por Israel Kirzner

[ Chapter 3: The Austrian School of Economics do livro The Meaning of Market Process – Tradução de Giácomo de Pellegrini ]

Capítulo 3: A Escola Austríaca de Economia

O nascimento da Escola Austríaca de Economia é geralmente reconhecido como tendo ocorrido com a publicação, em 1871, de Grundsätze der Volkwirthschaftslehre (Princípios de Economia Política), de Carl Menger. Com base nesse trabalho, Menger (até então funcionário público) tornou-se membro júnior da Universidade de Viena. Vários anos depois, depois de um período como tutor e companheiro de viagem do príncipe herdeiro Rudolph, foi nomeado para uma cadeira professor na Universidade. Dois economistas mais jovens, Eugen von Böhm-Bawerk e Friedrich von Wieser (nenhum dos quais tinha sido aluno de Menger) tornaram-se entusiastas das novas ideias apresentadas no livro de Menger. Durante a década de 1880, um vigoroso fluxo de literatura desses dois seguidores, e de vários estudantes de Menger, e em particular um trabalho metodológico do próprio Menger, trouxe as ideias dele e seus seguidores para a atenção da comunidade internacional de economistas. A Escola Austríaca era agora uma entidade reconhecida. Várias obras de Böhm-Bawerk e Wieser foram traduzidas para o inglês; e em 1890 os editores da revista norte-americana “Anais da Academia Americana de Ciências Políticas e Sociais” estavam pedindo a Böhm-Bawerk um documento explicativo explicando as doutrinas da nova escola. O que se segue procura fornecer uma pesquisa concisa da história da Escola Austríaca com ênfase especial em (a) os principais representantes da escola, (b) as ideias centrais identificadas com a escola, (c) a relação entre a escola, suas ideias e outras grandes escolas de pensamento dentro da economia e, (d) os vários significados e percepções associados hoje com o termo economia austríaca.

OS AUTORES FUNDADORES

O livro de Menger de 1871 é reconhecido na história do pensamento econômico (ao lado da Teoria da Economia Política de Jevons, de 1871, e Elementos da Economia Pura, de Walras, de 1874) como um componente central da “Revolução Marginalista”. Em sua maior parte, os historiadores do pensamento enfatizaram as características do trabalho de Menger que se assemelham às de Jevons e Walras. Mais recentemente, seguindo especialmente o trabalho de W. Jaffé (1976), atenção tem sido dada aos aspectos das ideias de Menger que os diferenciam dos de seus contemporâneos. Uma série de estudos recentes (Grassl e Smith 1986) relacionaram esses aspectos singulares de Menger e dos primeiros economistas austríacos a correntes mais amplas na cena intelectual e filosófica do final do século XIX na Áustria.

O impulso central do livro de Menger era inconfundível; foi uma tentativa de reconstruir os fundamentos da ciência econômica de um modo que, embora mantendo o caráter abstrato e teórico da economia, oferecesse uma compreensão de valor e preço que se opunha fortemente aos ensinamentos clássicos. Para os economistas clássicos, o valor era visto como governado pelos custos dos recursos passados; Menger considerou o valor como uma forma de julgar a utilidade futura em atender às necessidades do consumidor. O livro de Menger, oferecido à comunidade erudita de língua alemã da Alemanha e da Áustria, era completamente diferente, em abordagem, estilo e substância, do trabalho vindo das universidades alemãs. O último trabalho, embora também criticasse fortemente a economia clássica, estava atacando seu caráter teórico e apelativo para uma abordagem predominantemente histórica. Na época em que o livro de Menger apareceu, a escola histórica alemã “mais antiga” (liderada por Roscher, Knies e Hildebrand) estava começando a ser sucedida pela escola histórica “mais jovem”, cujo líder seria Gustav Schmoller. Menger, o funcionário austríaco de 31 anos, teve o cuidado de não apresentar seu trabalho como antagônico ao da erudição econômica alemã. Na verdade, ele dedicou seu livro – com “estima respeitosa” – a Roscher, e ofereceu-o à comunidade de estudiosos alemães “como uma saudação amigável de um colaborador na Áustria e como um eco fraco das sugestões científicas tão abundantemente aplicadas a nós austríacos pela Alemanha […]” (Menger 1981: Prefácio). Claramente, Menger esperava que suas inovações teóricas pudessem ser vistas como reforçando as conclusões derivadas de estudos históricos dos estudiosos alemães, contribuindo a uma nova economia para substituir uma desacreditada ortodoxia clássica britânica.

