por George Orwell

Nota: Os trechos abaixo foram retirados do artigo intitulado “Writers and Leviathan”, publicado originalmente na revista britânica “Politics and Letters” em 1948, em Londres. A tradução e versão disponibilizada em português foi extraída da obra “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras em 2005. A pergunta que mais inquietou Orwell foi justamente a relação entre o escritor e a política. Para ele, o escritor não deve ter visão partidária da realidade, mas também não pode fugir da responsabilidade de imaginar uma sociedade melhor. Essa é a essência dos trechos selecionados que podem ser lidos a seguir.

A situação de um escritor numa época de controle estatal é um tema já amplamente debatido, embora a maior parte dos testemunhos que poderiam ser pertinentes ainda não esteja disponível. Não quero aqui expressar uma opinião favorável ou contrária ao patrocínio estatal das artes, mas apenas salientar que o tipo de Estado que nos governa deve depender em parte da atmosfera intelectual dominante: quer dizer, nesse contexto, deve depender em parte da atitude dos próprios escritores e artistas, e de sua disposição ou não de manter vivo o espírito do liberalismo.

[…]

Esta é uma época política. […] toda a nossa atitude em relação à literatura é matizada por lealdades que, ao menos de forma intermitente, constatamos não serem literárias. Muitas vezes tenho a sensação de que até nos melhores tempos a crítica literária é um embuste, uma vez que na ausência de qualquer critério aceito — qualquer referência externa que dê sentido à afirmação de que tal e tal livro é “bom” ou “ruim” — todo julgamento literário consiste em fabricar um conjunto de normas para justificar uma preferência instintiva. Nossa verdadeira reação a um livro, se é que temos alguma, é em geral “gosto deste livro” ou “não gosto deste livro”, e o que vem depois é uma racionalização. Mas penso que “gosto deste livro” não é uma reação não literária; a reação não literária é “este livro está do meu lado, por isso tenho de descobrir seus méritos”. É claro que ao elogiarmos um livro por motivos políticos podemos ser emocionalmente sinceros, no sentido de que o aprovamos com veemência, mas também muitas vezes ocorre que a solidariedade partidária requer uma mentira óbvia. Quem está acostumado a resenhar livros para periódicos políticos sabe muito bem disso. Em geral, quando escrevemos para uma publicação com a qual concordamos, pecamos por comissão, mas quando escrevemos para uma publicação de caráter contrário, pecamos por omissão. De qualquer maneira, inúmeros livros controversos — livros de defesa ou oposição à Rússia Soviética, de defesa ou oposição ao sionismo, de defesa ou oposição à Igreja Católica, e assim por diante — são julgados antes de serem lidos, e na verdade antes mesmo de serem escritos. Sabemos de antemão que acolhimento terão em cada publicação. No entanto, com a desonestidade que às vezes não é nem de todo consciente, mantém-se o pretexto de que são utilizados critérios puramente literários.

É claro que a invasão da literatura pela política estava fadada a acontecer. Teria de acontecer, mesmo que o problema específico do totalitarismo jamais tivesse surgido, porque fomentamos uma espécie de compulsão que nossos antepassados não tiveram, uma consciência da enorme injustiça e do sofrimento do mundo, e um sentimento de culpa, de que deveríamos estar fazendo alguma coisa a respeito, o que impossibilita uma atitude puramente estética em relação à vida. Ninguém, hoje, poderia se dedicar à literatura de forma tão resoluta como James Joyce ou Henry James. Mas, infelizmente, aceitar responsabilidade política hoje significa transigir com ortodoxias e “linhas partidárias”, com toda a timidez e a desonestidade que isso implica. Em comparação com os escritores vitorianos, temos a desvantagem de viver entre ideologias políticas bem delineadas e de em geral saber num relance quais pensamentos são heréticos. Um intelectual literário moderno vive e escreve sob medo constante — não da opinião pública no sentido mais amplo, mas da opinião pública dentro de seu próprio grupo. Em geral, por sorte existe mais de um grupo, porém a qualquer momento também pode existir uma ortodoxia dominante, um atentado contra o qual se requer pele grossa e que às vezes significa cortar pela metade a receita durante anos a fio. Evidentemente, mais ou menos nos últimos quinze anos, a ortodoxia dominante, sobretudo entre os jovens, foi “de esquerda”. As palavras-chave são “progressista”, “democrático” e “revolucionário”, enquanto os rótulos que devemos evitar a todo custo que nos preguem são “burguês”, “reacionário” e “fascista”. Quase todo mundo hoje em dia, inclusive a maioria dos católicos e conservadores, é “progressista” ou ao menos assim deseja ser visto. Ninguém, que eu saiba, jamais se qualifica como “burguês”, da mesma forma que ninguém com razoável instrução que tenha ouvido a expressão jamais admite ser culpado de antissemitismo. Nós todos somos bons democratas, antifascistas, anti-imperialistas, desdenhosos das distinções de classes, impermeáveis ao preconceito de cor, e assim por diante.

