por The Economist

[ Stay or go, 17/09/2016 – Tradução de Vinícius Cintra ]

Eira, uma venezuelana de 38 anos de idade, gostava de ir às compras. Agora ela fica ao lado de prateleiras estéreis em um supermercado de Caracas. O venezuelano médio passa 35 horas por mês em filas para obter comida. Os poucos produtos desse supermercado incluem o Zucaritas da Kellogg’s, com seu tigre de cartoon musculoso e com sua cor estranhamente pálida – supostamente para fazer a embalagem menos agressiva para o meio ambiente, mas muitos venezuelanos admitem que a razão deve ser provavelmente resultado da falta de tinta.

A escassez de produtos reflete o fato de que a Venezuela, comandada por Nicolás Maduro, está em queda livre. O Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que a produção caia 10% neste ano e que a inflação ultrapasse os 700%. Empresas estão prostradas. O país nunca foi rico, mas ter as maiores reservas de petróleo do mundo já foi sinônimo de que muitos cidadãos podiam bancar produtos importados. Agora não mais. Firmas estão há tempos atadas por controles de preços, leis trabalhistas bizarras, ameaças de expropriação e, desde 2003, restrições monetárias. Os preços do petróleo em queda livre deixaram à mostra ainda mais a fragilidade do sistema. Com o desaparecimento do valor do Bolívar, firmas com lucros na moeda nacional relataram grandes prejuízos – por exemplo, a Merck, uma empresa farmacêutica dos EUA, anunciou um prejuízo de 876 milhões de dólares para 2015.

Para a maioria das empresas não existe solução fácil. Dois anos atrás a Clorox, a qual fabrica produtos domésticos, decidiu deixar o país. Isso significou não apenas abandonar as vendas, mas também seu patrimônio: o governo expropriou suas fábricas. Uma estratégia que passou a ser adotada foi “desconsolidar” uma subsidiária. Quando as regras do país são tão restritivas que a matriz fica impedida de controlar suas operações locais, regras contábeis americanas deixam a empresa dar à sua subsidiária um valor justo e classificá-la como investimento. Os lucros da matriz não mais reconhecem os lucros presos na Venezuela, mas a subsidiária continua a existir. Goodyear, a empresa fabricante de pneus, e a Ford, fabricante de automóveis, fizeram isso. O custo da operação pode ser alto – para a Procter & Gamble, foi de extravagantes 2,1 bilhões de dólares. Mas a manobra permite que as empresas mantenham alguma presença na Venezuela com alguma esperança de que o país possa se recuperar algum dia.

Aqueles que ficaram operam em um lamaçal. O governo controla onde os bens são vendidos, frequentemente direcionando produtos aos bairros onde desejam ampliar o apoio político, explica Risa Grais-Targow da Eurasia, uma empresa de consultoria política. Peças e matérias-primas são escassas. Muitas firmas se tornam criativas. A Coca-Cola Femsa, uma engarrafadora mexicana que é parcialmente controlada pela gigante americana, tem pouco açúcar, por exemplo, então passou a fabricar refrigerante diet.

Para os funcionários que ficaram, o panorama é sombrio. Ameaças de prisão de funcionários são comuns, dado que Maduro culpa a guerra econômica pela falta de itens essenciais, guerra que é travada por empresas estrangeiras e locais para gerar descontentamento. Companhias não podem aumentar os salários ao passo da inflação. Algumas estão ao menos oferecendo alguns bens essenciais. Muitos trabalhadores levam seu almoço da empresa para casa, para poder compartilhar com a família. Dada as condições, um ex-executivo de uma multinacional que é baseada em Caracas, acha que as empresas estrangeiras estão esperando tempo demais. No entanto, eles esperam que a tenacidade irá beneficiá-los se e quando um novo regime surgir.

Como o chavismo faz as torneiras secarem na Venezuela

[ How chavismo makes the taps run dry in Venezuela, 10/05/2018 – Tradução de Giácomo de Pellegrini ]

É a época das chuvas em Caracas e os reservatórios estão cheios. Mas a maioria dos 5,3 milhões de pessoas que vivem dentro e perto da cidade, não teve água corrente regular por pelo menos um mês. A Venezuela é um país rico em petróleo que não pode pagar por comida e medicamentos. Agora, o seu regime autocrático está mostrando que também pode criar escassez, mesmo quando a natureza provê em abundância. “Eu esqueci como é se banhar em água corrente”, diz Soledad Rodríguez, que trabalha com design gráfico.