Menger ficaria amargamente desapontado. Os economistas alemães virtualmente ignoraram seu livro; onde foi notado nos jornais de língua alemã foi mal interpretado ou sumariamente esquecido. Na primeira década após a publicação de seu livro, Menger estava praticamente sozinho; certamente não havia “escola” austríaca. E quando o entusiástico trabalho de Böhm-Bawerk e Wieser começou a aparecer na década de 1880, a nova literatura adquiriu a denominação “austríaca” mais como um epíteto pejorativo concedido por economistas alemães desdenhosos do que como um rótulo honorífico (Mises 1969: 40). Esse racha entre os acadêmicos eruditos austríacos e alemães aprofundou-se consideravelmente após o surgimento do desafio metodológico de Menger à abordagem histórica (Menger, 1985). Menger aparentemente escreveu que o trabalho surgiu pelo desinteresse hostil com o qual seu livro de 1871 fora recebido na Alemanha, de que a economia alemã só podia ser resgatada por um ataque frontal à Escola Histórica. O método amargo que se seguiu é geralmente (mas não invariavelmente, ver Bostaph 1978) visto pelos historiadores da economia como constituindo um trágico desperdício de energia erudita. Certamente este conflito acadêmico venenoso ajudou a trazer a existência de uma Escola Austríaca à atenção da fraternidade econômica internacional – como um grupo de economistas dedicados que oferecem uma enxurrada de ideias teóricas excitantes reforçando a nova literatura marginalista, modificando drasticamente a teoria clássica do valor, até então dominante. Obras de Böhm-Bawerk (1886), Wieser (1884, 1956), Komorzynski (1889) e Zuckerkandl (1889) ofereceram elaborações ou discussões das ideias centrais subjetivistas de Menger sobre valor, custo e preço. Os trabalhos sobre a teoria do lucro puro e sobre aplicações como a teoria das finanças públicas foram contribuídos por escritores como Mataja (1884), Gross (1884), Sax (1887) e Meyer (1887). O livro amplamente utilizado por Philippovich (1893), que foi professor na Universidade de Viena (mas mais compreensivo em relação às contribuições da escola alemã), é creditado como tendo um importante papel na disseminação da teoria da utilidade marginal austríaca entre estudantes de língua alemã.

