialmente dedutivas. Não pode haver uma “lógica indutiva” que conduz necessariamente dos fatos observados às regras gerais. As conclusões das teorias científicas são de natureza negativa: elas proíbem certos tipos de eventos e, portanto, não podem ser “verificadas”, mas apenas refutadas. (HAYEK, [1955] 2014, p. 196-7).

Hayek, no entanto, discorda da caracterização estreita do que constitui uma previsão científica comumente derivada dessa visão. Define “previsão científica” como o uso de regras ou leis para derivar proposições sobre o que acontecerá a partir de proposições sobre quais são as condições existentes. Similarmente, uma “explicação científica” é definida como o uso das mesmas regras para derivar proposições sobre as condições precedentes de proposições sobre os fatos que ocorreram. A forma mais simples de uma previsão é dada pela proposição “se x, depois y”, combinada com a afirmação de que x é satisfeito em um determinado tempo e lugar. O que geralmente não é explícito nesse tipo de discussão, de acordo com Hayek, é quão específicas devem ser as descrições de x e y para que tal declaração seja chamada de previsão. Naturalmente, esse problema não é relevante quando podemos especificar todos os aspectos do problema com qualquer grau de precisão necessário.

Mas quando um problema envolve muitas variáveis interdependentes, e apenas algumas delas podem ser observadas individualmente na prática, estaríamos em uma situação diferente. Nesses casos, se já conhecêssemos as leis e os valores relevantes das variáveis do sistema, poderíamos prever em detalhes o estado futuro do sistema. Mas isso pode não ser viável porque: (i) essas variáveis são numerosas, (ii) infinitas maneiras pelas quais essas variáveis interagem são concebíveis e (iii) algumas dessas variáveis podem não ser observáveis.

Alguns caracterizariam tais situações como estando além do que o método científico pode manipular dado o estado existente da técnica de observação. Para Hayek, essa é uma afirmação problemática porque não há razão para supor que um dia seremos capazes de especificar os detalhes de certos fenômenos complexos com a precisão necessária para escapar dos problemas (i), (ii) e (iii). Além disso, a mera ausência dessas “condições ideais” de exploração científica não elimina a possibilidade de adquirirmos conhecimento valioso, ainda que limitado, sobre esses fenômenos.

Teorias em si definem tipos ou classes de padrões. A configuração particular de um padrão descrito por uma teoria, no entanto, também depende das circunstâncias particulares dadas pelas condições iniciais do sistema. Para Hayek, a descrição de um padrão abstrato por uma teoria tem valor em si, mesmo que não possamos especificar todos os dados com a precisão necessária para fazer uma previsão de eventos específicos. Segundo ele, a previsão de que, sob certas condições, um padrão de uma determinada classe se manifestará é também uma previsão relevante e falsificável.

Devemos, portanto, distinguir entre dois tipos de previsões científicas empíricas: previsões específicas, que se referem à aparência de um padrão particular de uma determinada classe, e previsões de padrões, que se referem à aparência de qualquer padrão que pertence a uma determinada classe (HAYEK [1964] 2014, p. 259-60). Da mesma forma, devemos comparar as explicações dos detalhes, que buscam especificar condições particulares que antecedem os fatos observados, e explicações do princípio, que apenas expressam as condições gerais para a ocorrência desses fatos.

Para Hayek, alguns exemplos de campos científicos que fazem uso de previsões de padrões e explicações do princípio são as novas áreas da cibernética, teoria dos autômatos celulares, teoria da comunicação e teoria geral do sistema. Entre os campos de pesquisa mais estabelecidos, a teoria da evolução é o melhor exemplo de uma teoria que fornece apenas explicações do princípio. Esta teoria não pretende fazer previsões específicas de eventos particulares, nem é baseada em hipóteses no sentido de que procuramos falsificá-las através da observação. O que se procura neste contexto é testar se a combinação particular de suposições é apropriada para organizar os fatos em uma ordem significativa (HAYEK, [1955] 2014, p. 203-4).

Finalmente, de acordo com Hayek, a teoria walrasiana do equilíbrio geral deve ser reinterpretada como sendo limitada a predições de padrões e explicações do princípio, porque não podemos determinar os valores de todas as variáveis que determinam a manifestação particular de equilíbrio. Se soubéssemos todas as preferências, tecnologias e outros dados econômicos, poderíamos calcular os preços e as quantidades de todos os bens, mas este nunca é o caso, como um dos fundadores desta teoria tinha reconhecido, afirmando que o objetivo não era chegar ao cálculo numérico dos preços, porque seria absurdo supor que pudéssemos reunir todos os dados necessários (PARETO, 1927, p.223-4 apud HAYEK, [1964] 2014, p. 270-1).

De acordo com Hayek, quando lidamos com padrões com alto grau de complexidade, só podemos fazer previsões de padrões e explicações do princípio. Mas como medimos a complexidade de um padrão? Como o próprio Hayek reconhece em várias ocasiões,[18] o modo como ele define a complexidade foi consideravelmente influenciado pela discussão da evolução da ciência feita por Warren Weaver em seu artigo Science and Complexity (1948). Assim, uma breve discussão deste artigo e, em particular, de seu conceito de “complexidade organizada”, nos ajuda a entender a definição de complexidade de Hayek.

De acordo com Weaver, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, os físicos aprenderam a trabalhar apenas com problemas de simplicidade, ou seja, problemas envolvendo a análise de apenas duas (ou apenas algumas) variáveis. Quando uma variável pode ser descrita com alta precisão, levando-se em conta apenas como ela depende de uma segunda variável (e ignorando efeitos secundários de outros fatores), podemos construir teorias e experimentos fáceis de manipular e que impõem baixos requisitos computacionais. (WEAVER, 1948, p. 536-7).

Então, principalmente desde o século XX, os cientistas desenvolveram técnicas relacionadas à teoria das probabilidades que nos permitem lidar com o outro extremo do espectro do número de variáveis. Nestes problemas de complexidade desorganizada temos um grande número de variáveis possuindo um comportamento individualmente errático (ou aleatório), mas cujo sistema como um todo tem regularidades analisáveis através de métodos estatísticos. A mecânica estatística, a termodinâmica, as leis da herança genética e a ciência atuarial são exemplos de campos que lidam com esse tipo de problema (WEAVER, 1948, p. 537-8).

A análise e previsão do movimento de uma bola em uma mesa de sinuca seria, segundo Weaver, um exemplo de um problema simples que pode ser tratado pela mecânica clássica. Com maior dificuldade, podemos analisar o movimento de duas ou três bolas usando as mesmas ferramentas clássicas. Mas se aumentarmos a quantidade de bolas para mais de dez, o problema torna-se incontrolável, não porque existem dificuldades teóricas, mas porque o trabalho necessário para lidar detalhadamente com tantas variáveis é esmagador.

Suponha, por outro lado, que tenhamos milhões de bolas em uma imensa mesa de sinuca se movendo e colidindo umas com as outras e com as paredes da mesa. Isso seria, segundo Weaver, um exemplo de um problema de complexidade desorganizada. De certo modo, o problema é mais simples que o anterior, porque agora os métodos mecânicos estatísticos são aplicáveis. É claro que não podemos traçar a história detalhada de uma bola específica, mas podemos responder com um alto grau de precisão como: em média, quantas bolas atingem uma determinada parede por segundo? Quanto, em média, uma bola se move antes de colidir com outra bola? Em média, quantas colisões por segundo uma bola experimenta? (WEAVER, 1948, p. 537).

O tipo intermediário de problema ainda permaneceria praticamente inexplorado pela ciência. A principal propriedade desse terceiro tipo de problema, no entanto, não é o mero número de variáveis – maiores em comparação com problemas simples e menores em comparação com problemas de complexidade desorganizada – mas o fato de suas variáveis estarem inter-relacionadas em um todo orgânico (isto é, não exibe comportamento aleatório). Como eles têm como característica distinta a característica da organização, Weaver se referiu a esse terceiro tipo como problemas de complexidade organizada. A maioria dos problemas dos campos da biologia, economia e ciências sociais pertenceria a essa categoria (WEAVER, 1958, p. 13-5).

O que faz uma prímula se abrir quando isso acontece? Por que a água salgada não satisfaz a sede? Por que uma determinada linhagem genética de microrganismos pode sintetizar em seu corpo minucioso certos compostos orgânicos que outra cepa do mesmo organismo não consegue fabricar? Por que uma substância química é um veneno quando outra, cujas moléculas têm exatamente os mesmos átomos, mas reunidos em um padrão de imagem espelhada é completamente inofensiva? Por que a quantidade de manganês na dieta afeta o instinto materno de um animal? Qual é a descrição do envelhecimento em termos bioquímicos? Que significado deve ser atribuído à pergunta: um vírus é um organismo vivo? O que é um gene e como a constituição genética original de um organismo vivo se expressa nas características desenvolvidas do adulto? As moléculas de proteínas complexas “sabem” reduplicar seu padrão, e isso é uma pista essencial para o problema da reprodução de criaturas vivas? Todos esses problemas são certamente complexos, mas não são problemas de complexidade desorganizada, aos quais os métodos estatísticos detêm a chave. […] De que depende o preço do trigo? Isso também é um problema de complexidade organizada. Um número muito substancial de variáveis relevantes está envolvido aqui, e elas estão todas inter-relacionadas de uma maneira complicada, mas, mesmo assim, não desorganizada (WEAVER, 1948, p. 539).

Dado que Hayek menciona Weaver como inspiração em sua distinção entre fenômenos simples e complexos, vale a pena fazer uma pequena comparação entre a dicotomia simples/complexa de Hayek e a simplicidade/complexidade organizada/complexidade desorganizada da classificação tripartida de Weaver. Segundo Hayek, o critério apropriado para medir a complexidade é a quantidade mínima de elementos necessários para produzir um padrão da classe sendo analisada:

A distinção entre simplicidade e complexidade levanta consideráveis dificuldades filosóficas quando aplicada a afirmações. Mas parece existir uma maneira bastante fácil e adequada de medir o grau de complexidade de diferentes tipos de padrões abstratos. O número mínimo de elementos dos quais uma instância do padrão deve consistir para exibir todos os atributos característicos da classe de padrões em questão parece fornecer um critério não ambíguo (HAYEK, [1964], 2014, p. 260).

À primeira vista, não é óbvio como o “número mínimo de elementos dos quais uma instância do padrão deve consistir” (o critério de Hayek para medir o grau de complexidade) está ligado à distinção entre complexidades desorganizadas e organizadas. Dada a ênfase de Hayek no número de elementos, pode-se pensar que o conceito de complexidade de Hayek inclui complexidade desorganizada e organizada, uma vez que ambos envolvem muitos elementos. A verdade, porém, é que Hayek vê a complexidade desorganizada como pertencente à categoria de fenômenos simples:

A física moderna, é claro, recorreu às estatísticas para lidar com sistemas de grande número de variáveis, mas isso não me parece estar em conflito com a observação no texto. A técnica estatística é, com efeito, uma maneira de reduzir o número de entidades separadas, ligadas por leis que devem ser declaradas, a comparativamente poucas (ou seja, os coletivos estatísticos) e não uma técnica para lidar com a interação de um grande número de variáveis significativas independentes como indivíduos em uma ordem social. Os problemas de complexidade aos quais a discussão posterior se refere são do tipo que Warren Weaver descreveu como “problemas de complexidade organizada” como distintos daqueles “problemas de complexidade desorganizada” com os quais podemos lidar por técnicas estatísticas (HAYEK, 1955). 2014, p. 195-6).

Em suma, nos problemas de complexidade desorganizada, temos um grande número de elementos, mas o número mínimo de variáveis necessárias para produzi-lo é pequeno: apenas alguns coletivos estatísticos são necessários para isso. Assim, fica claro por que Hayek classifica os problemas de complexidade desorganizada como sendo fenômenos simples: “É, de fato, surpreendente o quão simples nesses termos, isto é, em termos de número de variáveis distintas, aparecem todas as leis da física […] quando examinamos uma coleção de fórmulas que as expressam” (HAYEK, [1964] 2014, p. 261). Esse tipo de fenômeno simples, que podemos descrever satisfatoriamente usando poucas variáveis estatísticas, é contrastado por Hayek com fenômenos complexos, como os sistemas de feedback biológico, que exigem muitas variáveis diferentes em sua explicação (que são distintas, em particular, pela localização ou posição que ocupam na estrutura do todo).

Assim, a grande maioria das leis da física (especialmente as leis da mecânica) seria simples, pois suas fórmulas envolvem uma pequena quantidade mínima de elementos. Por outro lado, a operação de sistemas de realimentação (que são particularmente difundidas em fenômenos biológicos) é complexa porque requer a combinação de estruturas físicas produzindo uma ordem geral com propriedades emergentes não presentes em qualquer parte tomada separadamente. Como ilustrado por este exemplo, a complexidade de padrões assim definida está intimamente ligada ao conceito de emergência. Os próprios padrões são propriedades emergentes porque existem apenas em “todos”, consistindo de uma quantidade mínima de partes.

A “emergência” de “novos” padrões como resultado do aumento do número de elementos entre os quais existem relações simples, significa que esta estrutura maior como um todo possuirá certas características gerais ou abstratas que se repetirão independentemente dos valores particulares dos dados individuais, desde que a estrutura geral (como descrito, por exemplo, por uma equação algébrica) seja preservada. Tais “conjuntos”, definidos em termos de certas propriedades gerais de sua estrutura, constituirão objetos distintos de explicação para uma teoria, mesmo que tal teoria possa ser meramente um modo particular de encaixar declarações sobre a relação entre elementos individuais (HAYEK, [1964] 2014, p. 261-2).

Podemos agora considerar por que Hayek diz que estamos limitados a predições padronizadas no estudo de fenômenos complexos. Quanto mais complexo o fenômeno em estudo, maior a quantidade mínima de elementos necessários para produzir os padrões característicos e mais difícil será a determinação dos dados necessários para realizar previsões específicas. Essa dificuldade em coletar os dados pode consistir em obstáculos práticos intransponíveis que fornecem a tecnologia observacional existente ou em uma impossibilidade teórica absoluta.

A proposição de que existe uma absoluta impossibilidade de afirmação de todos os dados necessários para determinar as manifestações particulares de padrões muito complexos foi proposta por Hayek em seu livro sobre psicologia, The Sensory Order (1952). Neste livro, Hayek (1952, p. 184-90) argumenta que existem limites absolutos para o poder explicativo do cérebro humano. Segundo ele, a essência de uma explicação é a classificação conjunta (ou simultânea) dos vários elementos de um sistema, e um aparato classificador deve necessariamente possuir um grau mais alto de complexidade do que o possuído pelos objetos que classifica. Assim, o cérebro humano não seria capaz de explicar em detalhes seu próprio funcionamento, muito menos a operação de estruturas ainda mais complexas.[19]

Hayek acredita que explicações satisfatórias de fenômenos complexos devem ser baseadas em teorias que podem produzir padrões similares que possuam o mesmo grau de complexidade: “Mas uma teoria simples de fenômenos que são complexos em sua natureza provavelmente é meramente falsa – ao menos sem uma suposição ceteris paribus especificada, após a afirmação completa de que a teoria não seria mais simples” (HAYEK, [1964] 2014, p. 263). A tentativa de simplificar excessivamente a representação de fenômenos complexos levaria a uma suposição ilegítima da constância de variáveis quando não temos razão para acreditar que os fatores em questão são realmente constantes (HAYEK, [1955] 2014, p. 207).

Nesta breve apresentação da metodologia de fenômenos complexos de Hayek, vemos duas peculiaridades se compararmos a discussão aos cânones da metodologia científica. Primeiro, ao postular que fenômenos complexos não podem ser representados por teorias simples, Hayek aparentemente contradiz a ideia de que a simplificação é a essência da explicação científica. Ele certamente não discordaria de que todo modelo é uma representação simplificada da realidade. Ao mesmo tempo, porém, o autor afirma que a complexidade dos fenômenos pode impor limites à simplificação de suas representações.

Se, para produzir padrões complexos de uma determinada classe, precisamos de um dado número mínimo de elementos, então uma teoria que recorre a menos elementos do que esse mínimo não seria capaz de fornecer explicações adequadas para tais padrões. Em particular, Hayek critica a ideia de que o objetivo da ciência teórica é a busca de “leis científicas”, ou seja, regras que conectam dois fenômenos de acordo com o princípio de causa e efeito. Para ele, a demanda por leis neste sentido não é uma característica do empreendimento científico em geral, mas é apenas uma característica especial que é particular para as ciências que estudam fenômenos simples. Nas ciências sociais, por exemplo, Hayek afirma que não existem leis científicas, mas apenas teorias de estruturas sociais (HAYEK, [1964] 2014, p. 265-6).

A segunda peculiaridade da metodologia de Hayek, que está intimamente relacionada com a primeira, é a afirmação de que certas teorias, devido à natureza muito complexa do fenômeno em estudo, devem necessariamente ter menos conteúdo empírico (isto é, deve ser mais difícil falsificar elas). Essa proposição entra em conflito com a metodologia popperiana, que considera a formulação de teorias cada vez mais falsificáveis como uma virtude, na medida em que estabelece limites ao grau de falseabilidade de certas ciências. Hayek reconhece explicitamente que o avanço da ciência deve envolver tanto o aumento do grau de falseabilidade de certas teorias quanto a diminuição da falseabilidade de outras.[20]

O avanço da ciência terá, portanto, de proceder em duas direções diferentes: embora seja certamente desejável tornar nossas teorias tão falsificáveis quanto possível, também precisamos avançar em campos onde, à medida que avançamos, o grau de falseabilidade necessariamente diminui. Este é o preço que temos que pagar por um avanço no campo de fenômenos complexos (HAYEK, [1964] 2014, p. 264).

É claro que o uso de teorias de baixo teor empírico nas ciências que estudam fenômenos complexos não é isenta de problemas. A eliminação das teorias rivais inferiores seria uma atividade lenta e haveria espaço para sérios abusos quando teorias errôneas são defendidas por indivíduos com grande habilidade de persuasão. Embora não haja uma maneira simples de remediar esses problemas, Hayek considera um erro concluir que devemos replicar no estudo de fenômenos complexos os procedimentos menos sujeitos a erros usados nas ciências simples. Se, em alguns campos do conhecimento, o melhor que podemos conseguir são explicações dificilmente falsificáveis do princípio, então a busca por explicações detalhadas é fútil. Aumentar o grau de falseabilidade das teorias além do que a complexidade do fenômeno permite é o mesmo que substituir a possibilidade de erro por sua certeza (HAYEK, [1955] 2014, p. 210-211).

A estatística, que pode ser vista como a melhor maneira de entender fenômenos complexos, é considerada por Hayek “impotente” ao lidar com esse tipo de fenômeno. Por tratar elementos individuais como se não estivessem conectados sistematicamente (isto é, porque supõe que os elementos da amostra são independentes), a estatística elimina a complexidade da representação do padrão. Se a posição relativa de cada elemento na estrutura é crítica para a compreensão do sistema, então devemos concluir que um método que ignora as relações entre esses elementos é inútil. No entanto, o método estatístico teria algum uso quando usamos as estruturas complexas, e não seus componentes, como os elementos.[21] Nesse sentido, informações sobre a frequência de certas propriedades em diferentes linguagens ou sistemas econômicos podem ser cientificamente relevantes (HAYEK, [1964] 2014, p. 265-266).[22]

Novamente, nessa conexão, Hayek se inspirou na discussão de Weaver sobre a complexidade organizada (CALDWELL, 2004). Segundo Weaver, os problemas de complexidade organizada não poderiam ser adequadamente enfrentados pelo uso de técnicas estatísticas, que são aplicadas com sucesso na análise de problemas de complexidade desorganizada. A chave para entender esses fenômenos não estaria na descrição do comportamento médio de seus componentes, mas na elucidação da maneira pela qual esses elementos estão inter-relacionados (ou seja, a maneira pela qual o sistema é organizado como um todo). No exemplo da sinuca, se alguém organizasse as milhões de bolas para que sempre fizessem caminhos paralelos, os métodos estatísticos não se aplicariam: as bolas só colidiriam com dois dos quatro lados da mesa e nenhuma bola colidiria com outra ( WEAVER, 1948, p. 538).

Como apontado por Caldwell, o argumento de Weaver contra o uso de métodos estatísticos dos problemas de complexidade desorganizada para a análise de problemas de complexidade organizada foi naturalmente bem-vindo por um autor como Hayek, um crítico de longa data do uso de agregados como substitutos da descrição das estruturas econômica.

O argumento de Weaver de que os métodos estatísticos eram inadequados para o estudo de fenômenos de “complexidade organizada” forneceu uma base independente para a desconfiança de longa data austríaca dos agregados e das tentativas de fornecer estimativas numéricas para as variáveis em um sistema de equações walrasiano. A partir de agora, Hayek “pega” o uso de métodos matemáticos nas ciências sociais mais ou menos estabilizados. A matemática foi útil para descrever o caráter geral dos padrões que constituem a estrutura complexa dos fenômenos sociais, mas as técnicas estatísticas eram “impotentes” em face da complexidade desse padrão (CALDWELL, 2004, p. 305).

Nesta seção, discutimos a concepção de complexidade que Hayek propôs nos anos 1950 e 1960, e as implicações metodológicas que o autor deriva dela. Durante este período, encontramos referência explícita à noção de complexidade, em contraste com o que vemos em seus trabalhos dos anos 1930 e 1940 anteriormente analisados. Em seus trabalhos metodológicos, Hayek identifica como complexa não apenas a economia e as ciências sociais em geral, mas também parte das ciências naturais, como ilustra alguns desenvolvimentos científicos de ponta da época, como a cibernética, a teoria geral do sistema e a teoria de autômatos celulares. Todas essas teorias, segundo Hayek, estudam problemas de complexidade organizada (nos termos de Weaver) ou simplesmente fenômenos complexos (na terminologia proposta pelo próprio Hayek).

Hayek nos diz, no entanto, que a melhor ilustração de uma teoria de fenômenos complexos é dada pela teoria da evolução. Não foi coincidência que Hayek incorporou gradualmente elementos evolucionários em suas teorias de um tipo de fenômeno complexo que sempre o ocupou: a formação espontânea de ordens sociais. Em suas obras mais maduras, como a trilogia Law, Legislation and Liberty (1973; 1976; 1979) e The Fatal Conceit (1988), a complexa investigação de fenômenos sociais torna-se virtualmente sinônimo da aplicação conjunta das ideias de evolução e ordem espontânea.

2.3. Evolução e ordem espontânea

Ao longo de sua carreira, Hayek repetidamente se refere à importância do que chama de “ideias gêmeas da evolução e ordem espontânea”.[23] Ainda mais interessante para os propósitos deste trabalho, Hayek diz que a evolução e a ordem espontânea são as principais ferramentas para entender os fenômenos complexos que emergem da interação humana (HAYEK, 1988, p. 146). Hayek fala de “ideias gêmeas” porque, na sua opinião, processos evolutivos e a formação de ordens espontâneas estão intimamente conectadas, de modo que não podemos satisfatoriamente entender um sem entender o outro. Vamos, portanto, explorar cuidadosamente os conceitos e seus relacionamentos.

Hayek define o conceito geral de ordem (não necessariamente do tipo espontâneo) como segue:

Por “ordem”, descreveremos todo um estado de coisas no qual uma multiplicidade de elementos de vários tipos estão tão relacionados uns com os outros que podemos aprender de nossa familiaridade com alguma parte espacial ou temporal do todo para formar expectativas corretas em relação ao resto, ou pelo menos expectativas que tenham uma boa chance de se provarem corretas. (HAYEK, [1973] 1998, p. 36).

É interessante notar como essa definição de ordem é semelhante ao conceito de equilíbrio que o próprio Hayek desenvolveu em Economics and Knowledge. Como vimos, no contexto social, Hayek define equilíbrio como compatibilidade entre os planos dos diferentes agentes. Para que tal compatibilidade exista, é necessário que cada indivíduo, que tem apenas uma pequena fração de todo o conhecimento (das circunstâncias particulares de tempo e lugar) da sociedade, forme expectativas corretas em relação às ações planejadas dos outros agentes em qual o seu plano depende.

