por Sheldon Richman

[ The Connection Between George Orwell and Friedrich Hayek – Tradução de Matheus Pacini ]

Orwell, um homem da “esquerda”, não poderia permanecer calado frente aos horrores do estalinismo. Duas vezes – durante a Guerra Civil Espanhola e, novamente, no início da Guerra Fria – ele se recusou a permitir que seus companheiros permanecessem cegos para onde o seu coletivismo os tinha levado e para onde poderia levá-los novamente. Ele foi chamado de ferramenta consciente do fascismo, uma acusação severa considerando que tinha ido à Espanha lutar contra o fascismo. (No entanto, por alguns centímetros, a bala que penetrou no seu pescoço na Espanha poderia nos ter negado as advertências posteriores, a Revolta dos Bichos e 1984. Nós nunca teríamos conhecido o real dano causado pelos fascistas).

Hayek, um homem da “direita”, arriscou o ostracismo ou coisa pior em 1944 com a publicação do livro O Caminho da Servidão, no qual esse austríaco tornado bretão, escrevendo em inglês no apogeu da Segunda Guerra Mundial, alertou que a planificação econômica central, se fosse seguida à risca, acabaria em um totalitarismo indistinguível àquele do inimigo nazista. Não poderia ter sido fácil escrever tal obra naquele tempo e lugar – a planificação central estava em voga entre os intelectuais. Nem toda a recepção foi séria e respeitosa. Herbert Finer, no seu livro O Caminho da Reação, chamou o livro de Hayek “a mais sinistra ofensiva contra a democracia a emergir de um país democrático por muitas décadas”, expressando “a mais completa ofensa hitleriana ao cidadão democrático”.

A crítica de Orwell

Não surpreende que foi O Caminho da Servidão que levou Orwell e Hayek a serem publicados juntos. Orwell resenhou criticamente o livro junto ao The Mirror of Past de Konni Zilliacus na edição de 9 de abril de 1944 do The Observer. O homem que publicaria a Revolta dos Bichos (1945) e 1984, cinco anos depois, concordava em diversos pontos com a obra de Hayek. Ele escreveu:

Em resumo, a tese do professor Hayek é de que o socialismo inevitavelmente leva ao despotismo, e que, na Alemanha, os nazistas foram capazes de ter sucesso porque os socialistas já tinham feito grande parte do trabalho, em especial, o trabalho intelectual de enfraquecer o desejo pela liberdade. Por deixar a vida das pessoas sob o controle do Estado, o socialismo necessariamente concede o poder a um grupo fechado de burocratas que, em quase todos os casos, será composto por homens que querem o poder pelo poder e farão todo o possível para mantê-lo. O Reino Unido, ele afirma, está seguindo o mesmo caminho da Alemanha, com os intelectuais da ala esquerdista na vanguarda e o Partido Conservador seguindo-os de perto. A única salvação reside no retorno a uma economia não planificada, de livre concorrência, e uma ênfase na liberdade em detrimento da segurança. Na parte negativa da tese do Professor Hayek existe uma grande porção de verdade. Não se pode dizer com frequência – de qualquer forma, não está sendo dito nem suficientemente – que o coletivismo não é inerentemente democrático, mas, pelo contrário, que ele concede a uma minoria tirânica poderes com os quais os inquisidores espanhóis nunca sonharam.

Esse é um aval significativo, pois ninguém compreendia o totalitarismo tão bem como Orwell. Realmente, em Why Orwell Matters, Christopher Hitchens destaca que 1984 impressionou os membros do partido comunista além da Cortina de Ferro. Ele citou Czeslaw Milosz, poeta polonês e prêmio Nobel, que antes de desertar para o Ocidente era um diplomata do governo comunista polonês: “Orwell fascina (os membros do Partido Interno) por meio de sua compreensão clara dos detalhes que eles tão bem conhecem […] mesmo aqueles que conhecem Orwell somente por ouvir falar ficam pasmados que um escritor que nunca viveu na Rússia tenha uma percepção tão clara sobre seu funcionamento”. Mas fiel ao seu socialismo esquerdista de Estado, Orwell não poderia endossar o programa positivo de Hayek:

O professor Hayek está provavelmente certo em dizer que nesse país os intelectuais são mais propensos ao totalitarismo do que as pessoas comuns. Mas ele não vê ou não admite que um retorno à “livre” concorrência significa para a grande massa das pessoas uma tirania provavelmente pior, por ser mais irresponsável, do que aquela do Estado. O problema das concorrências é que alguém as ganha. O professor Hayek nega que o capitalismo livre necessariamente leva ao monopólio, mas na prática isso é para onde levou, e dado que a vasta maioria das pessoas preferiria de longe ter a arregimentação do Estado do que favelas e desemprego, é provável que o impulso em direção ao coletivismo continue se a opinião popular tiver algo a dizer na questão. […] o capitalismo leva a filas de pedintes, à corrida pelos mercados e à guerra. O coletivismo leva a campos de concentração, veneração a um líder e à guerra. Não há como fugir disso a não ser que uma economia planificada possa, de alguma forma, ser combinada com a liberdade de intelecto, o qual somente pode ocorrer caso o conceito de certo ou errado for restaurado à política.

