por Anne Applebaum

[ How Stalin Hid Ukraine’s Famine From the World – Tradução de Gabriel Goes ]

Em 1932 e 1933, milhões morreram na União Soviética – e os órgãos internacionais de imprensa ajudaram a acobertar a catástrofe.

 

Sombras de pessoas enterrando dezenas de caixões em uma vala comum em 25 de novembro de 2006 durante memorial para os até 10 milhões de mortos na grande fome de 1932-33, na cidade de Zhovkva. (Sergei Supinsky/Getty)

Nos anos de 1932 e 1933, uma fome catastrófica arrebatou a União Soviética. Ela começou no caos da coletivização, quando milhões de camponeses foram retirados de suas terras e forçados a se juntar a fazendas estatais. Foi então exacerbada, no outono de 1932, quanto o Politburo soviético, a liderança de elite do Partido Comunista Soviético, tomou uma série de decisões que aprofundou a fome no meio rural ucraniano. A despeito da escassez, o Estado demandou não só grãos, mas toda a comida disponível. No pico da crise, equipes organizadas de policiais e ativistas locais do Partido, motivadas pela fome, pelo medo e por uma década de propaganda odiosa, adentravam as propriedades dos camponeses e tomavam tudo que havia de comestível: batatas, beterrabas, abóboras, feijão, vagens e animais de fazenda. Ao mesmo tempo, um cordão de isolamento foi descortinado em volta da República Ucraniana para impedir fugas. O resultado foi uma hecatombe: ao menos cinco milhões de pessoas morreram de fome ao largo de toda a União Soviética. Entre eles estavam quase quatro milhões de ucranianos que morreram não por causa de negligência ou colheitas ruins, mas porque foram deliberadamente privadas de alimentação.

A fome ucraniana e a mais geral, soviética, jamais foram reconhecidas oficialmente pela URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). No país, a fome nunca era mencionada. Toda discussão era ativamente reprimida; estatísticas, mudadas para escondê-la. O terror foi tão acachapante que o silêncio era completo. Fora do país, no entanto, o acobertamento necessitava de táticas diferentes, mais sutis. Elas são belamente ilustradas pelas histórias paralelas de Walter Duranty e Gareth Jones.

* * *

Nos anos 1930, todos os membros da imprensa em Moscou levavam uma vida precária. À época, precisavam da permissão do Estado para viver na URSS e até mesmo para trabalhar. Sem uma assinatura e um carimbo oficial do departamento de imprensa, o escritório de telégrafo central não enviaria seus despachos para o exterior. Para receber essa permissão, jornalistas com regularidade barganhavam com censores do Ministério do Exterior a respeito de que palavras poderiam ser usadas e se mantinham em bons termos com Konstantin Umansky, o oficial soviético responsável pelos órgãos estrangeiros de imprensa. William Henry Chamberlin, então correspondente em Moscou para o Christian Science Monitor, escreveu que o repórter correspondente na URSS “trabalha sob uma Espada de Dâmocles – a ameaça de expulsão do país ou recusa de permissão de readentrá-lo, o que, é claro, acaba por ser a mesma coisa”.

Recompensas extras estavam disponíveis para aqueles, como Walter Duranty, que jogassem o jogo particularmente bem. Duranty era o correspondente do The New York Times em Moscou de 1922 a 1936, trabalho que, por certo tempo, tornou-o relativamente rico e famoso. Britânico por nascimento, Duranty não tinha laços com a esquerda ideológica; em vez disso adotava a posição de “realista” cético e cabeça dura, que tentava ouvir os dois lados da história. “Pode-se levantar a objeção de que a vivissecção de animais vivos é uma coisa triste e pavorosa, e é verdade que a sorte dos kulaks e de outros que se opuseram ao experimento soviético não é boa”, escreveu ele em 1935 – os kulaks eram os chamados camponeses ricos que Stalin acusou de causarem a grande fome. Porém, “em ambos os casos, o sofrimento infligido o foi com propósito nobre”.