Portanto, podemos interpretar o conceito de ordem hayekiano como uma generalização do conceito de equilíbrio que desenvolveu décadas antes em dois aspectos. Primeiro, o conceito de ordem pode ser aplicado a campos não econômicos, incluindo as ciências naturais. Em segundo lugar, embora as expectativas devam ser corretas para que o equilíbrio exista, a presença da ordem requer apenas que as expectativas tenham uma “boa chance” de estarem corretas.

Possivelmente porque agora estava lidando com fenômenos além da esfera econômica estrita, Hayek viu a necessidade de usar um conceito mais amplo do que o de equilíbrio que poderia ser útil na análise de outros campos do conhecimento. Além disso, como visto anteriormente, Hayek havia relativizado a importância da análise de equilíbrio na própria economia. Ele vê a dinâmica fora de equilíbrio como central para a validação da própria análise de equilíbrio explorando as condições para uma tendência ao equilíbrio. Inicialmente, Hayek argumentou que o conceito de equilíbrio é indispensável na análise fora de equilíbrio, na medida em que serve como um “contraste” útil:

A direção em que um empreendedor terá que revisar seus planos dependerá da direção em que os eventos se diferem de suas expectativas. A declaração das condições sob as quais os planos individuais serão compatíveis é, portanto, implicitamente uma declaração do que acontecerá se eles não forem compatíveis.

Será visto que essa extensão do conceito de equilíbrio fornece a ponte da análise de equilíbrio para a explicação em termos de sequências causais, uma vez que é projetada para elucidar os fatores que obrigarão os empreendedores a mudar seus planos e nos ajudar a entender o caminho em que seus planos terão que ser mudados (HAYEK, 1941, p. 22-3).

Posteriormente, Hayek favorece o uso do conceito mais geral de ordem na análise de desequilíbrio. Este é o estudo de caso do processo competitivo, visto por ele como um fenômeno fora do equilíbrio por definição:

Os economistas geralmente atribuem a ordem que a competição produz como um equilíbrio – um termo um tanto infeliz, porque tal equilíbrio pressupõe que os fatos já foram todos descobertos e a competição, portanto, cessou. O conceito de uma “ordem” que, pelo menos para a discussão de problemas de política econômica prefiro ao invés do equilíbrio, tem a vantagem de podermos falar de forma significativa sobre uma ordem sendo abordada em vários graus, e essa ordem pode ser preservada ao longo de um processo de mudança. Embora um equilíbrio econômico nunca exista, existe alguma justificativa para afirmar que o tipo de ordem de que nossa teoria descreve como um tipo ideal, é abordado em alto grau (HAYEK, [1968] 2014, p. 308-9).[24]

Portanto, o conceito de ordem é mais geral (e certamente mais impreciso) do que o de equilíbrio. Além disso, enquanto a ideia de equilíbrio nos permite classificar um sistema de maneira binária, ou temos equilíbrio ou não o temos, o conceito de ordem permite uma infinita gama de categorizações. Não faz sentido dizer que um sistema está em “meio equilíbrio” ou “90% de equilíbrio”, mas podemos dizer que as ordens variam em seu grau de organização. Hayek afirma que o grau de ordem de um sistema varia em duas métricas: no número de relacionamentos entre os elementos que a ordem abrange e na frequência com que as regularidades da ordem se manifestam:

É importante notar aqui que há dois aspectos diferentes em que a ordem pode ser uma questão de grau. Quão bem ordenado um conjunto de objetos ou eventos depende de quantos dos atributos (ou das relações entre) os elementos que podemos aprender a prever. Ordens diferentes podem, a esse respeito, diferir umas das outras de uma ou de duas maneiras: a ordem pode dizer respeito apenas a poucas relações entre os elementos, ou a um grande número; e, segundo, a regularidade assim definida pode ser grande no sentido de que será confirmada por todas ou quase todas as instâncias, ou pode ser considerada como prevalecendo apenas na maioria das instâncias e, assim, nos permite prever sua ocorrência apenas com um certo grau de probabilidade. No primeiro caso, podemos prever apenas algumas das características da estrutura resultante, mas fazê-lo com grande confiança; tal ordem seria limitada, mas ainda pode ser perfeita. No segundo caso, seremos capazes de prever muito mais, mas com apenas um grau razoável de certeza. O conhecimento da existência de uma ordem, no entanto, ainda será útil mesmo se esta ordem for restrita em um ou ambos os aspectos (HAYEK, [1973] 1998, p. 42).

Depois de definir o conceito de ordem, Hayek explora as subcategorias desse conceito. Segundo ele, a dicotomia entre ordens naturais e artificiais é falsa e é fonte de muita confusão na história das ideias. Ele traça a origem dessa dicotomia aos gregos antigos, que distinguiram entre physei (“por natureza”) e nomo (“por convenção”) ou thesei (“por decisão deliberada”). A objeção de Hayek é que não existe apenas uma dicotomia importante, mas duas:

A distinção pretendida pode ser entre objetos que existiam independentemente e objetos que resultavam da ação humana, ou entre objetos que surgiam independentemente e objetos que surgiam como resultado do design humano. A incapacidade de distinguir entre esses dois significados levou à situação em que um autor poderia argumentar em relação a um fenômeno dado que era artificial porque era o resultado da ação humana, enquanto outro poderia descrever o mesmo fenômeno como natural porque evidentemente não era o resultado do design humano (HAYEK, [1973] 1998, p. 20).

Para Hayek, a linguagem, as normas morais e o mercado seriam exemplos de ordens que resultam da ação humana, mas não do design humano. Portanto, essas ordens seriam simultaneamente “artificiais”, porque foram criadas por homens e “naturais”, no sentido de que não são o resultado de uma construção deliberada.

Para escapar dessa ambiguidade dos termos “natural” e “artificial”, Hayek usa outra distinção que se concentra nos critérios de presença ou ausência de design como fonte de ordens. Recorrendo novamente aos gregos, classifica as ordens em dois tipos em relação às suas fontes: ordem deliberada (taxis) e ordens espontâneas (cosmos). Ordens deliberadas são aquelas feitas intencionalmente, arranjos produzidos por forças exógenas ao sistema. No contexto social, podemos nos referir a elas como organizações. Ordens espontâneas são aquelas que surgem involuntariamente, formações geradas por forças endógenas do sistema. Elas também podem ser descritas como sistemas auto-organizadores ou autogerados (HAYEK, [1973] 1998, p. 36-8).

Usando a dicotomia entre o cosmos e a taxis, Hayek procurava aproximar as ordens espontâneas do reino social às que se encontravam na natureza:

O estudo das ordens espontâneas tem sido por muito tempo a tarefa peculiar da teoria econômica, embora, é claro, a biologia tenha, desde o início, se preocupado com aquele tipo especial de ordem espontânea que chamamos de organismo. Só recentemente surgiu nas ciências físicas, sob o nome de cibernética, uma disciplina especial que também se preocupa com os chamados sistemas auto-organizadores ou autogeradores (HAYEK, 1973, 1998, p. 36-7).[25]

Embora haja exemplos de ordens espontâneas nessas várias áreas do conhecimento, a alegação de que existem ordens sociais não feitas por homens é comumente vista com suspeita. Hayek atribui a existência dessa suspeita ao caráter abstrato de ordens espontâneas:

No momento, estamos preocupados apenas com o fato de que uma ordem não feita pelo homem existe e com as razões pelas quais isso não é mais prontamente reconhecido. A principal razão é que ordens como a do mercado não se intrometem em nossos sentidos, mas têm que ser rastreadas por nosso intelecto. Não podemos ver, ou perceber intuitivamente, essa ordem de ações significativas, mas só podemos mentalmente reconstruí-la traçando as relações que existem entre os elementos. Vamos descrever essa característica dizendo que é uma ordem abstrata e não concreta (HAYEK, [1973] 1998, p. 38).

Ordens deliberadas ou a taxis têm seu grau de complexidade necessariamente limitado ao que seu criador pode dominar. Elas também tendem a ser concretas, no sentido de que podem ser intuitivamente percebidas pela inspeção. Além disso, por serem feitas deliberadamente, servem a um propósito determinado por seu criador. Quanto às ordens espontâneas, o oposto é verdadeiro. Sua complexidade não se limita ao que uma mente humana pode dominar. Sua existência não é necessariamente percebida pelos sentidos humanos, mas pode ser baseada em relações puramente abstratas que o homem só pode reconstruir mentalmente.[26] Finalmente, uma ordem espontânea não tem propósito particular, uma vez que não é intencionalmente criada (HAYEK, 1998). p. 38).

Nesse sentido, Hayek se opõe à crença de que, para lidar adequadamente com fenômenos complexos, devemos planejá-los e controlá-los em seus detalhes particulares. Embora as ordens espontâneas não sejam necessariamente complexas, elas podem atingir qualquer grau de complexidade, ao contrário das ordens deliberadas. Muitas ordens devem seu alto grau de complexidade exatamente ao seu caráter espontâneo:

Uma de nossas principais disputas será que ordens muito complexas, compreendendo fatos mais particulares do que qualquer cérebro poderia averiguar ou manipular, podem ser realizadas apenas através de forças que induzem a formação de ordens espontâneas (HAYEK, [1973] 1998, p. 38).

Existem, no reino natural, muitos exemplos de ordens complexas que só podemos gerar criando as condições para seu crescimento espontâneo, e não organizando deliberadamente seus elementos em posições particulares. Este seria o caso, segundo Hayek, dos cristais e de alguns compostos orgânicos complexos: não podemos produzi-los diretamente, organizando seus átomos individuais. Nesses casos, poderíamos apenas fornecer as condições para a formação desses compostos químicos, deixando a posição de cada átomo individual a ser determinada pelo processo de formação do próprio composto. As regras de conduta dos átomos individuais nos permitem determinar o caráter geral (abstrato) da ordem espontânea gerada, mas a configuração particular dos elementos nessa ordem dependerá de todas as condições iniciais do sistema e das circunstâncias particulares do ambiente com o qual cada átomo interage ao longo do processo de formação (HAYEK, [1973] 1998, p. 40).

Uma ordem espontânea se forma como resultado de seus elementos seguindo certas regras na interação com seu ambiente próximo. Como fica claro no exemplo de cristal supracitado, os elementos não precisam conhecer essas regras nem precisam ser capazes de explicá-las em palavras. O que importa é que se comportem de acordo com essas regras. Isso é verdade tanto para ordens espontâneas na natureza quanto na sociedade. De fato, para Hayek, o homem não conhece todas as regras que guiam suas ações no sentido de poder explicá-las em palavras (HAYEK, [1973] 1998, p. 43).

É importante enfatizar, entretanto, que nem todas as regras de conduta seguidas pelos elementos de um sistema garantem a existência de uma ordem global. Pelo contrário, algumas regras individuais podem impossibilitar a obtenção de uma ordem espontânea. Segundo Hayek, o exemplo mais óbvio disso é a Segunda Lei da Termodinâmica, que afirma que a entropia de um sistema fechado aumenta no tempo. Da mesma forma, a questão de quais propriedades as regras de conduta dos indivíduos devem ter a fim de produzir uma ordem global é de importância central para as ciências sociais (HAYEK, [1973] 1998, p. 43-5). Hayek classifica as regras seguidas pelos indivíduos em três tipos:

Algumas dessas regras obedecem a todos os indivíduos de uma sociedade por causa da maneira semelhante em que seu ambiente se representa para suas mentes. Outros seguirão espontaneamente porque farão parte de sua tradição cultural comum. Mas haverá ainda outros que podem ser obrigados a obedecer, pois, embora seja do interesse de cada um deles desconsiderá-las, a ordem geral de que depende o sucesso de suas ações surgirá apenas se essas regras forem geralmente seguidas (HAYEK, [1973] 1998, p. 45).

Entre esses tipos, as regras do direito são especialmente interessantes porque podem ser deliberadamente modificadas. Portanto, aparentemente chegamos a um paradoxo: é inteiramente possível que uma ordem espontânea seja gerada apenas por meio da aplicação de regras de conduta deliberadamente criadas. Hayek escapa a esse paradoxo ao distinguir entre o caráter espontâneo de uma ordem e a origem espontânea das regras que geram a ordem (HAYEK, [1973] 1998, p.45-6). O controle deliberado das regras de conduta de ordens espontâneas não tornaria a ordem espontânea em regras deliberadas, porque as regras só são capazes de influenciar o caráter abstrato geral das ordens geradas, mas nunca planejam seus resultados particulares:

Onde nossas previsões estão limitadas a alguns atributos gerais e talvez apenas negativos do que é provável que aconteça, evidentemente também teremos pouco poder para controlar os desenvolvimentos. […] E, às vezes, embora possamos não conseguir produzir os resultados particulares que gostaríamos, o conhecimento do princípio da coisa nos permitirá tornar as circunstâncias mais favoráveis aos tipos de eventos que desejamos. Das diferentes classes de eventos que são esperados sob várias combinações de circunstâncias que podemos trazer, alguns podem com maior probabilidade incluir resultados desejáveis do que outros. Uma explicação do princípio, portanto, muitas vezes nos permitirá criar circunstâncias tão favoráveis, mesmo que isso não nos permita controlar o resultado. Tais atividades nas quais somos guiados por um conhecimento meramente do princípio da coisa talvez devam ser melhor descritas pelo termo “cultivo”, do que pelo familiar “controle” – cultivo no sentido em que o agricultor ou jardineiro cultiva suas plantas, onde sabe e pode controlar apenas algumas das circunstâncias determinantes, e em que o sábio legislador ou estadista provavelmente tentará cultivar em vez de controlar as forças do processo social (HAYEK, [1955] 2014, p. 209-10).

A ordem espontânea e a organização deliberada coexistem e se complementam em qualquer grupo humano minimamente numeroso. Para algumas tarefas mais limitadas, a organização é certamente o meio mais eficaz e poderoso, pois permite que a ordem resultante seja moldada em detalhes para melhor satisfazer os desejos humanos. Onde as circunstâncias são muito complexas, no entanto, recorrer a ordens espontâneas e contentar-se com seu poder limitado de controlá-las seria a melhor alternativa. Nas chamadas sociedades livres, as organizações (famílias, empresas, governo, ONGs, etc.) estão imersas em uma ordem espontânea mais ampla. Grupos de homens estão unidos em organizações para atingir fins específicos, mas a coordenação das atividades das diferentes organizações (e dos diferentes indivíduos) é trazida através de uma ordem espontânea global, chamada “sociedade” (HAYEK, [1973] 1998, p. 46).

Assim como as ordens espontâneas, as organizações muitas vezes recorrem a regras e pelo mesmo motivo: o uso de regras em vez de comandos permite o uso de conhecimentos que ninguém tem em sua totalidade. As regras usadas em uma organização, no entanto, são de natureza diferente porque, em última instância, devem cumprir as tarefas atribuídas. Elas são, portanto, subsidiárias aos comandos, na medida em que preenchem as lacunas deixadas abertas por eles, e devem ser interpretadas à luz dos propósitos dados pelos comandos. Além disso, as regras de uma organização serão diferentes para cada um de seus membros, de acordo com o papel atribuído a ele por seus superiores (HAYEK, [1973] 1998, p. 49).

Em contraste com as regras organizacionais, as regras que regem uma ordem espontânea devem ser independentes da finalidade e serem as mesmas para classes inteiras de membros não designados individualmente pelo nome. Estas regras devem ser aplicadas pelos indivíduos à luz de seus próprios propósitos, independentemente da existência de um propósito comum ou da consciência do indivíduo de que existe tal propósito.

Nos termos que adotamos, isso significa que as regras gerais de direito que uma ordem espontânea repousa visam uma ordem abstrata, cujo conteúdo particular ou concreto não é conhecido ou previsto por ninguém; enquanto os comandos, bem como as regras que governam uma organização, servem a resultados particulares, dirigidos por aqueles que estão no comando da organização (HAYEK, [1973] 1998, p. 50).

Quanto mais complexa for a ordem a ser alcançada, maior será a parte das ações separadas dos indivíduos determinadas por circunstâncias não conhecidas por aqueles que dirigem a organização e, portanto, um escopo maior deve ser atribuído a regras e não a comandos. Em última análise, ordens de graus muito altos de complexidade só podem ser obtidas dispensando comandos e confiando inteiramente em regras (que serão necessariamente abstratas por causa da ausência de comandos para buscar resultados específicos), isto é, fazendo uso de ordens espontâneas em vez de organizações.

É paradoxal, portanto, dizer que a sociedade moderna deve ser planejada deliberadamente porque se tornou muito complexa. De fato, o oposto é verdadeiro: o homem não é capaz de planejar a sociedade precisamente porque se tornou muito complexa. Uma ordem de tão alto grau de complexidade não pode ser preservada, dando comandos diretos aos seus membros, mas só pode ser indiretamente mantida através da aplicação e melhoria de regras que levam à formação de ordens espontâneas.

Hayek também deduz o argumento liberal contra o intervencionismo da relação entre regras e comandos em uma ordem espontânea. Segundo ele, a imposição de comandos sobre atividades orientadas pelas regras gerais de conduta de uma ordem espontânea não é capaz de melhorar tal ordem, mas pode apenas perturbá-la. Isso ocorreria porque a intervenção visa controlar um sistema de ações interdependentes, orientado por informações e finalidades, conhecidas apenas pelos agentes envolvidos, e não pelas autoridades interventoras. A intervenção, na medida em que é eficaz, priva os agentes em algum grau da possibilidade de usar seu conhecimento particular para a realização de seus próprios propósitos (HAYEK, [1973] 1998, p. 51).

Finalmente, podemos resumir nossa discussão sobre ordens deliberadas e ordens espontâneas através das tabelas 2 e 3:

Tabela 2 – Ordens deliberadas (taxis) vs. Ordens espontâneas (cosmos)
Tabela 3 – Ordens deliberadas (organizações) vs. Ordem espontânea na sociedade

Depois de esclarecer a natureza e as características definidoras de uma ordem espontânea (em oposição a uma ordem deliberada), ainda estamos no escuro sobre como uma ordem espontânea é formada e como ela muda com o tempo. Responder que as ordens espontâneas são constituídas por elementos que seguem determinadas regras apenas nos faz colocar a mesma questão no nível das regras. Por que, afinal de contas, as regras adotadas são aquelas que permitem a formação de ordens espontâneas que existem em um dado momento, em vez de qualquer outro conjunto de regras? De acordo com Hayek, a resposta a esta pergunta é encontrada na análise evolutiva. Ele postula que os princípios de variação, seleção e reprodução são suficientes para explicar a formação de várias ordens espontâneas:

Tal combinação em estruturas mais complexas, como ocorreu com os elementos primitivos hipotéticos, também ocorrerá com as estruturas mais complexas (e possivelmente com algumas de suas partes compostas). O resultado será um processo cumulativo, que gerará uma hierarquia de estruturas, das quais aquelas que tiverem maior coerência ou elasticidade terão a tendência de proteger mais efetivamente seus componentes contra a destruição. Tornar-se um componente de uma estrutura maior aumentará, portanto, a probabilidade da existência continuada de suas partes e sua reprodução progressiva. A partir do átomo, que é protegido pela molécula, a célula, que é protegida pelo organismo, para o indivíduo, que é protegido pela sociedade, encontramos uma hierarquia de ordens sobrepostas cuja existência continuada pode ser suficientemente explicada por um processo no qual essas variações aleatórias foram selecionadas, para as quais uma estrutura abrangente forneceu uma concha protetora (HAYEK, 2013, p. 248).

Evidentemente, a formulação específica mais apropriada da teoria evolutiva depende crucialmente da classe dos fenômenos em estudo. As semelhanças entre esses processos estão em sua lógica geral e não em seus detalhes substantivos. Como veremos, Hayek é cuidadoso em apontar diferenças entre a evolução biológica e cultural.

A automanutenção de ordens espontâneas também só pode ser entendida adequadamente como um processo evolutivo. A condição sine qua non para a perpetuação de uma ordem abstrata complexa é a constante adaptação da configuração particular de seus elementos às novas circunstâncias:

Entendemos agora que todas as estruturas duradouras acima do nível dos átomos mais simples, e até o cérebro e a sociedade, são resultadas e podem ser explicadas apenas em termos de processos de evolução seletiva, e que as mais complexas se mantêm pela adaptação constante de seus estados internos às mudanças no ambiente. […] Essas mudanças na estrutura são provocadas por seus elementos que possuem tais regularidades de conduta, ou por tais capacidades de seguir regras, que o resultado de suas ações individuais será restaurar a ordem do todo se for perturbado por fatores externos. Portanto, o que, em uma ocasião anterior, chamei de conceitos gêmeos de evolução e ordem espontânea, nos permite explicar a persistência dessas estruturas complexas (HAYEK, [1973] 1998, p. 158).

A caracterização da evolução e ordem espontânea como ideias gêmeas também ajuda a esclarecer a necessidade da distinção entre o sistema de regras que rege o comportamento dos elementos de uma ordem e a ordem gerada por essas regras. É possível que a mesma ordem geral seja produzida por diferentes sistemas de regras e que o sistema de regras produza ordens diferentes (ou não produza ordem alguma) dependendo das circunstâncias externas. O que importa para preservar o conjunto de elementos que compõem a ordem, no entanto, não são as regras de conduta per se, mas sim a viabilidade da ordem gerada para elas sob as circunstâncias.

A seleção evolutiva de diferentes regras de conduta individual opera através da viabilidade da ordem que irá produzir, e quaisquer regras dadas de conduta individual podem ser benéficas como parte de um conjunto de tais regras, ou em um conjunto de circunstâncias externas, e prejudicial como parte de outro conjunto de regras, ou em um conjunto de regras em outro conjunto de circunstâncias (HAYEK, [1967a] 2014, p. 280).

Ignorar que os padrões das atividades humanas são desenvolvidos através de um processo evolutivo é, para Hayek, um erro intelectual que pode levar a conclusões profundamente erradas. Essa seria a visão do que Hayek chamou de racionalismo construtivista, que afirma: (i) que as instituições humanas só servem a propósitos humanos se foram deliberadamente criadas tendo esses propósitos em mente, (ii) que o fato de uma instituição humana existir é um evidência de que foi criada para algum propósito, e (iii) que devemos redesenhar a sociedade e suas instituições para que nossas ações sejam guiadas por propósitos conhecidos. Para Hayek, todas essas proposições são comprovadamente falsas e têm suas raízes originais na propensão humana primitiva de interpretar todas as regularidades fenomenais de um modo antropomórfico, isto é, como o resultado do projeto de uma mente pensante (HAYEK, 1973, 1998, p. 8-9).

Em contraste com o racionalismo construtivista, a visão que Hayek chama de racionalismo evolucionista reconhece que a ordem na sociedade advém não apenas de instituições criadas para esse fim. Pelo contrário, de acordo com essa visão, a ordem social é em grande parte devida a um processo evolutivo no qual as regras inicialmente adotadas por outras razões, ou mesmo de forma puramente acidental, são preservadas porque permitiram o surgimento de grupos que as adotaram em relação a outros grupos.

Segundo Hayek, o erro fundamental do racionalismo construtivista é postular um tipo de racionalidade que simplesmente não poderia existir em um mundo complexo. Para que todas as ações do homem sirvam efetivamente a propósitos que lhe são conhecidos, ele precisaria ter uma racionalidade completa que lhe permitisse saber sempre, sob as mais diversas circunstâncias particulares, qual seria o curso de ação mais apropriado para alcançar seus objetivos. Mas tal racionalidade completa requer conhecimento perfeito de um grande número de fatos particulares dos quais depende uma ação bem-sucedida, e esses fatos não podem ser conhecidos em sua totalidade por ninguém (HAYEK, [1973] 1998, p. 12).

O homem, portanto, necessariamente age na ignorância de muitos fatos que precisaria saber para racionalmente justificar sua ação à luz de seus propósitos. A racionalidade possível neste contexto deve ser de um tipo mais limitado, que requer menos conhecimento do agente. O tipo de racionalidade limitada concebida por Hayek resulta da capacidade de seguir regras que se mostraram adaptadas ao mundo em que o homem vive através de um processo evolutivo de seleção de regras.

