por Nick Gillespie

[ America Needs Immigrants Now More Than Ever – Tradução de Guilherme Oliveira ]

Imigração é o tópico mais acalorado de política doméstica hoje. À parte questões sobre se membros da MS-13, uma gangue violenta com origem em Los Angeles, são “animais” ou não, ainda temos Donald Trump desprezando migrantes de “países de merda”, membros do Congresso como o deputado Steve King (R-Iowa) reclamando contra “os bebês dos outros” e Republicanos pressionando para reduzir a imigração legal em 50%. Democratas hoje em dia são majoritariamente receptivos aos dreamers, mas não estamos muito distantes das medidas de Barack Obama, que foi possivelmente o presidente mais anti-imigração desde Eisenhower e não viu nenhum problema em deportar milhões de latinos e em invadir locais de trabalho suspeitos de empregar trabalhadores sem documentação.

Opositores da imigração e dos imigrantes seguem a deixa do presidente Trump, que abriu a sua campanha pela indicação Republicana denunciando ilegais que entram pelo México como nada menos do que uma horda criminosa:

Quando o México envia as suas pessoas, não estão mandando os melhores. Não estão mandando gente como vocês. Não estão mandando gente como vocês. Estão mandando pessoas que têm muitos problemas, e trazem esses problemas com elas. Trazem drogas. Trazem crime. São estupradores. E alguns, eu imagino, são boas pessoas.

Esses opositores lançam mão de uma série de outros argumentos, por vezes contraditórios, para sustentarem sua posição. Imigrantes, dizem eles, são preguiçosos e sugam quantias enormes de benefícios sociais ao mesmo tempo em que estão dispostos a trabalhar mais e por menos dinheiro do que os nativos (um paradoxo conhecido como “o imigrante de Schrodinger”). A cantilena inclui ainda: imigrantes puxam salários para baixo, desprezam o Estado de direito, não aprendem inglês, votam nos Democratas, destroem a cultura comum, são fomentadores de terrorismo e crime, e assim por diante.

Apoiadores dos níveis atuais ou maiores de imigração (sou um deles) refutam diligentemente todos esses argumentos e outros apontando para dados relevantes, teoria econômica e história. Também enfatizam os ideais americanos de inclusão e o histórico de empreendedorismo imigrante, entre outras coisas.

Desnecessário dizer, os dois lados raramente convencem um ao outro, ou sequer chegam a um entendimento comum sobre quais fatos são verdadeiros e relevantes.

O que torna uma coluna publicada no Wall Street Journal ainda mais interessante. Gerald F. Seib expõe uma série de fatos com os quais, acredito, todos podem concordar. Eles fornecem um excelente ponto de partida para uma discussão diferente sobre imigração, que privilegia justamente o tipo de questões econômicas com as quais tanto apoiadores fervorosos de Trump quanto entusiastas da imigração podem concordar. Entre elas:

  • O desemprego está em 3,9%, a taxa mais baixa dos últimos 17 anos
  • “Há 6,6 milhões de empregos disponíveis nos Estados Unidos, o que significa que, pela primeira vez na história, há vagas suficientes para dar um emprego a cada pessoa desocupada no país”
  • Empregadores em todo o país – Seib menciona a indústria caranguejeira de Maryland, pesqueiros do Alaska, fazendeiros do centro do país e restaurantes de New Hampshire – “dizem que estão com uma crítica falta de trabalhadores”
  • As relativamente poucas aberturas anuais para os vistos H-1B e H-2B (respectivamente, para trabalhadores mais e menos qualificados) foram preenchidas em tempo recorde neste ano
  • “A Federação Nacional de Negócios Independentes (National Federation of Independent Business) diz que 22% dos donos de pequenas empresas indicam que achar empregados qualificados é o problema mais importante para os negócios, mais do que aqueles que citam impostos ou regulações”

Esse é o retrato de uma economia emperrada na segunda marcha, incapaz de crescer para atender a uma demanda em crescimento e evoluir. Dada a letargia geral da economia americana por praticamente todo o século XXI, no qual o crescimento econômico anual tem sido em média 2% (comparado com 3% entre 1950 e 2000), nós podemos não ser imediatamente capazes de reconhecer a oportunidade que está na nossa frente.