Nessas primeiras contribuições austríacas à teoria do valor e preço, a ênfase foi colocada (como nas abordagens jevoniana e walrasiana) tanto no marginalismo quanto na utilidade. Mas importantes diferenças distinguem a teoria austríaca de outras teorias marginalistas antigas. Os austríacos não fizeram nenhuma tentativa de apresentar suas ideias em forma matemática e, como consequência, o conceito austríaco da margem difere um pouco do de Jevons e Walras. Para este último e para os subsequentes teóricos microeconômicos, o valor marginal de uma variável refere-se à taxa instantânea de mudança da variável “total”. Mas os austríacos trabalharam, deliberadamente, com variáveis ​​discretas (ver K. Menger, 1973). Mais importante ainda, o conceito de utilidade marginal, e o sentido em que ela decresce, referiam-se aos austríacos não aos próprios prazeres psicológicos, mas às avaliações marginais (ordinais) de tais prazeres (McCulloch, 1977). Em todo caso, como foi sugerido por Streissler (1972), o que era importante para os austríacos na utilidade marginal não era tanto o adjetivo quanto o substantivo. Menger viu sua teoria como demonstrando o papel único e exclusivo desempenhado, na determinação do valor econômico, por considerações subjetivas, de “utilidade”. Os valores não são vistos (como na economia marshalliana) como determinados conjuntamente por considerações subjetivas (utilidade) e objetivas (custo físico). Pelo contrário, os valores são vistos como determinados unicamente pelas ações dos consumidores (operando dentro de uma determinada estrutura de mercadorias existentes e/ou possibilidades de produção). Costis via (por Menger, e especialmente por Wieser, cujo nome veio a ser associado de perto a essa percepção) meramente como utilidade prospectiva deliberadamente sacrificada (a fim de obter uma utilidade mais altamente preferida). Enquanto no desenvolvimento das outras teorias marginalistas demorou talvez duas décadas para que se visse que a teoria do valor da utilidade marginal apontasse diretamente para a teoria da distribuição da produtividade marginal, Menger pelo menos vislumbrou essa percepção imediatamente. Sua teoria de bens de “ordem superior” enfatiza como tanto o caráter econômico quanto o valor dos fatores de serviço são derivados exclusivamente das avaliações colocadas pelos consumidores sobre os produtos, para cujo surgimento esses bens de ordem superior acabam contribuindo. Böhm-Bawerk contribuiu não apenas para a exposição e disseminação da teoria básica do valor subjetivo de Menger, mas principalmente para a teoria do capital e dos juros. No início de sua carreira, publicou um volume massivo (Böhm-Bawerk, 1959 [1884]: vol. I) na história da doutrina, oferecendo uma crítica enciclopédica de todas as teorias anteriores sobre juros (ou ‘mais-valia’ ou ‘lucro normal’). Disto se seguiu vários anos depois um volume (Böhm-Bawerk 1889) apresentando sua própria teoria. Pelo menos parte do renome da Escola Austríaca na virada do século derivou da fama dessas contribuições. Como veremos mais adiante, vários escritores posteriores e modernos (como Hicks, 1973; Faber, 1979; e Hausman, 1981) viram essas ideias Böhm-Bawerkianas como constituindo o elemento duradouro da contribuição austríaca. Outros, tomando sua sugestão de uma frequentemente repetida observação crítica atribuída a Menger (Schumpeter 1954: 847, nota 8), viu a teoria de capital e juros de Böhm-Bawerk como separada, ou até mesmo inconsistente, do cerne da tradição austríaca derivada de Menger (Lachmann 1977: 27). Certamente, o próprio Böhm-Bawerk via sua teoria do capital e dos juros como uma extensão ininterrupta da teoria básica do valor subjetivista. Uma vez que a dimensão do tempo tenha sido introduzida na análise das decisões do consumidor e do produtor, Böhm-Bawerk achou possível explicar o fenômeno dos juros. Como a produção leva tempo, e porque os homens econômicos escolhem sistematicamente o recebimento antes do que (recebimento fisicamente similar) posterior, os processos de produção que usam capital não podem deixar de render (mesmo depois que as forças erosivas da competição são levadas em conta) uma porção da produção atual àqueles que, em períodos anteriores, investiram em processos de produção demorados e rotineiros.

Böhm-Bawerk tornou-se, de fato, tão proeminente representante da Escola Austríaca antes da Primeira Guerra Mundial que, em grande parte devido a seu trabalho, os marxistas passaram a ver os austríacos como o inimigo intelectual burguês por excelência da economia marxista (Bukharin, 1972). Böhm-Bawerk não apenas ofereceu sua própria teoria explicando o fenômeno do “excedente” de maneira a eliminar essa renda capitalista de qualquer caráter explorador, mas refutou de forma enfática e implacável as teorias marxistas desse excedente. Em seu trabalho de 1884, Böhm-Bawerk empregou sistematicamente a teoria subjetiva austríaca do valor para criticar a teoria do valor trabalho marxista subjacente à teoria da exploração. Uma década depois (Böhm-Bawerk 1949 [1896]) ele ofereceu uma paciente, mas implacável e intransigente elaboração dessa crítica (ao dissecar a alegação de que o volume III do Capital, publicado após a morte de Marx, poderia conciliar-se com a simples teoria do valor trabalho que formava a base do Volume I). Essa tensão entre os marxistas e os austríacos foi encontrar ecos posteriores no debate que Mises e Hayek (austríacos de terceira e quarta geração) conduziram, durante o período entre 1920 e 40, entreguerras, com economistas socialistas sobre a possibilidade do cálculo econômico em uma economia centralmente planejada.