O homem é tanto um animal que segue regras quanto um animal que busca objetivos. E ele é bem-sucedido não porque saiba por que deveria observar as regras que observa ou é capaz de declarar todas essas regras em palavras, mas porque seu modo de pensar e agir são governados por regras que, por um processo de seleção evoluíram na sociedade em que ele vive e, portanto, é o produto da experiência de gerações (HAYEK, [1973] 1998, p. 11).[27]

Em outras palavras, para Hayek, a própria razão humana deve ser entendida como o resultado de um processo evolutivo que o próprio homem não seria capaz de compreender plenamente. Além disso, tal racionalidade é incorporada nas regras de conduta que o indivíduo segue sem compreender a razão pela qual e sem ser capaz de provar dedutivamente que são eficazes.

Uma diferença entre toda ação intencional e ação guiada pela norma existe apenas na medida em que no caso do que geralmente consideramos como ação intencional assumimos que o propósito é conhecido pela pessoa que age, enquanto no caso da ação guiada pela norma razões pelas quais ele considera um modo de agir como um possível meio de alcançar um resultado desejado e outro que não é possível muitas vezes lhe será desconhecido. No entanto, considerar um tipo de ação como apropriado e outro como inadequado é o resultado de um processo de seleção do que é efetivo, seja a consequência da ação particular produzindo os resultados desejados pelo indivíduo ou a consequência desse tipo sendo propícia ou não propícia para o funcionamento do grupo como um todo. A razão pela qual todos os membros individuais de um grupo fazem coisas particulares de uma maneira particular frequentemente não será que somente dessa maneira alcançarão o que pretendem, mas que somente se agirem desta maneira, essa ordem do grupo será preservada dentro do qual suas ações individuais provavelmente serão bem-sucedidas (HAYEK, [1973] 1998, p. 80).

Se levarmos a sério essa natureza limitada da racionalidade humana, também devemos reconhecer que o caráter benéfico da cultura e das instituições humanas depende crucialmente delas serem adaptadas a muitos fatos de que o homem é ignorante. De acordo com Hayek, a cultura é também o resultado de um complexo processo evolutivo no qual as práticas humanas mais adequadas às circunstâncias foram selecionadas.

Razão e cultura não são o resultado de dois processos evolutivos independentes. Pelo contrário, a evolução de uma não pode ser adequadamente entendida sem levar a outra em conta; razão e cultura coevoluem. A cultura não é determinada pelo uso de uma razão previamente desenvolvida e independentemente desenvolvida. A causalidade entre elas não é unidirecional, mas mútua. O sucesso das regras de conduta que definem a razão também depende delas serem adaptadas à cultura preexistente, e o sucesso das instituições também depende delas serem adaptadas à racionalidade desenvolvida pelo homem (que é necessariamente limitada por natureza).

Essa evolução cultural não é o resultado da razão humana construindo conscientemente instituições, mas de um processo em que a cultura e a razão desenvolvidas concomitantemente talvez estejam começando a ser mais amplamente compreendidas. Provavelmente não é mais justificado afirmar que o homem pensante criou sua cultura do que essa cultura criou sua razão. […] repetindo: mente e cultura se desenvolvem concomitantemente e não sucessivamente. (HAYEK, [1973] 1998, p. 155-6).

Dada a importância que Hayek atribui à aplicação da análise evolutiva aos fenômenos sociais, ele acha necessário esclarecer dois equívocos comuns. Primeiro, o conceito de evolução não é algo que as ciências sociais tomaram emprestado das ciências biológicas. Pelo contrário, segundo ele, foi na verdade Darwin quem se inspirou em teóricos sociais[28] que já estavam aplicando o raciocínio evolutivo na discussão de formações espontâneas como a linguagem, a moral, a lei e o dinheiro. Infelizmente, alguns teóricos que ficaram conhecidos como darwinistas sociais transpuseram erroneamente a formulação particular da evolução na biologia para o campo social e, assim, desacreditaram o uso da ideia de evolução na sociedade. De acordo com Hayek, esses autores estavam errados ao focar na seleção de indivíduos e não de instituições e práticas sociais, e na seleção de características inatas dos indivíduos, em vez daquelas que são culturalmente transmitidas (HAYEK, [1973] 1998, p. 22-3).

Dada a suspeita que o darwinismo social gerou sobre o uso do conceito de evolução na análise dos fenômenos sociais, vale a pena escrever um pouco mais sobre as diferenças entre os processos biológicos e culturais. Enquanto a evolução biológica (neodarwiniana) impede a transmissão de características adquiridas, a evolução cultural é baseada inteiramente na transmissão de regras não-inatas; Nesse sentido, a evolução cultural simula o lamarckismo. Além disso, na evolução cultural, os pais não são os únicos transmissores de hábitos e práticas. O indivíduo tem um número não especificado de “ancestrais”. Por fim, a evolução cultural atua principalmente por meio de um processo de seleção de grupos, uma espécie de processo evolutivo cuja aplicabilidade na biologia ainda é controversa (HAYEK, 1988, p. 25).[29]

O segundo equívoco que Hayek procurou esclarecer foi que a teoria da evolução consistia em “leis da evolução” no sentido de uma sequência necessária de estágios ou fases pelas quais a evolução deveria passar e que, por extrapolação, permitiriam a previsão do curso futuro da evolução. A teoria da evolução seria incapaz de fornecer leis da evolução nesse sentido, porque descreve apenas um processo cujo resultado específico depende de um grande número de fatos específicos a serem conhecidos.

A teoria da evolução, portanto, não nos permitiria fazer previsões de eventos particulares, mas estaria confinada ao que Hayek chamou de explicações das previsões de princípio e padrão. Essa crença nas leis da evolução, segundo Hayek, não se origina na teoria da evolução propriamente entendida, mas em autores como Comte, Hegel e Marx, que, em sua interpretação, afirmavam que a evolução deveria necessariamente seguir um curso particular predeterminado por razões místicas. (HAYEK, [1973] 1998 p.23-4).

Para esses dois equívocos, podemos acrescentar um terceiro cometido por alguns dos críticos de Hayek,[30] que interpretaram sua teoria da evolução cultural como tendo incorrido em uma espécie de falácia panglossiana. Interpretam Hayek como afirmando que o processo evolutivo garante que qualquer instituição existente seria desejável ou mesmo ideal. Hayek, no entanto, é bastante enfático ao negar que esse seria o caso:

Não tenho intenção de cometer o que muitas vezes é chamado de falácia genética ou naturalista. Não afirmo que os resultados da seleção de grupos de tradições sejam necessariamente “bons” – assim como não afirmo que outras coisas que há muito sobreviveram no curso da evolução, como as baratas, têm valor moral. (HAYEK, 1988, p. 27).

Na visão de Hayek, os produtos da evolução cultural não devem ser imunes a críticas e mudanças. Ambas as normas morais e as leis originadas espontaneamente podem ser melhoradas, desde que tal revisão seja realizada no contexto dos sistemas gerais de moralidade e lei, isto é, tomando-se as outras regras de conduta existentes:

Esta determinação do quadro de valores implica que, embora devamos sempre nos esforçar para melhorar nossas instituições, nunca podemos tentar refazê-las como um todo e que, em nossos esforços para melhorá-las, devemos ter como certo algo que não entendemos. (HAYEK, [1960] 2011, p. 124).

Além disso, Hayek afirma que a evolução cultural não leva necessariamente a resultados ótimos em termos de bem-estar social, afirmando que “não há razão para supor que a seleção pela evolução de tais práticas habituais, como os homens habilitados a nutrir um número maior de pessoas, tinham muito a ver com a produção de felicidade”(HAYEK, 1988, p. 69). Segundo Hayek, a evolução cultural opera por meio da sobrevivência e reprodução de grupos, mas ele não postula a existência de otimalidade mesmo em relação a esse critério:

No entanto, seria errado concluir, estritamente a partir de premissas evolutivas, que quaisquer regras que tenham evoluído são sempre ou necessariamente favoráveis à sobrevivência e ao aumento das populações que as seguem. […] Reconhecer que as regras geralmente tendem a ser selecionadas, através da competição, com base em seu valor de sobrevivência humano, certamente não protege essas regras do escrutínio crítico (HAYEK, 1988, p. 20).

Finalmente, como corretamente apontado por Whitman (1998), a ausência de resultados necessariamente ótimos não é uma característica especial da evolução cultural hayekiana, mas é algo também presente na biologia. É amplamente reconhecido, por exemplo, que as espécies podem preservar “estruturas vestigiais”, isto é, estruturas não adaptativas ou mal adaptativas no contexto das condições ambientais presentes, explicadas pela história filogenética do organismo (por exemplo, o apêndice humano).

Sabe-se também que muitas características frequentemente se manifestam conjuntamente[31], de modo que traços não adaptativos podem ser perpetuados porque estão ligados a traços de alto valor adaptativo. Há também casos de mudanças evolutivas que ocorrem por razões puramente aleatórias e outras em que há múltiplos picos adaptativos, permitindo que os organismos fiquem presos em valores de adequação “máximos locais”, dependendo da ordem pela qual as mudanças ocorrem. Portanto, da mesma forma que a evolução biológica não é inconsistente em reconhecer a persistência de estruturas não-adaptativas ou mal-adaptativas, Hayek também não propõe um mecanismo de evolução cultural que inclua algumas instituições disfuncionais. Processos evolutivos não precisam resultar em adaptações ótimas.

Hayek (1979-1998, p. 159-61) distingue entre três níveis principais de regras de conduta nas sociedades humanas. O primeiro é o resultado da evolução biológica do homo sapiens. Nesse nível, as disposições genéticas relativas ao comportamento social foram selecionadas na medida em que foram adaptadas às condições ambientais. A esse respeito, as condições mais relevantes foram as que prevaleceram quando os homens foram organizados em tribos nômades de caçadores e coletores, porque esse foi o período mais longo da evolução biológica humana e também aquele em que passamos pela pressão seletiva mais forte. Posteriormente, tais pressões seletivas foram relaxadas, mas o homem moderno ainda herdou as características que foram selecionadas nesse período. Esse nível de regras explica, segundo Hayek, a preferência natural que o homem tem a favor de relações concretas face a face adequadas apenas a pequenos grupos, em vez de relações abstratas e impessoais necessárias para manter a Grande Sociedade (HAYEK, 1988, p. p. 17-9).

O segundo nível é o das regras de conduta deliberadamente adotadas e modificadas. Como discutido anteriormente, Hayek acredita que é possível que certas ordens espontâneas sejam mantidas apenas graças a regras de conduta deliberadamente criadas. Embora não tenha descartado a conveniência de tais regras em todos os casos, argumenta que o papel apropriado delas é limitado.

O terceiro nível de regras é o que Hayek mais enfatiza e desenvolve porque foi amplamente negligenciado pelos intelectuais. Este é o nível das tradições e moral; o nível que caracterizou como estando localizado entre o instinto e a razão. É nesse nível que opera o que Hayek chama de evolução cultural. Segundo ele, essas regras sociais de conduta surgem e mudam de maneira não intencional e descontrolada. Como visto, essas regras gerais de conduta podem levar à formação de ordens espontâneas, e as regras são selecionadas de acordo com a capacidade dessas ordens de preservar e multiplicar o grupo.[32] A variação das regras acontece através de acidentes históricos ou pela criação de regras visando outros fins que não a obtenção da ordem resultante. Finalmente, a replicação de regras de conduta é obtida por imitação.[33]

As reflexões sobre a complexidade que Hayek fez ao longo de sua vida culminaram em seus trabalhos amadurecidos sobre as ideias gêmeas de evolução e ordem espontânea e a aplicação desses conceitos à análise do processo de evolução cultural. Em alguns aspectos importantes, os trabalhos de Hayek sobre evolução e ordem espontânea são desenvolvimentos adicionais do que ele escreveu sobre competição e equilíbrio nos anos 1930 e 1940. Vimos que o conceito de ordem de Hayek é uma generalização da definição de equilíbrio de Hayek em Economics and Knowledge. Além disso, em ambos os períodos, Hayek enfatiza a necessidade de fornecer fundamentos dinâmicos para a explicação da ordem existente em um dado instante de tempo. Em seus trabalhos anteriores, o processo de competição era responsável pela origem e transformação da ordem econômica. Nos mais recentes, como discutido nesta seção, a mesma relação é estabelecida entre evolução e ordem espontânea.

A importância de instituições espontâneas para a coordenação social, um tema que Hayek já havia tocado em The Use of Knowledge in Society (1945), é desenvolvido extensivamente em uma perspectiva complexa no final de sua carreira. As ordens sociais, segundo Hayek, são propriedades emergentes que resultam da interação entre os indivíduos, seguindo certas regras de conduta e o ambiente em que se encontram. As instituições evoluem pela viabilidade da ordem social que geram, e essa viabilidade depende, em grande parte, do fato de essas instituições estarem adaptadas à natureza limitada da racionalidade desenvolvida pelo homem.

Finalmente, o projeto de Hayek para entender o desenvolvimento das sociedades através da evolução cultural é uma boa ilustração de uma aplicação da metodologia de fenômenos complexos que desenvolveu nas décadas de 1950 e 1960. O que ele procura neste contexto não é uma previsão específica para servir aos propósitos de controle ou engenharia social, mas explicações do princípio, arranjos significativos de eventos à luz de certos princípios.

3. Cibernética e Teoria Geral dos Sistemas

É amplamente reconhecido na literatura[34] que o economista austríaco F.A. Hayek formou suas visões sobre complexidade com grande influência dos movimentos científicos da cibernética[35] e da teoria geral dos sistemas (GST), a última, em particular, através de seu criador, o biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy.

Essa crença é justificada por vários motivos. Primeiro, houve referências explícitas e positivas às contribuições da cibernética e do GST nas obras de Hayek, a partir da década de 1950. Além disso, Hayek manteve contato com alguns dos indivíduos associados a essas duas abordagens, como Ludwig von Bertalanffy, Heinrich Klüver,[36] Garrett Hardin e Ilya Prigogine.[37] Particularmente próximo foi seu relacionamento pessoal com Bertalanffy, com o qual tentou sem sucesso fundar o Instituto de Estudos Avançados de Viena em 1958.[38]

Por várias razões, nossa investigação começará com o livro de Hayek sobre “psicologia teórica”, The Sensory Order (1952). Primeiro, The Sensory Order (TSO) foi o primeiro trabalho no qual Hayek faz referências a autores associados à cibernética e à teoria geral do sistema.

Em segundo lugar, Hayek agradeceu a Bertalanffy por ter comentado o rascunho do livro no prefácio deste livro. A introdução do livro também foi escrita pelo psicólogo da Gestalt, Heinrich Klüver, que participou ativamente das Conferências Macy da cibernética. Finalmente, e mais importante, veremos que as ideias da cibernética e da teoria geral do sistema não aparecem de maneira periférica, mas constituem uma parte central do argumento do livro. Este fato surpreendentemente não foi observado anteriormente pelos comentaristas.

Na próxima seção (3.1), revisaremos alguns elementos das teorias e histórias da cibernética e do GST relevantes para nossa discussão. Posteriormente, nas seções 3.2 e 3.3, exploraremos, respectivamente, como as ideias da cibernética e do GST aparecem no TSO e nos trabalhos posteriores de Hayek sobre teoria social.

3.1. Cibernética e GST: conceitos básicos

3.1.1. Cibernética

A cibernética (uma expressão neogrega que significa “timoneiro”) foi definida por Norbert Wiener (1948, p. 11) como todo o campo de controle e comunicação no animal e na máquina. Embora a cibernética tenha começado por estar intimamente associada de muitas maneiras com a física,[39] não depende de nenhuma maneira essencial das leis da física. Ao contrário, os cibernéticos se viram como tendo suas próprias fundações, que poderiam ser usadas para entender o funcionamento dos mais diversos tipos de sistemas – físicos, biológicos e socioeconômicos. Com um único conjunto de conceitos, poderíamos representar pilotos automáticos, aparelhos de rádio e cerebelo e desenhar paralelismos úteis entre máquina, cérebro e sociedade (ASHBY, 1956, p. 1-4).

Um dos principais conceitos empregados pela cibernética é o feedback. Considere uma máquina composta de duas partes diferentes (𝑀1 e 𝑀2). Cada parte recebe entradas (𝐼1 e 𝐼2) e converte-as em saídas (𝑂1 e 𝑂2) de acordo com funções de transformação bem definidas (𝑓1 e 𝑓2). Isoladamente, 𝑀1 e 𝑀2 podem ser representadas como na figura 1:

Figura 1. Partes isoladas

Embora tenhamos total conhecimento das partes do sistema, ainda não podemos determinar o comportamento do sistema como um todo, a menos que especifiquemos como essas partes são acopladas. Poderia ser o caso de as partes serem independentes umas das outras, de modo que a análise do todo seja redutível para a análise de suas partes isoladamente, como na figura 1. Mas também pode ser o caso da saída de uma parte ser conectada à entrada de outra. Se a saída de 𝑀1 estiver vinculada à entrada de 𝑀2, mas a saída de 𝑀2 não estiver vinculada à entrada de 𝑀1, então dizemos que 𝑀1 domina 𝑀2. Quando ambas as saídas estão conectadas a ambas as entradas, pode-se dizer que o feedback está presente.

Figura 2. 𝑀1 domina 𝑀2
Figura 3. Sistema de feedback

 

Figura 4. Sistema de feedback visto como um todo

Existem dois tipos diferentes de feedback: negativo e positivo. O feedback negativo é autocorreção, isto é, tende a trazer o sistema de volta a um estado anterior após um choque exógeno. Portanto, quando o feedback de um sistema é negativo, o sistema tende a ser estável. O feedback positivo, por outro lado, é autorreforçador. Isso significa que um choque é ampliado pela operação do mecanismo de feedback, levando o sistema para longe do status quo anterior. O sistema, portanto, exibe um comportamento explosivo.

Um exemplo de funcionamento do feedback negativo é dado pelo processo de regulação de temperatura que ocorre no interior de animais homeotérmicos ou de sangue quente. Se a temperatura do animal é muito alta, o organismo reage tomando medidas para garantir que mais calor seja liberado do corpo para o meio ambiente (através do fluxo da pele e da evaporação do suor crescente) e menos calor é gerado dentro do corpo (reduzindo o metabolismo). Da mesma forma, se a temperatura do animal é muito baixa, o organismo toma medidas na direção oposta, como tremores, aumento da atividade muscular e secreção de adrenalina (ASHBY, 1960, p. 59). Portanto, por meio de feedback negativo, o corpo é capaz de manter sua temperatura dentro dos limites.[40]

Mas a cibernética não deve viver apenas por feedback. Como a definição de Wiener sugere, outros conceitos essenciais incluem comunicação, controle e informação. O conceito de controle está intimamente ligado ao de feedback. Sistemas de controle são aqueles que regulam o comportamento de outros sistemas. Isso pode ser feito por meio de um processo de loop aberto, pelo qual as saídas do sistema de controle são geradas com base apenas em entradas ou por um processo de loop fechado no qual o feedback da saída do sistema também é usado. Por esse motivo, os sistemas de controle de malha fechada também são chamados de sistemas de controle de feedback.

Em sistemas de controle de feedback, há um estado desejável (variável desejável), um estado real (variável controlada) e uma medida da diferença entre esses dois (erro). O estado atual é influenciado por uma variável manipulada, determinada pela ação do controlador, e também por perturbações ou choques exógenos. O erro do sistema é realimentado ao controlador, que atua na variável manipulada para aproximar-se do estado desejado (AHRENDT; TAPLIN, 1951, p. 5).

Figura 5: Os componentes de um sistema de controle de feedback. Adaptado de Ahrendt e Taplin (1951, p. 5).

Os dois últimos conceitos fundamentais da cibernética são os entrelaçados de comunicação e informação. A comunicação pode ser amplamente definida como a troca ou transmissão de informações. Neste contexto, três níveis diferentes de problemas de comunicação podem ser apontados: (a) o problema técnico de transmitir com precisão os símbolos de comunicação, (b) o problema semântico de transmitir precisamente um significado desejável pelos símbolos transmitidos, e (c) o problema de efetividade de afetar a conduta do receptor de comunicação de maneira desejada (WEAVER, 1964, p. 4). O artigo seminal de Claude Shannon, A Mathematical Theory of Communication (1948), lida explicitamente apenas com o problema técnico. Como ele diz:

O problema fundamental da comunicação é reproduzir em um ponto exatamente ou aproximadamente uma mensagem selecionada em outro ponto. Frequentemente as mensagens têm significado; isto é, se referem ou são correlacionadas de acordo com algum sistema com certas entidades físicas ou conceituais. Esses aspectos semânticos da comunicação são irrelevantes para o problema da engenharia (SHANNON, 1948, p. 379).

Se nos restringirmos ao problema técnico da comunicação, a informação pode ser medida com precisão. O que mede é a incerteza associada a uma distribuição de probabilidade específica. Assim, a informação transmitida por uma distribuição de probabilidade degenerada – por exemplo, dois eventos possíveis com 𝑝1 = 1 e 𝑝2 = 0 – são zero, uma vez que o resultado é conhecido com certeza. A medida exata da informação proposta por Shannon (1948) é dada por:

Em seu artigo, Shannon provou que essa era a única equação que satisfazia um conjunto de propriedades desejadas.[41] Como essa fórmula é a mesma que a expressão para entropia em mecânica estatística, ele usou os termos informação e entropia de forma intercambiável.[42] A unidade de medida da informação é determinada pela escolha da base do logaritmo. Se a base dois for escolhida, ela será medida em bits (unidades binárias). Usando essa expressão, Shannon conseguiu fornecer fórmulas para a capacidade de canal de uma linha de transmissão (em bits por segundo) e a quantidade de redundância necessária para enviar com fidelidade um determinado sinal por meio de um canal com ruído.

Ao mesmo tempo, Wiener estava trabalhando em linhas semelhantes às de Shannon e chegou quase às mesmas conclusões (WIENER, 1948, p. 60-94). Havia, no entanto, duas diferenças significativas entre eles. Primeiro, ao contrário de Shannon, Wiener estava ansioso para estender o conceito de informação a problemas semânticos e de eficácia. Segundo, enquanto Shannon quantificava a informação como entropia positiva, Wiener achava que a entropia negativa era a definição apropriada de informação. Embora, de um ponto de vista estritamente matemático, essa diferença fosse apenas uma questão de signo da expressão, tinha implicações importantes para o recém-criado campo da cibernética.

Ao equacionar informações com entropia negativa, Wiener concebeu a quantidade de informação de um sistema como uma medida universal de seu grau de organização, da mesma forma que a entropia mediu o grau de desorganização de um sistema (WIENER, 1948, p. 11). A ordem – nos mundos mecânico, vivo e social – só poderia ser mantida se uma quantidade suficiente de informação fosse produzida de modo a contrapor a tendência de aumentar a entropia.

Definidas dessa maneira, as informações se encaixam perfeitamente na estrutura cibernética geral de Wiener. Sistemas de controle de realimentação negativa são regulados por informações que “são realimentadas para o centro de controle [e] tendem a se opor à saída da quantidade controlada da quantidade controladora” (WIENER, 1948, p. 118). Assim, o controle (de malha fechada) foi reinterpretado por Wiener como comunicação (de informação) com feedback (negativo), reunindo todas as peças conceituais da cibernética.

As origens históricas da cibernética podem ser atribuídas ao trabalho de Wiener durante a Segunda Guerra Mundial,[43] quando os aliados estavam buscando métodos mais eficazes para se defender de ataques aéreos. Convidado por Vannevar Bush, Norbert Wiener começou a trabalhar com o engenheiro Julian Bigelow para o Comitê de Pesquisa de Defesa Nacional (NDRC) sobre como projetar uma maneira melhor de controlar a artilharia antiaérea. A fim de conseguir isso, o disparo teria que visar a melhor previsão da posição futura do plano do inimigo com base nas informações disponíveis sobre seu caminho passado (MIROWSKI, 2002, p. 17-8).

