por Max Borders

[ Black Swans, Butterflies, and the Economy – Tradução de Matheus Pacini ]

A economia é um sistema complexo que não pode ser planejado ou regulado até a perfeição.

Um lado culpa o mercado. O outro culpa o governo. Temos duas visões e suas respectivas causas caminhando em direções opostas, além de muita animosidade. No entanto, talvez ambas estejam se esquecendo de algo importante nesse intenso debate sobre a crise financeira de 2008. É hora de expormos a realidade complexa da economia do século XXI.

Nassim Nicholas Taleb é famoso por nos ter apresentado os cisnes negros. Embora essas criaturas raras sejam usadas por filósofos acadêmicos para explicar as deficiências do raciocínio indutivo (“Todos os  cisnes que temos visto são brancos, portanto, todos os cisnes são brancos”), Taleb usa o cisne negro como uma metáfora convincente para a inevitabilidade de eventos altamente improváveis. Em outras palavras: os cisnes negros são raros; todavia, são vistos eventualmente.

No que tange à Wall Street – particularmente as pessoas com grande interesse em fazer a coisa certa – essa crise financeira envolveu uma confluência de eventos. Alguns desses cisnes negros foram criados pelo governo, como padrões de empréstimo flexíveis a extensão do número de pessoas com casa própria, Fannie e Freddie, e um código tributário favorável às hipotecas. Outros foram criados por banqueiros propositalmente ignorantes, agências de risco e outras pessoas que acreditavam que poderiam viver além de seus meios. Tudo isso culminou em uma enxurrada de falências. O problema é que ninguém – nem os governos, nem os agentes de mercado – podem prever tais eventos de grande escala. Os cisnes negros existem.

Outra coisa importante a lembrar é que a economia é um sistema caótico. Na maior parte do tempo, os sistemas caóticos alcançam um ponto ideal entre a ordem e o caos, o que é algo positivo para a solidez de uma economia. Sistemas caóticos, no entanto, mudam constantemente e envolvem dinâmicas que são muito sensíveis às condições iniciais.

Um ecossistema, não uma máquina

Infelizmente, vemos muito do tipo errado de pensamento como resposta à crise, o qual se origina de uma análise econômica baseada numa falsa metáfora: a economia como máquina. Nós ouvimos autoridades acusando o governo e os bancos de terem “dormido no ponto”. No entanto, em um sistema complexo, não existe um “interruptor”. Ouvimos pessoas pedindo como “consertá-la”, “operá-la” ou “regulá-la”, sugerindo que se o tipo certo de gênio controlasse as alavancas, teríamos o tipo certo de economia.

A economia não se assemelha em nada a uma máquina.  Em vez disso, é como um ecossistema que ninguém pode consertar, operar ou regular. O tipo arrogante de pessoa que pensa poder controlar uma economia é vítima do que Hayek chamou de “arrogância fatal”. Com o poder em suas mãos, o planificador acabará nos tornando vítimas de sua falsa metáfora.

É irônico que Alan Greenspan – outrora adorado, mas agora ridicularizado pela imprensa – esteja sendo culpado, não somente por defender a ideologia do laissez-faire que supostamente causou a crise, mas também por não prever a aparição de um cisne negro. Greenspan era um poderoso burocrata do governo, cuja única missão era coletar dados suficientes para determinar a taxa de juros “correta” para uma economia multitrilionária. Dado o tamanho da tarefa, ele a cumpriu muito bem por muitos anos.

Entretanto, ele era só um homem. Trabalhava em um edifício governamental. Tinha um cargo de confiança e tomava decisões em uma burocracia que tem o monopólio sobre a moeda e que influencia a taxa de juros (o preço do crédito), pelo menos, no curto prazo. Isso dificilmente pode ser chamado de fundamentalismo de livre mercado. Quer Greenspan tenha oferecido crédito artificialmente barato ou não, as taxas de juros eram somente um fato dentre muitos. Exigir que tivesse previsto o melhor de todos os mundos e ajustado as taxas de juros de acordo era como exigir que fosse um oráculo canalizando o conhecimento que somente um Deus teria. Greenspan não é onisciente. Bernanke também não é. Ninguém é. Contudo, “controlar” uma economia requereria não somente onisciência, mas também onipotência – um poder que submeteria as ações de milhões de pessoas à sua vontade.