Menger se aposentou de sua cátedra na Universidade de Viena em 1903. Sua cadeira foi assumida por Wieser. Wieser foi justamente descrito como:

a figura central da Escola Austríaca: central no tempo, central nas ideias que propunha, centrais em suas habilidades intelectuais, isto é, nem o mais genial, nem um daqueles que não é mencionado. […] Ele tinha o maior recorde de ensino […]. (Streissler 1986)

Wieser foi um antigo e prolífico expositor da teoria do valor de Menger. Seu tratado geral sobre economia, resumindo as contribuições de sua vida (Wieser, 1967), foi considerado por alguns (mas certamente não todos) como uma grande conquista. (Hayek (1968) vê o trabalho como uma realização pessoal e não como representante da Escola Austríaca.) Na década anterior à Primeira Guerra Mundial, foi o seminário de Böhm-Bawerk (iniciado quando Böhm-Bawerk voltou à vida acadêmica após vários anos como Ministro das Finanças da Áustria) que se tornou famoso como o centro intelectual da Escola Austríaca. Entre os subsequentes economistas famosos que participaram do seminário estavam Josef A. Schumpeter e Ludwig von Mises, os quais publicaram livros antes da guerra (Schumpeter 1908, 1934 [1912]; Mises 1980 [1912].

DEPOIS DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A cena na economia austríaca depois da guerra foi bastante diferente do que tinha sido antes. Böhm-Bawerk morreu em 1914, Menger, que mesmo em sua longa reclusão após a aposentadoria costumava receber visitas dos jovens economistas da universidade, morreu em 1921. Embora Wieser continuasse a lecionar até sua morte em 1926, o foco mudou para os mais jovens estudiosos. Estes incluíam particularmente Mises, o estudante de Böhm-Bawerk, e Hans Mayer, que sucedeu seu professor Wieser em sua cadeira. Mises, embora um membro do corpo docente “extraordinário” (não-assalariado) na universidade, nunca obteve uma cadeira de professor. Grande parte de sua influência intelectual foi exercida fora da estrutura da universidade (Mises, 1978: Ch. IX). Outros estudiosos notáveis ​​(treinados antes da guerra) durante a década de 1920 incluíram Richard Strigl, Ewald Schams e Leo Schonfeld (mais tarde Illy). Diante dessas mudanças, a tradição austríaca prosperou. Novos livros foram publicados e uma nova safra de estudantes mais jovens veio à tona, muitos dos quais se tornariam economistas internacionalmente famosos nas últimas décadas. Estes incluíam particularmente Friedrich A. Hayek, Gottfried Haberler, Fritz Machlup, Oskar Morgenstern e Paul N. Rosenstein-Rodan. A discussão econômica entre os austríacos foi vigorosamente continuada, durante os anos 1920 e início dos anos 1930, dentro de dois grupos parcialmente sobrepostos. Um, na universidade, foi liderado por Hans Mayer. O outro, centrado em torno de Mises, cujo famoso privatseminar reunia-se em seu gabinete na Câmara de Comércio e atraiu não só os jovens economistas talentosos, mas também filósofos, sociólogos e cientistas políticos, como Felix Kaufmann, Alfred Schutz e Erik Voegelin. Foi durante esse período que o economista britânico Lionel Robbins chegou imerso sob a influência do fermento intelectual que estava ocorrendo em Viena. Um resultado distintamente importante desse contato foi o livro altamente influente de Robbin (Robbins, 1932). Foi em grande parte através deste trabalho que uma série de ideias-chave austríacas passou a ser absorvida pela literatura dominante da economia anglo-americana do século XX. Em 1931, Robbins convidou Hayek para dar uma palestra na London School of Economics, o que levou à nomeação de Hayek para a cátedra Tooke naquela instituição.