Esta previsão não foi uma questão simples, porque os pilotos foram treinados para tomar ações evasivas, como cursos em ziguezague, para evitar a artilharia aliada. Prevendo o curso dos aviões, então, seria necessária uma simulação da reação do piloto ao tiro, para o qual Wiener e Bigelow empregaram servomecanismos. Sem surpresa, depois de um tempo, encontrariam um problema com seu protótipo: às vezes o mecanismo compensava demais suas correções de curso e oscilara violentamente devido a um feedback positivo. Devido à urgência das necessidades de guerra e às dificuldades práticas envolvidas em assegurar que o mecanismo de feedback seria do tipo negativo, o projeto de guerra de Wiener foi encerrado em 1943 sem ser efetivamente usado pelas forças aliadas (CONWAY; SIEGELMAN, 2005, p. 88).

O fim do período de Wiener nas forças armadas foi imediatamente seguido pelo início de seu trabalho para levar a analogia entre servomecanismos e comportamento humano ao próximo nível. Ele e Bigelow se juntaram ao fisiologista Arturo Rosenblueth para estabelecer conexões entre o mecanismo de feedback que encontraram em seu projeto antiaéreo e aquele encontrado nas redes elétricas do cérebro humano.

Rosenblueth, Wiener e Bigelow (1943) interpretaram toda a ação direcionada por objetivos como sendo governada por processos de feedback negativo. Como um objetivo está sendo perseguido, o curso de ação é constantemente corrigido comparando a distância atual do objetivo com sua posição antecipada. Se, por exemplo, meu objetivo é pegar um lápis, meus movimentos serão guiados pelo feedback proporcionado pela “quantidade pela qual não conseguimos pegar o lápis a cada instante” (WIENER, 1948a, p. 7). Nessa visão, uma condição patológica como o tremor de propósito (também chamado de tremor de intenção) é interpretado como sendo causado por um mau funcionamento do mecanismo de feedback, levando o indivíduo doente a submergir ou ultrapassar seu alvo em uma oscilação incontrolável.

A partir dessa discussão, os autores tiraram algumas conclusões interessantes. Primeiro, não há contradição em sistemas sendo simultaneamente determinísticos e teleológicos se um mecanismo de feedback negativo estiver presente. Em segundo lugar, a teleologia e o comportamento intencional em geral são possíveis tanto nos domínios do humano como da máquina. O comportamento de busca de metas, portanto, não deve ser visto como uma característica distintamente humana. Em terceiro lugar, como consequência, organismos e máquinas poderiam ser descritos com o mesmo vocabulário e estudados pelos mesmos métodos. Como Gerovitch (2002, p. 62) resume, Wiener, Rosenblueth e Bigelow “minaram as oposições filosóficas entre teleologia e determinismo, entre atos voluntários e ações mecânicas e, finalmente, entre homens e máquinas”.

Figura 6. A classificação do comportamento (ROSENBLUETH; WIENER; BIGELOW, 1948, p. 11).

Em 1942, Rosenblueth apresentou as ideias que estava desenvolvendo com Wiener e Bigelow em uma conferência sobre “Inibição Cerebral”, patrocinada pela Fundação Josiah Macy.[44] A palestra de Rosenblueth causou grande impacto no público diversificado, composto por psiquiatras como Warren McCulloch e cientistas sociais como Gregory Bateson e Margaret Mead.[45]

McCulloch logo se tornaria uma figura importante do movimento cibernético. Naquela época, estava trabalhando com seu colega mais novo Walter Pitts em um projeto que visava entender o cérebro como uma máquina elétrica que realizava cálculos lógicos de maneira semelhante aos computadores digitais. As novas ideias de causação circular e comunicação apresentadas por Rosenblueth na conferência foram fundamentais para o artigo que McCulloch e Pitts publicariam no ano seguinte. Neste trabalho, concluem que sistemas com retroalimentação negativa podem gerar um comportamento intencional e que “atividades que costumamos chamar de mental são rigorosamente dedutíveis da neurofisiologia atual” (MCCULLOCH; PITTS, 1943, p. 132).

Ideias semelhantes estavam sendo desenvolvidas de forma independente pelo psiquiatra inglês William Ross Ashby, que também se juntaria ao clube de cibernética mais tarde. Em uma sequência de três artigos, Ashby (1945; 1947a; 1947b) objetivou compreender os fenômenos de auto-organização e aplicar sua teoria à análise do cérebro. Sua conclusão foi que “uma máquina pode ser ao mesmo tempo (a) estritamente determinada em suas ações, e (b) ainda demonstrar uma mudança de organização autoinduzida” (ASHBY, 1947a, p. 125). Na verdade, ele afirmava que o cérebro era um exemplo importante de tal máquina.

A cibernética se desenvolveria rapidamente em um novo campo de pesquisa e atrairia a atenção de acadêmicos das mais diversas áreas do conhecimento. De 1946 a 1953, alguns desses acadêmicos reuniram-se em uma série de dez encontros, denominados Conferências Macy, especificamente dedicados a discutir o novo campo interdisciplinar de controle e comunicação que se tornaria conhecido como cibernética. Este grupo de pesquisadores incluiu figuras proeminentes nos campos da matemática (Norbert Wiener, John von Neumann, Walter Pitts), engenharia (Julian Bigelow, Claude Shannon, Heinz von Forster), filosofia (Filmer Northrop), neurofisiologia (Arturo Rosenblueth, Ralph Gerard, Rafael Lorente de Nó), psiquiatria (Warren McCulloch, Lawrence Kubie, Henry Brosnin), psicologia (Heinrich Klüver, Kurt Lewin, Alex Bavelas, Joseph Licklider), biologia (W. Ross Ashby, Henry Quastler) , linguística (Roman Jakobson, Charles Morris, Dorothy Lee) e ciências sociais (Gregory Bateson, Lawrence Frank, Paul Lazarsfeld e Margaret Mead) (HEIMS, 1993, p. 255-6).

Para o nosso propósito, não valeria a pena passar por uma inspeção mais detalhada da história do movimento cibernético.[46] Basta dizer que a influência da cibernética se estendeu muito além dos limites das Conferências Macy, alcançando algumas audiências altamente insuspeitas. Nesse contexto, não demorou muito para que o economista austríaco F. A. Hayek tomasse nota das ideias cibernéticas e começasse a empregá-las em suas obras.

3.1.2. Teoria Geral do Sistema de Bertalanffy

A cibernética não estava sozinha em sua busca pela interdisciplinaridade baseada em conjuntos comuns de conceitos e estruturas. Outro movimento intelectual – teoria geral do sistema – tentou estender analogias entre disciplinas, mesmo além daquelas feitas pela cibernética. Embora o objetivo da cibernética fosse estudar sistemas que envolvessem controle e comunicação no animal e na máquina, a teoria geral do sistema pretendia estudar as propriedades gerais que se aplicavam aos sistemas em geral.

As origens da cibernética e da teoria geral do sistema também eram bem diferentes. Ao contrário da cibernética, que foi inspirada pela física e engenharia, as origens da teoria geral do sistema foram inicialmente conectadas a desenvolvimentos no campo da biologia.

As primeiras contribuições de Bertalanffy estavam no campo que chamou de biologia teórica. Ele distinguiu entre dois sentidos em que a biologia teórica pode ser entendida. Na primeira e filosófica, a biologia teórica é a lógica e a metodologia da ciência dos organismos. No segundo sentido, a biologia teórica denota “um ramo da ciência natural que está relacionado à biologia descritiva e experimental da mesma maneira em que a física teórica está relacionada à física experimental” (BERTALANFFY, 1933, p. 5). Bertalanffy pensou a biologia teórica em ambos os sentidos, sendo necessária como “a coroa de toda a estrutura da ciência da vida” (BERTALANFFY, 1933, p. 21).

A tarefa da biologia teórica era estabelecer o que já havia sido descoberto na pesquisa biológica por meio de um conhecimento geral sólido, com o objetivo de construir um sistema unitário. Para tanto, foi necessária uma análise crítica das várias teorias que foram apresentadas em conexão com os fenômenos da vida. Bertalanffy, então, prosseguiu com uma longa discussão sobre a controvérsia da década de 1920 entre as teorias biológicas do mecanismo e do vitalismo.

Os defensores do mecanismo argumentaram que os fenômenos biológicos eram completamente redutíveis a processos físicos e químicos. Segundo esses autores, uma vez que essa redução é feita (e certamente acabaria sendo feita), não haveria mais fenômenos biológicos distintos dos físico-químicos. Por outro lado, os chamados vitalistas negaram a possibilidade de tal redução, baseada na alegação de que algum princípio não-físico-químico existia nos seres vivos que não poderia ser encontrado no mundo inanimado. Este princípio – que diferentes autores denominaram “enteléquia”, diaphysical forces, “élan vital” ou “alma” – seria responsável por orientar e organizar os processos vitais dos mais diversos organismos (BERTALANFFY, 1933, p. 28).

Embora Bertalanffy, contrariamente aos mecanicistas, pensasse que a explicação biológica não poderia ser completamente traduzida estritamente em termos físico-químicos, argumentou que postular uma “substância” distinta e mística da vida não era uma solução científica aceitável para o problema em questão. Também apontou que o mecanismo contra o vitalismo era uma falsa dicotomia porque essas duas visões diferiam tanto em suas posições metodológicas quanto metafísicas. Enquanto os mecanicistas “metodológicos” pensavam que as leis físicas eram suficientes para explicar os fenômenos biológicos, os mecanicistas “metafísicos” argumentavam que a realidade última da matéria orgânica e inorgânica era a interação cega dos átomos. Portanto, o vitalismo, ao postular uma substância vital distinta, é a antítese do mecanismo metafísico, mas não necessariamente do mecanismo metodológico:

Do ponto de vista metodológico, no entanto, vemos que “mecanismo” e “vitalismo” de modo algum formam a disjunção mutuamente exclusiva que deveriam ser. Se um “não-mecanicista” deseja negar a suposição de mecanismo metodológico de que as explicações biológicas também devem ser físico-químicas, obviamente não se pretende que a explicação necessária seja “vitalista” (BERTALANFFY, 1933, p. 29).

Essa seria a posição defendida por Bertalanffy. Argumentou que os modos tradicionais de explicação mecanicista eram, em princípio, inadequados para lidar com certas características essenciais dos organismos.[47] Isso porque empregaram o ponto de vista aditivo (ou reducionista) ao tentar reduzir o processo biológico em aspectos físico-químicos. Dessa forma, ignoraram o fato central de que os organismos exibem uma organização acima do nível químico que não poderia ser captada apenas pela análise química. Certamente, os compostos químicos dentro dos organismos são analisáveis da mesma maneira que estão fora dele. Mas há mais no organismo. O organismo são seus compostos físico-químicos mais a maneira como eles são organizados:

Isto é demonstrado pelo experimento bem conhecido de esfregar levemente em um almofariz o plasmódio de um fungo de lodo que está prestes a formar o esporângio. Embora a substância permaneça quantitativamente inalterada, a organização é irrevogavelmente destruída por esses maus-tratos. E enquanto em circunstâncias normais o plasmódio se converte em esporângios formando inúmeros esporos, após a lesão ele se transforma, em ar seco, em uma massa sem estrutura. Se a secagem for evitada, ela se decompõe sob a influência de bactérias, uma mudança que não ocorre no “protoplasma vivo”. Assim, a base da vida repousa sobre algo completamente diferente das propriedades químicas dos compostos encontrados no plasma. Este experimento simples mostra que a destruição da organização significa, ao mesmo tempo, a destruição da vida (BERTALANFFY, 1933, p. 47, itálicos acrescentados).

Portanto, Bertalanffy rejeita ambos os mecanismos, porque não nos dá a compreensão da organização dos processos orgânicos entre si e do vitalismo, pois significa “nada menos que uma renúncia a uma explicação científica dos dados biológicos” (BERTALANFFY, 1933, p. 45). A visão que defendia era a teoria sistêmica do organismo (ou biologia organísmica), que reconhecia que as propriedades vitais dos organismos são propriedades emergentes (ou propriedades do sistema) que surgem da organização dos materiais e processos dentro dos seres vivos (BERTALANFFY, 1933, p. 48).

A teoria sistêmica do organismo, portanto, sustenta que “o todo é mais do que a soma de suas partes”. Com isso, entende-se que o todo não pode ser entendido pela simples soma das propriedades de suas partes estudadas isoladamente. Conjuntos orgânicos não são meros agregados; eles são Gestalten ou “configurações”, ou seja, uma totalidade de elementos que retratam fortes interações. Poderiam, em princípio (mas ainda não na prática), serem reduzidos apenas à combinação de todas as suas partes e relações internas, mas não apenas a suas partes (BERTALANFFY, 1933, p. 54).[48] A implicação que Bertalanffy extrai disso é que todos os níveis de organização do organismo devem ser estudados. Ele cita com aprovação Woodger:

Se o organismo é um sistema hierárquico com uma organização acima do nível químico, então fica claro que requer investigação em todos os níveis, e a investigação de um nível (por exemplo, o químico) não pode substituir a de níveis mais altos. Isso permanece verdadeiro, independentemente da remota possibilidade futura de expressar as propriedades de todos os níveis superiores em termos das relações entre as partes do nível mais baixo (WOODGER, 1929, p. 273).

Bertalanffy aponta que houve desenvolvimentos recentes em outras áreas do conhecimento que também enfatizaram o papel desempenhado por “totalidades” e “organização”. Na psicologia, a teoria da Gestalt foi originada em oposição ao atomismo das teorias associacionistas. Nas ciências naturais, campos como mecânica quântica, química estrutural, cristalografia e física atômica focaram na organização das respectivas partes. Havia, é claro, também teorias e filosofias sociais que tratavam a sociedade e o mundo como totalidades dinâmicas (BERTALANFFY, 1950a, p. 134-6). Na década de 1930, Bertalanffy reagiu a essas tendências trabalhando em uma generalização de suas ideias sobre a biologia organísmica para sistemas em geral. Assim, a teoria geral do sistema nasceu.

Bertalanffy identifica mais do que semelhanças gerais entre os pontos de vista de diversas áreas do conhecimento. Ele vê que existem leis formalmente idênticas ou isomórficas em diferentes campos. A lei exponencial, por exemplo, é empregada no estudo do decaimento do rádio, da reação monomolecular, do crescimento populacional, dos juros compostos, etc. Embora a lei matemática que descreve esses fenômenos seja a mesma, as entidades envolvidas são diferentes ( BERTALANFFY, 1950a, p. 136-7).

As mesmas considerações podem ser feitas sobre outras equações ou sistemas de equações amplamente utilizados. Nestes casos, temos leis caracterizadas pelo fato de que “elas geralmente são válidas para certas classes de complexos ou sistemas, independentemente do tipo especial de entidades envolvidas” (BERTALANFFY, 1950a, 138). São leis gerais do sistema que se aplicam a qualquer sistema de um determinado tipo, independentemente da natureza diferente dos elementos envolvidos. A base científica da teoria da exploração de correspondências formais entre diferentes teorias seria chamada de teoria geral do sistema.

Essas correspondências formais ou homologias estudadas pela teoria geral dos sistemas não são meras analogias (semelhanças superficiais de fenômenos que não correspondem a seus fatores causais nem em suas leis relevantes) nem necessariamente envolvem explicações específicas idênticas (no sentido de substituir formas funcionais específicas por outras gerais) (BERTALANFFY, 1968, p. 84-5). O exemplo dado por Bertalanffy é de um sistema de n equações diferenciais com n variáveis:

Mesmo nesta forma geral, as condições para propriedades como estabilidade ou instabilidade podem ser declaradas. Assim que especificamos as funções, outras propriedades, como integridade, segregação progressiva, centralização progressiva, competição, hierarquia, abertura e finalidade, podem ser deduzidas. Todos esses conceitos, geralmente considerados confusos ou místicos, podem ser definidos e discutidos com precisão pelo uso da linguagem matemática. Ainda mais importante, a teoria geral do sistema poderia facilitar a comunicação entre campos distintos, possibilitando uma transferência mais fácil de modelos, mas, ao mesmo tempo, salvaguardando contra analogias vagas (BERTALANFFY, 1968, p. 34).

O projeto da teoria geral do sistema, portanto, forma um ideal de unificação das várias ciências, baseado não na remota possibilidade de redução de todos os campos na física, mas na alegação de que o mundo apresenta uniformidades estruturais em seus diferentes níveis: físico, químico, biológico e sociológico. Em suma, o “princípio unificador é que encontramos a organização em todos os níveis” (BERTALANFFY, 1968, p. 49).

Quando Bertalanffy tomou conhecimento da cibernética em 1950-1951, começou a reconhecer que havia algumas abordagens diferentes, semelhantes as que havia anteriormente chamado de teoria geral do sistema (POUVREAU, 2014, p. 183). Teoria dos compartimentos, teoria dos conjuntos, teoria dos grafos, teoria das redes, cibernética, teoria da informação, teoria dos autômatos, teoria dos jogos, teoria da decisão e filas, pode-se dizer que todas as teorias lidam com classes gerais inteiras de sistemas. Ele, então, passou a distinguir entre a teoria do sistema geral “clássica” (ou teoria geral do sistema no sentido estrito) e a teoria geral do sistema no sentido amplo. Embora a teoria geral clássica do sistema tratasse apenas de sistemas de equações diferenciais, a teoria geral do sistema em sentido amplo, incluía a teoria geral clássica do sistema e as outras disciplinas que estudavam classes de sistemas (BERTALANFFY, 1968, p. 20-3). Em sentido amplo, então, a teoria geral do sistema é composta de perspectivas científicas e filosóficas sobre o estudo transdisciplinar dos sistemas.

Essa visão da teoria geral do sistema não foi realizada exclusivamente por Bertalanffy. Em meados da década de 1950, ele co-fundou – com o economista Kenneth Boulding, o biólogo Anatol Rapaport e o neurofisiologista Ralph Gerard – a Society for the Advancement of General Systems Theory (SAGST) com o objetivo de estimular a integração e comunicação de pesquisas de sistemas. O plural da palavra sistema expressou a consciência acima mencionada de que havia uma multiplicidade de abordagens válidas para o estudo de sistemas (POUVREAU, 2014, p. 183-5).[49] A sociedade durou até 1987, e entre seus membros havia figuras que também tiveram papéis importantes nas Conferências Macy sobre cibernética, como W. Ross Ashby, Margaret Mead e Heinz von Foerster.

Entre as contribuições feitas pelo próprio Bertalanffy, é importante mencionar sua teoria de sistemas abertos e sua relação com a finalidade. De acordo com a segunda lei da termodinâmica, os sistemas fechados exibem uma tendência geral para entropia ou desordem máxima. Em contraste, no mundo dos vivos, parece existir uma tendência à ordem superior, à medida que os organismos evoluem e se desenvolvem. Como as duas coisas podem ser conciliadas? Bertalanffy responde a essa pergunta concebendo organismos vivos como sistemas abertos.

Diferentemente dos sistemas fechados, onde não há troca de matéria entre seu interior e seu exterior, os sistemas abertos importam e exportam materiais de seu ambiente externo. Assim, “importando moléculas orgânicas complexas, usando sua energia e devolvendo os produtos finais mais simples ao ambiente” (BERTALANFFY, 1950b, p. 26), o organismo se alimenta de fontes de entropia negativa. Mais rigorosamente, temos a seguinte equação para a mudança total de entropia em um sistema aberto (PRIGOGINE, 1955, p. 16):

𝑑𝑆 = 𝑑𝑒𝑆 + 𝑑𝑖𝑆

onde 𝑑𝑆 significa a mudança total de entropia do sistema, 𝑑𝑒𝑆 para a mudança de entropia devido a importação e 𝑑𝑖𝑆 para a mudança devido a processos internos do sistema. De acordo com a segunda lei, 𝑑𝑖𝑆 deve ser não negativo, mas 𝑑𝑒𝑆 pode ser negativo, abrindo assim a possibilidade de que 𝑑𝑆 também possa ser negativo. Portanto, embora o sistema mais o ambiente junto devam exibir um aumento na entropia, o mesmo não é verdade para o sistema aberto em si, o que pode diminuir sua entropia em detrimento do meio ambiente.

Para Bertalanffy, uma diferença importante entre sistemas abertos e fechados é que o primeiro pode exibir equifinalidade. Em sistemas fechados, o estado final do sistema é sempre determinado por suas condições iniciais. Nesse caso, se as condições iniciais ou o processo forem alterados, o estado final também será alterado. Em contraste, a equifinalidade pode ser considerada presente em um sistema onde o mesmo estado final pode ser alcançado a partir de diferentes condições iniciais e de diferentes maneiras – isto é, não pressupõe uma estrutura ou mecanismo predeterminado. Apenas sistemas abertos, trocando materiais com o ambiente e importando entropia negativa, podem exibir um comportamento equifinal (BERTALANFFY, 1950b, p.25). Um exemplo de equifinalidade é o crescimento de larvas, no qual “o mesmo resultado final, ou seja, uma larva típica, é alcançada por um germe normal completo do ouriço-do-mar, por meio germe após separação experimental das células, por dois germes após fusão, ou após translocações das células ”(BERTALANFFY, 1950a, p. 157).

A discussão de Bertalanffy sobre o surgimento da equifinalidade em um sistema (aberto) que se alimenta da entropia negativa se assemelha muito à visão da cibernética do comportamento de busca de objetivos como resultado de mecanismos de informação e feedback negativo. Bertalanffy estava ciente da literatura cibernética emergente, mas sustentava que seu conceito de equifinalidade era o mais geral. Segundo ele, implícito na explicação do comportamento intencional por meio de um mecanismo de retroalimentação foi a assunção de uma estrutura fixa que garantisse o resultado desejado (BERTALANFFY, 1950, p. 159). Essa perspectiva, ao contrário da visão do sistema aberto, não seria adequada para lidar com casos em que a própria estrutura evolui. Assim, o feedback poderia explicar a homeostase, mas não a heterostase:

Conceitos e modelos de equilíbrio, homeostase, ajustamento, etc., são adequados para a manutenção de sistemas, mas inadequados para fenômenos de mudança, diferenciação, evolução, negentropia, produção de estados improváveis, criatividade, construção de tensões, autorrealização, emergência, etc.; como de fato Cannon percebeu quando reconheceu, além da homeostase, uma “heterostase”, incluindo fenômenos da última natureza (BERTALANFFY, 1968, p. 23).

No caso de sistemas orgânicos, Bertalanffy diferencia entre regulações secundárias (devido a mecanismos de feedback) e regulações primárias (devido à equifinalidade em geral):

[…] As principais regulações em sistemas orgânicos, isto é, aquelas que são mais fundamentais e primitivas no desenvolvimento embrionário, assim como na evolução, são de natureza da interação dinâmica. Elas são baseadas no fato de que o organismo vivo é um sistema aberto, mantendo-se em, ou se aproximando de um estado estável. Superpostas são aquelas que podemos chamar de secundárias, e que são controladas por arranjos fixos, especialmente do tipo feedback […] Assim, a dinâmica é o aspecto mais amplo, já que sempre podemos chegar do sistema geral de leis à função maquinal, introduzindo condições de restrição, mas o contrário não é possível (BERTALANFFY, 1968, p. 44).

Bertalanffy, no entanto, não sustentava que todos os tipos de finalidade eram explicáveis por meio da equifinalidade. Havia também verdadeira finalidade ou intencionalidade verdadeira, na qual o comportamento é realmente determinado pela previsão de um objetivo particular, ou seja, em que o objetivo futuro já está presente no pensamento e é usado para direcionar a ação atual. Segundo ele, a verdadeira intencionalidade era uma característica distinta do comportamento humano e tem suas origens ligadas à evolução do simbolismo da linguagem e dos conceitos (BERTALANFFY, 1950a, p. 160).

3.2. Cibernética e GST na ordem sensorial

Em 1918, depois de um ano servindo no exército austríaco na Primeira Guerra Mundial, o jovem Hayek retornou a Viena, sua cidade natal, onde se formaria no ensino médio (Gymnasium) e começaria seus estudos na Universidade de Viena. Oficialmente, ele estudou direito. Na prática, no entanto, obteve uma formação muito mais ampla, frequentando aulas ministradas por bons professores de várias áreas do conhecimento.[50] Isso permitiu a Hayek dedicar-se ao estudo da psicologia em seus primeiros anos de faculdade. Em um período em que passou em Zurique, Hayek trabalhou por algumas semanas no laboratório do anatomista cerebral Constantin von Monakow, traçando feixes de fibras cerebrais (CALDWELL, 2004, p. 151-2).