Essa posição tornou Duranty enormemente útil ao regime, que fez de tudo para que ele vivesse bem em Moscou. Possuía um amplo flat, mantinha um carro e uma amante, tinha o melhor acesso dentre os correspondentes e, por duas vezes, conseguiu cobiçadas entrevistas com Stalin. Contudo, a atenção que alcançou com suas reportagens nos EUA parece ter sido sua motivação primária. Suas cartas de Moscou o tornaram um dos jornalistas mais influentes da época. Em 1932, sua série de artigos sobre o sucesso da coletivização e do Plano Quinquenário lhe rendeu o Prêmio Pulitzer. Logo depois, Franklin Roosevelt, então governador de Nova York, convidou-o para a mansão oficial em Albany, onde o presidenciável democrata cobriu-o de questionamentos. “Eu fiz todas as perguntas desta vez. Foi fascinante”, disse Roosevelt a um outro repórter.

À medida que a fome piorava, Duranty, como seus colegas, não teriam dúvidas sobre o desejo do regime de reprimi-la. Em 1933, o Ministério do Exterior começou a requisitar que os correspondentes submetessem uma proposta de itinerário antes de qualquer ida às províncias; todos os pedidos de visita à Ucrânia eram negados. Os censores também começaram a monitorar o que era enviado. Algumas frases eram permitidas: “escassez aguda de comida”, “austeridade alimentícia”, “déficit alimentar”, “doenças relacionadas à má nutrição”, mas nada além disso. No fim de 1932, funcionários do governo chegaram a visitar Duranty em sua casa, deixando-o nervoso.

Nessa atmosfera, poucos estavam inclinados a escrever sobre a fome, apesar de que todos sabiam sobre ela. “Oficialmente, não havia fome”, escreveu Chamberlin. Contudo, “para qualquer um que vivia na Rússia em 1933 e mantinha olhos e ouvidos abertos, a historicidade da fome simplesmente não estava em questão”. O próprio Duranty discutiu o assunto com William Strang, um diplomata na embaixada inglesa, ao fim de 1932. Strang relatou com frieza que o correspondente do The New York Times estivera “acordando para a verdade há algum tempo”, embora não tivesse “deixado o grande público americano a par do segredo”. Duranty também contou a seu interlocutor que achava “bem possível que até 10 milhões de pessoas pudessem ter morrido direta ou indiretamente pela falta de comida”, embora tal número nunca tenha aparecido em qualquer parte do seu trabalho de reportagem. A relutância de Duranty em escrever sobre a fome pode ter sido particularmente sensível: falar sobre isso lançaria dúvida sobre suas reportagens prévias, positivas para o regime (e vencedoras de prêmios). Porém, ele não estava sozinho. Eugene Lyons, correspondente em Moscou para a United Press e, em certo momento, marxista entusiástico, escreveu anos mais tarde que todos os estrangeiros na cidade estavam muito cientes do que ocorreria na Ucrânia, assim como no Cazaquistão e na região do Volga:

A verdade é que não buscamos corroboração pelo simples motivo de que não tínhamos dúvidas quanto a esse assunto. Há fatos grandes demais para que precisem de confirmação visual. (…) Dentro da Rússia a questão não era disputada. A fome era aceita como consumada nas nossas conversas casuais nos hotéis e em nossas casas.

Todos sabiam – mas ninguém a mencionava. Daí a reação extraordinária tanto do establishment soviético quanto da imprensa estabelecida em Moscou à escapada jornalística de Gareth Jones.
Jones era um jovem galês, de apenas 27 anos à época da sua jornada de 1933 à Ucrânia.

Possivelmente inspirado pela mãe – quando jovem, havia sido tutora na casa de John Hughes, empreendedor galês que fundou a cidade ucraniana de Donetsk –, decidiu estudar russo, além de francês e alemão, na Universidade de Cambridge. Então conseguiu emprego como secretário de David Lloyd George, ex-Primeiro-Ministro britânico, e também começou a escrever sobre política europeia e soviética como freelancer. No início de 1932, antes que a proibição a viagens fosse imposta, ele se lançou no meio rural soviético (acompanhado por Jack Heinz II, herdeiro do império do ketchup), onde dormiu em “chãos infestados de insetos” em vilarejos e testemunhou o começo da fome.