Tratamento negligente

É frustrante ver Orwell dar tão pouca atenção à tese positiva de Hayek. Ele [Orwell] é superficial e dogmático, o que é inconveniente para um intelectual sério como Orwell. Sua ignorância econômica salta aos olhos.

“[Um] retorno à “livre” concorrência significa para a grande massa das pessoas uma tirania provavelmente pior, por ser mais irresponsável, do que aquela do Estado”. É difícil acreditar que alguém tão familiar com o estalinismo poderia ter escrito isso. Mesmo sem saber muito sobre economia, ele poderia realmente ter pensado que o que ocorre nas sociedades orientadas para o mercado, mesmo durante as depressões, poderia ser pior do que a fome que Stalin infligiu sobre os ucranianos, os julgamentos e as execuções teatrais ou mesmo os campos de trabalhos forçados na Sibéria?

“O problema das concorrências é que alguém as ganha”. Em um mercado, os produtores competem para melhor servir aos consumidores. Os perdedores daquela concorrência não são exilados ou executados. Eles encontram outras formas de servir aos consumidores, assim como os produtores estão tentando servi-los.

“O professor Hayek nega que o capitalismo livre necessariamente leva ao monopólio, mas na prática isso é para onde levou […]” Onde o monopólio surgiu sem a ajuda do Estado? Nós não encontramos nenhum monopólio gerado pelo mercado na Inglaterra e nos Estados Unidos. Lá, grandes interesses empresariais ativamente promoveram o protecionismo e outras intervenções precisamente para atrapalhar o processo de concorrência e proteger suas fatias de mercado. É claro que para muitas pessoas, Orwell presumivelmente entre elas, isso é capitalismo, um tópico que eu retomo abaixo (eu deveria frisar que Hayek renunciou ao laissez faire em seu livro, mas esse é um tópico para outra oportunidade).

“A vasta maioria das pessoas preferiria de longe ter a arregimentação do Estado a favelas e desemprego […]” Essa é uma escolha falsa. Favelas e desemprego, como Hayek e seu mentor Ludwig von Mises pensavam, são produtos da manipulação da moeda e das taxas de juros por parte do banco central, isto é, do governo e não do livre mercado. A Grande Depressão, que deve ter pairado na mente de Orwell, não foi uma exceção. A real escolha é entre a liberdade e a segurança (incluindo a ajuda mútua) de um lado, e a “arregimentação” do Estado, favelas e desemprego do outro.

Eu devo fazer uma pausa para focar no uso vergonhoso de Orwell para a palavra “arregimentação”. Eu digo “vergonhoso” porque ele próprio cometeu o pecado tão eloquentemente condenado no seu famoso ensaio Politics and the English Language: o pecado do eufemismo. Nele, escreveu:

Em nosso tempo, o discurso político são escritos em sua maioria em defesa do indefensável. Coisas como a continuação do governo inglês na Índia, os expurgos e deportações na Rússia, o uso das bombas atômicas no Japão, podem realmente serem defendidas, mas somente por meio de argumentos que são muito brutais para a maioria das pessoas encararem e que não estão de acordo com os objetivos declarados dos partidos políticos. Assim, a linguagem política tem de consistir basicamente de eufemismos, questões escapistas, de total nebulosidade e incerteza. Vilas indefesas são bombardeadas, os habitantes são obrigados a fugir para o interior, o gado é fuzilado, os casebres são incendiados: isso é chamado de pacificação. Milhões de camponeses são expulsos de suas fazendas, carregando nas costas o pouco que conseguem: isso é chamado de transferência de população ou retificação de fronteiras. As pessoas são presas por anos sem julgamento, ou mortas com um tiro no pescoço, ou enviadas para morrer em campos de concentração no Ártico: isso é chamado de eliminação de elementos não confiáveis.