Em 1920, Hayek começou a escrever um trabalho sobre psicologia motivado para criticar as ideias do pensador positivista Ernst Mach. O psicólogo Adolf Stöhr e o filósofo Alois Riehl leram o rascunho da peça de Hayek e o encorajaram a continuar. Em setembro do mesmo ano, no entanto, foi forçado a deixar de lado este projeto para se preparar para alguns exames de direito. Hayek só voltaria ao seu manuscrito de psicologia vinte e cinco anos depois, em 1945, usando-o como base para seu livro The Sensory Order (1952) (CALDWELL, 2004, p. 137).

Em relação ao estado da psicologia no período entre o primeiro manuscrito de 1920 e a publicação do livro em 1952, o domínio da escola behaviorista merece destaque. O behaviorismo concebia a psicologia como a ciência do comportamento, que deveria ser descrita sem referências definitivas a eventos mentais ou processos psicológicos internos. De acordo com essa corrente de pensamento, as fontes de comportamento seriam encontradas no ambiente externo e não dentro da cabeça do indivíduo. Assim, na explicação científica do comportamento, termos que fizessem referência a estados mentais deveriam ser eliminados ou reduzidos a conceitos comportamentais sólidos (GRAHAM, 2015).

É difícil encontrar mais duas posições contrastantes do que o behaviorismo e o subjetivismo defendidos pela Escola Austríaca. De fato, o behaviorismo foi fortemente atacado por Hayek como uma forma de “cientificismo”, ou seja, a transposição mecânica e acrítica dos métodos das ciências naturais para as ciências sociais. Ele particularmente atacou o behaviorismo por seu caráter “objetivista”, em oposição ao subjetivismo que defendeu como a única abordagem legítima e verdadeiramente científica para as ciências sociais (HAYEK, [1943] 2010). Segundo Hayek, os fatos das ciências sociais não poderiam ser descritos em termos do ambiente externo e das propriedades físicas das coisas, mas apenas pela crença de que os indivíduos se formaram entorno dos objetos de seu ambiente.

Tome coisas como ferramentas, alimentos, remédios, armas, palavras, sentenças, comunicações e atos de produção – ou qualquer instância particular de qualquer uma delas. Acredito que estas sejam amostras justas do tipo de objetos da atividade humana que ocorrem constantemente nas ciências sociais. Vê-se facilmente que todos esses conceitos (e o mesmo acontece com instâncias mais concretas) não se referem a algumas propriedades objetivas possuídas pelas coisas, ou que o observador pode descobrir sobre elas, mas sobre as visões que outras pessoas têm sobre elas. […] São todos exemplos do que às vezes são chamados de “conceitos teleológicos”, isto é, eles podem ser definidos apenas indicando relações entre três termos: um propósito, alguém que mantém esse propósito, e um objeto que aquela pessoa pensa ser um meio adequado para esse fim (HAYEK, [1943] 2014, p. 80).

A economia não fora inteiramente afetada pelo domínio do behaviorismo no campo da psicologia. O economista americano Wesley Clark Mitchell, por exemplo, argumentou que a teoria econômica deveria passar por uma reformulação radical através da incorporação de fundamentos psicológicos que, segundo ele, seriam fornecidos pelo behaviorismo (MITCHELL, 1930).[51] Para um economista tão avesso ao behaviorismo como Hayek, era um momento propício para o retorno e a conclusão de seu manuscrito sobre psicologia, e é isso que começou a fazer em 1945, completando apenas o projeto em 1952.

No período entre seu primeiro manuscrito e a conclusão do livro, houve trabalhos independentes que corroboraram as conclusões anteriormente alcançadas por Hayek e que também lhe forneceram ferramentas conceituais para refletir sobre os problemas que queria abordar. Entre esses trabalhos, podemos destacar aqueles de autoria do biólogo e criador da teoria geral dos sistemas, Ludwig von Bertalanffy, e os de Wiener, Rosenblueth, McCulloch, Pitts e Ashby, pesquisadores pioneiros no campo que se tornaria conhecido como Cibernética.

3.2.1. TSO e a busca de um comportamento intencional

O ponto de partida de Hayek no TSO é a existência de duas ordens diferentes: a ordem física e a sensorial. Na ordem física, os objetos são classificados como semelhantes ou diferentes de acordo com a produção de eventos externos semelhantes ou diferentes. Mas na ordem sensorial, os objetos são classificados de acordo com suas propriedades sensoriais (cores, sons etc.). Que estas são duas ordens distintas é mostrado pelo fato de que não há correspondência de um para um entre elas. Objetos classificados como do mesmo tipo na ordem sensorial podem ser classificados como tipos diferentes na ordem física e vice-versa (HAYEK, 1952, p. 1-3).

O que Hayek queria explicar era como “a existência de um mundo fenomenal que é diferente do mundo físico” (HAYEK, 1952, p. 28) poderia ser conciliada com o fato de que, em última análise, a ordem sensorial é uma parte da ordem física, isto é, que o cérebro é feito de matéria física que também obedece às mesmas leis da física que qualquer outro evento físico. A constituição da mente, portanto, deveria ser explicada por meio da física: “Queremos saber o tipo de processo pelo qual uma dada situação física é transformada em um certo quadro fenomenal” (HAYEK, 1952, p. 7).

Esse é um modo particular de formular o que na filosofia é conhecido como problema mente-corpo.[52] Dois aspectos desse problema são frequentemente enfatizados pelos filósofos da mente: o da qualia e da intencionalidade. Qualia refere-se a características subjetivas da experiência consciente; sentimentos e sensações acessíveis apenas à própria pessoa. Intencionalidade denota o direcionamento mostrado por muitos fenômenos mentais que têm significado no sentido de que eles são sobre outra coisa. O filósofo Edward Feser caracteriza os problemas colocados pela qualia e intencionalidade da seguinte maneira:

Qualia são consideradas filosoficamente problemáticas na medida em que é difícil ver como a sua subjetividade pode ser explicada em termos das características objetivas do cérebro e do sistema nervoso. […] A intencionalidade é problemática na medida em que é difícil ver como os processos no cérebro podem ter um significado mais intrínseco do que rabiscos de tinta no papel ou ruídos gerados pela laringe (FESER, 2006, p. 308-9).

Vamos considerar primeiro como Hayek lidou com qualia. Segundo ele, o sistema nervoso central exibe uma estrutura de fibras que permite classificar os impulsos neurais, convertendo-os na ordem das qualidades sensoriais. Para Hayek, portanto, o surgimento de qualidades não se deve a atributos originais de impulsos individuais, mas resulta de todo o sistema de conexões neurais através das quais esse impulso é transmitido. Essa “estrutura de fibras” ou “sistema de conexões neurais” é desenvolvida no decorrer da evolução das espécies e do desenvolvimento do indivíduo:

[…] é, portanto, a posição do impulso individual ou grupo de impulsos em todo o sistema de tais conexões, que lhe confere sua qualidade distintiva; que esse sistema de conexões é adquirido no curso do desenvolvimento da espécie e do indivíduo por uma espécie de “experiência” ou “aprendizado”; e que reproduz, portanto, em cada estágio de seu desenvolvimento, certas relações existentes no ambiente físico entre os estímulos que evocam os impulsos (HAYEK, 1952, p. 53).

A solução de Hayek para o problema da qualia, então, pressupõe o conceito de classificação. Como Feser (2006, p. 299) observou, no entanto, a classificação “parece claramente ser um processo intencional, na medida em que as classificações realizadas são tomadas para ter sentido ou significado, em vez de serem meras operações mecânicas”. Portanto, no pensamento de Hayek, a existência de qualia pressupõe a existência de intencionalidade, que vamos discutir agora.

Considere primeiro a abordagem de Hayek ao problema relativamente simples dos movimentos corporais intencionais. Ele endossou totalmente a explicação da coordenação motora dada pela cibernética (como ilustrado pelo exemplo de Wiener de pegar um lápis). Para ele, o feedback (negativo) está presente na interação entre os impulsos proprioceptivos (sensação de força de movimento e posição relativa de partes do corpo próximas) e exteroceptivos (percepção do mundo exterior).

A escolha de um tipo de padrão de comportamento e seu controle, modificação e ajuste contínuos enquanto ocorre, será um processo no qual os vários fatores agem sucessivamente para produzir o resultado final. […] Em conexão com esses ajustes contínuos, feitos enquanto o movimento prossegue, a interação entre os impulsos exteroceptivos e proprioceptivos e a operação do princípio de “feedback” tornam-se de significado especial. […] No primeiro padrão de movimento iniciado não será totalmente bem-sucedido. Os atuais relatórios sensoriais sobre o que está acontecendo serão comparados com as expectativas, e a diferença entre os dois funcionará como um estímulo adicional indicando as correções necessárias. O resultado de cada passo no curso das ações será, por assim dizer, avaliado em relação aos resultados esperados, e qualquer diferença servirá como um indicador das correções necessárias (HAYEK, 1952, p. 95).

De fato, em uma nota de rodapé colocada na mesma página que a passagem acima citada, Hayek referencia seus leitores aos trabalhos de Wiener (1948a, 1948b), McCulloch (1948) e Ashby (1947, 1948, 1949), todos quem eram membros importantes do movimento cibernético. Ele não só expressou a aprovação das descrições desses autores sobre o funcionamento dos movimentos do corpo, mas também endossou sua visão de que o comportamento intencional não é um atributo peculiar dos seres vivos, mas também pode ser encontrado em alguns tipos de máquinas.

Segundo Hayek, um sistema exibe um comportamento intencional se: (i) pode fazer algum tipo de representação (ou “modelo”) dos resultados possíveis e desejáveis de diferentes cursos de ação em uma dada situação existente e (ii) suas ações são o resultado de um processo de seleção entre os diferentes cursos de ação que têm resultados desejáveis. No caso do cérebro humano, padrões de impulsos no sistema nervoso formam um modelo do ambiente que pré-seleciona, entre os efeitos de cursos alternativos, os desejáveis. Então, o curso efetivo de ação é escolhido entre esses pré-selecionados que tomam o “caminho de menor resistência” (isto é, o curso cuja representação está associada a qualidades mais atraentes e menos repulsivas). Além disso, esse modelo (que determina o que é possível, pré-selecionado e selecionado) evolui constantemente com a experimentação e o contraste entre a expectativa e a realidade (HAYEK, 1952, p. 124-6).

O cérebro humano, no entanto, não é único em sua capacidade de gerar um comportamento intencional. Existem organismos e máquinas muito mais simples e podem ser construídos agindo de acordo com (i) e (ii) e, portanto, também exibem intencionalidade. Aqui Hayek tem em mente máquinas como a arma antiaérea de Wiener.

Que tal orientação, por meio de um modelo que reproduz e testa experimentalmente as possibilidades oferecidas por uma determinada situação pode produzir uma ação que seja propositada a qualquer grau desejado, é demonstrada pelo fato de que as máquinas poderiam ser produzidas nesse princípio (e que algumas tais como o preditor de armas antiaéreas, ou os pilotos automáticos para aeronaves, foram realmente produzidos) que mostram todas as características do comportamento intencional (HAYEK, 1952, p. 126).

Tais máquinas são primitivas em comparação com o cérebro humano. Por exemplo, elas podem levar em conta muito menos fatos em seu ambiente, não têm a capacidade de aprender com a experiência, e não exibem a característica da consciência. No entanto, em relação à intencionalidade, Hayek as vê como diferindo do cérebro humano em grau, mas não em espécie.

Embora discuta com mais detalhes a explicação do comportamento intencional dado pela cibernética, Hayek elogiou o trabalho de Bertalanffy sobre equifinalidade em sistemas abertos como a contribuição mais promissora e útil para a elucidação do problema de como a intencionalidade é gerada pelo funcionamento do cérebro humano (HAYEK, 1952, p. 83). Curiosamente, ele não menciona a noção de verdadeira finalidade de Bertalanffy,[53] que o próprio Bertalanffy acreditava ser característico do comportamento mais intencional dos seres humanos. Mas Hayek parece ter em mente algo semelhante à verdadeira finalidade de Bertalanffy como o fenômeno final a ser explicado quando afirmava que uma explicação totalmente satisfatória da intencionalidade humana requeria mais pesquisas:

[…] deve ser salientado, no entanto, que em um aspecto em que a tarefa que estamos realizando é mais necessitada de uma base sólida, a biologia teórica está apenas começando a fornecer as ferramentas e conceitos teóricos necessários. Uma explicação adequada do caráter altamente intencional da ação do sistema nervoso central exigiria como sua base uma teoria biológica mais geralmente aceita sobre a natureza dos processos adaptativos e intencionais do que ainda se tem disponível (HAYEK, 1952, p. 80).

Hayek, portanto, não acreditava que o comportamento “altamente intencional” do cérebro humano pudesse ser adequadamente explicado apenas por meio dos conceitos de feedback negativo e equifinalidade. No entanto, endossou ambos como fornecendo boas explicações, embora não totalmente satisfatórias, do comportamento proposital relativamente simples. Antes de prosseguirmos, é importante esclarecer que não afirmo que Hayek tenha traçado seus pontos de vista fundamentais sobre o comportamento intencional da cibernética e teoria geral do sistema. De fato, parece que seus pontos de vista já haviam sido formados antes que tivesse qualquer contato com as ideias de ambos.[54] O que afirmo é que Hayek fez um uso importante da equifinalidade e, especialmente, do feedback negativo como evidência científica a favor de sua teoria da existência de múltiplos graus de intencionalidade em máquinas, organismos inferiores e homens.

3.2.2. Psicologia teórica e não-reducionismo

Vimos como Hayek tentou explicar o surgimento de fenômenos mentais a partir de forças físicas com a ajuda da cibernética e do GST. Para enfrentar o desafio comportamentalista à economia subjetivista, porém, ele precisaria de mais do que isso. Para justificar o uso de categorias mentalistas, Hayek teria que explicar por que os fenômenos mentais não poderiam ser reduzidos aos constituintes físicos dos quais emergem.

A tarefa de Hayek tinha paralelos próximos com as primeiras contribuições de Bertalanffy para a biologia teórica. É interessante notar que Hayek afirma que The Sensory Order é – como seu subtítulo indica – “uma investigação sobre os fundamentos da psicologia teórica”. TSO, embora, como Birner (2015, p. 169) corretamente enfatizou, “não é primariamente um livro sobre psicologia, mas sobre a teoria da mente.” A psicologia teórica aqui deve ser entendida no mesmo sentido da biologia teórica de Bertalanffy, que, como vimos, incluía aspectos filosóficos. A psicologia teórica de Hayek era sobre a natureza da relação entre a ordem mental e seus constituintes físicos, da mesma forma que a biologia teórica de Bertalanffy explorou a relação entre o todo biológico e seus componentes físico-químicos.

Não é surpreendente, então, quando Hayek escreve que tudo o que “a biologia teórica tem a dizer a esse respeito sobre o significado das propriedades estruturais como distintas das propriedades dos elementos, e sobre o significado de ‘organização’ é diretamente aplicável ao nosso problema” (HAYEK, 1952, p. 47), referindo-se às obras de Bertalanffy e Woodger em uma nota de rodapé. Ele também afirma que o que tentou no livro foi “um esboço de uma ‘psicologia teórica’ no mesmo sentido em que falamos de física teórica ou biologia teórica” (HAYEK, 1952, p. 184). Como Caldwell (2004, p. 278) já apontou, Hayek parece dever a Bertalanffy todas as referências que faz às descobertas da biologia teórica.[55]

Hayek, em sua teoria da mente, fez uma caracterização semelhante a feita por Bertalanffy em relação às propriedades emergentes ou estruturais como decorrentes da organização ou das relações entre as partes de um todo. Como vimos, Bertalanffy argumentou que os elementos de um organismo tinham propriedades físico-químicas que podiam ser descobertas estudando-se esses elementos isoladamente, mas também possuíam propriedades obtidas da maneira como as partes eram relacionadas ou organizadas. Da mesma forma, Hayek escreve sobre como “independentemente das propriedades que esses eventos [neurais] possuirão por si mesmos, possuirão outros somente como resultado de sua posição na ordem dos eventos neurais interconectados” (HAYEK, 1952, p. 46). Para Hayek, então, como para Bertalanffy, o todo é maior que a mera soma de suas partes porque uma “ordem envolve elementos mais certas relações entre eles” (HAYEK 1952, p. 47) e um arranjo de relações pode gerar propriedades emergentes que não seria encontrado nos elementos isoladamente.

No capítulo “Consequências filosóficas” de seu livro, Hayek discute a possibilidade da redução dos fenômenos mentais aos físicos. Como vimos, Bertalanffy teve uma discussão semelhante em relação à redutibilidade da biologia na física. No final, Bertalanffy deixou em aberto a questão de saber se a biologia seria reduzida à física, concentrando suas críticas nos tipos existentes de redução de “mecanismo aditivo” que não levaram em conta que a organização era uma característica central dos organismos. Até que a questão da redutibilidade fosse resolvida, insistiu na busca de leis científicas em todos os níveis da realidade. Era completamente legítimo, então, postular leis biológicas que não eram dedutíveis da teoria física atual.

Hayek assumiu uma posição semelhante à de Bertalanffy, mas foi além dele afirmando uma absoluta irredutibilidade dos fenômenos mentais. De acordo com Hayek, não é o caso que uma descrição dualista do mundo seja necessária apenas até que uma redução remota do mental para o físico seja feita pelos cientistas. Para ele, essa redução não poderia ser feita.[56] Ao mesmo tempo, a teoria de Hayek era materialista e fisicalista: em última análise, a mente era “determinada pelo mesmo tipo de forças que governam esse mundo [físico]” (HAYEK, 1952, p. p. 178)

Ele manteve tal posição aparentemente contraditória, apontando para o fato de que, quando os homens tentavam reduzir os fenômenos mentais aos físicos, o cérebro humano era tanto o objeto a ser explicado quanto o aparato explicativo. De acordo com sua teoria, no entanto, uma explicação de detalhes só era possível se o aparato explicativo tivesse um grau de complexidade maior do que o objeto a ser explicado. Portanto, “toda a ideia da mente explicando a si mesma é uma contradição lógica” (HAYEK, 1952, p. 192).

Lewis caracteriza a posição de Hayek sobre o problema mente-corpo como um exemplo de materialismo não-redutivo ou dualismo de propriedade:

É materialista no sentido de retratar o cérebro como consistindo, em última análise, em nada mais que matéria física; mas é não-redutivo, no entanto, porque sugere que a interação estruturada entre essas partículas físicas dá origem a propriedades mentais distintas, ontologicamente irredutíveis (daí, o dualismo de propriedade) (LEWIS, 2015, p. 11-2).

No entanto, a descrição de Lewis não é precisa de duas maneiras. Em primeiro lugar, embora seja verdade que, para Hayek, as propriedades da ordem sensorial não eram redutíveis apenas às propriedades físicas dos neurônios individuais, também é verdade que elas podem ser reduzidas a essas propriedades e às relações entre elas. A resposta à questão de saber se Hayek acredita em “propriedades mentais ontologicamente irredutíveis” depende do que se considera serem os elementos ontológicos da realidade. Se considerarmos não apenas as propriedades, mas também as relações como elementos ontológicos, não pode haver dúvida de que as propriedades emergentes são vistas por Hayek como ontologicamente redutíveis.

Em segundo lugar, a razão pela qual Hayek considerava que os homens não podiam reduzir os fenômenos mentais para os físicos não tem relação direta com a única presença de propriedades emergentes no cérebro. Hayek nunca nega a possibilidade de redução de conjuntos mostrando propriedades emergentes em seus elementos e suas relações, se esses conjuntos mostrarem um baixo grau de complexidade. Sua afirmação de que os fenômenos mentais são irredutíveis não se baseia na afirmação de que as propriedades emergentes são inerentemente irredutíveis, mas em sua alegação de que existem limites para a capacidade explicativa do cérebro humano que proíbem a explicação detalhada humana de fenômenos com alto grau de complexidade.[57]

Segundo Lewis, a “perspectiva baseada na emergência” de Hayek descreve a mente humana como tendo a “capacidade de imbuir eventos com significado subjetivo e iniciar novos cursos de ação” (LEWIS, 2015, p. 12), contrariando Birner (1999, p. 12). p. 75) que afirma que “o reducionismo fisicalista de Hayek se revela uma camisa de força que não deixa espaço para nenhum papel ativo e criativo do homem”. Os dois autores, no entanto, parecem definir “criatividade” de maneiras diferentes: para Lewis, significa surgimento de propriedades ontologicamente irredutíveis, enquanto para Birner parece denotar não-determinismo. Se assim for, as suas reivindicações não são incompatíveis. Como argumentamos, a posição de Hayek pode ser descrita como retratando “novas” propriedades emergentes ontologicamente não redutíveis dependendo da visão do que conta como elementos ontológicos. Ao mesmo tempo, a teoria de Hayek é completamente determinista, no sentido de que “toda ação humana é causalmente determinada por processos físicos” (HAYEK, 1952, p. 193).

A intenção de Hayek no TSO, no entanto, não era defender a existência da criatividade humana no sentido de Birner. Seu objetivo era argumentar que a abordagem subjetivista das ciências sociais não era apenas legítima, mas a única verdadeiramente científica. Tomando emprestado os conceitos de feedback negativo e equifinalidade da cibernética e da teoria geral do sistema, Hayek foi capaz de argumentar que o comportamento intencional e o determinismo não eram incompatíveis. O propósito, portanto, não deve ser visto como um conceito metafísico sem sentido, mas um conceito científico fundamentado em conhecimento biológico. Alegando ainda que o cérebro não poderia explicar-se completamente, Hayek conclui que os eventos mentais não poderiam ser reduzidos a eventos físicos.

Nossa conclusão, portanto, deve ser a de que para nós, a mente deve permanecer para sempre um reino próprio, que só podemos conhecer através da experiência direta, mas que nunca poderemos explicar completamente ou “reduzir” a alguma outra coisa. Embora saibamos que os eventos mentais do tipo que experimentamos podem ser produzidos pelas mesmas forças que operam no restante da natureza, nunca poderemos dizer quais são os eventos físicos particulares que “correspondem” a um evento mental específico. (HAYEK, 1952, p. 194).

Portanto, o comportamento humano intencional, que sabemos ser explicável em princípio por fenômenos físicos (e é totalmente compatível com o determinismo físico), não pode, na prática, ser explicado em detalhes. Incapaz de recorrer à física, as ciências da ação humana só poderiam basear-se em “nosso conhecimento direto dos diferentes tipos de eventos mentais, que para nós devem permanecer entidades irredutíveis” (HAYEK, 1952, p. 191). Assim, o “subjetivismo científico” de Hayek (CALDWELL, 1994) foi formulado no qual “uma teoria da mente fisicalista serve para salvar a posição autônoma dos fenômenos intencionais e suas consequências, incluindo o subjetivismo no sentido metodológico” (BIRNER, 2015, p. 173).

No início do século XX, o behaviorismo foi influente na psicologia e alegou que as descrições mentalistas de eventos – como as dos economistas subjetivistas – não tinham lugar na análise científica rigorosa. A tarefa de Hayek no TSO era mostrar que o contrário era verdade: não apenas era inteiramente legítimo fazer uma descrição subjetivista do comportamento humano, como também esse era o único procedimento verdadeiramente científico. A fim de apoiar essa forte afirmação, Hayek abordaria o problema mente-corpo, usando argumentos filosóficos e científicos que tomava emprestados da cibernética e da teoria geral do sistema.

Como vimos, o problema mente-corpo envolve a explicação de qualia e intencionalidade. A explicação de Hayek para a qualia envolve o conceito intencional de “classificação” e, portanto, pressupõe a solução do problema da intencionalidade. Para os fenômenos da intencionalidade, por sua vez, dá a seguinte explicação do princípio de seu funcionamento: “a orientação por um modelo que reproduz e testa experimentalmente as possibilidades oferecidas por uma dada situação pode produzir ação que é proposital a qualquer grau desejado” (HAYEK, 1952, p. 26).