Na primavera de 1933, Jones retornou a Moscou, dessa vez com um visto dado a ele muito com base no fato de seu trabalho junto a Lloyd George (possuía a marcação “Besplatno” ou “Grátis”, como sinal de favor soviético). Ivan Maisky, embaixador soviético em Londres, desejava impressionar Lloyd George e havia feito lobby para Jones. Em sua chegada, andou pela capital e conheceu outros correspondentes e funcionários estrangeiros. Lyons recordou-se dele como “um homenzinho honesto e meticuloso. (…) O tipo que carrega um bloco de notas e desavergonhadamente escreve suas palavras enquanto você fala”. Jones encontrou-se com Umansky, mostrou a ele um convite do Cônsul-Geral alemão em Kharkiv e pediu para visitar a Ucrânia. Umansky concordou. Com esse selo oficial de aprovação, seguiu rumo ao sul.

Jones embarcou no trem em Moscou em 10 de março. Porém, em vez de viajar o caminho todo até Kharkiv, desceu do trem cerca de 65 km a norte da cidade. Carregando uma mochila cheia de “muitas fatias de pão branco, com manteiga, queijo, carne e chocolate comprados com moeda estrangeira”, ele começou a seguir a ferrovia rumo à cidade. Por três dias, sem guia ou escolta oficial, andou por mais de 20 vilarejos e fazendas coletivas que enfrentavam o pico da fome, anotando seus pensamentos em cadernos mais tarde preservados pela irmã:

Cruzei a fronteira da Grande Rússia, Ucrânia adentro. Em todo lugar conversei com camponeses que por mim passavam. Todos possuíam a mesma história.

“Não há mais pão. Não há pão por mais de dois meses. Muitos estão morrendo.” O primeiro vilarejo não tinha mais batatas e o estoque de burak (beterrabas) estava acabando. Todos disseram: “o gado está morrendo, nechevo kormit’ [não há com o que alimentá-los]. Costumávamos alimentar o mundo e agora estamos famintos. Como podemos cultivar a terra se temos tão poucos cavalos sobrando? Como trabalharemos nos campos se estamos tão fracos por falta de comida?”

Jones dormia no chão de alojamentos de camponeses. Dividia sua comida com as pessoas e ouvia suas histórias. “Tentaram tirar de mim meus ícones, mas eu disse que sou um camponês, não um cachorro”, alguém lhe disse. “Quando acreditávamos em Deus éramos felizes e vivíamos bem. Quando tentaram se livrar de Deus, ficamos famintos”. Outro homem relatou que não havia comido carne por um ano.

Jones viu uma mulher fiando as próprias roupas e um vilarejo onde as pessoas comiam carne de cavalo. Certa vez, foi confrontado por um “miliciano” que pediu para ver seus documentos; depois disso, policiais à paisana insistiram em acompanhá-lo no próximo trem até Kharkiv e levá-lo até a porta do consulado alemão. Jones, “regozijando-me de minha liberdade, dispensei-lhe uma educada despedida – um anticlímax, embora bem-vindo”.

Em Kharkiv, Jones continuou a tomar notas. Observou as milhares de pessoas se amontoando em filas do pão: “Elas começam a formar a fila às 3 ou 4 da tarde para conseguir pão na próxima manhã às 7. Está congelante: muitas camadas de geada.” Ele passou uma noite no teatro – “Plateia: muito batom mas nenhum pão” – e conversou com as pessoas a respeito da repressão política e das prisões em massa que ocorreram ao largo da Ucrânia ao mesmo tempo da fome. Ligou para o colega de Umansky em Kharkiv, mas nunca conseguiu falar com ele. Silenciosamente, saiu da União Soviética. Alguns dias depois, em 30 de março, apareceu em Berlim, em uma coletiva de imprensa provavelmente organizada por Paul Scheffer, um jornalista do Berliner Tageblatt que havia sido expulso da URSS em 1929. Jones declarou que uma grande fome estava transcorrendo na União Soviética e emitiu um depoimento:

Em todo lugar havia o lamento: “Não há pão. Estamos morrendo”. Ele vinha de todas as partes da Rússia, do Volga, da Sibéria, da Rússia Branca, do Norte do Cáucaso, da Ásia Central. (…)
“Esperamos pela morte”, era como me recebiam: “Veja, ainda temos a forragem do nosso gado. Vá mais além ao sul. Lá eles não têm nada. Muitas casas estão vazias, seus habitantes já mortos”, eles se lamuriavam.