[…]

Toda a ideologia esquerdista, científica e utópica foi desenvolvida por pessoas que não tinham a expectativa imediata de alcançar o poder. Era, portanto, uma ideologia extremista, que desdenhava totalmente reis, governos, leis, prisões, forças policiais, exércitos, bandeiras, fronteiras, patriotismo, religião, moral convencional e, de fato, toda a ordem existente. Na memória de pessoas ainda vivas, as forças da esquerda em todos os países lutavam contra uma tirania que aparentava ser invencível, e era fácil supor que, se ao menos esta tirania específica — o capitalismo — pudesse ser derrubada, o socialismo seria a consequência. Além do mais, a esquerda havia herdado do liberalismo algumas crenças nitidamente contestáveis, como a de que a verdade prevalece e a perseguição derrota a si mesma, ou a de que o homem é bom por natureza, só sendo corrompido pelo meio.

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Os governos de esquerda quase invariavelmente decepcionam seus partidários porque, mesmo quando a prosperidade prometida é exequível, existe sempre a necessidade de um período de transição incômodo acerca do qual pouco se falou de antemão. Neste momento vemos nosso governo, nos tremendos apertos econômicos, lutar na verdade contra sua própria propaganda passada. […]  Mas o que quero dizer é que é impossível debater a sério essa questão com pessoas leais à ideologia da esquerda. Sente-se que a redução salarial e o aumento de horas de trabalho são medidas inerentemente antissocialistas e que portanto devem ser postas de lado de antemão, não importa qual seja a situação econômica. Sugerir que podem ser inevitáveis é apenas arriscar receber aqueles rótulos que nos horrorizam. É muito mais seguro evitar a questão e fazer de conta que podemos consertar tudo com a redistribuição da renda existente.

Aceitar uma ortodoxia é sempre herdar contradições não resolvidas. […] Para cada caso há uma conclusão que é perfeitamente clara, mas à qual só se pode chegar se, no âmbito privado, formos desleais com a ideologia oficial. A reação natural é empurrar a pergunta sem resposta para um canto da cabeça e continuar a repetir os lemas contraditórios. Não precisamos procurar nas resenhas nem nas revistas para descobrir os efeitos desse tipo de pensamento.

É claro que não estou sugerindo que a desonestidade mental seja peculiar aos socialistas e esquerdistas ou que seja mais comum entre eles. É só que a aceitação de qualquer disciplina política parece ser incompatível com a integridade literária. […] Na verdade, o mero som de palavras que terminam em “ismo” parece trazer em si o cheiro de propaganda. Lealdades de grupos são necessárias, e no entanto são um veneno para a literatura, uma vez que literatura é o produto de individualidades. Assim que se permita a elas exercer qualquer influência, mesmo que negativa, sobre a escrita criativa, o resultado é não apenas falsificação, mas muitas vezes o esgotamento efetivo das faculdades inventivas.