Da máquina antiaérea de Wiener ao cérebro humano, todo comportamento proposital seria explicável por esse princípio. A diferença básica entre esses sistemas intencionais distintos não reside em sua natureza, mas em seus diferentes graus de complexidade. Uma diferença apenas no grau de complexidade pode gerar uma diferença na natureza da explicação permitida aos fenômenos. Tanto a máquina antiaérea quanto o cérebro humano são, ao mesmo tempo, intencionais e, em princípio, inteiramente redutíveis à física. No entanto, como o próprio cérebro humano é o aparato de explicação a ser usado, só poderíamos explicar em detalhes os fenômenos com um grau de complexidade menor do que o exibido pelo próprio cérebro. Portanto, na prática, os homens não podem reduzir à física o cérebro humano, mas podem fazê-lo (e o fizeram) a outros sistemas mais propositais, como a máquina antiaérea.

Ao identificar o comportamento intencional humano como tendo a mesma natureza que o comportamento dos sistemas de retroalimentação negativa e dos sistemas abertos equifinais, Hayek foi capaz de afirmar que a existência de qualidades e propósitos subjetivos estavam fundamentadas nas descobertas rigorosas das ciências naturais. Ao argumentar ainda que o cérebro se explicando completamente era uma contradição lógica, sustentava que a subjetividade humana, embora explicável em princípio pelas ciências naturais, não poderia ser tão detalhada, tornando assim sua redução a eventos físicos impossível na prática. Consequentemente, as ciências sociais devem começar com fenômenos mentais, que devem ser tomados como dados irredutíveis. O subjetivismo é sua única abordagem verdadeiramente científica.

3.2.3. Comportamento proposital, mais uma vez: o manuscrito The Within Systems…

Hayek conseguiu dar uma solução satisfatória para o problema mente-corpo? Não é bem assim, pois há uma lacuna clara em sua tese. Essa lacuna estava em sua afirmação de que a diferença entre sistemas simples e propositais, como a máquina antiaérea de Wiener e máquinas mais complexas, como o cérebro humano, era apenas uma questão de grau. Em que sentido poderiam ambos ser considerados como o mesmo tipo de fenômeno, se a intencionalidade humana apresenta características importantes, como comunicar o significado, que parece estar ausente em qualquer máquina concebível?

Embora Hayek tenha esboçado uma explicação do surgimento do comportamento intencional em geral, não explicou – nem mesmo em princípio – os tipos de propósitos “mais elevados” que encontramos no cérebro humano, mas não em máquinas simples. Como já indicamos, Hayek mostrou consciência desse problema no TSO quando escreveu:

Uma explicação adequada do caráter altamente intencional da ação do sistema nervoso central exigiria como base uma teoria biológica mais geralmente aceita sobre a natureza dos processos adaptativos e intencionais do que ainda se tem disponível (HAYEK, 1952, p. 80).

Como Birner (2009, p. 188-90) mostrou, a reação de Karl Popper ao TSO logo após sua publicação torna explícita essa fraqueza na posição de Hayek. Em uma carta para Hayek no mesmo ano em que o livro foi publicado, Popper escreve:

Não tenho certeza se alguém poderia descrever sua teoria como uma teoria causal da ordem sensorial. Eu acho que, de fato, isso é possível. Mas então, seria também o esboço de uma teoria causal da mente. Mas acho que posso mostrar que uma teoria causal da mente não pode ser verdadeira (embora não possa mostrar isso da ordem sensorial); mais precisamente, acho que posso mostrar a impossibilidade de uma teoria casual da linguagem humana […]. Agora estou escrevendo um artigo sobre a impossibilidade de uma teoria causal da linguagem humana e sua influência sobre o problema corpo-mente, que deve terminar em dez dias (Hayek Collection, Caixa 44, Pasta 1).

No artigo prometido, publicado em 1953, Popper argumenta que uma teoria causal da mente humana não poderia explicar algumas das funções exibidas pela linguagem humana. A partir do psicólogo e lingüista Karl Bülher, Popper diz que é possível distinguir pelo menos quatro diferentes funções da linguagem. Do nível mais baixo ao mais alto, eram: (1) a função expressiva ou sintomática; (2) a função estimuladora ou sinalizadora; (3) a função descritiva e (4) a função argumentativa. Uma das principais teses do artigo foi que “qualquer teoria fisicalista causal do comportamento linguístico só pode ser uma teoria das duas funções inferiores da linguagem” (POPPER, 1953).

A teoria da mente de Hayek era fisiológica causal, afirmando que todos os fenômenos mentais (incluindo o comportamento linguístico) poderiam, em princípio – embora não na prática – ser reduzidos aos físicos. Para responder às alegações de Popper, Hayek teria que elaborar mais sua teoria com o objetivo de fornecer explicações sobre o princípio desses fenômenos. Parece que foi isso que o motivou a escrever seu manuscrito inacabado chamado Within Systems and About Systems: A Statement of Some Problems of a Theory of Communication:

Se queremos alcançar nosso objetivo, devemos ter sucesso em produzir modelos que produzam tipos de funções mentais como “pensar” ou “ter uma intenção” ou “jogar”, ou “descrever”, ou “comunicar um significado”, ou “elaborar uma inferência” e similares […]. Será suficiente se pudermos construir uma instância que possua todas as características que são comuns a todas as instâncias às quais comumente aplicamos qualquer um desses termos” (Hayek Collection, Caixa 129, Pasta 7, p. 3).

Neste artigo, ele postula sistemas[58] (que poderiam ser organismos ou máquinas) capazes do mesmo processo de classificação que descreveu no TSO. Após uma longa discussão preliminar das características do sistema e de sua interação isolada com seu ambiente, Hayek prossegue analisando a comunicação entre dois sistemas do tipo descrito. Esses dois sistemas possuíam estruturas idênticas e diferiam apenas em suas respectivas memórias de curto prazo. A estratégia de Hayek aqui é considerar este caso simples para fornecer uma explicação do princípio para os três primeiros dos quatro níveis de linguagem discutidos por Popper.

Um sistema que expressa seu estado interno para outro sistema similar (a primeira função da linguagem) não envolve maior complicação do que um sistema interagindo com seu ambiente. Da mesma forma que um sistema de classificação pode aprender a interpretar e prever eventos em seu ambiente, também pode aprender a interpretar e prever as ações de um sistema que expressa seu estado interno. A segunda função da linguagem (a estimuladora) é executada quando um sistema comunica um sinal que regularmente causa uma resposta particular de outro sistema (ou uma resposta pertencente a uma classe particular).

Novamente, a situação neste segundo caso não é significativamente diferente da situação de um sistema que interage apenas com o seu ambiente. Isso foi ilustrado no mesmo artigo por um exemplo que Hayek dá de um sistema cibernético que regula seu estoque de combustível através de feedback negativo. Quando o estoque de combustível é baixo, a resposta do sistema seria agir de forma a obter mais combustível de seu ambiente. Nenhuma dificuldade adicional surge se supusermos que a informação sobre o nível de combustível é transmitida por outro sistema. Este segundo sistema comunicaria um sinal que poderia desencadear uma reação do primeiro sistema, realizando assim a função estimuladora da linguagem.

Com seu esquema geral, Hayek conseguiu gerar as duas primeiras funções da linguagem. O papel termina abruptamente, no meio de sua tentativa de explicar a terceira função (descritiva) da linguagem, isto é, explicando a comunicação de um símbolo que evoca a mesma classe de respostas tanto no emissor quanto no receptor. Ainda pior: Hayek não menciona a função argumentativa, deixando inexplicáveis duas das quatro funções da linguagem de Popper. Hayek, portanto, “falhou em explicar uma ou mais funções superiores da linguagem dentro de sua teoria – como Popper havia previsto!” (BIRNER, 2009, p. 189, itálico no original).

Hayek, em última análise, não conseguiu explicar em princípio o comportamento altamente intencional exibido pelos seres humanos, conforme ilustrado por seus usos da linguagem. Parece que nem feedback negativo nem equifinalidade foram suficientes para dar conta do funcionamento do propósito humano, deixando um Hayek não tão bem tecnicamente treinado indefeso diante desse enorme desafio. O uso de Hayek da cibernética e teoria geral do sistema, no entanto, não termina aqui. Quando Hayek, depois de aprender sobre esses movimentos intelectuais, voltou sua atenção da ordem sensorial para a ordem social, viu que poderia reafirmar e elaborar suas ideias usando os mesmos conceitos. Máquinas e organismos autorreguladores, de análogos ao cérebro humano, seriam usados por Hayek como análogos da sociedade humana.

3.3. Cibernética e GST na ordem social

3.3.1. Cérebro, sociedade e o problema do conhecimento

O que o cérebro humano tem em comum com a sociedade humana? Muito, Hayek responderia. Depois de terminar o TSO, usaria muitas ideias que desenvolveu neste livro no estudo dos fenômenos sociais e da metodologia da ciência. Devemos evitar, no entanto, a tentação de descrever o TSO como uma espécie de fundamento para seus trabalhos posteriores. A relação entre o TSO e os outros trabalhos de Hayek é muito mais complicada. Como o próprio Hayek apontou, as influências fluem não apenas do TSO para seus outros trabalhos, mas também o contrário:

Meus colegas nas ciências sociais acham meu estudo sobre a ordem sensorial desinteressante ou indigesto […] Mas o trabalho nele ajudou muito a esclarecer minha mente sobre o que é muito relevante para a teoria social. Minha concepção de evolução, de uma ordem espontânea e dos métodos e limites de nossos esforços para explicar fenômenos complexos foi formada em grande parte no decorrer do trabalho desse livro. Como estava usando o trabalho que fiz em meus dias de estudante sobre psicologia teórica na formação de minhas visões sobre a metodologia da ciência social, então trabalhei com minhas ideias anteriores sobre psicologia junto com que aprendi na ciência social, ajudando muito em todos os meus desenvolvimentos científicos posteriores (HAYEK, [1979] 1998, p. 199).

É importante esclarecer isso para evitar possíveis mal-entendidos da discussão que será oferecida nesta seção. No presente trabalho, não estamos interessados em traçar toda relação entre os trabalhos posteriores de TSO e Hayek.[59] Nosso objetivo é mais humilde, analisar essa questão apenas do ponto de vista das ideias e conceitos da cibernética e da teoria geral do sistema. Restringindo o escopo da análise dessa maneira, e lembrando que Hayek não faz referência a essas teorias antes de começar a trabalhar na TSO,[60] fica evidente que o uso dessas ideias procedeu cronologicamente da TSO para suas outras obras. Nossa tarefa, portanto, será descrever como as ideias da cibernética e da teoria geral do sistema, usadas inicialmente por Hayek para entender a ordem sensorial, se tornaram parte da maneira como ele concebia as ordens sociais (e as ordens espontâneas em geral).

Em 1977, Hayek foi convidado para fazer uma apresentação, The Sensory Order After 25 Years, em uma conferência organizada por psicólogos que estavam redescobrindo seu livro há muito negligenciado sobre psicologia teórica.[61] Na discussão que se seguiu à apresentação, um membro da plateia pediu a Hayek que elaborasse os paralelos entre o cérebro humano e o sistema econômico que estavam implícitos em sua teoria. Sua resposta foi a seguinte:

Em ambos os casos, temos fenômenos complexos nos quais há a necessidade de um método de utilização de conhecimento amplamente disperso. O ponto essencial é que cada membro (neurônio, comprador ou vendedor) é induzido a fazer o que, em todas as circunstâncias, beneficia o sistema. Cada membro pode ser usado para atender necessidades das quais ele não sabe absolutamente nada. Agora, isso significa que na ordem maior (digamos, econômica), o conhecimento é utilizado de forma não planejada, centralizada ou mesmo consciente […] Em todo o nosso sistema de ações, somos individualmente guiados por informações locais – informações sobre mais fatos do que qualquer outra pessoa ou autoridade pode possivelmente possuir. E o sistema de preço e mercado é, nesse sentido, um sistema de comunicação, que transmite (na forma de preços, determinada apenas no mercado competitivo) as informações disponíveis que cada indivíduo precisa para agir, e agir racionalmente (HAYEK, 1982, págs. 325-6).

Segundo Hayek, tanto a sociedade quanto o cérebro são sistemas complexos de auto-organização, mas a palavra-chave aqui é informação (ou, alternativamente, conhecimento) (SCHEALL, 2015; HAYEK, [1973] 1998, p. XVII-XIX). Estes são sistemas nos quais a informação possuída pelo todo é dispersa entre suas numerosas partes e na qual cada parte não poderia compreender o conhecimento do todo. Em ambos os sistemas, a coordenação mútua das partes (neurônio ou indivíduo) é alcançada não pelo domínio explícito de cada parte de uma grande quantidade de informações do sistema (cérebro ou sociedade), mas pelo uso tácito de informações implicitamente transmitidas pela operação das regras que limitam a relação entre as partes (como a estrutura dos caminhos de disparo neurais e o sistema de preços).

Isso nos leva de volta ao artigo seminal de Hayek, Economics and Knowledge, no qual introduziu explicitamente o amplo e interdisciplinar programa de pesquisa de coordenação que buscaria até o fim de sua vida. Vale a pena citar a seguinte passagem mais uma vez:

Apesar de ter sido um teórico econômico muito puro e restrito, fui conduzido da economia técnica a todos os tipos de questões geralmente consideradas filosóficas. Quando olho para trás, parece que tudo começou, há quase trinta anos, com um ensaio sobre Economics and Knowledge, no qual examinei o que me pareceu algumas das dificuldades centrais da teoria econômica pura. Sua principal conclusão era que a tarefa da teoria econômica era explicar como uma ordem geral de atividade econômica era alcançada, a qual utilizava uma grande quantidade de conhecimento que não estava concentrado em nenhuma mente, mas existia apenas como o conhecimento separado de milhares ou milhões de diferentes indivíduos. Mas ainda estava muito longe de uma visão adequada das relações entre a ordem geral abstrata que é formada como resultado de sua resposta, dentro dos limites impostos a ela por aquelas regras abstratas, às circunstâncias particulares concretas que encontra. Foi apenas através de um reexame do antigo conceito de liberdade sob a lei, a concepção básica do liberalismo tradicional, e dos problemas da filosofia da lei que isso levanta, que alcancei o que agora parece ser uma imagem toleravelmente clara da natureza da ordem espontânea de que os economistas liberais têm falado por tanto tempo (HAYEK, [1965] 2014, p. 49-50).

Neste artigo, Hayek considera os desafios colocados pela subjetividade e dispersão do conhecimento ao uso da noção de equilíbrio. No nível da sociedade, equilíbrio significa compatibilidade mútua de planos individuais. Essa compatibilidade, por sua vez, exige que cada indivíduo possua o conhecimento correto sobre as ações planejadas de outras pessoas das quais depende a execução de seu plano. A pergunta feita por Hayek é como esse estado de coisas é obtido. Como, a partir de uma situação de desequilíbrio, o equilíbrio é abordado? Qual processo é responsável pela aquisição e comunicação de conhecimentos “mais corretos” que possibilitem uma tendência ao equilíbrio? (HAYEK, [1937] 2014)

Em The Use of Knowledge in Society (1945), Hayek daria um primeiro passo na direção de fornecer uma resposta para esse problema, considerando “o sistema de preços como um mecanismo para comunicar informações” (HAYEK, [1945] 2014 , p. 100). A execução dos planos dos indivíduos determina os preços relativos de mercado existentes. Como esses planos são baseados no conhecimento de cada indivíduo sobre suas circunstâncias particulares de tempo e lugar, o sistema de preços é um reflexo da informação privada dispersa entre os muitos componentes de uma sociedade. Os preços, assim, implicitamente transmitem informações importantes para os indivíduos dos quais não poderiam estar diretamente conscientes.

A cibernética, com sua ênfase na relação entre informação e organização, parecia fornecer a Hayek uma boa abordagem para seu problema do surgimento da coordenação social. A maneira como a cibernética foi inicialmente aplicada à análise da sociedade, no entanto, não seria satisfatória na perspectiva de Hayek. Wiener, a figura mais central do movimento cibernético, ridicularizou explicitamente a visão de que o mercado exibia qualquer mecanismo de autorregulação.

Existe uma crença, corrente em muitos países, que foi elevada ao status de artigo oficial de fé nos Estados Unidos, de que a livre concorrência é em si um processo homeostático: que no livre mercado, o egoísmo individual dos negociadores, cada um buscando vender tão alto e comprar o mais baixo possível, resultará no fim em uma dinâmica estável de preços, e com redundância para o maior bem comum […] Infelizmente, a evidência, tal como é, é contra essa simples teoria mentirosa […] Não existe qualquer homeostase. Estamos envolvidos nos ciclos econômicos de euforia e fracasso, nas sucessões da ditadura e da revolução, nas guerras que todos perdem (WIENER, 1948, p. 159).

Apesar disso, a discussão de Wiener sobre a cibernética da sociedade sugere alguns pontos importantes de Hayek. Assim como qualquer organismo, uma sociedade é mantida “pela posse de meios de aquisição, uso, retenção e transmissão de informações” (WIENER, 1948, p. 161). Além disso, a informação disponível para a sociedade deve ser diferenciada da informação disponível para o indivíduo. Ao contrário da informação disponível apenas para o indivíduo, a informação disponível para a sociedade “pode ser reconhecida como uma forma distinta de atividade por outros membros da raça, no sentido de que isso afetará sua atividade, e assim por diante” (WIENER 1948, p. 157).

As implicações que Wiener tirou disso, no entanto, foram bem diferentes das de Hayek. Segundo Wiener, os meios de comunicação de uma sociedade grande demais para o contato direto entre seus membros seriam a palavra escrita (livros e jornais), o rádio, o sistema telefônico, o telégrafo, os correios, o teatro, o cinema, as escolas e a igreja. Cada um deles, além de sua função principal como meio de comunicação, também servem funções secundárias dadas por seus controladores (proprietários, administradores, anunciantes, etc.). Numa sociedade fortemente baseada na propriedade privada e nas transações monetárias, essas funções secundárias tendem a invadir o primário da comunicação, tornando menos informação disponível no nível social e, consequentemente, dificultando a obtenção da homeostase social (WIENER, 1948, p. 161).

Contrastando a perspectiva de Wiener com a de Hayek, o que chama a atenção não é apenas suas diferenças ideológicas, mas principalmente o que cada uma delas considerava como os principais mecanismos de comunicação que poderiam permitir a ordem na sociedade. A discussão de Wiener lida apenas com informações criadas deliberadamente e seus veículos de comunicação. Parece que ele não considerou que existiam importantes meios tácitos e não-projetados de comunicação entre os homens. E quanto, digamos, ao sistema de preços? Apesar de suas falhas, não transmite informações indispensáveis sobre a relativa escassez dos diferentes bens de uma economia? Do ponto de vista de Hayek, pode-se dizer que Wiener tomou a ponta do conhecimento explícito de um grande iceberg de conhecimento tácito como se fosse a coisa toda.

3.3.2. Hardin e a mão invisível da evolução

Como vimos, Hayek não tirou muito proveito das visões particulares de Wiener sobre a cibernética social. Mais próximo a ele nessa questão estava o biólogo e ecologista de inspiração cibernética Garrett Hardin.[62] Mostraremos que Hayek e Hardin se conheciam pessoalmente e que Hayek fez referências positivas a Hardin em alguns de seus trabalhos.

Em seu famoso livro sobre a história da teoria da evolução, Nature and Man’s Fate (1959), Hardin interpretou o processo de adaptação darwinista como um sistema cibernético e o comparou à doutrina do preço natural de economistas clássicos como Adam Smith e David Ricardo. Segundo ele, “no esquema darwiniano, o conceito de ‘mais apto’ tem o mesmo papel normativo que o papel do processo ‘natural’ das mercadorias ou do trabalho na economia” (HARDIN, 1959, p. 55).

Ambos os sistemas são organizados não pela ação intencional de seus componentes, mas por forças reguladoras espontâneas que atuam como feedback negativo, como mostrado nas figuras 7 e 8. Quando uma variável (preço de mercado ou característica da espécie) se desvia de sua norma (preço natural ou traço mais apto) em uma direção, forças contrárias empurram essa variável na direção oposta, gerando uma tendência de gravitação em direção à norma. Em resumo, a “mão invisível” de Smith era na verdade uma “mão cibernética”, que tinha um análogo próximo no processo de adaptação darwinista.

Figura 7. O sistema cibernético de regulação de preços na economia clássica (HARDIN, 1959, p 53)

 

Figura 8. O sistema cibernético de regulação de traços na evolução darwiniana (HARDIN, 1959, p. 55)

Esses processos de ajuste não são gratuitos. Eles incorrem em “desperdício” na forma de, digamos, falência de empresas e a morte de espécimes que desviam da norma. Um projetista infinitamente sábio poderia se livrar desse desperdício substituindo o controle direto da variável (estabelecendo-a no nível de sua norma) pela operação indireta do processo de adaptação. Mas como esse sábio projetista não é encontrado em nenhum dos casos, devemos recorrer ao esquema cibernético de adaptação e aceitar que a existência de alguns desperdícios não é apenas inevitável, mas uma condição necessária para a regulação do sistema.

Os primeiros lampejos da importância do desperdício são bastante antigos, mas o desperdício só surgiu no final do século dezoito, com o trabalho de economistas, particularmente de Adam Smith (e mais tarde de Ricardo). Antes deles, muitos economistas sonhavam com um mundo tornado perfeito e livre de desperdício por meio da lei – por meio de regulamentações que regem os preços das commodities, por exemplo. […] Com efeito, Smith disse que o mundo é melhor e mais equitativamente governado quando o desperdício o governa. Não importa se alguns homens colocam o preço muito alto e outros muito baixo em uma commodity. O primeiro vai à falência com poucos negócios, o segundo com muito; seus concorrentes mais sábios sobrevivem. Através do desperdício, aprendemos qual é o preço “certo”. […] O que o pobre intelecto do homem pode ser incapaz de criar diretamente pode ser produzido indiretamente através do sistema cibernético Smith-Ricardiano acionado pelos desperdícios. Foi a genialidade de Darwin mostrar que o mesmo sistema explicaria o fato da adaptação biológica (HARDIN, 1959, p. 326-7).[63]

A afirmação aparentemente incrível da evolução é que “[para] fazer uma máquina perfeita e bonita, não é necessário saber como fazê-la […] O design surge do desperdício cego” (HARDIN, 1959, p. 301-2). Mas por que esse desperdício não é rapidamente eliminado pelo processo de seleção? A primeira razão é que as mutações ocorrem constantemente, embora não com alta frequência. A segunda e mais importante razão é que o processo de seleção não é perfeito porque combina variações geneticamente e ambientalmente determinadas.

Todos sabem que o tamanho de um animal adulto é determinado tanto por sua hereditariedade quanto por seu ambiente, particularmente pela nutrição recebida durante a juventude […] Mas o indivíduo que administra com sucesso o desafio pode passar para sua prole apenas o que ele possui no caminho de capacidades hereditárias, despojado da “sorte” ambiental. Isso faz com que haja certa imprecisão no processo seletivo; alguns podem até usar a palavra “injustiça”. Seja como for, a confusão da natureza da hereditariedade e do meio ambiente no processo seletivo é uma das explicações da variabilidade contínua das gerações sucessivas. […] a geração de erro é sem fim. (HARDIN, 1959, p. 63)

Hayek leu o livro de Hardin[64] e fez observações semelhantes sobre como o mecanismo de preços funcionava como um sistema cibernético. Isso constituiria uma parte importante da resposta ao problema de coordenação que formulou em seu artigo de 1937. De fato, Hayek argumentaria que o ajuste mútuo de planos individuais dos quais havia falado anteriormente “é provocado pelo que, uma vez que as ciências físicas também começaram a se preocupar com ordens espontâneas, ou com ‘sistemas auto-organizadores’, aprendemos a chamar de ‘feedback negativo’” (HAYEK, [1968] 2014 p. 309).[65] Além disso, como alguns “biólogos inteligentes” como Hardin havia reconhecido, “a ideia da formação de ordens espontâneas ou autodeterminadas, como a ideia conectada da evolução, tem sido desenvolvida pelas ciências sociais antes de ser adotada pelas ciências naturais ”(HAYEK, [1968] 1978, p. 74).