A entrevista de Jones foi coberta por dois jornalistas americanos veteranos sediados em Berlim, no The New York Evening Post (“Fome toma conta da Rússia, milhões morrem, desocupação em alta, diz britânico”) e no Chicago Daily News (“Fome na Rússia agora tão grande quanto a inanição de 1921, diz secretário de Lloyd George”). Outras notícias se seguiram em ampla gama de publicações britânicas. Os artigos explicavam que Jones tinha feito “um longo percurso a pé pela Ucrânia”, citavam seu press release e adicionavam detalhes de inanição em massa. Eles notavam, como o próprio Jones havia feito, que ele quebrara as regras que haviam detido outros jornalistas: “Vagabundeei pela região da terra negra”, escreveu, “porque aquela fora, certa vez, lugar das mais ricas fazendas da Rússia, e porque os correspondentes foram proibidos de ir até lá para ver o que está acontecendo”. Jones, a seguir, publicou mais uma dúzia de artigos no London Evening Standard e no Daily Express, assim como no Cardiff Western Mail.

 

Página do The Evening Standard de Londres. A manchete diz “A FOME COMANDA A RÚSSIA – O Plano Quinquenário acabou com o estoque de pão”.

As autoridades que haviam despejado favores sobre Jones estavam furiosas. Litvinov, Ministro do Exterior soviético, reclamou com raiva para Maisky, utilizando-se de uma ácida alusão literária à famosa peça de Gogol sobre um burocrata fraudulento:

É assombroso que Gareth Johnson [sic] tenha assumido o papel de Khlestakov e sido bem-sucedido em fazer com que todos vocês desempenhem as partes de governador local e vários personagens de O Inspetor Geral. De fato, ele é apenas um cidadão comum, diz ser secretário de Lloyd George e, aparentemente a pedido deste, requer um visto, e vocês da missão diplomática, sem checar as coisas direito, insistem que [a OGPU (ou seja, a Polícia Secreta da União Soviética)] entre em cena para satisfazer seu pedido. Demos a esse indivíduo todo tipo de suporte, ajudamo-lo em seu trabalho; eu até concordei em conhecê-lo, e ele acaba por ser um impostor.

No rescaldo imediato da coletiva de imprensa de Jones, Litvinov impôs uma proibição ainda mais severa para jornalistas saindo de Moscou. Mais tarde, Maisky reclamou com Lloyd George, que, de acordo com o relatório do embaixador soviético, distanciou-se de Jones, declarando que não havia patrocinado a viagem e não havia mandado Jones como seu representante. No que ele realmente acreditava não se sabe, mas Lloyd George nunca mais viu Jones.

Os representantes da imprensa em Moscou estavam ainda mais furiosos. É claro que eles sabiam que o que Jones reportara era verdade, e alguns deles procuravam maneiras de contar a mesma história. Malcom Muggeridge, à época correspondente do Manchester Guardian, havia acabado de contrabandear três artigos para fora do país por meio de mala diplomática. O jornal The Guardian publicou-os anonimamente, com cortes severos feitos por editores que desaprovavam as críticas à URSS e, por terem vindo à tona em um momento quando as notícias eram dominadas pela ascensão de Hitler ao poder, foram amplamente ignorados. Contudo, o resto dos jornalistas, dependentes de boa vontade oficial, apontaram armas contra Jones. Lyons descreveu de forma meticulosa o que ocorreu:

Desprestigiar Jones foi uma tarefa tão desagradável quanto qualquer outra que nos coube naqueles anos de jogar com os fatos para agradar a regimes ditatoriais – mas o fizemos, de forma unânime e em formulações quase idênticas ao apontar seu equívoco. O pobre Gareth Jones deve ter sido o ser vivo mais surpreso do mundo quando os fatos que tão arduamente coletou de nossas bocas foram soterrados por nossas negações. (…) Houve muita barganha em um espírito de toma lá, dá cá cavalheiresco, sob o fulgor do sorriso dourado de Umansky, antes que uma negativa formal fosse engendrada. Admitimos o suficiente para acalmar nossas consciências, mas em frases circulares que amaldiçoavam Jones como mentiroso. Com os negócios escusos terminados, alguém pediu vodca e zakuski.