Qualquer que seja sua ideologia, a economia é um sistema complexo que não pode ser planejado, projetado ou que pode regular o risco (o aparecimento dos cisnes negros). Longe das caricaturas esboçadas em artigos científicos, isso é precisamente o que pensadores sérios de livre mercado vêm dizendo há anos. É por isso que é bobagem culpar a ideologia de livre mercado pela bagunça atual, e falacioso afirmar que as digitais do governo não aparecerão por todos os lados da crise quando a “autópsia” for feita.

Caçando cisnes negros com tiros no escuro

A solução atemporal dos políticos é baixar a alavanca (a metáfora com máquinas) e regular. Parece tão simples. Mas essa solução é, enganosamente, simples. Se você pudesse perguntar a FDR, ele hoje poderia conceder que suas políticas alongaram a Grande Depressão por uma década além do necessário? Ele escutou os conselhos de J. M. Keynes e um grupo de intervencionistas. Se aceitarmos que uma economia mista é um sistema complexo, então, teremos também que concordar que os benefícios que o livre mercado parcial confere são uma parte emergente daquele sistema. Se tentarmos regular os eventos raros e imprevistos, os custos de nossa arrogância serão terríveis, pois, da mesma forma, afastaremos os benefícios imprevistos.

No mundo real, a questão poderia se resumir ao seguinte: devemos aceitar alguns anos de dolorosos ajustes de mercado ou décadas de recessão causadas pelas políticas equivocadas do governo? Devastadoras consequências involuntárias e efeitos invisíveis são o corolário de tentativas governamentais para limpar a bagunça feita, em grande parte, pelo próprio governo. Qual a explicação? Ninguém possui uma visão divina da economia. O governo interfere dentro do sistema como parte dele, não de fora dele. Tampouco, a economia é um instrumento a ser manipulado com vistas a efeitos positivos – pelo menos, não no longo prazo. É por isso que Keynes errou totalmente e o motivo pelo qual a economia deve se curar de forma interna, holística.

As pessoas desejam que o governo, como Deus, venha a terra e corrija o incorrigível, explique o inexplicável. É por isso que acham mais fácil culpar a ganância pela crise financeira atual. Entretanto, a ganância é mais parecida com a gravidade: quando você cai, você pode culpar Newton ou a casca de banana na qual você escorregou.

O desejo pelo lucro é algo bom quando opera em um ambiente onde apostas erradas são punidas com o prejuízo e bons investimentos são recompensados. Somente o governo pode distorcer esse sistema saudável de ganhos e perdas, incentivando as pessoas a tomarem decisões ruins. E é nesse ambiente que a ganância não é boa para ninguém. Acontece que, paradoxalmente para alguns, a ganância – ou melhor, o autointeresse racional – pode ajudar nossa economia a se estabilizar mais rápido do que o governo jamais poderia.

Como lubrificante de nosso sistema econômico, o autointeresse fará com que milhões de agentes de mercado recalibrem e direcionem recursos para projetos que geram valor para a sociedade em geral. As pessoas controlarão seus desejos irracionais e mitigarão seus riscos se o governo restaurar as regras que permitem que o lucro e a perda tragam a disciplina. Mas se o governo continuar a mudar as regras de modo a influenciar o mercado em favor do comportamento irracional, do rent-seeking e do corporativismo, os aspectos caóticos do sistema continuarão a desequilibrá-lo. E os cisnes negros se tornarão tão comuns quanto os cisnes brancos.