Pelo menos em parte por causa de sua falta de treinamento técnico suficiente,[66] Hayek nunca desenvolveria um modelo cibernético formal do sistema de preços. O trabalho no qual melhor desenvolveria a compreensão das mudanças de preços como transmitindo feedback negativo é Law, Legislation and Liberty (LLL):

A correspondência de expectativas que possibilita a todas as partes alcançar o que estão buscando é, de fato, provocada por um processo de aprendizado por tentativa e erro, que deve envolver um constante desapontamento de algumas expectativas. O processo de adaptação opera, assim como os ajustes de qualquer sistema de auto-organização, pelo que a cibernética nos ensinou a chamar de feedback negativo: respostas às diferenças entre os resultados esperados e os resultados reais das ações para que essas diferenças sejam reduzidas. Isso produzirá uma maior correspondência de expectativas das diferentes pessoas, desde que os preços atuais forneçam alguns indícios de quais serão os preços futuros, isto é, desde que, em um quadro razoavelmente constante de fatos conhecidos, sempre apenas alguns deles mudem; e enquanto o mecanismo de preços opera como um meio de comunicação de conhecimento que faz com que os fatos que são conhecidos por alguns, através dos efeitos de suas ações sobre os preços, sejam feitos para influenciar a decisão dos outros (HAYEK, 1976). 1998, p. 124-5).

Aqui Hayek vai além de Hardin, desenvolvendo sua própria teoria de coordenação espontânea de planos na terminologia cibernética. Nesta passagem, ele parece estar tentando fornecer uma resposta à pergunta que fez trinta anos antes sobre as condições para uma tendência ao equilíbrio.[67] Compare isso com a seguinte citação de Economics and Knowledge:

[…] a afirmação de que existe uma tendência para o equilíbrio […] dificilmente pode significar qualquer coisa, mas que, sob certas condições, os conhecimentos e intenções dos diferentes membros da sociedade devem convergir cada vez mais ou, para colocar a mesma coisa em termos menos gerais e exatos, mas mais concretos, de que as expectativas das pessoas e, particularmente, dos empreendedores se tornarão cada vez mais corretas. Nesta forma, a afirmação da existência de uma tendência ao equilíbrio é claramente uma proposição empírica, isto é, uma afirmação sobre o que acontece no mundo real que deveria, pelo menos em princípio, ser capaz de verificar […] O único problema é que ainda estamos praticamente no escuro sobre (a) as condições sob as quais essa tendência supostamente existe e (b) a natureza do processo pelo qual o conhecimento individual é modificado (HAYEK, [1937] 2014, p. 68).

Trinta anos depois, ele não estava mais “praticamente no escuro” sobre (a) e (b). A natureza do processo de mudança do conhecimento individual seria fornecida por feedback negativo, ou seja, pela correção de erro que segue o contraste entre expectativas e realidade. As condições para a existência de uma tendência à ordenação espontânea enumeradas por Hayek, no entanto, precisam de maior esclarecimento.

Primeiro, o mecanismo de preço só pode funcionar adequadamente como um “meio de comunicação de conhecimento” se os preços forem liberados para flutuar de acordo com as condições de mercado existentes. Os controles de preço prejudicam a capacidade de comunicação do conhecimento do sistema de preços porque restringem a quantidade de conhecimento usado na determinação de preços, desde o conhecimento de circunstâncias particulares de milhões de indivíduos até o possuído pelos poucos burocratas responsáveis. Por essa razão, não devemos dispensar a livre operação do mecanismo de preços, mesmo quando isso leva a alguns resultados indesejáveis:

A recorrência frequente de tais golpes imerecidos de infortúnio que afetam algum grupo é, no entanto, uma parte inseparável do mecanismo de direção do mercado: é a maneira pela qual o princípio cibernético do feedback negativo opera para manter a ordem do mercado. É somente através de tais mudanças que indicam que algumas atividades devem ser reduzidas, que os esforços de todos podem ser continuamente ajustados a uma variedade maior de fatos que podem ser conhecidos por qualquer pessoa ou agência, e que essa utilização de conhecimento disperso é alcançada e em que repousa o bem-estar da Grande Sociedade (HAYEK, [1976] 1998, p. 94).

Assim como a aptidão real de um espécime é determinada pela combinação de suas capacidades hereditárias e sua sorte ambiental, a recompensa de um indivíduo no mercado é o produto de suas habilidades e de sua sorte individual. O mercado não é uma “meritocracia”. Pelo contrário, muitas vezes vemos pessoas indignas sendo altamente recompensadas e pessoas merecedoras recebendo pouca remuneração. A tentativa de remediar esses resultados aparentemente injustos ao interferir no sistema de preços, no entanto, é equivocada, pois ignora que não podemos saber o suficiente para dispensar a coordenação trazida pelo ajuste livre dos preços.

Pode ser difícil de entender, mas acredito que não pode haver dúvidas sobre isso, que somos levados a utilizar informações mais relevantes quando nossa remuneração é feita para depender indiretamente de circunstâncias que não conhecemos. É assim que, na linguagem da cibernética moderna, o mecanismo de feedback assegura a manutenção de uma ordem de autogeração […]. É realmente porque o jogo da catalaxia desconsidera as concepções humanas do que é devido a cada um e recompensa de acordo com o sucesso em jogar o jogo sob as mesmas regras formais, que produz uma alocação mais eficiente de recursos do que qualquer projeto poderia alcançar. […] Não é uma objeção válida para tal jogo, cujo resultado depende, em parte, da habilidade e circunstâncias individuais particulares e, em parte, do puro acaso, que as perspectivas iniciais para diferentes indivíduos, embora todas sejam melhoradas jogando esse jogo, estão muito longe de serem as mesmas (HAYEK, 1978, p. 64).

O segundo esclarecimento diz respeito ao que Hayek tem em mente quando fala sobre a necessidade de um quadro razoavelmente constante de fatos conhecidos. Aqui está se referindo ao fundo institucional de uma sociedade – seus sistemas de leis, normas sociais e costumes – que podem capacitar o indivíduo a antecipar os resultados prováveis de suas ações (VAUGHN, 1999a, p. 140). O grau de eficácia do mecanismo de preços depende crucialmente do sistema de regras de conduta da sociedade, que pode promover ou impedir a coordenação social. Por exemplo, ninguém negaria o importante papel na ordem social representada pela aplicação dos direitos e contratos de propriedade privada ou pelo grau em que se pode confiar que as pessoas são honestas e cumprem as promessas que fazem (FLEETWOOD, 1996, p. 744).

Resumindo: a existência e o caráter das ordens sociais em geral (e da coordenação de preços, em particular) dependem da estrutura das regras de conduta observadas na sociedade. Portanto, uma explicação satisfatória da ordem social precisaria abordar como essas regras de conduta se originaram e como são mantidas ou alteradas ao longo do tempo. Isso nos leva à teoria da evolução cultural de Hayek, na qual tenta explicar exatamente as origens e o desenvolvimento das regras sociais de conduta.

3.3.3. Bertalanffy e os fundamentos dinâmicos estruturais da ordem social

Dado o endosso de Hayek das analogias de Hardin entre o mecanismo de preços e o processo darwiniano de seleção, pode-se esperar que Hayek também conceba a evolução cultural como um processo cibernético regulado pelo feedback negativo. Em nenhum lugar ele faz isso, no entanto. A razão para isso parece ser que ele aprendeu com seu “amigo vienense” Ludwig von Bertalanffy que os modelos cibernéticos só podem explicar as ordens geradas através das regulações secundárias de uma dada estrutura fixa (no caso da teoria de Hayek, uma dada estrutura de regras de conduta). Esses processos ordenados que envolvem mudanças na própria estrutura – como a evolução – devem ser concebidos como resultado das regulações primárias dos sistemas abertos.

Conceitos e modelos de equilíbrio, homeostase, ajustamento, etc. são adequados para a manutenção de sistemas, mas inadequados para fenômenos de mudança, diferenciação, evolução, negentropia, produção de estados improváveis, criatividade, construção de tensões, autorrealização , emergência, etc .; como de fato Cannon percebeu quando reconheceu, ao lado da homeostase, uma “heterostase”, incluindo fenômenos da última natureza (BERTALANFFY, 1968, p. 23, grifo nosso).

Hayek faz observações semelhantes sobre as limitações da homeostase como meio de alcançar e preservar a ordem. Mudanças no ambiente, diz Hayek, às vezes requer mudanças na estrutura das regras de conduta, se a ordem do todo for preservada:

De qualquer conjunto de regras de conduta dos elementos surgirá uma estrutura estável (mostrando controle “homeostático”) apenas em um ambiente no qual prevalece uma certa probabilidade de encontrar o tipo de circunstâncias às quais as regras de conduta são adaptadas. Uma mudança de ambiente pode exigir, se o todo persistir, uma mudança na ordem do grupo e, portanto, nas regras de conduta dos indivíduos; e uma mudança espontânea das regras da conduta individual e da ordem resultante pode permitir ao grupo persistir em circunstâncias que, sem essa mudança, teriam levado à sua destruição (HAYEK, [1967a] 2014, p. 282-3, itálicos adicionado)

A teoria da evolução cultural de Hayek, no entanto, não pode ser considerada particularmente “Bertalanffiana”.[68] Pelo contrário, os desacordos de Hayek com Bertalanffy sobre a evolução não devem ser subestimados. Por exemplo, em um artigo chamado Chance or Law apresentado no Simpósio de Alpbach de 1968,[69] Bertalanffy criticou a ortodoxia neodarwinista, alegando que a adaptação e as mutações aleatórias não constituíam uma explicação satisfatória da evolução das espécies porque deixavam em grande parte inexplicáveis a tendência observada da progressão da evolução para uma organização superior. Hayek esteve presente neste simpósio e comentou que não estava convencido das afirmações de Bertalanffy (BERTALANFFY, 1969, p. 56-82). De fato, o papel central do acaso é uma das poucas partes substantivas da evolução biológica que Hayek mantém em sua teoria da evolução cultural. Segundo Hayek, novas regras de conduta benéficas eram geralmente adotadas não porque seus resultados fossem antecipados, mas foram adotadas por outras razões que não os resultados (não intencionais) ou foram o resultado de desenvolvimentos acidentais (HAYEK, [1973] 1988, p. 9).

A relevância das ideias de Bertalanffy para entender Hayek, portanto, não deve ser buscada na formulação particular da teoria da evolução cultural. Seguindo Lewis (2015), o que se afirma aqui é que Bertalanffy forneceu a estrutura conceitual abstrata que Hayek usaria para articular suas visões sobre a natureza e a evolução da auto-organização.[70] Significativamente, Hayek emprestou a visão de Bertalanffy do caráter estratificado da realidade, que mostrava regularidades em seus múltiplos níveis, das regularidades “de nível inferior” da física e da química às “superiores” da biologia e das ciências sociais.

Escrevendo para Popper no ano de 1960, Hayek disse que estava tentando aplicar a noção Bertalanffiana de regularidades de ordem superior em sua teoria econômica.

[Eu] comecei […] uma tentativa de reafirmar minhas visões da natureza da teoria econômica e a concepção de regularidades de nível superior que então formei continua a me ocupar e parece frutificar muito além do campo da economia. Suspeito que seja realmente o que Bertalanffy com sua Teoria Geral de Sistemas buscava e a própria concepção já estava implícita em meu Degrees of Explanation. Continua a ficar mais claro, embora ainda não tenha uma formulação totalmente satisfatória do que terei depois (Hayek Collection, Caixa 44, Pasta 2).[71]

Em seu artigo de 1967, Notes on the Evolution of Systems of Rules of Conduct, Hayek fez uma distinção entre as ações separadas dos indivíduos de um grupo e a ordem geral ou sistema de ações. Hayek argumenta que essa ordem geral de ações é mais do que a mera soma das ações separadas não apenas porque existem relações entre as ações, mas também porque o todo e suas partes interagem com um mundo externo ao sistema. As regularidades do sistema de ações são, portanto, regularidades de ordem superior, no sentido de que não poderiam ser reduzidas às regularidades observadas no comportamento de seus elementos individuais (HAYEK, [1967a] 2014, p. 282-3).

Em The Results of Human Action but not of Human Design, Hayek desenvolveu suas visões sobre a relação entre evolução e ordens espontâneas. Lá, Hayek argumentou que “o problema da origem ou formação e do modo de funcionamento das instituições sociais era essencialmente o mesmo” (HAYEK, [1967b] 2014, p. 298). Com isso quis dizer que a estrutura atual das instituições de um grupo e as funções desempenhadas por essas instituições são determinadas conjuntamente pela história evolutiva do grupo, na qual estruturas de instituições que geraram ordens funcionais relativas ao ambiente que encontraram foram selecionadas em vez das concorrentes.

Hayek então observa as semelhanças entre sua concepção e a encontrada no campo biológico:

A teoria da evolução de tradições e hábitos que tornou possível a formação de ordens espontâneas está, portanto, em estreita relação com a teoria da evolução dos tipos particulares de ordens espontâneas que chamamos de organismos, e de fato forneceu os conceitos essenciais sobre os quais este foi construído (HAYEK, [1967b] 2014, p. 298).

Em uma nota de rodapé acrescentada a essa passagem, Hayek pede ao leitor que compare sua discussão com a feita por Bertalanffy no contexto do estudo de organismos biológicos. No capítulo a partir do qual Hayek cita em Problems of Life, Bertalanffy argumenta que a distinção biológica usual entre morfologia (o estudo das estruturas orgânicas) e fisiologia (o estudo dos processos ou funções orgânicas) é artificial. É interessante citá-lo longamente:

A antítese entre estrutura e função, morfologia ou fisiologia baseia-se numa concepção estática do organismo. Em uma máquina há um arranjo fixo que pode ser colocado em movimento, mas também pode estar em repouso. De maneira semelhante, a estrutura pré-estabelecida, digamos, do coração distingue-se de sua função, a contração rítmica. Na verdade, essa separação entre uma estrutura e processos pré-estabelecidos que ocorrem nessa estrutura não se aplica ao organismo vivo. Pois o organismo é a expressão de um processo eterno e ordeiro, embora, por outro lado, este processo seja sustentado por estruturas subjacentes e formas organizadas. O que é descrito na morfologia como formas e estruturas orgânicas, é na realidade um capítulo cruzado momentâneo através de um padrão espaço-temporal. O que são chamadas estruturas são processos lentos de longa duração, funções são processos rápidos de curta duração (BERTALANFFY, 1952, p. 134).

Agora podemos esclarecer o significado de Bertalanffy para entender as ideias de Hayek sobre ordens e evolução espontâneas. Primeiro, tirando em parte as ideias de Bertalanffy, especialmente seu conceito de regularidades de ordem superior, Hayek conseguiu reafirmar suas visões sobre a relação entre as partes individuais de um sistema, o sistema como um todo estruturado, e a ordem resultante gerada pela interação do sistema e seu ambiente. Segundo, e mais importante, embora Hayek atribua a percepção original da estreita relação entre evolução e ordem espontânea aos pensadores do Iluminismo escocês e posteriormente a Carl Menger,[72] foi de Bertalanffy que obteve a estrutura conceitual que lhe permitiu articular e justificar esse alegado relacionamento íntimo.[73]

Como vimos, a influência de Bertalanffy em Hayek não deve ser buscada nos detalhes da teoria da evolução cultural de Hayek, mas sim na maneira como Hayek liga a “dinâmica” da evolução à “estática” das ordens espontâneas. Isso também nos ajuda a entender melhor o papel desempenhado pela cibernética nessa conexão. Assim como Bertalanffy argumentara antes, Hayek via a cibernética como permitindo apenas o estudo de ordens geradas por uma determinada estrutura estática. De acordo com Hayek, esse é o caso do sistema de preços que, desde que esteja embutido em um fundo maior de instituições sociais adequadas, pode manter um bom grau de coordenação de planos individuais. Essas instituições sociais, por sua vez, são formadas e mudam ao longo do tempo por meio de um processo dinâmico de evolução cultural mais amplo.

4. Observações finais

Como visto em nossa introdução, Colander, Holt e Rosser (2004) afirmam que uma nova ortodoxia complexa está gradualmente emergindo dentro da corrente principal da profissão econômica. Dado esse contexto e a afinidade entre as ideias da teoria da complexidade e da escola austríaca, Koppl (2006) argumenta que muitas trocas mutuamente benéficas poderiam ocorrer entre os austríacos e os pesquisadores da economia de ponta. Isto é ainda mais verdadeiro no caso dos austríacos que tomam como inspiração principal os trabalhos de Hayek, o autor austríaco mais próximo da abordagem da complexidade.

Uma interação intelectual mutuamente benéfica, no entanto, requer algum grau de compreensão mútua. Infelizmente, ainda estamos longe de uma compreensão satisfatória da própria concepção de complexidade de Hayek e sua relação com as teorias da complexidade de seu tempo e de hoje. Neste trabalho, tentei contribuir um pouco para preencher essa lacuna na literatura atual. Mais especificamente, explorei as ideias fundamentais sobre complexidade que Hayek desenvolveu em diferentes momentos de sua carreira e analisei sua relação com os movimentos intelectuais da cibernética e da teoria geral dos sistemas.

Como vimos no capítulo 2, Hayek já havia estabelecido as bases para suas complexas teorias sociais e econômicas em seus artigos sobre a natureza do conhecimento e da competição nos anos 1930 e 1940. Mais tarde, nos anos 1950 e 1960, desenvolveu seu próprio conceito de complexidade e propôs uma metodologia para o estudo de fenômenos complexos. Finalmente, a partir do final dos anos 1960, Hayek trabalhou na aplicação das ideias gêmeas de evolução e ordem espontânea à interpretação do complexo desenvolvimento da cultura e das instituições humanas.

No capítulo 3, vimos como Hayek utilizou os conceitos e ideias extraídos da cibernética e do GST de seu livro The Sensory Order para seus trabalhos posteriores sobre a natureza e as origens da ordem social. Argumentei que o interesse inicial de Hayek por essas teorias reside em seu potencial em explicar o comportamento intencional e, assim, fornecer uma justificativa científica para a abordagem subjetivista das ciências sociais. Esse projeto, no entanto, acabaria fracassando, pois Hayek não conseguiu fornecer uma resposta satisfatória ao desafio de Popper à sua teoria.

Mais tarde, Hayek usaria as estruturas da cibernética e do GST para reafirmar e desenvolver suas ideias sobre a formação de ordens espontâneas. Uma das instituições centrais que permite a coordenação social – o mecanismo de preços – seria descrita por Hayek como um sistema cibernético. Consistente com a avaliação de Bertalanffy do escopo da cibernética, a teoria de Hayek descreveu a operação de sistemas de feedback como dependendo de uma determinada estrutura originada e alterada por um processo dinâmico. A conceituação particular de Hayek desse processo dinâmico, por sua vez, tomaria a forma de uma teoria da evolução cultural.

Lembre-se que, na epígrafe do presente trabalho, Hayek disse que achava que estava quase sozinho quando começava a trabalhar na complexidade, mas que isso não era mais verdade até o final de sua carreira. Se Hayek estivesse vivo hoje, teria menos motivos para se sentir solitário. É simplesmente incrível como a complexidade econômica e a complexidade da ciência social aprenderam com um pioneiro tão importante quanto Hayek, e quão pouco a maioria dos autoproclamados “hayekianos” contribuiu para a literatura sobre complexidade. Com essa pequena contribuição para a historiografia do pensamento econômico, espero atrair um pouco mais de atenção dos pesquisadores da complexidade e dos hayekianos para as possibilidades de ganhos do comércio.

Notas

[1]Outros desenvolvimentos importantes foram a teoria do caos e a teoria da catástrofe. Para saber mais sobre esses outros precursores da complexidade, veja Rosser (2009, p. 171-175).[↑]

[2] Entre os presentes no evento estavam Doyne Farme, Jim Crutchfield, Stephanie Forrest, Eric Smith, John Miller, Alfred Hübler e Bob Eisenstein (MITCHELL, 2009, p. 94).[↑]

[3] Schelling (1971) é reconhecido por Rosser (1999, p. 176) como um precursor da abordagem da complexidade, embora o primeiro não tenha feito uso de simulações computacionais em seu artigo original.[↑]

[4] Keynes, em contraste, morreu em 1946, quando a cibernética e a teoria geral do sistema estavam em seus primórdios. Wiener publicou seu livro Cybernetics em 1948 e Bertalanffy fez sua primeira apresentação pública sobre a teoria geral dos sistemas no Simpósio de Alpbach de 1947 (POUVREAU, 2014, p. 176).[↑]

[5] Para Hutchison (1981), Economics and Knowledge marca um “ponto de virada” essencialmente metodológico de Hayek, que teria se convertido do apriorismo misesiano ao falsificacionismo popperiano. Caldwell (1988), por outro lado, argumenta que este artigo é fundamental na transformação das visões de Hayek sobre as limitações da análise de equilíbrio, e que esta transformação foi principalmente estimulada pelo debate sobre o cálculo socialista. Finalmente, Birner (1994), embora enfatizando a continuidade dos trabalhos de Hayek em relação a certos princípios metodológicos, caracteriza este artigo como fornecendo a expressão explícita do programa de pesquisa de coordenação de Hayek.[↑]

[6] No pensamento austríaco, a ação racional se distingue da ação instintiva (ou reação animal) porque é um comportamento consciente ou proposital, isto é, objetiva a obtenção de propósitos. O autor que melhor desenvolveu esse tema foi Mises (2010, p. 35-9). Hayek, em Economics and Knowledge, menciona Mises em sua discussão sobre o equilíbrio individual (HAYEK, [1937] 2014, p. 60).[↑]

[7] Do ponto de vista dos últimos desenvolvimentos na teoria neoclássica, essa incompatibilidade gerada por dados externos poderia ser resolvida pela hipótese de mercados completos (isto é, a existência de mercados futuros para todos os possíveis bens contingentes). Esse modo de conceber a incerteza dentro do contexto de equilíbrio geral, no entanto, é posterior ao artigo de Hayek de 1937, e aparentemente foi exposto pela primeira vez por Debreu (1959).[↑]

[8] Ainda resta o problema de como selecionar esses especialistas.[↑]

[9] Hayek ([1969] 2014, p. 317-8) só posteriormente desenvolveria uma justificativa para essa afirmação de que o conhecimento de circunstâncias particulares não poderia ser centralizado. Tal conhecimento, disse, é de natureza tácita (nos termos de Michael Polanyi) e é frequentemente inarticulável pela pessoa que o possui (esse conhecimento é, por assim dizer, saber como é em vez de saber o que é, de acordo com a distinção de Gilbert Ryle).[↑]

[10] Essa coordenação gerada pelo sistema de preços, é claro, não seria perfeita (HAYEK, [1945] 2014, p. 100).[↑]

[11] A crítica na verdade não se limita à concorrência perfeita, mas também se aplica à concorrência imperfeita ou monopolista (HAYEK, [1948] 2014, p. 115).[↑]

[12] Na terminologia de Blaug (1997), a teoria neoclássica concebe a competição como um estado final, enquanto Hayek a concebe como um processo.[↑]

[13] Aqui, Hayek refere-se implicitamente ao trabalho de Chamberlain (1933) sobre a diferenciação do produto.[↑]

[14] A livre concorrência neste contexto deve ser entendida no sentido clássico: como o “sistema de liberdade natural” de Smith, ou seja, a ausência de barreiras institucionais à concorrência. De fato, para autores como Machovec (1995), Blaug (1997) e McNulty (1967), os economistas clássicos geralmente concebiam a competição como um processo e não como um estado final.[↑]

[15] Vale ressaltar que há ganho não só pela redução de preço, mas também pelo restante da redução de custos.[↑]

[16] Posteriormente, Hayek desenvolveu melhor o tópico da introdução de novidades através do processo competitivo no artigo Competition as a Discovery Procedure (1978). Neste artigo, argumenta que o uso do mecanismo competitivo é justificado por sua capacidade de gerar novidade ou, como coloca, por sua capacidade de funcionar como um processo de descoberta.[↑]

[17] No presente trabalho, vamos nos concentrar nos artigos Degrees of Explanation (1955) e The Theory of Complex Phenomena (1964), que são os trabalhos metodológicos mais maduros de Hayek e também mais bem informados pela distinção entre fenômenos simples e complexos. Anteriormente, como em Hayek (1979), a dicotomia fundamental feita pelo autor era entre ciências naturais e ciências sociais. Para metodologia anterior de Hayek, ver Lawson (1997) e Caldwell (2004, p. 423-438).[↑]