A chegada de Hayek à cena britânica contribuiu especialmente para o desenvolvimento e disseminação da consciência da teoria “austríaca” do ciclo econômico. Mises esboçou tal teoria em 1912 (Mises 1980 [1912]: 396-404). Essa teoria atribuía a fase de expansão do ciclo à má alocação intertemporal estimulada por taxas de juros “muito baixas”. Essa desalocação intertemporal consistia em produtores iniciando processos de produção que previam implicitamente uma disposição por parte do público em adiar o consumo em um grau de fato inconsistente com o verdadeiro padrão de preferências temporais. O subsequente abandono de projetos insustentáveis ​​constituía a fase descendente do ciclo. Mises enfatizou as raízes dessa teoria em Wicksell e em insights anteriores da escola monetária britânica. Na verdade, Mises foi tentado a desafiar a adequação do rótulo “austríaco” amplamente ligado à teoria (Mises, 1943). Mas, como reconheceu, o rótulo austríaco havia se tornado firmemente ligado à doutrina. A exposição vigorosa de Hayek e o desenvolvimento extensivo da teoria (Hayek 1931, 1933, 1939) e sua introdução (através da teoria) dos insights teóricos de capital de Böhm-Bawerkian para o público britânico, deixaram inequivocamente a marca de Hayek na teoria totalmente desenvolvida, e ensinou a profissão para vê-lo como um contribuidor central da Escola Austríaca. Dados todos esses desenvolvimentos, é evidente que devemos considerar o início dos anos 1930 como constituindo, de muitas maneiras, o período de maior influência da Escola Austríaca sobre a profissão econômica em geral. No entanto, esse triunfo seria de fato de curta duração.

Com o benefício da retrospectiva, talvez seja possível entender por que e como esse mesmo período do início da década de 1930 constituiu, de fato, um ponto de virada decisivo, quase fatal, na sorte da escola. Em poucos anos, a ideia de um uma Escola Austríaca distinta – exceto como um episódio importante, mas passado, na história da economia – praticamente desapareceu da profissão de economista. Enquanto Hans Mayer continuava a ocupar sua cadeira em Viena até depois da Segunda Guerra Mundial, o grupo de proeminentes economistas jovens que cercaram Mises logo se dispersou (por razões políticas ou outras), muitos deles para várias universidades nos Estados Unidos. Com Mises migrando em 1934 para Genebra e depois para Nova York e com Hayek em Londres, Viena deixou de ser um centro para a vigorosa continuação da tradição austríaca. Além disso, muitos do grupo estavam convencidos de que as ideias importantes da Escola Austríaca haviam sido absorvidas com sucesso na economia tradicional. A emergente ascendência da economia teórica e, portanto, o eclipse das abordagens historicistas e anti-teóricas da economia, permitiram sem dúvida aos austríacos acreditar que haviam finalmente prevalecido, que não havia mais nenhuma necessidade particular de cultivar uma versão austríaca separada da teoria econômica. Uma declaração de 1932 de Mises captura esse espírito. Referindo-se à habitual separação de teóricos econômicos em três escolas de pensamento, “as escolas austríaca e anglo-americana e a Escola de Lausanne”, Mises (citando Morgernstern) enfatizou que esses grupos “diferem apenas em seu modo de expressar os mesmos princípios fundamentais e que eles são divididos mais por sua terminologia e por peculiaridades de apresentação do que pela substância de seus ensinamentos” (Mises 1960 [1933]: 214). No entanto, a sobrevivência e o desenvolvimento de uma tradição austríaca durante e após a Segunda Guerra Mundial, em grande parte através do trabalho do próprio Mises e de Hayek, merecem e requerem atenção.

Fritz Machlup, em várias ocasiões (Machlup 1981, 1982), listou seis ideias como centrais para a Escola Austríaca antes da Segunda Guerra Mundial. Há todas as razões para concordar que foram essas seis ideias que expressaram a abordagem austríaca como entendida, digamos, em 1932. As ideias eram as seguintes: (a) individualismo metodológico (não confundir com individualismo político ou ideológico, mas referindo-se a a alegação de que fenômenos econômicos devem ser explicados voltando às ações dos indivíduos); (b) subjetivismo metodológico (reconhecendo que as ações dos indivíduos devem ser entendidas apenas por referência aos conhecimentos, crenças, percepções e expectativas desses indivíduos); (c) marginalismo (enfatizando a significância de mudanças prospectivas em magnitudes relevantes confrontando o tomador de decisão); (d) a influência da utilidade (e a utilidade marginal decrescente) na demanda e, portanto, nos preços de mercado; (e) custos de oportunidade (reconhecendo que os custos que afetam as decisões são aqueles que expressam a mais importante das oportunidades alternativas sendo sacrificados ao empregar serviços produtivos para um propósito em vez de para as alternativas sacrificadas); (f) a estrutura temporal do consumo e da produção (expressando as preferências de tempo e a produtividade indireta [roundaboutness] ).