Bom, e agora? Temos então de concluir que é dever de todo escritor “não se meter com política”? É claro que não! Como eu já disse, nenhuma pessoa racional pode não se meter, ou realmente não se mete, com política numa época como a de hoje. Apenas sugiro que deveríamos estabelecer uma distinção mais nítida do que fazemos hoje com nossas lealdades políticas e literárias, reconhecendo que a disposição para fazer algumas coisas desagradáveis, mas necessárias, não acarreta nenhuma obrigação de reprimir as crenças que em geral as acompanham. Quando se envolve em política, um escritor deveria fazê-lo como cidadão, como ser humano, e não como escritor. Não penso que ele tenha o direito, apenas por causa de suas sensibilidades, de se esquivar do trabalho sujo e corriqueiro da política. Assim como qualquer um, deveria estar preparado para fazer palestras em auditórios em que haja correntes de ar, rabiscar calçadas com giz, angariar votos, distribuir panfletos e até lutar em guerras civis se necessário. Mas, seja lá o que mais venha a fazer a serviço do partido, não deveria nunca escrever para ele. Deveria deixar claro que a escrita é uma coisa à parte. E deveria ser capaz de agir de forma cooperativa ao mesmo tempo que, se for esta a sua escolha, repudia totalmente a ideologia oficial. Jamais deveria voltar atrás em sua linha de raciocínio só porque ela poderia significar uma heresia, e tampouco deveria se preocupar muito se percebessem essa não ortodoxia, como é provável que percebessem. Talvez fosse até mau sinal para um escritor não suspeitarem de suas tendências reacionárias hoje, assim como já foi um mau sinal suspeitarem de suas simpatias comunistas há vinte anos.

Mas será que tudo isso significa que um escritor deveria não só se recusar a ser comandado por líderes políticos como também se abster de escrever sobre política? De novo, é claro que não! Não há motivo para ele não escrever da forma política mais crua se desejar. Porém deveria fazê-lo como indivíduo, como alguém de fora, no máximo como um guerrilheiro importuno no flanco de um exército ativo. É uma atitude bastante compatível com a utilidade política comum. É razoável, por exemplo, estarmos dispostos a combater numa guerra por pensar que ela deve ser vencida, mas ao mesmo tempo nos recusarmos a escrever propaganda de guerra. Às vezes, se um escritor for honesto, seus escritos e suas atividades políticas podem se contradizer. Existem ocasiões em que isso é nitidamente indesejável; nesse caso, então, o remédio não é falsificar nossos impulsos, mas permanecer em silêncio.

Sugerir que um escritor criativo, em tempos de conflito, deva dividir sua vida em dois compartimentos parece derrotista ou frívolo: no entanto, na prática, não vejo que outra coisa ele possa fazer. Trancar-se numa torre de marfim é impossível e desaconselhável. Entregar-se subjetivamente, não apenas a uma máquina partidária, mas até a uma ideologia de grupo, é se destruir como escritor. Entendemos que esse é um dilema doloroso, porque percebemos a necessidade de envolvimento na política ao mesmo tempo que também percebemos o quanto ela é uma atividade degradante e sórdida. E a maioria de nós ainda tem uma crença persistente em que toda escolha, mesmo política, é entre o bem e o mal, e em que se uma coisa é necessária é também certa. Penso que devemos nos livrar dessa crença, que pertence ao universo infantil. Em política, nada mais podemos fazer do que concluir qual dos dois males é o menor, e existem situações das quais só podemos escapar agindo como um diabo ou um louco. A guerra, por exemplo, pode ser necessária, mas com certeza não é certa nem sã. Mesmo uma eleição geral não é exatamente um espetáculo agradável ou edificante. Se tivermos de participar dessas coisas — e acho que temos, a menos que estejamos blindados pela velhice, a estupidez ou a hipocrisia —, teremos também de manter íntegra uma parte de nós. Para a maioria das pessoas o problema não se coloca da mesma forma, porque sua vida já está dividida. Sentem-se realmente vivas apenas nas horas de lazer, e não há ligação emocional entre o trabalho e as atividades políticas. Tampouco lhes é pedido, em nome da lealdade política, que se rebaixem como trabalhadoras. Ao artista, em especial ao escritor, pedem justamente isso — de fato, é a única coisa que os políticos lhe pedem. Se recusar, não significa que estará condenado à inatividade. Uma metade dele, que em certo sentido é o todo, pode agir com a mesma resolução, até com a mesma violência se necessário, como qualquer um. Mas seus escritos, na medida em que têm algum mérito, serão sempre o produto da pessoa mais sã que não participa, apenas registra as coisas que são feitas e reconhece sua necessidade, mas se recusa a ser iludida quanto a sua verdadeira natureza.