[18] Por exemplo, de acordo com Hayek, previsões específicas são possíveis apenas “onde temos que lidar com o que foi chamado pelo Dr. Warren Weaver (no tempo da Fundação Rockefeller), com uma distinção que deveria ser muito mais compreendida como ‘fenômenos de complexidade não organizada’, em contraste com aqueles ‘fenômenos de complexidade organizada’ com os quais temos que lidar nas ciências sociais” (HAYEK, [1975] 2014, p. 365). Veja também: “Nos termos convenientes sugeridos por Warren Weaver, eles não são ‘problemas de simplicidade’ nem ‘problemas de complexidade desorganizada’, mas ‘problemas de complexidade organizada’” (HAYEK, [1961] 2014, p. 378).[↑]

[19] Koppl (2010, p. 860-1) interpreta esse argumento como mostrando os limites computacionais do conhecimento, um assunto abordado pelo campo moderno da complexidade computacional. Para ele, o raciocínio de Hayek é análogo ao argumento diagonal de Cantor, no contexto dos teoremas da incompletude de Gödel. Rosser resume a interpretação de Koppl da seguinte forma: “A mente funciona como um sistema classificador que segue regras. Entretanto, como tal, está sujeita às leis da lógica, e entre essas leis estão os teoremas de Kurt Gödel que implicam em incompletude dos sistemas lógicos. Essa incompletude está profundamente ligada à autorreferência pelos sistemas, e Hayek, em particular, citou o método da prova diagonal para argumentar que a mente não pode se conhecer” (ROSSER, 2010, p. 169).[↑]

[20] Esta é uma das razões pelas quais Caldwell (2006) afirmou que Popper não teve influência significativa sobre Hayek, apesar de Hayek alegar ser um seguidor da metodologia de Popper.[↑]

[21] Supondo que haja algum critério independente para identificar o tipo de estrutura.[↑]

[22] Paqué (1990, p. 285) rejeita as críticas de Hayek à estatística porque Hayek, segundo sua interpretação, erroneamente acreditava que os cientistas sociais também deveriam explicar o comportamento (possivelmente errático) dos indivíduos, e não apenas o comportamento agregado da sociedade e dos mercados. Hayek, no entanto, acredita que, para explicar “conjuntos” complexos, é indispensável examinar como seus elementos individuais heterogêneos estão estruturalmente relacionados, e Paqué não explica o que está errado com o argumento de Hayek.[↑]

[23] Por exemplo: “as concepções gêmeas de evolução e a formação espontânea de uma ordem” (HAYEK, [1973] 1998, p. 23), “as ideias gêmeas da evolução e da formação espontânea de uma ordem” (HAYEK, 1967). 1978, p. 250) e “os conceitos gêmeos das formações de ordens espontâneas e de evolução seletiva” (HAYEK, 1988, p. 146).[↑]

[24] Eu não iria tão longe quanto Fleetwood (1996, p. 738) que interpreta essa passagem como um abandono total do conceito de equilíbrio em favor do de ordem. Como vimos, Hayek defendeu o uso da teoria do equilíbrio geral como uma teoria dos fenômenos complexos quatro anos antes de escrever a passagem citada (HAYEK, [1964], p. 270), e repetiu os mesmos argumentos em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel uma década depois (HAYEK, [1975] 2014, p. 365-6). Na minha interpretação, Hayek nunca rejeitou totalmente o conceito de equilíbrio, mas apenas apontou seus limites inerentes como uma ferramenta de análise.[↑]

[25] O capítulo 3 traz uma breve exposição da teoria e da história da cibernética e explora a relação entre Hayek e os pesquisadores associados a esse movimento científico.[↑]

[26] As ordens espontâneas são abstratas no sentido de que podem preservar sua estrutura geral, embora sua manifestação concreta possa mudar completamente ao longo do tempo. É importante enfatizar que, apesar disso as ordens abstratas e espontâneas são tão reais quanto qualquer objeto concreto (HAYEK, 2013, p. 49).[↑]

[27] A concepção de Hayek de racionalidade limitada pode ser rastreada até seus estudos sobre psicologia quando jovem, o que mais tarde resultou em The Sensory Order (1952). Neste livro, Hayek desenvolve uma teoria da mente em que padrões de conexões neurais no cérebro (moldados pelo ambiente particular em que se desenvolveu) formam um “mapa” do mundo que corresponde à mente.[↑]

[28] Hayek refere-se aqui aos pensadores do iluminismo escocês e das escolas históricas do direito e da linguagem (HAYEK, [1973] 1998, p. 23).[↑]

[29] Para uma defesa contemporânea do uso da seleção de grupos na biologia na explicação do comportamento altruísta, ver Nowak, Tarnita e Wilson (2010). Uma vez publicado, este artigo foi duramente criticado pelos defensores da seleção de parentesco, como Strassmann et al. (2011).[↑]

[30] Por exemplo, Gray (1989, p. 98) diz: “Hayek frequentemente afirma que a pura persistência de uma tradição ou de uma forma de vida sugere que ela deve possuir alguma utilidade geral” e De Vlieghere (1994, p. 293) interpreta a teoria da evolução cultural de Hayek como implicando que “somente aquelas realizações culturais que podem sobreviver e se espalharem que são benéficas. Assim, a longevidade de uma instituição comprova seu valor”.[↑]

[31] Isso pode acontecer porque um gene regulador pode controlar a ativação de vários genes ou devido ao fato de que o mesmo gene (chamado gene pleiotrópico) pode causar múltiplas características.[↑]

[32] Witt (1994, p. 190) faz uma crítica pertinente ao mecanismo de seleção postulado por Hayek. Segundo ele, a relação entre regras de conduta e crescimento grupal é praticamente inexistente nas sociedades modernas, onde a sobrevivência depende principalmente do tratamento médico adequado e do consumo de quantidades mínimas de calorias.[↑]

[33] É necessário salientar que essa imitação ocorre tacitamente. O homem não precisa ser capaz de explicar uma regra que incorporou e segue na prática. Por exemplo, as crianças pequenas são capazes de se comunicar em sua língua nativa, cometendo relativamente poucos erros gramaticais, mas não são capazes de explicar as regras gramaticais que usam.[↑]

[34] Ver, por exemplo, Vaughn (1999b), Caldwell (2004) e Rosser (2010).[↑]

[35] Neste trabalho, vamos nos concentrar principalmente na chamada cibernética “antiga” ou “de primeira ordem”. A cibernética de segunda ordem (a cibernética da cibernética) enfoca o problema sujeito-objeto e foi associada a pessoas como Gregory Bateson, Margaret Mead, Heinz von Foerster e Humberto Maturama. Eles veem a investigação dos próprios sistemas cibernéticos como um sistema cibernético, porque há feedback entre o investigador e o sistema (o investigador ao mesmo tempo afeta e é afetado pelo sistema). Não há evidência de influência significativa em Hayek da cibernética de segunda ordem.[↑]

[36] Klüver foi professor da Universidade de Chicago durante a década de 1950, quando Hayek trabalhou no Comitê de Pensamento Social de Chicago (NAHM e PRIBRAM, 1998). A correspondência disponível entre Hayek e Klüver sugere que eles se tornaram amigos próximos durante este período. Uma carta de Klüver a Hayek em 1970 indica que a cibernética era um dos seus principais interesses mútuos: “Se você estivesse aqui, haveria muito o que conversar. A cena americana é bastante interessante no momento atual (para dizer pelo menos) – economicamente, politicamente, psicologicamente e até ciberneticamente (embora Warren McCulloch tenha decidido nos deixar para sempre no dia 24 de setembro do ano passado)” (Hayek Collection, Caixa 31, Pasta 4).[↑]

[37] Ilya Prigogine era física da Universidade Livre de Bruxelas e associada à abordagem cibernética. Rosser (2009, p. 5) afirma que soube da abordagem de Hayek à “Escola de Bruxelas” da cibernética através de Peter M. Allen, um estudante de Prigogine.[↑]

[38] Pouvreau (2014, p. 182), baseado em cartas do The Bertalanffy Archive (Centro Bertalanffy para o Estudo da Ciência dos Sistemas), escreve que, em 1958, “Hayek queria fundar em Viena um ‘Instituto de Estudos Avançados’ similar aos de Princeton, Dublin e Stanford; Bertalanffy propôs que os dois colaborassem. Mas eles não receberam apoio e, finalmente, tiveram que desistir dessa ideia. ”Um esboço da proposta para a criação do instituto é encontrado na Hayek Collection (Caixa 62, Pastas 8-9). Além de Bertalanffy, entre outros nomes citados na proposta estão os de Karl Popper, Gottfried Haberler, Heinz von Foerster, K. Lorenz, F. Machlup, Karl Menger, Paul Weiss e Kurt Gödel.[↑]

[39] A cibernética foi explicitamente inspirada pelo design de servomecanismos (ou sistemas de controle de feedback) e por mecânica estatística (como veremos, a informação é definida como entropia negativa).[↑]

[40] De um modo geral, diz-se que um sistema que regula as variáveis para manter as condições internas estáveis exibe a propriedade da homeostase. Além do mecanismo regulador da temperatura em um animal homeotérmico, outros exemplos de homeostase são a regulação dos níveis de glicose e pH no sangue humano.[↑]

[41] Essas propriedades eram:
(1) 𝐻 (𝑝1, 𝑝2,…, 𝑝𝑛) deve ser contínuo para cada 𝑝𝑖;
(2) se 𝑝𝑖 =1/𝑛 para cada 𝑖, então 𝐻 deve ser uma função crescente monotônica de 𝑛;
(3) 𝐻 (𝑝1, 𝑝2,…, 𝑝𝑛) = 𝐻 (𝑝1 + 𝑝2, 𝑝3,…, 𝑝𝑛) + (𝑝1 + 𝑝2) 𝐻 [𝑝1 / (𝑝1 + 𝑝2), 𝑝2 / (𝑝1 + 𝑝2)].
Note também que, quando 𝑝𝑖 = 0 para algum 𝑖, 𝑝𝑖 log (𝑝𝑖) não é definido, mas como lim(𝑝𝑖 → 0 +) 𝑝𝑖 log (𝑝𝑖) = 0, podemos redefinir 0 log (0) = 0 e preservar a propriedade de continuidade (KAPUR e KEVASAN, 1992, p. 28).[↑]

[42] De acordo com Kapur e Kevasan (1992, p. 8), foi John von Neumann quem supostamente aconselhou Shannon a usar o termo entropia, dizendo: “Primeiro, a expressão é a mesma que a expressão para entropia em termodinâmica e, como tal, você não deve usar dois nomes diferentes para a mesma expressão matemática, e segundo, e mais importante, a entropia, apesar de cem anos de história, ainda não é bem compreendida e, como tal, você vai ganhar toda vez que você usar a entropia em uma discussão!” Avery (2003, p. 81) e Tribus (1971) relatam quotes diferentes, mas semelhantes de Von Neumann.[↑]

[43] Wiener, por sua vez, baseou seu trabalho na literatura pré-guerra sobre engenharia de controle e engenharia de comunicação e, em particular, sobre servomecanismos.[↑]

[44] A Fundação Macy foi fundada em 1930 por uma família de comerciantes com a missão de promover a “saúde e o ministério da cura”. A fundação financiou principalmente escolas médicas e de pesquisa médica (TUDICO e THIBAULT, 2012). Frank Fremont-Smith, diretor médico da fundação, era amigo de Rosenblueth desde seus tempos na Harvard Medical School (CONWAY e SIEGELMAN, 2005, p. 108).[↑]

[45] Margaret Mead relatou estar tão empolgada com o que ouviu na conferência que não percebeu que havia quebrado um dente até a conferência terminar (CONWAY e SIEGELMAN, 2005, p. 95).[↑]

[46] Para uma história abrangente do movimento cibernético, ver Kline (2015). Mirowski (2002) é o trabalho seminal sobre a influência da cibernética e os desenvolvimentos relacionados à economia.[↑]

[47] Como veremos, as críticas de Bertalanffy foram dirigidas aos mecanicistas “aditivos”, que não poderiam fornecer uma explicação para o caráter organizacional dos organismos. Ele não sustentou que toda forma de mecanismo estava fadada ao fracasso. Achava possível, embora altamente improvável, que alguma forma de “teoria da Gestalt” da física (como a mecânica quântica) permitisse a redução da biologia à física. Assim, a “demanda por uma redutibilidade final para a física seria justificada, embora por um caminho muito mais difícil do que o mecanismo ‘aditivo’ supõe” (BERTALANFFY, 1933, p. 55).[↑]

[48] Para Bertalanffy, portanto, não há surgimento no sentido ontológico do termo. Sobre isso, veja Pouvreau e Drack (2007, p. 28-30).[↑]

[49] Mais tarde, a sociedade foi renomeada para Society for General Systems Research (SGSR), a fim de tornar mais explícito que o grupo não estava comprometido com uma única teoria, mas aceitou e visou a integração de uma gama diversificada de abordagens.[↑]

[50] Naquela época, a Universidade de Viena permitia um alto grau de liberdade de escolha entre os cursos. A frequência às aulas não era obrigatória e os alunos eram avaliados apenas no final da sua educação formal através de exames orais (CALDWELL, 2004, p. 149-50).[↑]

[51] Hayek teve contato direto com as ideias de Mitchell. Entre 1923 e 1924, teve a oportunidade de trabalhar em Nova York como assistente em pesquisas empíricas sobre ciclos de negócios. Durante esse período, Hayek participou do curso de Mitchell sobre a história do pensamento econômico na Universidade de Columbia (CALDWELL, 2004, p. 150).[↑]

[52] Hayek (1952, p. 1) usou a expressão “problema mente-corpo” para descrever seu objetivo no TSO.[↑]

[53] É preciso dizer que Bertalanffy define verdadeira finalidade em seu artigo de 1950, citado em TSO.[↑]

[54] Já no primeiro manuscrito de What is Mind? datado de 1945, no qual nenhum sinal de influência da cibernética ou da teoria geral do sistema é encontrado, Hayek escreve que “parece partir da nossa tese que a diferença entre processos puramente ‘mecânicos’ e mentais não são de tipo mas meramente de grau, e entre o processo puramente mecânico do tipo reflexo mais simples e o processo mental mais complexo […] pode haver um número quase infinito de tipos intermediários […] Não é provável que seremos capazes de compreender o caráter peculiar dos processos conscientes até que formos um pouco mais longe no entendimento do funcionamento da base provavelmente muito mais extensa de processos mentais, mas não conscientes, nos quais a superestrutura de processos conscientes repousam” (Hayek Collection, Caixa 128, Pasta 34, p. 30).[↑]

[55] Outra evidência de que o uso de Hayek da “psicologia teórica” foi influenciada pela biologia teórica de Bertalanffy é fornecida pela leitura dos dois manuscritos de What is Mind? de 1945 e 1947, que mais tarde se tornaria The Sensory Order. Em 1945, Hayek não faz referência à psicologia teórica nem à biologia teórica. No final de 1947, ano em que correspondências indicam que Hayek havia lido a versão alemã de Problems of Life de Bertalanffy (Hayek Collection, Caixa 12, Pasta 4), o subtítulo da obra tornou-se An Essay in Theoretical Psychology (Hayek Collection, Caixa 128, Pastas 34-35).[↑]

[56] Nesse ponto, Hayek era ainda mais radical do que Ludwig von Mises, o outro defensor do subjetivismo austríaco. Mises não afirmou que uma redução futura de eventos mentais em eventos físicos era impossível, mas apenas que a ciência ainda não havia conseguido fazê-lo e que, até que isso seja feito, era necessária uma abordagem metodológica dualista: “O homem – até agora, pelo menos – sempre foi lamentavelmente errado em suas tentativas de aterrar o abismo que vê aberto entre a mente e a matéria […]. Tudo o que podemos inferir disso é que a ciência – pelo menos por enquanto – deve adotar uma abordagem dualista” (MISES, 1957, p. 1).[↑]

[57] É claro que os conceitos de emergência e do grau de complexidade estão intimamente relacionados no pensamento de Hayek. Mas eles não devem ser confundidos. Embora, na sua opinião, cada emergência de uma “nova” propriedade aumente o grau de complexidade de um fenômeno, a mera presença de propriedades emergentes não implica necessariamente que estamos lidando com fenômenos complexos. Padrões emergentes podem ser caracterizados como complexos apenas se o “número mínimo de elementos dos quais uma instância do padrão deve consistir em ordem para exibir todos os atributos característicos da classe de padrões em questão” for alto (HAYEK, [1964] 2014).[↑]

[58] “O termo sistema será assim usado aqui, aproximadamente, no sentido em que é usado na ‘Teoria Geral do Sistema’ de von Bertalanffy ‘(ibid, p. 4).[↑]

[59] O leitor interessado deve buscar à extensa discussão feita por vários autores em Butos (2010a), um volume da série de livros Advances in Austrian Economics, The Social Science of Hayek ‘The Sensory Order’. Também relevantes para este tema são Butos e Koppl (2007) e Gick e Gick (2001).[↑]

[60] Curiosamente, as referências à cibernética e à teoria geral dos sistemas também não são encontradas em The Constitution of Liberty ([1960] 2011), o projeto que Hayek iniciou logo após terminar o TSO e que foi publicado oito anos depois de seu livro sobre psicologia teórica.[↑]

[61] Walter B. Weimer, o psicólogo cognitivo que organizou esta conferência, teve um papel importante em trazer mais atenção à relevância da ordem sensorial para a psicologia cognitiva moderna e para as ciências sociais. Sobre isso, veja Butos (2010b, p. 2-4).[↑]

[62] Garrett Hardin é amplamente conhecido nos círculos da economia como o formulador do problema da “Tragédia dos Comuns”. No entanto, Chiappin e Leister (no prelo) afirmam que a verdadeira formulação original deste problema deveria ser creditada a Thomas Hobbes.[↑]

[63] Compare: “Se alguém realmente soubesse tudo sobre o que a teoria econômica chama de dados, a competição seria de fato um método muito dispendioso para assegurar o ajuste a esses fatos […] Contra isso, é salutar lembrar que a competição é valiosa apenas porque, e na medida em que, seus resultados são imprevisíveis e em geral diferentes daqueles que qualquer um tem, ou poderia ter, deliberadamente visado.” (HAYEK, [1968] 2014, p. 304-5).[↑]

[64] Hardin também estava familiarizado com os trabalhos de Hayek. Nos arquivos de Hayek no Hoover Institute, há algumas cartas de Hardin a Hayek. Em uma delas, datada de 1978, Hardin agradece Hayek por enviar uma cópia de The Three Sources of Human Values (parte do pós-escrito de Law, Legislation and Liberty), dizendo que se beneficiou muito com a leitura. Ele também menciona uma apresentação de Hayek em uma reunião de sociobiologia em que o público estava “despreparado para apreciar a sabedoria” do palestrante (Hayek Collection, Caixa 23, Pasta 22). Mais tarde, Hardin escreveu uma resenha do livro The Fatal Conceit, de Hayek, criticando-o principalmente por não levar a sério o problema populacional (HARDIN, 1989).[↑]

[65] Veja também: “Foi a grande conquista da teoria econômica que, 200 anos antes da cibernética, reconheceu a natureza de tais sistemas autorreguladores nos quais certas regularidades (ou, talvez melhor, ‘restrições’) da conduta dos elementos levaram a constante adaptação da ordem abrangente a fatos particulares” (HAYEK, [1970] 2014, 345) e “na linguagem da cibernética moderna, o mecanismo de feedback assegura a manutenção de uma ordem autogeradora. Foi isso que Adam Smith viu e descreveu como a operação da “mão invisível” – ridicularizada por 200 anos por vermes burros” (HAYEK, 1978, p. 63).[↑]

[66] Como Caldwell (2016, p. 176) coloca: “No final da década de 1950, parece que Hayek começou a perceber que simplesmente não tinha o conhecimento matemático para formalizar suas ideias dentro da psicologia. Então tentou expressá-las dentro da economia […] novamente com, no máximo, sucesso limitado. Por fim, decidiu expressar suas ideias verbalmente, identificando uma variedade de campos que estudavam ordens complexas e a partir das quais tirava conclusões sobre suas características”.[↑]

[67] Exceto que na LLL ele substitui o conceito de ordem pelo de equilíbrio. Como vimos na seção 2.3, a diferença entre os dois é que, embora o equilíbrio exija uma perfeita compatibilidade de planos, a ordem requer apenas compatibilidade parcial. Para uma grande discussão sobre o conceito de ordem de Hayek e suas implicações para a economia, ver Vaughn (1999a).[↑]

[68] Suas verdadeiras inspirações podem ser encontradas nos pensadores do Iluminismo escocês, em Carl Menger e nos poucos biólogos que defenderam a relevância dos mecanismos de seleção de grupos na teoria da evolução.[↑]

[69] O simpósio de Alpbach de 1968, com o texto Beyond reductionism: New perspectives in the life sciences, reunia em torno dos cientistas o descontentamento com a “insuficiente emancipação das ciências da vida dos conceitos mecanicistas da física do século XIX e a consequente filosofia reducionista” (KOESTLER, 1969, p. 2). Hayek apresentou The Primacy of the Abstract nesta conferência.[↑]

[70] A cibernética também foi uma inspiração para uma mudança terminológica que Hayek empreendeu em seus trabalhos posteriores. Como coloca em seu livro Law, Legislation and Liberty: “Foi em grande parte o crescimento da cibernética e dos assuntos relacionados à informação e à teoria do sistema que me persuadiram de que outras expressões que habitualmente usei podem ser mais facilmente compreensíveis ao leitor contemporâneo. Embora ainda goste e ocasionalmente use o termo “ordem espontânea”, concordo que “ordem autogeradora” ou “estruturas auto-organizadas” são algumas vezes mais precisas e não ambíguas e, portanto, frequentemente as use em vez do termo anterior. Da mesma forma, em vez de “ordem”, em conformidade com o uso predominante de hoje, ocasionalmente uso agora “sistema”. Também ‘informação’ é claramente preferível aonde eu normalmente falava de ‘conhecimento’, uma vez que a primeira se refere claramente ao conhecimento de fatos particulares ao invés de conhecimento teórico ao qual o ‘conhecimento’ pode se referir” (HAYEK, 1973, p. p. XVIII-XIX).[↑]

[71] Nesta carta, Hayek estava se referindo a um livro que planejava escrever (sem sucesso) e uma palestra que deu em 1961 na Universidade da Virgínia com o título de A New Look at Economic Theory. Esta palestra foi publicada recentemente (HAYEK, 2014). Para mais informações sobre o projeto do livro fracassado, veja Caldwell (2016).[↑]

[72] A ligação de Hayek entre evolução e auto-organização não era original, mesmo se nos restringíssemos à literatura cibernética. Ashby (1947a; 1947b; 1948) já havia feito essa conexão e desenvolvido uma teoria completa da relação entre os dois conceitos em seu artigo Principles of the Self-Organizing System (ASHBY, 1962). Este artigo foi apresentado no Simpósio de Auto-Organização da Universidade de Illinois de 1961, no qual Hayek, Bertalanffy e McCulloch estavam presentes. Infelizmente, Hayek não apresentou um trabalho nesta conferência e as breves transcrições das discussões que se seguiram às apresentações não contêm nenhuma informação útil sobre as opiniões de Hayek sobre as ideias expostas no evento. O simpósio foi organizado por Heinz von Foerster e George Zopf Jr.[↑]

[73] Como Lewis (2015, p. 22) coloca: “[…] alguns dos componentes-chave da estrutura analítica em termos dos quais Hayek articula e desenvolve seu insight mengeriano sobre a necessidade de combinar análise estática e dinâmica – a cola conceitual que mantém as noções de ordem espontânea e evolução juntas, se você quiser – são, como vimos, aquelas que Hayek obtém de Bertalanffy […] O que podemos ver aqui, então, é que Hayek usou as ideias de Bertalanffy para expressar e desenvolver o insight de Menger sobre a íntima conexão entre a origem e o modo de funcionamento das instituições sociais em um idioma moderno, ou seja, a linguagem da teoria do sistema.”[↑]

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