Parece apropriado, no entanto, comentar mais sobre esta lista. (1) Com vários graus de ênfase, a maioria da microeconomia moderna incorpora todas essas ideias, de modo que (2) essa lista apoia a citada declaração de Morgenstern-Mises, enfatizando o terreno comum compartilhado por todas as escolas da teoria econômica. No entanto, (3) desenvolvimentos posteriores no trabalho de Mises e Hayek sugerem que a lista de seis ideias austríacas não estava realmente completa. Enquanto poucos austríacos da época (do início dos anos 1930) talvez pudessem identificar ideias austríacas adicionais, tais insights adicionais estavam de fato implícitos na tradição austríaca e deveriam ser articulados explicitamente em trabalhos posteriores. Desta perspectiva, então, (4) diferenças importantes separam a teoria econômica austríaca dos desenvolvimentos principais da microeconomia, particularmente porque os últimos desenvolvimentos ocorreram a partir da década de 1930. Ficou para Mises e Hayek articular essas diferenças e, assim, preservar uma “presença” única na profissão.

DESENVOLVIMENTOS POSTERIORES DA ECONOMIA AUSTRÍACA

Uma das primeiras expressões de tais diferenças entre a compreensão austríaca da teoria econômica e a de outras escolas foi o artigo de Hans Mayer criticando as “teorias funcionais de preços” e exigindo o método “genético-causal” (Mayer 1932). Aqui Mayer estava criticando as teorias de equilíbrio de preços que negligenciavam a explicação da sequência de ações que levavam aos preços de mercado. Para entender essa sequência, é preciso entender a gênese causal das ações componentes na sequência. À luz dos escritos posteriores de Mises e Hayek, parece razoável reconhecer Mayer como tendo colocado o dedo em um elemento importante e distinto embutido no entendimento austríaco. No entanto, os próprios austríacos durante a década de 1920 (e tais estudantes de suas obras como Lionel Robbins) pareciam ter perdido essa percepção. O que parece ter ajudado Hayek e Mises a articular esse elemento até então negligenciado foi o conhecido debate entreguerras sobre a possibilidade do cálculo econômico sob planejamento central. Uma leitura cuidadosa das contribuições para esse debate sugere que foi em reação aos argumentos de equilíbrio ‘mainstream‘ de seus oponentes que Mises e Hayek explicitaram a ênfase no processo, aprendizagem e descoberta a ser encontrada na compreensão austríaca dos mercados (Lavoie 1985a).

Mises argumentou que o cálculo econômico exige a orientação fornecida pelos preços; Como a economia centralmente planejada não tem mercado para fatores produtivos, ela não pode usar os preços dos fatores como guias. Oskar Lange e outros contra-argumentaram que os preços não precisam ser preços de mercado; essa orientação poderia ser fornecida por preços não-mercantis, anunciados pelas autoridades centrais, e tratados pelos gerentes socialistas “parametricamente” (assim como os preços são tratados pelos produtores na teoria da firma em mercados de produto e fator perfeitamente competitivos). Foi em resposta a esse argumento que Hayek desenvolveu sua interpretação de processos de mercado competitivos como processos de descoberta durante os quais a informação dispersa chega a ser mobilizada (Hayek 1949a: Caps. 2, 4, 5, 7, 8, 9). Uma caracterização essencialmente similar do processo de mercado (sem a ênfase hayekiana no papel do conhecimento, mas com ênfase na atividade empreendedora em um mundo de incerteza aberta e radical) foi apresentada por Mises durante o mesmo período (Mises, 1940, 1966). ). À luz desses desenvolvimentos de Mises-Hayek na teoria do processo de mercado (e reconhecendo que esses desenvolvimentos constituíram a articulação de insights tidos como certos na tradição primitiva austríaca: Kirzner, 1985b; Jaffé, 1976), parece razoável acrescentar o seguinte a lista de ideias centrais para a tradição austríaca de Machlup; (g) mercados (e concorrência) como processos de aprendizagem e descoberta; (h) a decisão individual como um ato de escolha em um contexto essencialmente incerto (onde a identificação das alternativas relevantes é parte da decisão em si). Estas são as últimas ideias que se desenvolveram e tornaram-se centrais para a atenção renovada à tradição austríaca que, decorrente do trabalho de Mises e Hayek, surgiu nos Estados Unidos durante as últimas décadas.