O fornecimento de água em Caracas não é fácil. A cidade está a 1.000 metros acima do nível do mar. O grande rio mais próximo, o Tuy, flui do outro lado de uma montanha. Governos anteriores tinham resolvido estes problemas. Marcos Pérez Jiménez, um ditador na década de 1950, supervisionou a construção de um sistema de bombas e reservatórios de água, que se manteve com a cidade em rápido crescimento.

Hugo Chávez, cuja eleição como presidente começou a “revolução Bolivariana” na Venezuela em 1999, melhorou o abastecimento de água para áreas pobres, mas não atualizou a infraestrutura. A escassez de 2005 foi um problema. Chávez, que morreu em 2013, respondeu, caracteristicamente, com muito dinheiro e publicidade e pouca solução. Ele e Nicolás Maduro, que o sucedeu como presidente, gastaram 10 bilhões de dólares para pouco efeito.

Agora a cidade está com menos água do que tinha em 1999, diz José de Viana, que foi presidente da Hidrocapital, uma estatal de serviços públicos de água, na época pré-Chávez. O requisito principal esperado dos funcionários para o trabalho é a lealdade para com o regime esquerdista. Isto levou a sua “desprofissionalização”, diz José de Viana.

A hiperinflação e a depressão, a economia encolheu pela metade desde que Maduro assumiu – pioraram a situação. A empresa não pode se dar o luxo de repor peças de seus veículos. O salário mínimo na Hidrocapital vale menos do que três dólares por mês, à taxa de câmbio do mercado. Pelo salário, muitos funcionários fingem que trabalham. Apenas 20 de 400 equipes de manutenção da Hidrocapital estão funcionando. Dois aquedutos são responsáveis pelo fornecimento de Caracas com menos de metade da quantidade normal de água, pois a empresa não tem mantido estações de bombeamento. A água é ridiculamente barata, o que é parte do problema. Uma conta mensal de água para uma casa de três quartos corresponde a 20.000 bolívares, isso é menos de três centavos de dólar.

Lugares secos na Venezuela têm tanto a escassez de água como cortes de energia. Domenico Clara, que é proprietário de uma padaria em Maracaibo, capital da indústria do petróleo, diz que o corte de energia ocorre de cinco a sete vezes por dia. Sem refrigeração, ingredientes são jogados fora; sistemas de pagamento eletrônico não funcionam e os clientes não podem pagar (há uma escassez de dinheiro também).

Maduro, que provavelmente vai ser reeleito em uma eleição fraudada agendada para 20 de Maio, pode estar nervoso. No mês passado caraquenhos que vivem perto do palácio presidencial, normalmente leais ao regime, protestaram ruidosamente contra a escassez de água. Eles se acalmaram depois do governo ter enviado um único caminhão-pipa. Com expectativas tão baixas, uma ajudinha dessa pode até render alguns votos a Maduro.

Nota da Sociedade Aberta (atualização em 22 de maio de 2018)

Maduro acaba de se reeleger em eleições claramente fraudadas. Houve antecipação das eleições e presos políticos (diferente de político preso) com grande probabilidade de vitória não competiram, como Leopoldo López. O Grupo de Lima, formado por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia não reconhecem as eleições. EUA preparam sanções pesadas. Hipoteticamente serão mais seis anos de Maduro, isso se ainda existir Venezuela até lá.

Uma curiosidade relacionada à notícia acima divulgada há quase dois anos pela revista The Economist. A Kellogg’s acaba de abandonar a Venezuela. O pouco que tinha nas prateleiras em 2016, já não tem mais. Podemos dizer que aquele foi um “bom” ano de 700% de inflação, pois agora a estimativa está em 14.000%. PCdoB e PT, partidos de esquerda no Brasil, já comemoram a retumbante vitória bolivariana. Talvez isso explique o descontrole inflacionário, controle de preços e fraudes fiscais do último governo petista. Medidas que nos legaram a atual crise que já perdura quatro anos. Por sorte, ao contrário dos venezuelanos, o projeto de falência no Brasil foi parcialmente abortado. Contudo, não podemos baixar a guarda dada nossa vocação para o fracasso. Não faltam pessoas com as mesmas ideias e dispostas a destruir o país.