Tenha uma reunião de Umansky com os correspondentes estrangeiros acontecido ou não, esse relato resume bem, metaforicamente, o que houve a seguir. Em 31 de março, apenas um dia depois que Jones havia falado em Berlim, o próprio Duranty respondeu. “Russos famintos, mas não mortos de fome” era a chamada do The New York Times. A matéria de Duranty saía de seu escopo para gozar de Jones:

Apareceu, de uma fonte britânica, uma grande matéria sensacionalista na imprensa americana sobre fome na União Soviética, com “milhares já mortos e milhões ameaçados por morte e inanição”. Seu autor é Gareth Jones, ex-secretário de David Lloyd George, que recentemente passou três semanas na União Soviética e chegou à conclusão de que o país está “à beira de terrível colapso”, como disse a este que escreve. Jones é um homem de mente aguda e ativa e se deu ao trabalho de aprender russo, que fala com fluência considerável, mas este que escreve considerou seu julgamento um tanto quanto apressado e o questionou no que se baseava. Parece que ele havia feito uma caminhada de 65 quilômetros por vilarejos na vizinhança de Kharkov e encontrado condições tristes.

Sugeri que essa era uma seção bastante inadequada de um país tão grande, mas nada poderia abalar sua convicção de catástrofe iminente.

Duranty continuou, usando uma expressão que mais tarde tornou-se notória: “Para colocar de forma brutal: não se pode fazer uma omelete sem se quebrar ovos”. Seguiu com a explicação de que havia feito “questionamentos exaustivos” e concluído que “as condições são ruins, mas não há fome”.

 

Página do The New York Times com a matéria de Walter Duranty.

Indignado, Jones escreveu uma carta ao editor do Times, pacientemente citando suas fontes – uma imensa lista de entrevistados, incluindo mais de 20 cônsules e diplomatas – e atacando os jornalistas baseados em Moscou:

A censura os tornou mestres do eufemismo e da minimização. Por isso dão à “fome” o nome elegante de “falta de comida”, e “morrendo de fome” é suavizado para ser lido como “mortalidade generalizada por doenças devidas à má nutrição”. (…)

E aí o assunto se encerrou. Duranty brilhou mais forte do que Jones. Era mais famoso, mais lido, tinha mais credibilidade. Também estava inconteste. Mais tarde, Lyons, Chamberlin e outros expressaram pesar de não terem lutado mais bravamente contra ele. Porém, naquele tempo, ninguém veio em defesa de Jones, nem mesmo Muggeridge, um dos poucos correspondentes em Moscou que havia ousado manifestar opiniões similares. Jones foi sequestrado e assassinado por ladrões chineses durante uma viagem de reportagem à Mongólia, em 1935.

“Russos famintos, mas não mortos de fome” tornou-se a verdade aceita. Também coincidiu felizmente com as duras considerações políticas e diplomáticas da época. À medida que 1933 tornou-se 1934 e então 1935, os europeus ficaram mais e mais preocupados com Hitler. No fim de 1933, a nova administração Roosevelt estava ativamente buscando motivos para ignorar quaisquer notícias ruins acerca da União Soviética. A equipe do presidente havia concluído que o desenrolar na Alemanha e a necessidade de limitar a expansão japonesa significavam que era hora, finalmente, de os Estados Unidos abrirem um canal pleno de relações diplomáticas com Moscou. O interesse de Roosevelt no planejamento central e no que acreditava ser os grandes sucessos da URSS – afinal, ele havia lido as reportagens de Duranty com cuidado – o encorajou a crer que poderia surgir uma lucrativa parceria comercial também. Por fim, um acordo foi firmado. Litvinov chegou a Nova York para assiná-lo – acompanhado de Duranty. Em um luxuoso banquete para o Ministro do Exterior soviético no Waldorf Astoria, Duranty foi apresentado aos 1500 convidados. Ele se levantou e se curvou em reverência.

Forte aplauso se seguiu. O nome de Duranty, a revista New Yorker mais tarde trouxe em reportagem, provocou “o único pandemônio realmente prolongado” da noite. “De fato, ficava-se com a impressão de que a América, em um espasmo de discernimento, estava reconhecendo tanto a Rússia quanto Walter Duranty”. Com isso, o acobertamento parecia completo.

Este artigo foi adaptado do novo livro de Anne Applebaum, “Red Famine: Stalin’s War on Ukraine” (“Fome Vermelha: A Guerra de Stalin Contra a Ucrânia”).