A ECONOMIA AUSTRÍACA HOJE

Como resultado destes desenvolvimentos um tanto variados na história da Escola Austríaca desde 1930, o termo economia austríaca veio para evocar uma série de diferentes conotações na discussão profissional contemporânea. Algumas dessas conotações estão, pelo menos parcialmente, sobrepostas; outras são, pelo menos em parte, mutuamente inconsistentes. Parece útil, ao desvendar essas várias percepções, identificar um número de significados diferentes que vieram a ser anexados ao termo “economia austríaca” nos anos 80. O status atual da Escola Austríaca de Economia é, para melhor ou pior, encapsulado nessas percepções atuais.

  1. Para muitos economistas, o termo “economia austríaca” é um termo estritamente histórico. Nessa percepção, a existência da Escola Austríaca não se estendeu para além do início da década de 1930: a economia austríaca foi parcialmente absorvida pela microeconomia dominante e parcialmente substituída pela emergente macroeconomia keynesiana. Em grande parte, essa visão parece ser a dos economistas na Áustria de hoje. Economistas (e outros intelectuais) na Áustria hoje são completamente cientes – e orgulhosos – da Escola Austríaca anterior, como evidenciada por várias conferências comemorativas realizadas na Áustria nos últimos anos, e por várias obras relacionadas (Hicks e Weber, 1973; Leser, 1986). , mas se veem hoje simplesmente como uma parte da comunidade geral de economistas profissionais. Erich Streissler, atual titular da cadeira ocupada por Menger, Wieser e Mayer, escreveu extensivamente, e com os insights e estudos de uma profunda influencia pela tradição austríaca, sobre numerosos aspectos da Escola Austríaca e seus principais representantes (Streissler 1969, 1972, 1973, 1986).
  2. Para um número de economistas, o adjetivo “austríaco” veio para marcar um renascimento do interesse na teoria de capital e juros de Böhm-Bawerkian. Esse reavivamento enfatizou particularmente a dimensão do tempo na produção e a produtividade indireta. Entre os colaboradores dessa literatura, destacam-se Hicks (1973), Bernholz (1971), Bernholz e Faber (1973), Faber (1979) e Orosel (1981). Nessa literatura, portanto, o termo “austríaco” tem muito pouco a ver com a tradição subjetivista geral mengeriana (que, como observado anteriormente, tinha certas reservas em relação à teoria de Böhm-Bawerkian).
  3. Para outros economistas (e não-economistas) o termo “economia austríaca” passou a ser associado menos com uma metodologia única, ou com doutrinas econômicas específicas, e mais como com a ideologia libertária na discussão política e social. Para esses observadores, ser um economista austríaco nos anos 80 era simplesmente ser a favor do livre mercado. Machlup (1982) observou (e endossou parcialmente) essa percepção do termo “austríaco”. Ele atribuiu, particularmente, ao impacto do trabalho de Mises. A causa de Mises “campeão do mercado” era tão proeminente, e sua identificação como um austríaco era ao mesmo tempo tão inconfundível, que talvez seja natural que seus fortes pronunciamentos políticos em apoio a mercados desimpedidos tenham sido percebidos como o núcleo do austrianismo dos tempos modernos. Isso foi reforçado pelo trabalho de um dos principais seguidores americanos de Mises, Murray N. Rothbard, que também foi proeminente em estudos e defesa de direitos libertários. Outros observadores, no entanto, questionariam essa identificação. Embora, como observado anteriormente, muitas das primeiras contribuições da Escola Austríaca fossem vistas como fortemente antagônicas ao pensamento marxista, a escola em geral mantinha uma postura apolítica (Myrdal 1954: 128). Entre os fundadores da escola, Wieser foi de fato explícito ao endossar as conclusões intervencionistas da Escola Histórica Alemã (Wieser 1967: 490ff.). Enquanto Mises e Hayek desafiavam provocativamente a possibilidade de eficiência sob o socialismo, eles também enfatizavam o caráter livre de valor (wertfrei) de sua economia. Ambos os escritores veriam sua posição de livre mercado no nível da política como relacionada, mas não central, ao austrianismo.