Tal fraseologia é necessária se alguém deseja dar nome a coisas sem gerar figuras mentais. Considere, por exemplo, algum professor de inglês defendendo confortavelmente o totalitarismo russo: ele não pode dizer diretamente: “eu acredito em matar seus oponentes quando você pode obter bons resultados se assim proceder”. Provavelmente, ele dirá o seguinte:

“Embora reconhecendo que o regime soviético exibe certas características, as quais o humanista pode tender a deplorar, nós devemos, eu acho, concordar que certa redução do direito à oposição política é um inevitável acompanhante dos períodos de transição, e que o sofrimento que os russos têm sido convocados a suportar tem sido amplamente justificado na esfera das realizações concretas”.

Arregimentação é o mínimo que acontece em um regime totalitário.

Capitalismo x Livre Mercado

“[O] Capitalismo leva a filas de pedintes, à corrida por mercados e à guerra.” Eu acho que parte do problema para Orwell é que um verdadeiro livre mercado não está entre as opções possíveis. Para ele e muitos outros, a escolha está entre um sistema administrado pelos empreendedores e um sistema administrado pelos trabalhadores (a alternativa preferível não é óbvia). Nessa visão, a primeira é o capitalismo, às vezes disfarçado de “livre mercado” e a segunda é o socialismo. Não deveríamos ser tão duros com Orwell por pensar dessa forma, pois muitos defensores do mercado são igualmente descuidados quando escrevem sobre economias mistas tais como a dos Estados Unidos.

Apesar de toda essa intervenção governamental maligna, nós frequentemente ouvimos a conduta dos negócios defendida porque “sob o capitalismo” os consumidores tem o poder de punir as empresas que não lhes atendem bem. Fale isso para os consumidores que decidem não comprar carros da GM e da Chrysler. Fale isso para pessoas que perderam sua propriedade por ações de domínio eminente, de maneira que grandes empresas possam prosperar. Gerações de intervenções a favor dos grandes negócios em certa medida devem ter manipulado o mercado contra consumidores e trabalhadores. Se não, do que os economistas estão reclamando?

E no que se refere à inclusão da guerra na sua lista, seja dito que a luta pelos mercados e outros objetivos econômicos não podem ser uma condição suficiente para a guerra. A guerra requer o Estado, isto é, a socialização dos custos por meio da tributação e do serviço militar obrigatório.

Uma pessoa se pergunta como Orwell evitou o desespero. Ele não podia aceitar o capitalismo (de Estado), e viu as tendências totalitárias do socialismo de perto. Ainda assim, ele poderia escrever, “não existe uma solução para isso a não ser uma economia planificada que, de alguma forma, seja combinada com a liberdade de intelecto, o que só pode acontecer se o conceito de certo e errado for restaurado à política”. Ele não leu o capítulo 11 da obra de Hayek, “O Fim da Verdade”, no qual Hayek descreveu como um comprometimento sério com a planificação central deve produzir “desrespeito pela liberdade intelectual”?

A palavra “verdade” em si deixa de ter seu antigo sentido. Ela não descreve mais algo a ser encontrado, com a consciência individual como o único árbitro de se em qualquer instância particular a evidência (ou a posição daqueles que a proclamam) garante uma crença; ela torna-se algo a ser estabelecido pela autoridade, o qual deve ser aceito no interesse da união dos esforços organizados e o qual pode ser alterado de acordo com as exigências desse esforço organizado.

O clima intelectual geral produzido por isso, a sensação de cinismo completo em relação à verdade, a perda do sentido até mesmo do significado da verdade, o desaparecimento do espírito de investigação independente e da crença no poder da convicção racional, a forma pela qual as diferenças de opinião em todos os ramos do conhecimento tornam-se questões políticas a serem decididas pela autoridade, são todas coisas que o indivíduo deve pessoalmente experimentar – nenhuma breve descrição pode transmitir sua experiência.

Mas é óbvio que Orwell tinha experimentado tais coisas na Espanha e sabia como era na Rússia. Ele certamente colocou um grande peso naquela expressão “de alguma forma”. Como restaurar o conceito de certo ou errado na política tornaria a planificação central ou decente ou prática é um mistério que ninguém desvendou. (É claro, Mises havia mostrado muito antes que o socialismo não poderia ser prático porque, sem preços oriundos da troca privada dos meios de produção, o planificador socialista não poderia realizar cálculos racionais com respeito ao que deveria ser produzido, de que forma e em quais quantidades).

Para finalizar de forma parcialmente otimista, embora Orwell presumivelmente não concordasse, a planificação econômica central não está na agenda atual. A ameaça hoje não é o socialismo de Estado. É o corporativismo burocrático vestido como democracia progressista.