As perspectivas de longo prazo para uma economia saudável encaram problemas reais, afirma Seib, incluindo:

  • “A taxa de fertilidade das mulheres entre 15 e 44 anos de idade foi de 60.2 nascimentos a cada 1000 mulheres, a mais baixa desde que o governo começou a acompanhar esse número, há mais de um século”
  • Nas próximas três décadas, o percentual de americanos acima de 65 anos de idade se tornará maior do que o percentual abaixo de 18, um “cruzamento histórico das linhas demográficas”

Outras fontes destacam que imigração e nascimentos dentro da população imigrante, que tende a ter mais filhos do que as mulheres nativas, são as únicas razões pelas quais a população americana está crescendo ligeiramente. A menos que haja um suplemento de imigração, o declínio das taxas de natalidade será desastroso para o mercado nos anos que se seguirão. Para se ter uma ideia do que acontece quando um país envelhece dramaticamente e não reabastece a sua população com residentes mais jovens, olhemos para o ultrarrestricionista Japão, que é o melhor exemplo de um “desastre demográfico” do Primeiro Mundo. O Japão, que tem menos pessoas do que tinha em 2000, está sofrendo um colapso econômico em câmera lenta caracterizado por crescimento econômico entre fraco e inexistente e uma erosão na qualidade de vida. Conforme escreveu Jonathan V. Last, do The Weekly Standard, em “O que esperar quando ninguém está esperando: O desastre demográfico vindouro da América” (What to Expect When No One’s Expecting: America’s Coming Demographic Disaster), as “taxas de natalidade continuamente decrescentes” do Japão têm feito surgir “uma subcultura que veste cachorros como bebês e os leva por aí em carrinhos, e a um mercado efervescente de bebês-robôs hiper-realistas”. Nenhum país desenvolvido importante, alerta ele, tem conseguido crescer economicamente de forma consistente com uma população que encolhe.

Como um libertário radical, eu defenderei o direito de qualquer um a vestir cachorros como quiser e a comprar qualquer tipo de robô que o mercado produzir, mas eu não acho que o Japão de hoje seja o modelo de ninguém para tornar a América grande novamente.

Seib conclui que “há uma boa base para se argumentar que a economia dos Estados Unidos – crescente e pujante – nunca precisou de trabalho imigrante mais do que agora”. Entretanto, a reação no Congresso à presente situação é engrossar contra a imigração ilegal, especialmente através de sanções intrusivas contra empregadores. A linha-dura também está exigindo redução da imigração legal. Em vez de dar aos dreamers do DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals) status legal permanente, querem dar a eles permissões renováveis de três anos. No tocante a imigração convencional, querem reduzir as taxas “a 260 mil vagas por ano, ou 25%. O libertário Cato Institute, que em geral é pró-imigração, diz que a redução seria na verdade próxima de 40%, o que seria ‘a maior redução planejada da imigração legal desde os terríveis atos com motivações raciais dos anos 1920’”

Imigração vai além de economia, é claro, mas o artigo cuidadoso e repleto de fatos de Seib pode oferecer um molde para um debate significativo entre os pró-imigração e os restricionistas. Se estes quiserem tornar a América grande, certamente reconhecem que isso é algo que não conseguiremos fazer sozinhos. Destacar o papel central que imigrantes desempenham numa economia que cresce e frutifica, ao mesmo tempo que se busca uma forma de aplacar os medos dos opositores da imigração – muitos dos quais com certeza se lembram de um parente que tenha nascido em outro lugar mas tenha morrido como um americano “de verdade” –, não será fácil, mas é necessário.