  4. Para muitos na profissão, o termo “economia austríaca” veio, desde cerca de 1970, referir-se a um renascimento de interesse nas ideias de Carl Menger e da Escola Austríaca anterior, particularmente porque essas ideias foram desenvolvidas através do trabalho de Mises e Hayek. Esse renascimento ocorreu particularmente nos Estados Unidos, onde uma literatura considerável surgiu de vários economistas. Esta literatura inclui, em particular, obras de Murray N. Rothbard (1962), de Israel Kirzner (1973), de Gerald P. O’Driscoll (1977), de O’Driscoll e Mario J. Rizzo (1985) e de Roger W. Garrison (1977). 1978, 1982, 1985). O objetivo dessa literatura tem sido enfatizar as diferenças entre a compreensão austríaca dos mercados como processos e a dos teóricos do equilíbrio cujo trabalho dominou grande parte da teoria econômica moderna. Como resultado desta ênfase, este sentido do termo “economia austríaca” tem sido frequentemente (e somente parcialmente com precisão: veja White 1984: 9) vindo a ser entendido como uma recusa em adotar modernas técnicas matemáticas e econométricas – que a economia padrão adotou amplamente. como resultado de sua orientação de equilíbrio. Os economistas desse grupo de austríacos modernos (às vezes chamados de neo-austríacos) se veem como continuadores de uma tradição anterior, compartilhando com a economia neoclássica dominante uma apreciação dos resultados sistemáticos dos mercados, mas diferindo dela na compreensão de como esses resultados são de fato alcançados. Em grande parte como resultado da atividade desse grupo, muitas obras clássicas dos primeiros austríacos foram recentemente republicadas na forma original ou traduzidas, e atraíram uma quantidade considerável de leitores dentro e fora da profissão.
  5. No entanto, outro significado atual, vagamente relacionado ao sentido anterior, veio a ser associado ao termo “economia austríaca”. Este significado refere-se a uma ênfase na incerteza radical que envolve a tomada de decisão econômica, a ponto de implicar a rejeição virtual de grande parte da microeconomia. Ludwig Lachmann (1976) identificou o trabalho de G.L.S. Shackle como constituindo, nesse sentido, a extensão mais consistente do subjetivismo austríaco (e especialmente do misesiano). O próprio trabalho de Lachmann (1973, 1977, 1986b) enfatizou, na mesma linha, a indeterminação das escolhas individuais e dos resultados do mercado.

Essa linha de pensamento chegou a implicar sérias reservas quanto à possibilidade de conclusões teóricas sistemáticas que determinassem graus significativos de generalidade. Essa conotação do termo “economia austríaca” associa-o, assim, a uma postura simpática, até certo ponto, em relação a abordagens históricas e institucionais. Dada a oposição proeminente de austríacos anteriores a essas abordagens, essa associação, como seria de se esperar, tem sido vista como irônica ou até paradoxal por muitos observadores (incluindo, especialmente, expoentes modernos da tradição mais ampla da Escola Austríaca de Economia).

Nota

Um artigo anterior sobre a Escola Austríaca de Economia foi iniciado e substancialmente redigido pelo professor Friedrich A. Hayek – ele próprio um ganhador do Prêmio Nobel de Economia, cujas contribuições célebres estão profundamente enraizadas na tradição austríaca. O autor reconhece com gratidão sua dívida (na redação deste capítulo) com o conhecimento característico e o tesouro de fatos contidos no artigo inacabado do professor Hayek, bem como com os outros numerosos estudos do professor relacionados à história da Escola Austríaca.